09
Mai 19

E o livro de Virgínia Rau

          Actualmente a menção mais antiga que se conhece sobre a feira de Garvão, aparece no livro da Misericórdia e do Sagrado Espírito Santo de Garvão, onde surge uma petição ao paço, datada de 22 de Maio de 1734, para: lhes ser autorizado cobrarem o terrado aos feirantes para poderem prover para as despesas do hospital que são muitas e não têem rendimentos. Tendo sido autorizado, por D. João V, em 14 de Maio de 1740.
          Esporadicamente surgem notícias, sobre a feira de Garvão, nos livros das ordenações régias, na Torre do Tombo em Lisboa. Uma pesquisa, mais profunda, nesses livros iria trazer novos dados sobre esta feira.
          Contudo a falta de menção, sobre a feira em causa, no livro de Virgínia Rau, As Feiras Medievais Portuguesas, publicado em 1943, mas que continua, ainda hoje, a ser uma obra de referência, no estudo das feiras em Portugal, não implica que a feira de Garvão, não existisse nos tempos medievais.
          O estudo da autora está limitado aos séculos XIII, XIV e meados do século XV e incide essencialmente, sobre as feiras que tiveram cartas de feira régias, como menciona na página 59 da mencionada obra. Daí não mencionar as feiras existentes que não foram agraciadas com a carta de feira, ou que se vieram a constituír depois, como a feira de Castro Verde instituída em 1620.
       De facto, apesar do título bastante generalista, As Feiras Medievais Portuguesas, peca por se limitar às feiras consagradas nesses éditos reais e uma falta de estudo, nas diversas localidades que permitiria avaliar de uma forma mais concisa, os vários eventos mercantis que se realizavam de Norte a Sul do país.
         Não se justifica que no mencionado livro, no Baixo Alentejo, do século XIII ao século XV, só existissem seis feiras, Beja em 1261, Alvito em 1295, Moura em 1302, Borba em 1315, Ourique em 1288, (atribuída dois anos antes da própria carta de foral) e Alcácer em 1439 e no Algarve somente uma em Loulé em 1291.
          O que de facto estas datas indicam, é o ano da atribuição das cartas de feiras pelos monarcas, ignorando, a autora, todo o circuito mercantil que se operava no reino por esta altura, ou que não ponderasse sobre a evolução das normas e devidos eventos mercantis explanados nas cartas foralengas ou, até mesmo, na evolução dos as-souq muçulmanos para os açougues cristãos pós-reconquista.
          Esta interpretação por parte de alguns investigadores, de que não havia feiras em Portugal para além daquelas mencionadas por Virgínia Rau, ou que estas se limitavam às que a autora mencionou, tem induzido em erro a percepção da realidade socio-economica medieval, pelo menos no que se refere a estes concelhos do interior do país, como se alguns dos outros eventos mercantis em Portugal não fossem considerados feiras, ou que alguns dos mercados concelhios, não tivessem evoluido para certames de maiores dimensões.
          A actividade mercantil em Garvão, surge na carta de foral de 1267, tanto na protecção dos mercadores, como no capítulo das portagens a pagar pelos mercadores pelos produtos transacionados, assim como na carta de foral-novo de 1512. A diferença entre mercados e feiras nestes tempos era ténue e não se poderá ignorar a evolução destes primitivos lugares de trocas, nem a evolução histórica que se tem registado tanto nos concelhos, como no país.
          Devido ao valor a pagar pelas cargas de produtos, mencionadas na carta de foral, em dorso de cavalo ou de burro e à escassez da população, para tamanha quantidade de produtos, estes valores teriam de ser diluídos em eventos de grande afluência da população e forasteiros, não compatível com a realização de mercados diários, semanais ou mesmo mensais.
          A falta, na lista destas portagens, de produtos hortícolas ou de primeira necessidade, (trigo ou outros cereais para o pão, vinho, mel, etc), mostra igualmente que estes produtos estariam disponíveis à população numa base mais frequente, diária ou semanal.
          A referida petição, no livro da Misericórdia, de 1734, para a Santa Caza, cobrar o terrado da feira, justificava-se: (...) porque na dita Villa se fazia huma Feira, em aqual quando tivera principio senão puzera as pesoas que a formavão e hião vender suas mercadorias apensão de pagarem cada huma dellas asento, ou terrado como leva uso e costume pagarse nas mais feiras daquella vizinhansa (...) Fólio 3.
          Podemos assim entender que nos anos anteriores a 1734, já se realizava a feira em questão. A menção ao terrado, nesta altura, está em conformidade com o que se seguia no resto do reino, pois nem a autora Virgínia Rau menciona tal na sua obra, nem se encontra registos à cobrança do terrado ou terradego, antes do século XV/XVI, noutras feiras. 
          Assim a menção, aqual quando tivera principio, podemos entender como fundada antes da instituição da cobrança do terrado e a não inclusão no livro de Virgínia Rau, como uma feira à qual não foi atribuído carta de feira.
          Assim como existe registo para a fundação da feira de Castro Verde, (de facto transferida da feira de Santa Bárbara dos Padrões), também, se a feira de Garvão tivesse sido fundada, nesta altura de grande acervo documental, também estaria documentada.
      A actual feira de Garvão, terá evoluido, naturalmente, a partir das actividades mercantis e dos mercados concelhios que as cartas de foral nos dão indicações da sua existência e o que a singulariza, como sobrevivente desses tempos, é a componente pastoril/pecuária que a enforma e lhe dá vida.
        A centralidade geográfica da feira de Garvão no contexto pastoril/transumância do Campo de Ourique e temporal no final do ciclo mais fecundo do pastoreio, terá contribuido fortemente para a afirmação desta feira, senão foi, de facto, o motivo principal de ajuntamento de pastores, negociantes e população em geral.
          Se era na vila de Entradas que estes rebanhos transumantes, desde os séculos anteriores à nacionalidade, vindos das regiões montanhosas a Norte, faziam a entrada nestes pastos a Sul e se era na vila de Messejana que estava instalado o tribunal dos verdes montados para redimir as contendas, era na feira de Garvão, no final do ciclo pastorício que os pastores se reuniam para renovação dos rebanhos e os comerciantes e negociantes se abasteciam de carne.

