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Dez 21

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O caso de Arandis / Arannis

 

          Sobre a identificação das várias cidades romanas ou pré-romanas no Sul de Portugal, mencionadas por vários autores, nomeadamente por Cláudio Ptolomeu, astrônomo grego, na sua Geografia do ano 150 e no Itinerário de Antonino Pio do século III, ou dos Aranditani mencionado por Plinio, (o velho), na sua Historia Naturalis, do século primeiro, tem levado a várias sugestões, umas mais imaginativas do que outras, nomeadamente no que diz respeito ao caminho XXI mencionado no itinerário Antoniano e mais concretamente sobre a localização de Aranni.

          De facto, sobre a localização desta mansão mencionada no iter, Aranni, têm surgido várias propostas sobre a identificação destas cidades no Sudoeste alentejano, Colos, Santa Luzia ou Garvão como o caso de Abel Viana ou mais precisamente em Garvão como defende Jorge de Alarcão.

          Outros autores nomeadamente Maria e Manuel Maia e João Pedro Bernardes defenderem a localização destas cidades no oriente alentejano, mais precisamente em Santa Bárbara dos Padrões, com base no caminho XXI do Itinerário Antoniano, num suposto itinerário que atravessaria a Serra do Caldeirão, como relata Bernardes, sem, contudo, apresentar o trajecto desse caminho:

 

Transposta a serra do Caldeirão, percurso sempre árduo, penoso e cheio de perigos, Aranni oferecia-se como o local de repouso merecido, onde a água era uma constante e o culto aos deuses se impunha, tal como a imagem do destino pacense que se descortinava ao fundo da planície e cuja distância seria vencida na jornada seguinte.[1]

 

          Contudo, Claúdio Torres em Povoamento Antigo no Baixo Alentejo. Alguns Problemas de Topografia Histórica,[2] nega a existência da qualquer travessia dessa serra, capaz de suportar veículos de tração animal ou movimentação do exército:

 

(…) A serra algarvia nunca foi atravessada por nenhuma via em época romana ou islâmica. (…)[3].

 

(…) apenas se entreteciam caminhos de pé posto, de uso controlado pelas comunidades serranas, dos quais podemos destacar dois sendeiros pelo menos em época islâmica: um deles partia de Silves para Garvão de onde seguia pela beira Sado até à zona de Alcácer. O outro partia de Mértola em direcção a Alfajar de Peta e daí para Ayamonte, (…)[4]

 

(…) e insiste-se em querer encontrar uma calçada na margem da grande e plácida avenida fluvial que era o Guadiana. (…)[5],

 

          Claúdio Torres defende o trajecto através do Guadiana, propondo que o percurso terreste entre o oriente alentejano e o oriente algarvio se efectuava por terras hoje pertencentes a Espanha, acrescentando inclusivamente de que este foi o (…) percurso seguido pelos cavaleiros de Santiago na conquista do Sotavento algarvio (…)[6]:

          Também Francisco Bilou em Mértola: caminhos antigos entre a terra e o mar.[7] defende a inamissibilidade de um caminho através da serra a Este do caminho descrito por Claúdio Torres, mencionando o caminho XXII, também mencionado no iter Antoniano:

 

Pese embora a citação em Antonino do iter XXII em milhas terrestres entre (Ba)Esuri (Castro Marim) e Myrtilis[8], nenhuma evidência arqueológica permitiu, até à data, demonstrar inequivocamente a continuidade terrestre do caminho de Beja a Mértola para sul[9] [10]

 

          A questão de identificar Aranni/Arandis com alguma localidade no Alentejo, segundo o caminho XXI do Itinerário de Antonino Pio, prende-se com a dificuldade em justificar as distâncias apresentadas, pois nenhuma localidade fica a simultaneamente a 60 milhas de Ossonoba (90 Km de Faro) e a 35 milhas de Salácia (52 Km de Alcácer do Sal), como se apresenta nesse caminho do Itinerário Antoniano.

         Contudo, independentemente da sua localização, situar Arandis/Aranni numa área do Alentejo onde são conhecidas outras urbes importantes, caso de Mértola e Beja, seria deixar todo o ocidente alentejano, entre Miróbriga e Alcácer do Sal ao Algarve, sem uma urbe de referência, em contradição com a técnica do vizinho mais próximo, segundo a aplicação da teoria dos polígonos de Thiessen.

