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Jul 19

Garvam/Garvã ou Arandis/Aranni

I

          A origem do topónimo Garvão, sempre foi um enigma para os investigadores que se debruçam sobre este tema.
          Nem as fontes cristãs, portuguesas ou dos vários reinos que vieram a formar a Espanha actual, ou muçulmanas, deixam antever a origem da nomeação deste concelho medieval. Nem os autores Árabes sobre os quais António Borges Coelho assenta o seu estudo, Portugal na Espanha Árabe, (1) al-Râzî, (2) o de al-Idrîsî (3) e o de al-Himyarî, (4) mencionam alguma povoação que se possa identificar com a localidade em questão, nem quaisquer outros autores Árabes, de conhecimento mais recente, a mencionam.
          A carta de foral atribuída em 1267, vinte e oito anos depois da conquista total das terras alentejanas, em 1238, menciona o nome Garvã, o que leva a crer na continuidade deste topónimo desde o período anterior à nacionalidade. Já em 1260 aparece Garvam, na Carta de doação de uma herdade, no extinto concelho de Marachique, onde menciona o Semedarium qui venit de Garvam et vadit al Algarbium.
          Em termos meramente especulativos, a partícula Garv, que se encontra na palavra Garvão, poderia advir do Árabe Garb, este vocábulo encontra-se amiúde no mundo Àrabe e sempre em relação a Oeste de outro lugar, é assim com o Algarve, o Al-Garb muçulmano, a Oeste do Al-Andaluz, de Meca e da expansão Árabe, em Malta, (5) na ilha de Gozo, onde a povoação Gharb, topónimo de raiz Árabe, se situa no Oeste da ilha, ou, entre outros exemplos, a região Oeste do emirato Abu Dhabi, denominada Al Gharbia.
          Seria assim uma povoação a Oeste de qualquer outra, ou a estrada do Oeste em direcção ao Norte, em relação à estrada Romana a Este que passa por Mértola, ou em relação à ribeira que passa por Garvão, a Oeste de outras, nomeadamente ao curso do Alto-Sado que passa mais a Oriente. Não sendo nenhum destes cursos, nesta zona, navegáveis, tal explicação faria sentido num contexto mineiro, do qual existe algumas referências, sobre o eixo mineiro pré-romano de Marachique-Garvão, que passava pelo coração da antiga zona da escrita do Sudoeste. Este corresponde, na opinião do autor, ao eixo mineiro ancestral de Ossonoba, sem dúvida utilizado desde os tempos fenícios, sendo o sítio de Fernão Vaz uma etapa natural do seu percurso. Liga também Ossonoba a importantes oppida célticos da II Idade do Ferro (Mesas do Castelinho, Garvão e outros. (6)
          Contudo o vocábulo Garvan, também se encontra noutras línguas, tanto no Gaélico Escocês e Irlandês, como inclusivamente no Inglês antigo, (existe também, na ilha de Skye, na Escócia, uma montanha denominada Garbh). Assim como na Bulgária, Macedónia do Norte, Roménia e noutros países do Leste europeu, existem topónimos denominados por Garvan.
          Garvan do Gaélico, denomina, pequeno, áspero, talvez em relação à ribeira que atravessa a vila que se torna violenta e escabrosa, por alturas das cheias invernais. Já João e Augusto Ferreira do Amaral, na sua obra Povos Antigos em Portugal, (7) mencionam que o nome Garvão, teria a sua origem na palavra Celta “Garv”, cuja tradução seria áspero, um hidrónimo de origem Celta, que designaria o rio que divida a vila em duas partes.
          Certos autores, no século XIX, nomeadamente Pinho Leal em Portugal Antigo e Moderno, denomina Garvão por Garabon que supostamente designaria Corvo em Árabe, de facto, encontra-se no leste europeu, várias povoações ou lugares denominados Garvan, cuja palavra significa precisamente Corvo. Contudo, este Garvan, (Гарван), do Leste Europeu, exprime-se numa língua Eslava, embora faça parte das línguas Indo-Europeias, como o Latim e o Celta, é muito diferente destas e Pinho Leal não justifica nem referência a origem dessa informação.
          Em França, mais precisamente na Bretanha, existe um rio denominado Le Garvan, numa região de tradições celtas.
          Todos estes lugares, no mundo Celta, têm em comum, o facto de se situarem junto a cursos de água, inclusivamente na Bretanha, onde, como se afirmou, o próprio rio que banha a povoação, Trégarvan, denomina-se Le Garvan, enquanto no Leste europeu, todos estes lugares se situam em sítios elevados, mais de acordo com o sentido de altura, espaço de voo e da identificação com Corvo. Na Macedónia do Norte, Garvan, é inclusivamente a denominação de uma montanha.