publicado por José Pereira Malveiro às 00:40

28
Abr 19

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Click para ler o Jornal de Garvão nº 25 - JG25.pdf

 

publicado por José Pereira Malveiro às 12:46

07
Abr 19

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Uma fotografia que mexe com muitas emoções.

Não se sabe quem é, nem onde foi tirada e muito menos quem retrata, mas tem o poder de nos sensibilizar, de nos captar a atenção, de nos pôr a pensar.

A inocência de uma criança, descalça, a dormir nas pedras frias da rua encostada à mãe.

Uma mãe, meia descalça, aconchegando o bebé ao colo. 

Fotografia sem data. Produzida durante a atividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. As Juntas de Província foram criadas pela Lei n° 1945 de 21/12/1936 e substituídas pelas Juntas Distritais pelo Decreto-lei n.° 42536, de 28 de Setembro de 1959. Estas instituições, com longa tradição no ordenamento jurídico português, tiveram competências alargadas, embora variáveis ao longo do tempo, nos domínios do ensino, assistência social e obras públicas. CFT003 068419.ic Less Photo by Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian on flickr

https://www.pinterest.co.uk/pin/251709066645262208/

publicado por José Pereira Malveiro às 21:36

12
Mar 19

 

Bisavô  José Malveiro.jpg  Bisavó MARIA ANTÓNIA PEREIRA.JPG

          As fotos publicadas sobre a FAMÍLIA MALVEIRO em 1 de Junho de 2015, correspondem a José Malveiro e esposa Maria Antónia Pereira.
          Casaram em Garvão, dia 24 de Janeiro de 1885.
          Eram ambos Malveiros, por dois ramos diferentes, descendentes de António Malveiro casado com Leonor Lopes em 04-10-1692.
          António Malveiro e Leonor Lopes foram pais de Manuel Lopes Malveiro e outros.
          Manuel Lopes Malveiro casado com Perpéctua Jorge foram pais de António Malveiro casado com Tereza de Jesus, (ramo de José Malveiro) e de João Lopes Malveiro casado com Joana Guerreiro, (ramo de Maria Antónia Pereira) e outros.