 

A grande estrada e coluna vertebral de toda esta região ligava Mértola a Beja por Corte Gafo, Amendoeira Mosteiro e Salvada, onde se bifurcava para Serpa atravessando o Guadiana na zona dos grandes vaus. Incompreensivelmente, em todos os mapas até hoje publicados sobre as vias romanas no actual território português, decalca-se o traçado rodoviário entre Mértola e Beja aberto apenas no séc. XIX e insiste-se em querer encontrar uma calçada na margem da grande e plácida avenida fluvial que era o Guadiana. Mértola (tal como Sevilha) foi, nesta zona, o términus dos percursos terrestres. A serra algarvia nunca foi atravessada por nenhuma via em época romana ou islâmica. Apenas a entreteciam aventurosos caminhos de pé posto, de uso controlado pelas comunidades serranas, dos quais podemos destacar dois sendeiros usados pelo menos em época islâmica: um deles partia de Silves em direcção a Garvão, de onde seguia pela beira Sado até à zona de Alcácer. O outro partia de Mértola em direcção a Alfajar de Peta e daí para Ayamonte (aliás foi este o percurso seguido pelos cavaleiros de Santiago na conquista do Sotavento algarvio como constatou recentemente João Carlos Garcia (1986).[11]

 

A outra grande via mineira chegava ao porto do Guadiana depois de ter atravessado as povoações dos Namorados, João Serra, S. Marcos da Ataboeira, Entradas e, finalmente, Aljustrel. Da mesma direcção e de mais longe chegavam os carregamentos de Inverno das Minas da Caveira e do Lousal, quando o Atlântico bramia e interditava, pelo menos durante 8 meses, qualquer transporte de lingotes ao largo de Sagres com carregamento no porto de Sines. Convergiam em Mértola mais caminhos e vias secundárias vindas de Garvão e Almodôvar e mesmo de Martim Longo, em plena serra algarvia, atravessando a ribeira do Vascão junto às ruínas do povoado das Relíquias. Capital administrativa de toda esta vasta região, Pax Julia é o grande núcleo urbano, sede do poder imperial e destacado centro de mercado agrícola. É a cidade romana por excelência, símbolo da ordem militar, do poder fundiário e do comércio do trigo. A sua extensão monumental parece ter criado dificuldades de defesa durante os períodos mais conturbados, e não há dúvida que o máximo do seu esplendor foi atingido durante a «pax romana».[12]

 

 

[1] BERNARDES, J. Pedro, A Propósito da Localização de Aranni / Arandis, Conimbriga, 45 (2006), p. 160.

[2] TORRES, Cláudio, Povoamento Antigo No Baixo Alentejo. Alguns Problemas De Topografia Histórica, Arqueologia Medieval, nº. 1, Campo Arqueológico de Mértola, 1992.

[3] Idem, p. 190

[4] Idem, P. 191

[5] Idem, p.191

[6] Idem, ibidem.

[7] BILOU, Francisco. Mértola: caminhos antigos entre a terra e o mar. Revista Monumentos nº 36. Direção-Geral do Património Cultural, Lisboa.

[8] Da muita literatura disponível sobre o tema, veja-se, Gustav PARTHEY; Moritz PINDER — Iternerarium Antonini Avgvsti (…). F. Nicolai Berolini, 1848. Pode consultar-se a edição digital em https://archive.org/details/itinerariumanto-00pindgoog, In Bilou, nota 19.

[9] É este, de resto, o entendimento dos historiadores locais. Veja-se, por todos, Santiago MACIAS — Mértola — O Último Porto…, vol. 1, 2006. In Bilou, nota 20.

[10] Bilou, p. 9

[11] TORRES, Cláudio, Povoamento Antigo No Baixo Alentejo. Alguns Problemas De Topografia Histórica, Arqueologia Medieval, nº. 1, Campo Arqueológico de Mértola, 1992, p. 190/191

[12] Idem, p. 192

publicado por José Pereira Malveiro às 18:38

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