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A Caminho da Feira de Garvão

 

            Há patinhas d’um ladrão, naquele tempo as coisas eram levadas da breca, em se juntando a Zefinha de Portel, ceguinha, apoiada no seu velho companheiro Faísca, o Norberto Gateiro da Chada-Velha, o Adelino do Monte da Vinha e outros tangedores mendicantes, era certo que iria dar cantoria, e, já agora, que bem soava ouvi-los, mas também era certo que em o vinho começando a fermentar naquelas cabecinhas, mais cedo ou mais tarde iria dar pancadaria.

            A Zefinha, coitada, ceguinha, bem se tentava abrigar dos porradões que soavam à sua volta, o Faísca bem tentava, coitado, escapulir dos bordões que no ar zuniam e segurando no braço da ceguinha para lá a encaminhava para fora daquele reboliço todo.

            Quem não se dava muito bem com aquilo tudo era o António Emídio, tinha vindo de propósito da Aldeia de Palheiros para a anual feira de Garvão e o acostumado cante ao baldão, desgarrada ou despique como lhe quiserem chamar, de viola à tiracolo metia-se direito ao Curral Velho, uma copada com um bom pedaço de conduto no Encalho e em menos de nada, que é como quem diz ao fim de uma semana ou duas, estava na Feira de Garvão.

            A visita ao compadre Zé na taberna do Saraiva também era uma obrigação, senão na ida pelo menos na volta, apesar de depois de umas boas cantorias agarrado à viola sobrarem sempre umas boas sopas e faltar sempre o bom vinho, a ti’Maria do Saraiva é que não o largava, era malina, queria era “Balho”, mas então quem é que se agarrava atracado a um pedaço de mulher daquelas, usava uma cinta de lã preta para segurar a saia que dava duas voltas à cintura de qualquer homem, uma vez desancou de tal maneira o Blei do Vale de Mu que se não a tivessem agarrado tinha-o enforcado com a cinta de uma oliveira abaixo.

            Então o malandro, assim relatava a criatura, não tem vergonha depois do bailarico em que os rodopios da ti’Maria até faziam o Blei levantar os pés no ar com a cabeça bem enterrada nos farfalhudos peitos, valendo-lhe a providencial cinta, onde se agarrava, até que esta se desmanchou e por pouco não ficava a mulher em trajes menores, (se os havia), diante daquele pagode todo, e ainda por cima com o outro a querer beija-la, o pior não eram as tentativas beijoriqueiras do Blei, o pior era quando o raio do tabaco queimava os poucos pêlos que sobressaíam das bexigas na cara da ti’Maria, aí é que estava o caldo entornado, “tamas o que é isto, tás parvo ou quê”, assim dizia de sua justiça, e dizendo isto afinca-lhe três bordoadas que o deixaram espojado nos restos da calçada do monte, entre ais para aqui e uis para ali, o certo é que os polaropos que tinha na cabeça já ninguém lhos tirava.

            Mas valia a pena, quem é que arredava pé, diante de tal cantoria, da Corte Malhão vinha o Miguel Guerreiro, do Monte da Viúvas em Almodôvar vinha o Belchior, e até das bandas de Alcoutim vinha o Romanito cego, e muito cantavam aquelas alminhas, a Ti’Mariana da estação d’Ourique não tocava, nunca teve muito jeito para aquilo, mas arrufava bem e era certo que quem se metesse com ela à despique ou à desgarrada, tinha que puxar muito bem pela cachimónia para lhe dar a volta, e aquilo é que era cantar, animavam as vendas das aldeias e os bailes no caminho para as feiras, ganhavam umas coroas aqui e umas sopas ali, dormiam ora em palheiros ora ao relento, mas não era disso que cantavam, "Não quero que vás à monda", "Avoa, pombinha avoa", "Oh que festa linda festa", "Fui colher uma romã", "Baile do pézinho" ou "Quero ir para o altinho, qu'eu daqui não vejo bem, quero ir ver o meu amor, se ele adora mais alguém", assim cantavam as modas e picados por uns e por outros lá vinham à baila os despiques, salpicados aqui e acolá com alguns versos mais atrevidos para consolo e galhofada da assistência.

            Até o desgraçado do Finfas e o Figueiredo parvo de Panóias, com o seu sorriso cacofónico, por lá apareciam, esses eram pedintes, corriam atrás das moças e dos moços.

            O Manuel Inácio Verónica das Amoreiras-Gare andava de “balho” em “balho” pelas terras vizinhas, e lá arranjava sempre maneira para que a sua volta nos fins de Abril, princípios de Maio ir dar a Garvão, este ano chegou mais cedo, bem o trombicaram no baile do “Vale Ganim”, para lá o arrastaram desde o Chaparral à pressa para ir tocar num baile-promessa e quando lá chegou já o magala Almerindo dos Arraiois estava em cima da mesa agarrado a um harmónio, como aquilo soava mais alto que a viola, para lá lhe deram umas migas para ele se calar, mas não, não se sentia bem com o outro todo arrufado em cima da mesa a debitar aqueles fados que tinha aprendido lá para a cidade, “nam senhor, aqui nam fico”, e arrancou direito ao monte Major onde o velho amigo Estopa lhe arranjaria, com certeza, dormida nas arramadas junto ao gado e com um pouco de sorte, depois de umas cantorias valentes agarrado à viola, para lá lhe arranjaria, também, qualquer coisa quente que se coma.

publicado por José Pereira Malveiro às 14:36

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