(Ramo de José Malveiro)
          António Malveiro casado com Tereza de Jesus foram pais de Francisco José Malveiro e outros.
          Francisco José Malveiro casado com Joana Tereza foram pais de Maria do Espírito Santo e outros.
          Maria do Espírito Santo casada com João António Guerreiro foram pais de José Malveiro e outros.
          José Malveiro casado com Maria José foram pais de José Malveiro e outros
          José Malveiro casou com Maria Antónia Pereira, (primos em sétimo grau).

 

(Ramo de Maria Antónia Pereira)
          João Lopes Malveiro casado com Joana Guerreiro foram pais de Úrsula Tereza.
          Úrzula Tereza casada com josé Francisco foram pais de João Malveiro e outro.
          João Malveiro casado com Mariana Pereira foram pais de Mariana Pereira e outros.
          Mariana Pereira casada com António Custódio foram pais de Maria Antónia Pereira e outros.
          Maria Antónia Pereira casou com José Malveiro, (primos em sétimo grau)

         

          José Malveiro, nasceu a 15-10-1860 e Faleceu ou foi sepultado em 21-3-1940 com 80 anos.
          Maria Antónia Pereira, nasceu a 10/01/1866, e Faleceu em 4-9-1952 com 88 anos. (86 anos)

 

Foram pais de:
          António Malveiro, nasceu 24-2-1886. Faleceu em 6-8-1955. Casou com Emilia Casimiro, foram pais de Natividade Malveiro e Mariana Antónia Malveiro.

          Margarida Malveiro, nasceu 18-2-1888. Faleceu em 28-2-1906. Casou com Francisco Manuel, foram pais de Eugénio que faleceu com três meses.

          Luís Malveiro, nasceu 16-7-1890. Faleceu em 2-8-1962. Casou com Isaura Pires Raposo, foram pais de Graciete Malveiro, Domingas Pires Malveiro, Luíza Malveiro, José Luíz Malveiro, Artur Malveiro, Domingos Malveiro.

          Artur Malveiro, nasceu 9-5-1896. Faleceu em 27-3-1981. Casou com Domingas Maria, e foram pais de Margarida Malveiro, Maria Antónia Malveiro, Elisa Malveiro, Marilia Malveiro.

           Mariana Pereira Malveiro, nasceu em 5-7-1900. Faleceu em 26-7-1925. Casou com Serafim e foram pais de Odília Malveiro.

          José Malveiro, nasceu em 18-10- 1902. Faleceu em 28-1-1986. Casou com Maria Guerreira, foram pais de Maria Inácia Malveiro, José Malveiro, Manuel Malveiro, Ana Malveiro, Emília Malveiro.

          Maria José Malveiro, nasceu em 21-2-1906. Faleceu em 26-9-1981. Casou com Salvador Joaquim, foram pais de, José Salvador, Celeste Maria, Mariana Pereira Malveiro, António Damas Malveiro, Fernanda Malveiro e Ezequiel Malveiro

         