II

          A confirmar-se esta nomeação de Garvão, ao período da influência Celta na Península, a cuja família pertence o Gaélico Irlandês e sendo o topónimo Garvan, transversal ao período de ocupação Romana, visigoda e Árabe, ter-se-á de considerar a pretensão em identificar Aranni ou Arandis, com a povoação de Garvão.
          As investigações têm-se debruçado quase na totalidade, sobre a localização de Arandis/Aranni em Garvão, ou noutra povoação do Alentejo e muito pouco sobre o vocábulo Garvão.
          De facto, sobre a nomeação desta terra, no período anterior à ocupação Árabe, pelo império Romano e por tribos de origem germânica que se lhes seguiu, certos autores identificam Garvão com esses topónimos, com base nos escritores mais antigos que mencionam o Sul de Portugal: Plinio, (o velho), na sua Historia Naturalis, (8) do século primeiro, menciona, nesta zona, os Aranditani. Cláudio Ptolomeu, astrônomo grego, na sua Geografia (9) do ano 150, menciona Arandis. O Itinerário de Antonino Pio (10) do século III, menciona Aranni e o Anónimo de Ravena, (Ravennatis Anonymi Cosmographia), (11) elaborado por um cosmógrafo cristão no século VII, (relativamente perto da ocupação muçulmana de 711), menciona igualmente Arani.
          Como se afirmou, foi teorizada a localização Aranni/Arandis em Garvão, com base no Itinerário Antoniano, contudo se a historiografia não é consensual e a documentação existente, não revela respostas a esta questão, a verdade é que a arqueologia, também, ainda não trouxe respostas esclarecedoras sobre estas questões, seja em Garvão ou noutras localidades.
          A questão da identificação de Aranni/Arandis com Garvão, segundo o caminho XXI do Itinerário, tem produzido teorias interessantes e imaginativas, contudo a questão principal, revolve em torno da impossibilidade de Arandis/Aranni se situar simultaneamente a 60 milhas de Ossonoba (90 Km de Faro) e a 35 milhas de Salacia (52 Km de Alcácer do Sal), como se apresenta nesse caminho do Itinerário Antoniano. Ou há de facto um erro no Itinerário, ou estaremos perante localidades diferentes, mas com a mesma denominação.
          Contudo, independentemente da sua localização, situar Arandis/Aranni no Oriente alentejano, peca por a sua área territorial se sobrepor a Beja e Mértola e deixar vazio todo o território a Ocidente, desde Miróbriga, (Santiago do Cacém) e Salacia, (Alcácer do Sal), ao Algarve, incluindo a bacia do Alto Sado e a Bacia do Rio Mira, ambos ricos em minério, (ter em atenção, igualmente, os polígonos de Thiessen, sobre a técnica do vizinho mais próximo). (12)
          A observar-se a origem Celta do vocábulo Garvan e a sua manutenção até aos nossos dias, entra em contradição com a pretensão de localizar Arandis/Aranni em Garvão. Contudo não é inédito a mesma povoação ter duas denominações diferentes em simultâneo, uma indígena e outra Romana, ou inclusivamente ter duas assembleias, como parece ser o caso em Beja, não só mencionada por frei Amador Arrais, no século XVI, mas igualmente consubstanciada pelas recentes intervenções arqueológicas.
          As duas nomeações não são irreconciliáveis, nem é de excluir, embora em termos meramente teóricos que Garvan, corresponda ao primitivo núcleo urbano da vila de Garvão, em torno do castelo e do santuário e que Arandis/Aranni, corresponda aos vestígios arqueológicos encontrados no local denominado por Franciscos e à tal municipalidade falhada de que fala Jorge de Alarcão. (13)
       Segundo este autor, a falta de edifícios que tipificam as novas entidades políticas em formação e caracterizam o quotidiano Romano, leva-o a classificar, para o problema da localização de Arandis/Aranni, como uma experiência urbanística falhada. Contudo Virgílio Hipólito Correia, (14) acrescenta que: Neste sentido, talvez a experiência de Arandis não tenha falhado, mas não tenha nunca existido; o que terá falhado, na realidade, terá sido a experiência política necessariamente subjacente ao projecto urbano e administrativo. Não sendo um argumento que a justifica, também não a invalida.
          O sítio dos Franciscos, integrado na propriedade do Arzil, onde Caetano Mello Beirão e José Olívio Caeiro procederam a sondagens arqueológicas de emergência, na década de 80 do século XX, numa área que iria ser afectada pela construção da estrada entre Garvão e Aldeia das Amoreiras, puseram a descoberto enorme concentração de ruínas romanas, restos de paredes e cerâmicas, numa área bastante extensa, tratando-se ou de uma vila rústica romana de enormes proporções ou, mais concretamente, de uma cidade Romana, forçando assim o desvio da dita estrada para salvaguardar estes vestígios arqueológicos.
          De notar que deste local, foi recolhido uma Estela Romana que Mário e Rosa Varela Gomes estudaram e devidamente divulgaram. (15)
          A Herdade dos Franciscos è um dos latifúndios da freguesia de Garvão, situando-se apenas a cerca de 1km a sul daquela vila. Administrativamente pertence ao concelho de Ourique e ao distrito de Beja. O monumento funerário agora dado a conhecer foi descoberto avulso, numa extensa zona da herdade onde se observam ruínas, talvez de um vicus, ou de uma villa rustica e  de onde provêm outros materiais do período romano. (16)
          Já em 1908, no Archeologo Português, José leite de Vasconcellos, (17) menciona um busto em mármore, de Agripina Menor, retirado dos Franciscos e guardado no Museu Regional Rainha Dona Leonor, em Beja.
          Na freguesia de Garvão, concelho de Ourique, na margem esquerda da ribeira dos franciscos, fica a herdade do mesmo nome, onde estive em Março de 1909.
          Em volta do monte há grande quantidade de tégulas, de ladrilhos, de imbrices, em fragmentos, e alicerces de um edifício antigo que já estava soterrado, mas que tem sido várias vezes excavado pelos sonhadores de tesouros, à busca de riquezas. Disseram-me que apareceu lá um busto marmóreo que está hoje no Museu de Beja.
          Haveria aqui uma povoação romana, ou simples villa? Só com excavações se poderá responder à pergunta. (18)
          Em jeito de conclusão, muitas dúvidas persistem, tanto sobre a origem do vocábulo Garvão, como da localização de Arandis/Aranni e a sua coincidência com Garvão. Mas, a observar-se a origem Celta no topónimo Garvão, o que levará, de facto, a mudar o nome indígena? Ou como Jorge de Alarcão se referiu a Beja, Enigmas da cidade de Beja, (19) Se Lisboa conservou o nome antigo: Olisipo e Évora manteve a designação indígena: Ebora. Se havia uma povoação pré-romana em Beja, porque não manteve esse nome indígena? O mesmo se poderá perguntar de Garvão, Garvã, Garvan. Garbonis, Gharb, غرب ou Гарван, se havia um nome indígena, porquê uma nova nomeação para o mesmo local ou próximo deste? 

