07
Fev 20

Festas e Bodos da Irmandade do

Sagrado Espírito Santo

         

          A origem das Festas populares que se observam em vários pontos do país, tanto nos meios urbanos como nos meios rurais, apesar de na maior parte dos casos se ter perdido a sua origem e hoje bastante desvirtuados e adulterados, conseguem-se identificar, na maioria, com as festas medievais consagradas ao culto do Espírito Santo, realizadas sete semanas depois da Páscoa, no Domingo de Pentecostes. (1) 
          As Festas do Espírito Santo, promovidas pela respectiva confraria, caracterizam-se pela cerimónia dos Impérios do Divino Espírito Santo que culminava na confeção de um enorme "Bodo", refeição comunitária de assistência aos mais carenciados.
          A carne para este "Bodo" provinha da morte de um touro, previamente toureado pelas ruas da povoação, para diversão da população e não só era distribuída pelos mais carenciados, como, inclusivamente, servia para confecionar um enorme banquete em que toda a população participava.
           Estas festas, reflectiam o compromisso entre a população e o divino, a falta destas festas/cerimónias, levava-os a recordar anos, em que estas se não fizeram, para catástrofes naturais, como tempestades, trovoadas, ciclones, secas, ou pragas de lagartas ou de gafanhotos que dizimavam as colheitas e infestavam os celeiros, conforme o fólio vinte e dois do livro do Sagrado Espírito Santo e da Misericórdia, nos elucida sobre as pragas de gafanhotos.

(…) nem poderião alegar os ditos
foreiros anno de esterilidade,
nem de gafanhotos (…)

         O medo do castigo divino comprometia toda a comunidade e estes festejos, com a oferta de comida á divindade e a respectiva distribuição pelos pobres, procurava a protecção das colheitas agrícolas, das catástrofes naturais e a salvaguarda dos celeiros, das pragas de formigas ou ratos.
           As festas eram como um agradecimento de uma promessa cumprida, pelas colheitas dos anos anteriores e uma prece de protecção, para os anos vindouros.
           As tradicionais Festas populares que se observam de Norte a Sul do país, terão, na sua maior parte, origem nestas festas do Espírito Santo. Surgem nos documentos medievais, praticamente em todos os concelhos, referências a estas festas, nomeadamente em; Tomar nas Festas do tabuleiro; em Barrancos; nos Açores e no Penedo em Sintra onde a tradição do Espírito Santo ainda se mantém viva; em Portel e em muitas outras povoações de Norte a Sul do país, assim como em vários outros países, levado pelas várias comunidades de imigrantes, nomeadamente no Brasil e Estados Unidos da América.
            Em Tomar realiza-se a tradicional Festa dos Tabuleiros de quatro em quatro anos, no princípio de Julho, a qual atrai á cidade muitos turistas nacionais e estrangeiros. Esta Festa tem como origem o culto do Espírito Santo instituído no séc. XIV.
          Os tabuleiros com o pão que as participantes carregam à cabeça, são adornados com os elementos típicos das antigas festas das colheitas e da celebração da fertilidade da terra, flores e espigas de trigo, e encimados pela Cruz de Cristo ou pela Pomba do Espírito Santo. Depois do cortejo faz-se a distribuição da carne, do pão e do vinho, benzidos no dia anterior, pelos mais necessitados da cidade.
          A antiga tradição do sacrifício dos bois, cuja carne seria depois distribuída por todos, (como acontece ainda no Penedo/Sintra, após a tourada à corda), manteve-se na Festa dos Tabuleiros, em Tomar, até 1895, a partir de 1966, os bois do Espírito Santo voltaram ao cortejo, mas agora só com funções simbólicas.
          As festas tradicionais de Barrancos, com a largada de touros no largo principal desta vila alentejana e a exigência da morte do touro, durante a garraiada, é justificada pela tradição da distribuição de carne pela população num enorme banquete, e é com base precisamente nestas tradições que muitas vilas alentejanas se arreigam do privilégio de também matar o touro durante a tourada, tendo como justificação as mesmas tradições da distribuição de carne aos mais necessitados.
          Em Garvão, assim como noutros lugares, apesar da data da realização das festas, possivelmente já não coincidir com a data primitiva, e apesar de já não se fazer o bodo ou de tal haver lembrança, as festas de Garvão apresentam características próprias destas festas ao culto do Espírito Santo. A ideia principal mantém-se que é reunir o povo para a festa anual e a largada nas ruas da vila.

           Há notícias destes festejos de Norte a Sul do país, nomeadamente em Portel no Alentejo.

(…) dá mais jantar esplêndido à pobreza em dia do Espírito Sancto, e ração de pão e carne a todos os moradores pobres da villa a quem conciderão necessitados.(2)

           Na povoação de São João da Lampas, no concelho de Sintra, existe também notícias destes festejos.

A sua origem estará certamente relacionada com a instauração das Festas em louvor do Divino Espírito Santo pela Rainha Santa Isabel. Diz-nos João da Silva Marques, no decurso da sua aturada recolha documental: “A Instituição desta usança remontaria, assim, a uma data posterior a 1287, data da doação de Sintra à Rainha, e anterior a 1336, ano da sua morte” (Marques, 1938). Tal facto relacionar-se-ia com a autorização da monarca para a realização das ditas festa no interior dos “seus” paços na Vila de Sintra, difundindo a partir de então esta prática para as paróquias rurais.(3)

          Igualmente em Alvalade, distrito de Beja, surge a notícia de “O Bodo de 1943”(4)

O Bodo foi também tradição secular em Alvalade, que se cumpria a partir da Capela do Espírito Santo (instituída na segunda metade do séc. XVI), situada na Praça D. Manuel I no local onde hoje está a residência dos herdeiros do lavrador Ilídio, assim conhecido na terra.
A festa anual do Divino Espírito Santo decorria sempre de forma solene e muito participada, sendo a distribuição do Bodo um dos seus momentos altos e que consistia na distribuição de alimentos aos pobres ou remediados, a que por vezes se juntava algum dinheiro. Para o Bodo contribuíam os lavradores e proprietários mais abastados da terra, oferecendo farinha, feijão, vinho, reses, etc.

 

1) - No antigo calendário Israelita a Festa das Colheitas - no hebraico hag haqasir - recebeu o nome de Pentecostes a partir do domínio Grego. Estas festas das colheitas teriam a sua origem noutros povos do Mediterrâneo Oriental, nomeadamente os Cananeus, povo que cultivava os férteis vales de Canaã quando da chegada dos pastores semi-nomadas Hebreus.

2) - Francisco Macedo da Pena Patalin, na sua Relação Histórica da Vila de Portel, edição de 1730.

3) - Catarino Coelho, José Lourenço Gonçalves, A Ermida do Espírito Santo (Sintra): intervenção arqueológica realizada em 2001, in: Revista Portuguesa de Arqueologia. Volume 6, número 2, 2003, p.521-544

4) -  Luís Pedro Ramos. In: https://www.alvalade.info/o-bodo/

publicado por José Pereira Malveiro às 21:50

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