Colaboração e cortesia de: Beatriz da Costa Reis Rodrigues

publicado por José Pereira Malveiro às 22:17

27
Dez 18

Desafio de poetas em Garvão

          No livro Sul e Sueste, de Joaquim da Costa, de 1940, consta a vinda de um poeta da cidade, António Gomes Leal, para um desafio de poetas na vila.
          Segundo o mencionado livro, o encontro, realizou-se na hospedaria do Manuel Rosa e acompanhado de um farto jantar, onde o digno convidado, não se fazia rogado em elogiar as qualidades das meninas Rosas.
          Entre os vários presentes, encontrava-se João da Graça, conhecido poeta da vila, alfaiate de profissão que defendeu as cores da terra, nesta contenda poética.
            Aqui o poeta de Lisboa, depois de bem comido e bebido, voltando-se para uma das amáveis meninas Rosas, que serviam à mesa, recitou o seu soneto:

 

Alucina-me a cor! A rosa é como a lira,
A lira, pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a nupcia sagrada,
Entre a côr que nos prende e a nota que suspira.

 

Se a terra, às vezes, cria flor que não inspira,
A teatral camêlia, a branca enfastiada,
Muitas vezes no ar perpassa a nota alada,
Como a perdida côr de alguma flôr que expira.

 

Há plantas ideais, dum cântigo divino,
Irmãs de oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmezim...

 

A magnólea é uma harpa etérea e perfumada,
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensangüentada,
Tem notas marciais: soa como um clanim!

 

          Os aplausos coroaram o fecho do soneto. O vinho espumava nos copos e a alegria comunicou-se a todos os presentes.
         Chegou depois a vez do poeta João da Graça e dedicou os versos à filha por estar doente e vendo-a chorar, recitou :

 

Lágrimas vertidas
caídas
De uns olhos inocentes,
Não são lágrimas;
São estrelas cadentes,
Estrelas do céu desprendidas...

 

Cada uma delas
É mimosa flor
Que no meu peito se vem dispor

 

Hei-de cuidâ-las,
Hei-de regâ-las
Com igual pranto
Se o meu sentimento me chegar a tanto!...

 

         Estes versos causaram sucesso, os aplausos foram muitos e calorosos e finalizaram o desafio com um abraço entre os dois poetas.

publicado por José Pereira Malveiro às 22:18

          Surge no livro da Misericórdia e do Sagrado Espítito Santo de Garvão a denominação de um lugar denominado por Marateca, este lugar, segundo o mencionado livro, deveria situar-se junto à travessia da ribeira, senão fosse mesmo o lugar da própria travessia ou de alguma característica desse lugar, como se verá.
          Surge, assim, na folha 122 verso:
Traslado d'Escriptura de Confissaõ de Divida Com obrigaçaõ de paga de proprio, e juros da quantia de vinte quatro mil reis, (...) que fazem Diogo Mendes Lopes d'Azevedo, e sua Mulher Catharina Maria moradores nesta villa, (...) sendo no anno de mil outo centos vinte e seis, aos quinze de Settembro a quantia de vinte quatro mil reis metalicos a razaõ de juro de cinco por cento por tempo de hum anno (...) no dia trez d'Outubro de mil outo centos vinte e quatro, (...) em especial hum quintal com arvores manças sito junto ao Lagar do Azeite nesta villa, foreiro ao Conselho desta mesma em outenta reis, e parte do Norte com dito Lagar, do Nascente com Largo, do Sul com Marateca, e do Poente com terra do Conselho.
         O mencionado lagar de azeite, a qual parte do Norte, situava-se no actual Largo da Amoreira, nessa altura denominado por Largo do Lagar o qual parte do nascente, do Sul com Marateca, (seria a estrada que atravessa a ribeira) e no Poente com terras do concelho, (presume-se que seja, ou a própria ribeira ou algum talhão de terreno, como actualmente se observa a Norte da ponte).
          Sobre a palavra Marateca não se tem encontrado nos vários diccionários de português antigo, qualquer referência credível a esta palavra.
         Encontra-se uma designação de origem árabe: Marateca (Mar’a at-Taqia, mulher devota) e encontra-se igualmente uma lenda sobre uma moura raptada e que terá dito Mar-até-cá, quando chegou ao lugar actualmente conhecido por Marateca, no concelho de Palmela.
         Contudo a palavra Marateca, encontra-se amiúde na toponomia portuguesa, seja no Norte como no Sul do país.
          Todos eles têm em comum o facto de se situarem junto a cursos de água e mais concretamente com a actividade de recolha de materiais para construção, nomeadamente, areias e cascalhos.
          Julga-se assim que o leito da ribeira, antes do nivelamento e da cobertura das margens e do leito à base de cimento, como se observa actualmente, a chamada placa, permitia a recolha desses materiais, cujo acesso era facilitado pela falta de ponte cuja construção é do início do século XX, (existe memória de uma ponte em madeira para peões, mas o trânsito de cargas pesadas de tracção animal e carroças, fazia-se pelo leito da ribeira).
         Fazia-se assim a passagem entre as duas margens pela própria ribeira, cujo leito permitia a recolha das areias e cascalhos deixados pelas cheias invernais. Ainda nos anos sessenta do século passado, antes da construção, a Sul, da segunda parte do nivelamento da ribeira, junto à ponte do perú, no caminho para o furadouro, se observava a recolha de areão e burgau, pela população, para as mais variadas tarefas de construção.

