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Feira de Garvão

          A corredoura da feira depressa se enchia de gente, uns para comprar, outros para vender, outros admirando aquele espetáculo todo, eram ciganos a mostrar as dentaduras dos bichos e mesmo faltando-lhe dois dentes afiançavam que a besta só tinha dois anos.

          Eram bestas aos pinotes, cavalos a cocear, burros a zurrar, mulas aos coices, albardas de reboleta, cilhas partidas e no meio daquela poeirada toda emergia o cigano triunfante, com a melhor das bestas pela arreata, besta nunca vista naquela feira, nem dez contos de réis pagam este animal, assim recitavam frases repetidas sabe-se lá já quantas vezes. Ai homem atão não vê que o cavalo é da melhor raça, até pode montar o cavalo virado ao contrário, qu´ele continua a ir pr´á frente.
          As fazendas que vendem são sempre as melhores, não se rasgam, não se queimam, nem que lhe mandem petroli e lhe puxem fogo e se encurtarem depois do fato feito e lavado é porque o cliente cresceu, nem que já tenha setenta anos.
          Não negoceiam em barro cozido, mas as panelas de ferro, alumínio ou esmalte que vendem são sempre do melhor material, fabricadas no estrangeiro, numa terra onde custam mais do dobro, não se partem, não se furam, nem se amolgam, não podem é ir ao fogo muitas vezes.
          O cabedal das botas é do melhor e do mais fino, importado directamente da frância, faça chuva ou faça sol nada lhes pega, podem-lhe passar com um tratori ou um carro de bestas por cima que não se rompem, nem se estragam, é sempre a aviar, é só uma notinha.
           Nas roupas, plásticos e bijutarias é tudo da melhor marca, nem que sejam variações inventadas de nomes de marcas famosas, à camisola Lacoste falsa, para ser verdadeira só lhe falta o crocodilo que custa dez mil réis.

        Até já vendem carteiras anti-roubo que apitam quando se aproximam os carteiristas.

          Os Ciganos sempre foram uma presença na feira de Garvão desde que há memória, a sua chegada a Garvão, ter-se-á iniciado com a vinda destes primeiros povos para o Alentejo, onde o modo de vida errante, forçada ou por vontade própria, se tem mantido ao longo dos séculos.
           Tal como há umas décadas, ainda se deslocam em carroças e se reúnem em acampamentos, geralmente nos eucaliptos na periferia da feira, onde possam preservar a sua autonomia e manter a unidade familiar. Já não se encontram os tradicionais caldeireiros a trabalharem em cobre, os tachos e panelas, desde que há memória ganham a vida de volta do gado, negociando equinos, asininos ou muares. As mulheres continuam a ler a sina, nas mãos ou a deitar as cartas.
            Ciganas com as suas roupas coloridas, (quando não estão de luto), de vestuários ornados, de colares de contas e de abotoaduras metálicos, davam uma nova animação à feira, tingindo o ambiente com cores fortes e vivas, abordavam a população, principalmente as moças casadoiras, fazendo profecias na leitura de mãos.
            Os homens por hábito usavam chapéu, botas e calças usualmente de cotim ou fazenda semelhante, curta, muito justa ao corpo e colete e jaqueta, presas com cordão entrançado, ou, no vestuário dos mais abastados, adornada com botões de prata forrado de tecido e enfeitado com cordões em intricados desenhos, por onde passa o botão.
              À noite sentavam-se em redor de uma fogueira ao ar livre, em cima de fardos de palha comendo e bebendo e onde, na maior parte das vezes, cantavam ao som de uma viola, batendo palmas e dançando. É o espírito viajante, como feirantes e vendedores ambulantes.
             Vinham não só do Alentejo e Algarve, mas inclusivamente do resto do país e até de Espanha e durante os dias de feira, desenvolviam intensa actividade comercial, vendendo, trocando e comprando cavalos e éguas, burros e burras, bestas e machos, correndo na corredoura das bestas, no meio da poeirada levantada pelos cascos destas
           Mais do que romancear a cultura deste povo, os ciganos como o último povo nómada do mundo ocidental, têm, na maioria dos casos, sido rejeitados por uma sociedade que menospreza uma parte dos seus próprios cidadãos. Não só a falta de políticas de integração deste povo, mas fundamentalmente a desconfiança e rejeição do resto da sociedade, levou-os a optar por uma exclusão do modelo de sociedade onde vivem, vivendo à margem, rejeitando até há bem pouco tempo, na maioria dos casos, a cidadania.
         Esta ostracização, este fechamento sobre si próprios, permitiu até aos dias de hoje a continuação de usos e preceitos ultrapassados. Ainda é o mundo dos casamentos arranjados, onde as raparigas casam cedo, de preferência entre primos, onde se recusa a mandar os filhos à escola.
          Descendentes de um povo nómada originário do noroeste da Índia. Por volta do século X/XI começa a odisseia deste povo que a partir do delta do rio Indo, entre a Índia e o Paquistão, chegaram, nos séculos seguintes, praticamente a todas as partes do globo.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:15

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