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         Em 1908, no Archeologo Português, José leite de Vasconcellos, (1) menciona um busto em mármore, possivelmente de Agripina Menor, descoberto nos Franciscos e guardado no Museu Regional Rainha Dona Leonor, em Beja.

 

Na freguesia de Garvão, concelho de Ourique, na margem esquerda da ribeira dos franciscos, fica a herdade do mesmo nome, onde estive em Março de 1909.

Em volta do monte há grande quantidade de tégulas, de ladrilhos, de imbrices, em fragmentos, e alicerces de um edifício antigo que já estava soterrado, mas que tem sido várias vezes excavado pelos sonhadores de tesouros, à busca de riquezas. Disseram-me que apareceu lá um busto marmóreo que está hoje no Museu de Beja.

Haveria aqui uma povoação romana, ou simples villa? Só com excavações se poderá responder à pergunta. (2)

 

         Pela maneira como estão tratadas as pregas do vestuário e a comparação das dobras do manto, sobretudo as dobras no ombro esquerdo, leva a tecer comparações com os bustos conhecidos de Agripina Menor, por estas características e pela forma do busto, a peça pode datar-se da época de Cláudio(3).

        O busto está vestido com uma túnica e um manto caído sobre os ombros, as dobras das roupas superior e inferior são separadas umas das outras por furos profundos e a espécie de cunha na parte inferior do busto, servia para fixá-lo numa base.

1- VASCONCELLOS, José Leite. (1908). Antigualhas
2- Restos Romanos. O Archeologo Português, XIII, 1-6, Lisboa, p. 351-352.
3- Governou de 24 EC até 54 EC

 

     Na revista Cira-Arqueologia do Museu Municipal Vila Franca de Xira, surge-nos um artigo de Lídia Fernandes, (1) Arqueóloga, Museu da Cidade de Lisboa.:

     Também de Beja surge outra peça extremamente curiosa. Trata-se possivelmente de um busto encontrado em Garvão (Ourique) e encontra-se atualmente no Museu Regional de Beja (SOUZA, 1990, p. 14, nº 13) (Fig. 9).

     Esta peça conserva, talhado no tardoz, alguns pormenores do que poderá ter sido um capitel corintizante. Infelizmente não nos foi possível visualizar o exemplar, baseando-se o presente comentário na simples observação das imagens publicadas na bibliografia disponível sobre a peça.

     Desconhecemos, assim, se é possível o atual busto ter sido talhado sobre um capitel (14) ainda que, independentemente desta interpretação, o facto de esse lado da peça apresentar um motivo liriforme do tipo “duplo S”, leva-nos a aproximá-lo dos capitéis corintizantes que temos vindo a analisar. Este motivo liriforme é composto por duas hastes vegetalistas que se elevam verticalmente da base e que se enrolam na parte superior enquadrando duas rosetas. Estas parecem ter sete pétalas, de terminação circular e com botão central liso relevado.

     Outra haste enrola-se para o exterior, talvez acompanhando o alongamento do canto do ábaco, caso se tratasse originalmente de um capitel. No meio do kalathos três palmetas sobrepõem-se, ainda que a primeira se integre nas da imma folia. O busto é datado por Vasco de Souza da época de Cláudio (SOUZA, 1985, p. 97; 1990, p. 14, nº 13), apontando semelhanças estilísticas com um busto de Agripina Menor proveniente de Milreu.

     Parece-nos, no entanto, que tendo o busto sido talhado aproveitando o bloco do capitel, aquele será posterior a este. Datamos este exemplar corintizante do século II, ou de finais do século I, ainda que não consigamos precisar mais esta datação dado o desgaste da superfície e a inerente dificuldade em analisar os pormenores decorativos.

     Deste modo, o busto será posterior ou coevo dos finais do século I ou da segunda centúria, independentemente de se tratar ou não de um capitel reaproveitado, uma vez que a decoração que se observa se aproxima decorativamente daquele tipo de peças.

 

(1) Arqueóloga da Divisão de Museus e Palácios da Câmara Municipal de Lisboa. Responsável científica da intervenção arqueológica do Teatro Romano de Lisboa. Mestre em Histó[1]ria de Arte. 2 Gostaríamos d

 

(14) Não sabemos qual a largura da peça e por esse motivo é-nos impossível saber se de facto seria possível talhar o busto aproveitando um bloco onde, anteriormente se havia talhado um capitel. Vasco de Souza diz em relação a esta decoração vegetal do busto feminino sem cabeça que “O apoio com decoração vegetal parece indicar tratar-se de um retrato de mulher falecida” (1985, p. 97)

 

IN: Cira-Arqueologia I – ATAS MESA REDONDA “DE OLISIPO A IERABRIGA” nº 1. Junho 2012. Museu Municipal Vila Franca de Xira. P. 137.

 

publicado por José Pereira Malveiro às 12:17

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