publicado por José Pereira Malveiro às 11:11

14
Dez 18

CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
FINAL e MORTE
de JOSÉ JÚLIO da COSTA
Parte 12 (de 12)


          O “famigerado heroi do crime grande da estação do Rocio” morreu em 16 de Março de 1946, com a idade de cinquenta e dois anos, internado no Hospital Miguel Bombarda ao fim de vinte e oito anos de prisão, sem nunca ter sido acusado nem julgado do acto que vitimou Sidónio Pais.
          O que eventualmente poderia depor sobre o seu percurso de militância politica na capital, no período anterior ao golpe de Sidónio Pais, junto de companheiros que anos depois estavam nas fileiras da nova policia politica; os incitamentos e influências que o motivaram para cometer o atentado; os complots que se sucederam e culminaram na sua libertação pela “noite sangrenta”; quem o protegeu e sustentou durante os anos seguintes; o seu conhecimento sobre os tramas que se conspiravam nos bastidores dos partidos políticos; sobre as convulsões porque passou a República, comprometia muita gente que agora fazia fileira no novo regime do “Estado Novo”.
          De facto o depoimento de José Júlio da Costa em julgamento não interessaria a muita gente saída dos meios revolucionários pré Sidonistas e pós 28 de Maio e que engrossavam agora as fileiras do “estado novo”. Se a nova Assembleia Nacional 1 se enchia agora dos cabecilhas e dirigentes partidários recentemente convertidos ao novo regime: a nova tropa de choque; a polícia politica, os informadores e demais denunciadores saíram dos arruaceiros de rua que caracterizaram a primeira republica e que já Sidónio Pais tinha ensaiado na sua nova polícia politica.
          O diagnóstico de esquizofrenia interessava a todos e todos pactuaram com essa desculpa que justificava o seu aprisionamento sem ser julgado em tribunal e o impediu de divulgar o que sabia.
          Segundo João Paes, neto de Sidónio Pais 2 , “Ele foi protegido, sem sombra de dúvidas, é inconcebível que um assassino de um presidente da república não seja julgado, não seja condenado e posto simplesmente em prisão preventiva como se estivesse em banho maria á espera que se fizesse qualquer coisa”
          Fruto dos tempos, espírito arrebatado, assanhado ou encarniçado, José Júlio da Costa irradiava poder, perturbava espíritos, sublevava emoções e alimentava esperanças. José Júlio da Costa nasceu com o republicanismo entranhado nas costas, com a obsessão dum revolucionário dividido entre a mera existência e a auto-afirmação, entre a liberdade que advoga e a tirania que repudia, imagina-se como sendo ele próprio o salvador, numa escalada mental que o leva à auto-alineação.
          Mas poder-se-á ignorar a sua capacidade intelectual? Não estaria de facto letrado nas obras de autores como Tolstoi, Darwin, Nordau, Teófilo Braga, Buchner, Kropotkine, Malatesta ou Sebastião Faure? Poder-se-á ignorar o seu percurso de combatente republicano e descarta-lo como louco? Afinal pela implantação da Republica não estava ao lado de Machado Santos, na Rotunda, com apenas dezasseis anos? Não foi afinal como voluntário combater a rebelião em Timor em 1911? E os Alemães em Angola em 1914? Não se ofereceu inclusivamente para combater na Grande Guerra? Poder-se-á igualmente ignorar os contributos que deu como militar e civil para a consolidação da Republica? Afinal o que será preciso para alguém ter o reconhecimento devido? Com um percurso destes, na sua mente, claro que se pode dizer que se sentia mandatado para eliminar os traidores à «sua» Republica.
          A morte grande da Estação do Rossio ficará para a história como um acto violento perpectuado contra o presidente da República da altura, mas poderia este caso ter acontecido sem a degradação moral, política e das instituições a que chegou a sociedade portuguesa? A primeira República será recordada como um período de governos instáveis e efémeros, de golpes violentos, de forte bulício político e extremação de emoções partidárias que permitiu o surgimento tanto de ditadores como de vingadores.
          José Júlio da Costa, preso, desesperava pela revolução que lhe quebraria as amarras da prisão e o colocaria no mais alto pódio dos heróis nacionais; por ter livrado o país de um ditador; por devolver o governo aos democráticos; por ter apressado o retorno dos militares que lutavam em França durante a Grande guerra, por tudo isso e muito mais, não viu o seu feito ser projectado para o patamar do reconhecimento nacional.
          José Júlio da Costa poderá não ter o devido reconhecimento que esperava, mas também não se poderá ignorar o cariz do ditador que abateu, se Sidónio Pais inaugurou a génese de um sistema politico que caracterizou o século XX, com as graves consequências por demais conhecidas, então também o gesto épico de José Júlio da Costa e o seu lugar na história terá de ser reconhecido.


