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Set 19

A Lenda da Princesa Moura
          Fátima era o nome da filha do profeta Maomé, assim como os cristãos gostam de nomear os seus filhos segundo os santos do panteão cristão, daí Purificação, Sacramento, Natividade, Assunção, Conceição, Aparecida e Ressurreição entre outros, também é costume no mundo muçulmano, os progenitores nomearem os seus filhos segundo aqueles que mais reveneram.
          Daí o nome Maomé e as suas variantes, ser um nome muito popular entre os homens e Fátima, entre as mulheres, nos crentes islâmicos.
            Uma das versões que se conta de uma lenda na zona de Fátima, Ourém, Tomar, Cova da Iria e regiões em redor na Serra D´Aire, relata que aos pastorinhos perdidos e em aflição, aparecia uma princesa árabe de nome Fátima que os guiava e ajudava a encontrar o caminho para casa.
            Será a partir desta lenda que aquele lugar em especial tomou o nome de Fátima, em memória da princesa árabe, filha de um rei mouro que na iminência de ser capturada pelos cristãos, preferiu mandar-se das ameias do castelo abaixo, vagueando ainda hoje a sua alma pelas serranias em redor.
         Esta lenda contada aos serões, tanto aos adultos como às crianças, depressa tomou a forma de Nossa Senhora e enchia o imaginário destas populações, numa altura de extrema religiosidade e crença em fenómenos fora do normal, era recorrente, naquela serra, ouvir histórias que Nossa Senhora tinha aparecido a alguém que andava perdido e o encaminhou para casa.
           As criancinhas interiorizavam estas histórias e contavam-nas umas às outras, era tido como uma normalidade que as populações interiorizavam, estas histórias faziam parte do imaginário popular.

            Numa altura de extremo fervor religioso e em tempos de crise, quando as armas do medo do inferno não são suficientes, quando a ameaça da excomunhão não são suficientemente poderosas contra as forças hostis que se levantavam contra a igreja, há que mobilizar a vontade popular com histórias fantásticas de aparições em que Nossa Senhora, apareceu para expiar os pecados dos homens.
              Já assim o tinha sido em 1822, Nossa Senhora apareceu a duas pastorinhas em Carnaxide,(1) para salvar a realeza da ameaça liberal e só a Vila-Francada, com o restauro do absolutismo, tornou obsoleto o prosseguimento de tal milagre.
             Em 1917 a situação era diferente, a República já durava há sete anos e as forças anti-católicas não desarmavam, haveria de levar estas criancinhas a acreditar que as histórias que contavam umas às outras eram verdadeiras e a luz que imaginaram em cima da azinheira era Nossa Senhora.
          Sob a capa da negação, mas comprando os terrenos em volta das supostas aparições, a igreja foi manipulando e interiorizando nestas mentes frágeis a construção de uma narrativa que favorecesse o contexto político da época, a pregação que davam do castigo divino e do inferno, eram de tal forma violentas para estas criancinhas que foram levadas a acreditar nas histórias de infância e no que não viram.

           Porém, e mais reveladora de uma certa fragilidade da análise das aparições e da sua recepção parece-nos ser a ideia forte deste capítulo, de que o "proletariado rural local" da zona de Fátima teria uma predisposição para "a adesão entusiástica e acrítica a fenómenos maravilhosos" (p. 40). Ou seja, uma explicação assente numa causalidade determinista, materialista e geográfico da crença religiosa (ver o comentário à citação de Amorim Girão, p. 67). O que nos coloca várias questões. Seria a zona da Cova da Iria mais agreste, pobre, rural, isolada e analfabeta do que o Alentejo, provavelmente a zona menos católica do país? (2)

            Milagre do sol? Ou alucinação visual colectiva? Ou um fenómeno mental em que indivíduos saudáveis, independentemente das suas crenças religiosas, passam por ilusões ou experiências psicóticas de fundo religioso, ao visitar espaços de adoração e de forte carga simbólica e emocional?
             Curas milagrosas? De joelhos, a pé ou de rastos quando afinal não valeu aos dois supostos videntes, Francisco morreu em 1919, com apenas 11 anos, com pneumonia. Jacinta faleceu no ano seguinte aos 9 anos da mesma doença. Lúcia ficou reclusa e incomunicável até morrer.
            O que poderá levar uma Nossa Senhora, com poder para adivinhar o futuro nos três segredos de Fátima, a deixar morrer duas inocentes criancinhas?
             O que poderá levar uma igreja a furtar ao mundo exterior, outra criança?


(1) Serões: revista mensal ilustrada. N.º 62, Ago. 1910.
(2) Lusitânia Sacra nº 16. Mutações religiosas na época contemporânea: figuras e pensamento, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2004.

publicado por José Pereira Malveiro às 19:58

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