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Siglas de Canteiro

          A ponte da Estação de Garvão, sobre a ribeira que vem da Aldeia das Amoreiras e de São Martinho, terá sido uma das mais importantes pontes da região, relevância que está directamente relacionada com a sua posição interior no território, no trajecto da antiga Estrada Real do Algarve e numa zona de transição da planície para a serra.
           Apesar da sua origem ser desconhecida, teremos de a contextualizar numa zona onde abundam os vestígios arqueológicos de várias épocas e onde, como se referiu, no caminho Norte/Sul. Terá sido objecto de beneficiação senão em épocas mais remotas, pelo menos em cronologias mais próximas.
           Sobre a antiguidade desta ponte, já foi mencionado, em artigo anterior,1 a sua possível identificação com a ponte referenciada na primeira representação conhecida do levantamento cartográfico do território nacional continental, por Fernando Álvaro Seco, publicado em Roma em 1561.
          Segundo Maria Fernanda Alegria,2 O mapa de A. SECO é extremamente rico na toponímia e na hidrografia, cita vários acidentes orográficos, deixa bem assinaladas as pontes sobre os cursos de água (embora não represente vias de comunicação).
            A povoação de Garvão, no referido mapa, surge entre dois cursos de água e apresenta na ribeira a poente uma ponte, a localização desta ponte a poente da vila, aponta para a ribeira da Estação de Garvão, precisamente no antigo trajecto da Estrada Real e onde se situa a ponte em questão.
           Numa fotografia que se encontra afixada no salão nobre da Casa do Povo de Garvão, apesar de não ter data, presume-se que seja de finais da década de 1930 ou da década de 1940, à semelhança das restantes fotos expostas e posterior à fundação das Casas do Povo nacionais pelo Decreto-Lei n.º 23 051 de 23 de Setembro de 1933, consta a legenda, A ponte sobre a Ribeira de Garvão-Amoreiras ao ser concluída, obra em cimento armado feita pela Casa do Povo local. Mostra um trabalhador, de costas, na parte superior da ponte em finais de construção, nomeadamente os passeios pedonais e respectivos balaústres laterais dos parapeitos, de facto construidos em cimento e presume-se armado, contudo as bases da ponte não são construidos no mesmo material, mas em pedra talhada.
         Segundo a tradição oral, nomeadamente a informação dada por Francisco Zacarias, (último Regedor de Garvão), a mencionada fotografia mostra obras de alargamento do tabuleiro para incluir passeios para a circulação pedonal, sobre uma ponte existente e cujo tabuleiro, estava degradado e a precisar de reparos.
          Numa observação à parte inferior da ponte, constata-se de facto a sobreposição, sobre uma ponte existente, dos suportes em “cimento armado” sobre os quais assentam os passeios pedonais. Pelo contrário, nas suas bases e pilares, nota-se que na construção dessas bases se empregou pedra lavrada em formato quadrangular no revestimento dos arcos, com as respectivas siglas de canteiro que se observam nos silhares, desde a sua base até aos que encerram os vários arcos.
            A existência destas siglas de canteiro, (das quais se reproduzem alguns exemplos), utilizadas principalmente durante a Idade Média, (entre os séculos V e XV) e a Renascença, (aproximadamente entre meados do século XIV e o fim do século XVI), sendo facilmente identificáveis em castelos, igrejas, palácios e pontes entre outras obras, serviam para identificar o autor da pedra talhada e este receber o devido pagamento, já que o trabalho era pago à peça e não ao dia, leva-nos a descartar uma fundação romana, nem se nota, nas suas bases qualquer reaproveitamento ou vestígios de fundações anteriores e sobre as quais, posteriormente teriam sido edificados os presentes pilares. (o ligeiro desalinhamento que se observa na base do pilar a Norte, não justifica uma interpretação diferente).
           Por outro lado, está ausente, igualmente, outros aspectos construtivos e opções arquitectónicas que caracterizam a construção de pontes romanas, nomeadamente os grandes silhares de aparelho almofadado e as habituais marcas de forceps, assim como esta ponte apresenta aspectos construtivos, pouco consentâneos com a tecnologia e arquitectura das pontes romanas, como, por exemplo, o tabuleiro pouco espesso, (não incluindo os mencionados passeios pedonais) e em cavalete, o grande vão dos arcos e a pequena dimensão dos silhares.
           As mencionadas siglas de canteiro, (a relação entre as marcas dos canteiros, ou dos pedreiros e a Maçonaria é outro assunto que se tentará tratar noutro artigo), em comparação com outras e a existência, até à actualidade, de um arruamento, diante da Igreja de São Sebastião e que atravessava a ribeira, possivelmente antes da construção da ponte, leva-nos a considerar a sua origem medieval ou pós-medieval, até que surja alguma informação mais precisa sobre a data da sua construção.
          Estruturalmente, compõe-se de três arcos de volta perfeita, com o arco central de maior amplitude composto por grandes e regulares silhares bem aparelhados e por aduelas de talhe perfeito, apresenta igualmente talhamares triangulares. Apesar da sua antiguidade e da coerência material das suas partes constituintes, não foi ainda objecto de um estudo integral, ou de um levantamento gráfico da estrutura que permita avaliar de forma concisa a sua antiguidade.

 

        1) https://garvao.blogs.sapo.pt/garvao-nos-primeiros-mapas-de-portugal-32146

       2)  Maria Fernanda Alegria, O povoamento a Sul do Tejo nos séculos XVI e XVII. REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS – GEOGRAFIA I Série, Vol. I, Porto, 1986, p. 179 a 206

publicado por José Pereira Malveiro às 12:11

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