In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018.

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publicado por José Pereira Malveiro às 06:50

11
Dez 18

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Em forma de mó
          A Coluna “Romana” que se encontra na travessa do Álamo, não constitui o único vestigio de interesse arqueológico que se encontra nas ruas da vila, tempos houve em que outra coluna se encontrava na rua das hortas, pedras de cabeceira de sepulturas nos quintais junto ao castelo, pedra mármore junto ao cemitério velho, outra pedra mármore num quintal da travessa do Álamo, entre outras como a que a seguir se relata.
          Junto à porta da loja do Sr Conduto, loja de roupas e chapelaria nos anos sessenta do século passado, na rua Direita, à esquina da ladeira que dá para a ribeira, estava uma pedra redonda em forma de mó, de grandes dimensões, branca, possivelmente de calcário ou de mármore.
          As suas dimensões não correspondem ao tamanho das pedras de mó conhecidas, demasiado larga, alta e pesada para tal função, terá de se procurar a sua utilização noutra actividade.
          Desconhece-se igualmente quanto tempo lá esteve ou quem para lá a levou. Terá sido descoberta no local onde se procedeu posteriormente à construção que lá se observa? Terá sido para lá levada para ser partida e utilizada na própria construção? Terá vindo de algum outro lugar, mesmo de algum lagar antigo, como o lagar de azeite que se encontrava no Largo do Lagar? (hoje Largo da Amoreira). São questões que obviamente se desconhece e sem ser devidamente examinada também se desconhece o seu valor patrimonial e histórico.
          A pedra foi eventualmente deslocada, ladeira abaixo e hoje encontra-se incorporada na parte lateral da ribeira, a nascente, entre a actual ponte pedonal e a última casa do lado esquerdo.

