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Abr 20

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1996 foi, sem dúvida, um annus terribilis.
Ano das cheias que num ápice devorou, paredes, telhados, casas e tudo o que lá se encontrava.
          Se uns lamentam a falta dos tarecos, outros lamentarão as recordações, os livros, as fotos e as coleções de artefactos juntados ao longo dos anos.
         Vem isto a propósito de um caco encontrado no quintal, ainda das cheias de 1996, mais precisamente uma pega de um penico (ou púnico se preferirmos os arcaísmos locais), de uma pequena coleção da altura, mas que prometia vir a tornar-se numa coleção interessante.
          Num ápice, acabou-se assim com a coleção de penicos.
         Nesta pequena coleção, não havia penicos de plástico, nem de metal, só loiça e da melhor e de comprovada qualidade e antiguidade, com rebordos fortalecidos, para que o mimoso assento ao “obrar” as necessidades fisiológicas, não ostentasse vergões vermelhos ou arroxeados, consoante o tempo que ostensivamente permanecesse nesse trono de efémera glória.

         O primeiro veio do Monte Ruivo (Santa Luzia), assim como uma mesa com mais de um século, (segundo os curiosos), que as mencionadas cheias, fizeram o favor de arrastar.
          Mas voltando aos penicos, os outros vieram de finas casas, (urbanas ou rústicas), mas de comprovada qualidade e antiguidade, da feira da Ladra veio um, de uma casa de antiguidades das Portas de Santo Antão veio outro e até da casa de velharias da Aldeia da Corte Malhão veio outro, cujos motivos alegóricos não só são inapropriados, como não é aqui o local para os descrever.
          Penicos há muitos, (seu palerma, dirá alguém, parafraseando Vasco de Santana), mas estes tinham um significado especial, primeiro porque eram antigos, segundo porque não se encontra muitas coleções de penicos, terceiro porque foram escolhidos com o melhor cuidado e qualidade e quarto pela irreverência, porque de génio e de louco todos temos um pouco.
          Enfim, era uma coleção, no mínimo, interessante, do qual só resta a pega de um.
         Testemunhas de um glorioso passado, presentes em todas as casas de família, arredados de salões nobres, sem direito a se exibir em aparadores de fina madeira ao lado de jarras e jarrinhas de inferior qualidade.
         Relegados para debaixo da cama, ou dentro da mesa de cabeceira, foram ingloriamente destronados, na maior parte das casas de família, pelas modernas retretes.
       Apesar da inegável contribuição para a civilização ocidental e mundial, em termos de higiene e na prevenção de doenças infecto-contagiosas, ainda não lhes foi feito o devido reconhecimento.
        Não há uma única Travessa, Azinhaga ou Beco com o nome de penico, quanto mais uma Avenida, Praça ou Rua.
        Devia de ser dado o seu nome á Avenida da Liberdade, ou até mesmo á Ponte 25 de Abril, se já antes foi Ponte Salazar, bem podia ser agora a Ponte do Penico.

publicado por José Pereira Malveiro às 19:46

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