 

Notas

1 António Borges COELHO, Portugal na Espanha Árabe, 2ªed., 2 vols., Lisboa, Caminho, 1989 (1ªed. : 4 vols., Seara Nova, 1972-75).
2 Abû Bakr Ahmad ibn Muhammad al-Râzî, é considerado o Pai da Historiografia Árabe Andalusi. Nasceu em Córdova, no ano de 888 e compôs a obra Akhbâr Mulûk al-Andalus.
3 Abû ‘Abd Allâh Muhammad ibn ‘Abd Allâh ibn Idrîs al-Sharîf al-Idrîsî. Nasceu em Ceuta, em 1099. Estudou em Córdova, e viajou pela Pen´nsula Ibérica, Norte de África e Ásia menor. Acabou instalando-se na Sicília, sob a protecção do rei Rogério II, a pedido de quem compôs a famosa Nuzhat al-Mushtâq ou Kitâb Rujjâr..
4 Abû ‘Abd Allâh Muhammad ibn ‘Abd Allâh ibn ‘Abd al-Mun‘im al-Himyarî. Pouco se sabe da sua vida. Natural de Ceuta, foi jurista e assessor do juiz ou do notário da cidade. O seu Rawd al-Mi‘târ é um dicionário geográfico, que, para o espaço ibérico, recolheu informações de al-Idrîsî e de al-Bakrî.
5 A língua maltesa, é uma língua semita, de origem Árabe que usa o alfabeto latino.
6 Manuel Maia, Maria Maia e Artur Martins. 1987. In: Luís Fraga da Silva, A Região de São Brás de Alportel na Antiguidade, Tavira, 2002. P. 32.
7 AMARAL, João, AMARAL, Augusto (1997); Povos Antigos em Portugal; Quetzal Editores, Lisboa.
8 A Historia Naturalis é composto por 37 livros, iniciando-se a sua publicação em 77.
9 Trata-se de uma obra a partir dos conhecimentos greco-romanos da época sobre geografia, com localizações por coordenadas, longitude e latitude.
10 O Itinerário de Antonino Pio, (284-305), As estradas no Império Romano. Compõe-se de um roteiro da época romana, onde regista as distâncias, em milhas, entre as sucessivas estações das principais vias.
11 Embora baseia o seu estudo, sobre documentos dos séculos anteriores e com bastantes erros e enganos que vai influenciar os copistas medievais que se lhe seguiu.
12 Os polígonos de Thiessen são gerados a partir de um conjunto de pontos de amostra, de modo que cada polígono define uma área de influência em torno do seu ponto de amostragem, de modo que qualquer localização dentro do polígono seja mais próxima desse ponto do que qualquer outro ponto de amostra.
13 ALARCÃO, Jorge. (1985). Sobre a Romanização do Alentejo e Algarve. A propósito de uma obra de José d` Encarnação. Arqueologia, 11. GEAP, Porto, p. 99-111.
14 CORREIA, Virgílio Hipólito. Observações Sobre A Ocupação De Época Romana No Vale Do Mira. Conimbriga, 2015.
15 GOMES, Rosa Varela; GOMES, Mário Varela (1984) Uma estela epigrafada da Herdade dos Franciscos, "Conimbriga", 23, p. 43-54.
16 Idem
17 VASCONCELLOS, José Leite. (1908). Antigualhas 2- Restos Romanos. O Archeologo Português, XIII, 1-6, Lisboa, p. 351-352.
18 Idem
19 In: O sudoeste peninsular entre Roma e o Islão, Campo Arqueológico de Mértola, 2014.

publicado por José Pereira Malveiro às 20:22

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