publicado por José Pereira Malveiro às 20:14

08
Dez 18

Guedelhas e Levis
          A menção a uma comunidade judia em Garvão remonta ao princípio da nacionalidade e segundo Mayer Kayserling, esta presença era mesmo anterior à reconquista, pois na sua História dos judeus em Portugal, do século XIX, menciona que D. Afonso III e D. Diniz nos foros que concederam ás terras arrebatadas aos Mouros após a conquista do Algarve, não excluiram os Judeus e as terras onde viviam em grande número como em Garvão. Volta a mencionar, no mesmo livro, que a comunidade de judeus em Garvão se encontrava entre as mais importantes do reino.
         Pela sua afluência à feira de Garvão ou pelas suas andanças pela Estrada Real do Algarve,  mantiveram-se, como comunidade ciente da sua origem, até praticamenteo ao século XX, havendo conhecimento actualmente de descendentes destas famílias ainda a residir na vila de Garvão.
          A Carta de Foral de Garvão de 1267, menciona, em várias cláusulas, leis referentes aos judeus, nomeadamente os que se dedicavam ao empréstimos de dinheiro, Os Onzeneyros.
         A família Guedelha, era uma família muito antiga de Judeus em Portugal. Em 1304 D. Dinis concedeu a D. Guedelha, sucessor de seu pai no Arrabiado-Mor do reino e tesoureiro da rainha mãe D. Brites, 2 torres em Beja para que fizesse casas. Outros elementos da família Guedelha distinguiram-se, também, em várias áreas e em várias épocas ao serviço dos reis de Portugal.
          Surge igualmente, num livro da Santa casa da Misericórdia da vila de Garvão, um indivíduo de nome Gadelha, a partir do ano de 1769, de nome completo Manuel Guerreiro Gadelha morador no Monte Zuzarte. Ainda residem em Garvão, familiares de um indivíduo chamado João Gadelha falecido por volta de 1930.
          Sobre a presença de famílias de nome Levi em Garvão, chegou-nos a informação(1) de um Levi José Camacho, filho de José Camacho e de Luísa Maria Botelha, (casaram em 1814), casado com Isabel Maria que foram pais de João Levi Camacho, de São Martinho das Amoreiras, que casou com Leonor Malveiro, de Garvão. Tiveram dois filhos, uma filha de nome Maria cujo padrinho foi Manuel Levi Camacho, (possívelmente irmão de João Levi Camacho), e um filho de nome Beijamim. Descendentes da famíia Camacho ainda residem em Garvão
          Levi José Camacho foi ainda padrinho de Constança, nascida a 2/3/1895, filha de Margarida Malveiro e de outro individuo de nome Levi, filho de Mariana Candeias, nascido pela mesma altura.
          Tanto os nomes de família Guedelha, Levi e Benjamim são comprovadamente de origem hebraica.
         Gedalia, Gedaliah ou Gedaliahu significa "D’us é grande". Na Torá, Gedaliah foi o governador da Judéia, designado por Nabucodonosor.
         Levi, significa "reunido a", ou "atendente de" com a conotação de devoção, amizade. Levi na Torá era o terceiro dos doze filhos de Yaacov. A mãe era Leah. Os descendentes de Levi eram os sacerdotes e levitas que serviam no Templo de Jerusalém.
         Benjamim, significa "filho de minha mão direita", com a conotação de força. Benjamin era o mais jovem dos doze filhos de Yaacov na Torá.

 

1 - Cortesia de Beatriz Rodrigues

publicado por José Pereira Malveiro às 22:17

04
Dez 18


CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
SEGUNDA PRISÃO
Ou o Resgate em 1927
Parte 11 (de 12)

        

