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Os extremos da religiosidade

 

No dia 23 de Novembro de 1671, no Rossio, em Lisboa, um individuo de nome António Ferreira, com problemas mentais, foi condenado a que lhe cortassem em mãos em vida e queimadas à sua vista, após o que foi garrotado e queimado na mesma fogueira enquanto os padres e as freiras, cantavam hinos ao senhor, a louvar o castigo do malfeitor e a recuperação das peças roubadas da Igreja Matriz de Odivelas, no dia 11 de Maio de 1671.

 

O ingénuo acusado mesmo depois de ter confessado o roubo dos objetos litúrgicos e das hóstias que perdido de bêbado comeu, foi severamente torturada pelas autoridades religiosas, concluindo que se tratava de um pobre diabo, sem o juízo todo, que ficara fascinado com as reluzentes vestes dos santos e com fome comera as hóstias.

 

Não seria primeira igreja a ser roubada, mas só este caso, no contexto social da época, mereceu em 1744, setenta e três anos depois, a construção de um monumento e uma nova referência topográfica que muitos anos depois deu o nome a uma estação do Metropolitano em Odivelas, precisamente “Senhor Roubado”.

 

Porquê setenta e três anos depois? Se já a atrocidade cometida contra um deficiente mental nos choca, ainda mais cometido por religiosos enquanto davam graças pela barbaridade cometida, o que dizer então dos motivos para a construção desse monumento quando, certamente, tendo em consideração a média de vida da altura, ninguém vivo em 1744 tinha assistido a tal acontecimento.

 

Segundo João Miguel Simões[1], temos de enquadrar a construção no contexto religioso europeu da altura:

 

(…) O monumento do Senhor Roubado não é mais do que um produto deste ressurgimento com implicações profundas e não apenas um linear ex-voto de desagravo sobre um acontecimento periférico, momentâneo e local. (…)[2]

 

(…) os documentos escritos sobre o assunto, mas que, além de só transmitirem a opinião dos acusadores e juízes, estão impregnados de toda a propaganda católica contrareformista que aproveitou este caso para fortalecer as suas posições contra os protestantes e os judeus. (…)[3]

 

(,,,) O roubo das sagradas partículas originou de imediato um sentimento contra as religiões que contestam a sacralidade destes objectos, ou seja, gerou-se na população portuguesa a noção de que este crime só poderia ter sido cometido por hereges (protestantes, judeus e muçulmanos). (…)[4]

 

(,,,) Das várias vezes que em Portugal se cometera um crime semelhante as culpas recaíam sempre nos judeus. De facto, tanto em 1266 em Santarém, como em 1362 em Coimbra, como em 1614 no Porto, como em 1630 em Lisboa na Igreja de Santa Engrácia, os judeus foram considerados culpados de estarem por de trás dos roubos e desrespeitos às hóstias consagradas. (,,,)[5]

 

 

[1] João Miguel Simões O Monumento do Senhor Roubado em Odivelas. 17 de Agosto de 2000.

[2] Idem P. 3/4.

[3] Idem. P. 4.

[4] Idem, P. 4.

[5] Idem, P. 4/5.

publicado por José Pereira Malveiro às 19:48

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