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Pia Baptismal da Igreja do sagrado Espírito Santo e Parede da dita Igreja incorporada na parede do Cemitério Velho.

           

               É prática ancestral na civilização cristã, deixar ao cuidado da religião a tarefa dos ritos funerários, cabendo-lhe não só cuidar do espírito mas também tratar do destino do corpo. Coube sempre à igreja cuidar da alma, ao mesmo tempo que dava destino aos restos mortais dos defuntos. Uma coisa era inseparável da outra, pelo que orando pela alma, enterrava os mortos no perímetro dos espaços sagrados, quer no interior dos próprios templos, para as classes mais privilegiadas, quer nos espaços adjacentes, claustros, jardins e adros.
          Contudo, independentemente dos rituais funerários e das rezas pelo destino das almas dos defuntos, a disposição dos corpos em condições deficientes nos adros das igrejas, sempre foi problemática. As pestes frequentes a que se assistia na idade média, são um exemplo dos efeitos mortais que os mortos poderiam ter sobre os vivos. Não era somente os corpos dos justiçados por morte perpétua que ficavam a balançar na forca por tempo indeterminado, eram igualmente os corpos em decomposição junto às igrejas, ou mal enterrados ou por falta de espaço.
           Nesse sentido, no seguimento das várias reformas executadas pelo regime liberal no século XIX, foi publicado o decreto de 21 de Setembro de 1835, por razões de salubridade pública, veio determinar que em todas as povoações do reino, serão estabelecidos Cemitérios Públicos para nelles se enterrarem os mortos, fóra dos limites das Povoações, para o que as Camaras Municipaes designarão os terrenos nas requeridas circumstancias para nelles se estabelecerem os Cemiterios.
           Como consequência desta mudança de práticas, foi publicado o Decreto de 16 de Setembro de 1844, que veio organizar a Repartição da Saúde Publica, passava a ser expressamente prohibido enterrar os mortos dentro de qualquer Igreja, ou Capella da Freguezia, ou Concelho, onde houver Cemiterio publico, como passava a ser igualmente prohibido fazer o enterramento de cadaveres fóra do Cemiterio publico depois de estabelecido e benzido.
             Assim, por razões de salubridade pública, a partir de 1835 o destino final dos despojos do corpo, passou a ser tarefa pública, a cargo dos municípios e deixou de ser tarefa a cargo da Igreja, contrariando os ancestrais ritos e práticas costumeiras.
             Estas alterações, com proibições de enterrarem os familiares em solo sagrado e a obrigatoriedade de enterramento nos novos cemitérios públicos, (pagando as devidas taxas), estão precisamente na origem da revolta da Maria da Fonte e, na sua sequência, a guerra da Patuleia, únicas revoltas verdadeiramente populares em Portugal, em que as populações armadas com alfaias de trabalho, (foices, machados, paus, alavancas, espingardas e com tudo quanto eles pudessem apanhar), procuravam o derrube do governo, inclusivamente da Rainha, e a mudança dos lideres políticos com o fim do regime liberal.
          Estas transformações pouca influência tiveram no quotidiano da população de Garvão, ou por habilidade política, ou por conveniência prática, a população continuou a enterrar os seus mortos em solo sagrado e no mesmo lugar.
          Em Garvão, em vez de se construir um novo Cemitério, optou-se por derrubar a igreja e continuar os enterramentos no mesmo lugar. A igreja do Sagrado Espírito Santo que se situava neste lugar, devido à falta de obras desde 1763, como consta no Livro da Misericórdia e da Irmandade do Espírito Santo, estaria degradada e em ruínas, algumas das suas paredes foram inclusivamente incorporadas, como ainda hoje se observa, no muro que circunda o Cemitério Velho.

publicado por José Pereira Malveiro às 20:59

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