          José Júlio da Costa só em 14 de Janeiro de 1927, sexta-feira, volta a ser preso, em Matosinhos, no hotel Central, onde se encontrava protegido pelo proprietário Alberto Midões, em circunstâncias ainda não plenamente esclarecidas, por António Maria Fernandes, funcionário público, apoiante de Sidónio Pais e sidonista convicto. José Júlio da Costa volta à Penitenciária de Lisboa de onde só sairá para o hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, aonde viria a falecer em 28 de janeiro de 1948.
          António Maria Fernandes não seria um obscuro funcionário público, como os jornais da época fizeram crer, seria um dos muitos que Sidónio Pais aliciou para as suas fileiras, nomeadamente para a sua Policia Preventiva. O seu percurso coloca-o no meio dos círculos revolucionários que agitavam o país antes de Sidónio, de facto António Maria Fernandes era conhecido de José Júlio da Costa e andaram pelos mesmos círculos do desassossego politico.
          O jornal “O Século”, de 16 de Janeiro de 1927, relata “O senhor António Maria Fernandes, funcionário público, é aquele indivíduo que, na noite de 19 de Julho de 1925, fardado de capitão, subiu para bordo do “Vasco da Gama”, acompanhando o comandante Mendes Cabeçadas, a fim de revoltar a guarnição daquele barco”. Ora não será um reles funcionário publico que tem acesso directo ao ministro, nem muito menos veste a farda de capitão e subleva a tripulação dum navio com o futuro primeiro-ministro, (Presidente do Ministério).
          A sua actuação só se compreende dentro dum quadro politico em que alguns membros dos grupos de civis armados ao serviço dos partidos, inclusivamente da carbonária e da Formiga Branca, tenham feito a passagem, como muitos outros, para a nova policia politica.
          As circunstâncias da iniciativa de tal prisão, não estão cabalmente esclarecidas. Era certo que com a mudança política os apoios que o sustentaram esses anos todos, começaram a rarear. Era certo, igualmente, que as ajudas familiares se tornavam insustentáveis devido à falta de rendimentos provenientes das propriedades da esposa, vendidas anteriormente e cujas receitas José Júlio da Costa já há muito tinha desbaratado e, às dificuldades financeiras da restante família. Terá de se entender que tal inciativa terá sido o resultado de um aglomerar de circunstâncias a que o próprio José Júlio da Costa e respectiva família não eram alheios.
          Assim, por ordens superiores ou por iniciativa própria e combinado com os familiares de José Júlio da Costa e com o conhecimento deste, António Maria Fernandes munido de um salvo-conduto que o permitia requisitar as forças da ordem, parte primeiro para Garvão e Algarve e, seguidamente, acompanhado por um irmão de José Júlio da Costa, para o Norte onde viria a efectuar a prisão, segundo a versão da imprensa na altura, ou o resgate, segundo a opinião de alguns familiares que o aconselhavam a entregar-se.
         O jornal O Século de 16 de Janeiro de 1927 relata que: várias pessoas da família o aconselharam a que se entregasse à prisão, e que este se recusava com medo de represálias, tudo leva a crer que, com a mudança política e uma vez dissipadas essas dúvidas, esperaria pela libertação, como parece ser pelo facto de não se ter ausentado do lugar habitual e das características da sua captura.
          Esta acção, planeada dentro do círculo familiar, procurou tranquilizar o fugitivo de que não iria ser preso e alguém seu conhecido e da sua confiança o iria buscar e proteger, acompanhado pelo irmão. Esta nova oportunidade, catapultada pela nova dinâmica política, aliada à saturação dos anos em fuga, (e das dificuldades financeiras), terá sido a força fulcral, aproveitada pela família, para o convencer ou combinarem a sua captura e resolução da sua situação.
         José Júlio da Costa ao ver António Maria Fernandes, quando este o foi “prender” terá exclamado, “obrigado Fernandes por me vires buscar que eu estava farto disto”.
          De facto o seu regresso a Lisboa fez-se sem qualquer das características que caracterizam um preso, falta de algemas, falta de prisão por policiais, limitou-se a acompanhar o captor, convencido em como não estava a ser preso e seria solto ou levado para outro lugar seguro como acreditava.

 

In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018.

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publicado por José Pereira Malveiro às 21:15

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