07
Fev 20

Festas e Bodos da Irmandade do

Sagrado Espírito Santo

         

          A origem das Festas populares que se observam em vários pontos do país, tanto nos meios urbanos como nos meios rurais, apesar de na maior parte dos casos se ter perdido a sua origem e hoje bastante desvirtuados e adulterados, conseguem-se identificar, na maioria, com as festas medievais consagradas ao culto do Espírito Santo, realizadas sete semanas depois da Páscoa, no Domingo de Pentecostes. (1) 
          As Festas do Espírito Santo, promovidas pela respectiva confraria, caracterizam-se pela cerimónia dos Impérios do Divino Espírito Santo que culminava na confeção de um enorme "Bodo", refeição comunitária de assistência aos mais carenciados.
          A carne para este "Bodo" provinha da morte de um touro, previamente toureado pelas ruas da povoação, para diversão da população e não só era distribuída pelos mais carenciados, como, inclusivamente, servia para confecionar um enorme banquete em que toda a população participava.
           Estas festas, reflectiam o compromisso entre a população e o divino, a falta destas festas/cerimónias, levava-os a recordar anos, em que estas se não fizeram, para catástrofes naturais, como tempestades, trovoadas, ciclones, secas, ou pragas de lagartas ou de gafanhotos que dizimavam as colheitas e infestavam os celeiros, conforme o fólio vinte e dois do livro do Sagrado Espírito Santo e da Misericórdia, nos elucida sobre as pragas de gafanhotos.

(…) nem poderião alegar os ditos
foreiros anno de esterilidade,
nem de gafanhotos (…)

         O medo do castigo divino comprometia toda a comunidade e estes festejos, com a oferta de comida á divindade e a respectiva distribuição pelos pobres, procurava a protecção das colheitas agrícolas, das catástrofes naturais e a salvaguarda dos celeiros, das pragas de formigas ou ratos.
           As festas eram como um agradecimento de uma promessa cumprida, pelas colheitas dos anos anteriores e uma prece de protecção, para os anos vindouros.
           As tradicionais Festas populares que se observam de Norte a Sul do país, terão, na sua maior parte, origem nestas festas do Espírito Santo. Surgem nos documentos medievais, praticamente em todos os concelhos, referências a estas festas, nomeadamente em; Tomar nas Festas do tabuleiro; em Barrancos; nos Açores e no Penedo em Sintra onde a tradição do Espírito Santo ainda se mantém viva; em Portel e em muitas outras povoações de Norte a Sul do país, assim como em vários outros países, levado pelas várias comunidades de imigrantes, nomeadamente no Brasil e Estados Unidos da América.
            Em Tomar realiza-se a tradicional Festa dos Tabuleiros de quatro em quatro anos, no princípio de Julho, a qual atrai á cidade muitos turistas nacionais e estrangeiros. Esta Festa tem como origem o culto do Espírito Santo instituído no séc. XIV.
          Os tabuleiros com o pão que as participantes carregam à cabeça, são adornados com os elementos típicos das antigas festas das colheitas e da celebração da fertilidade da terra, flores e espigas de trigo, e encimados pela Cruz de Cristo ou pela Pomba do Espírito Santo. Depois do cortejo faz-se a distribuição da carne, do pão e do vinho, benzidos no dia anterior, pelos mais necessitados da cidade.
          A antiga tradição do sacrifício dos bois, cuja carne seria depois distribuída por todos, (como acontece ainda no Penedo/Sintra, após a tourada à corda), manteve-se na Festa dos Tabuleiros, em Tomar, até 1895, a partir de 1966, os bois do Espírito Santo voltaram ao cortejo, mas agora só com funções simbólicas.
          As festas tradicionais de Barrancos, com a largada de touros no largo principal desta vila alentejana e a exigência da morte do touro, durante a garraiada, é justificada pela tradição da distribuição de carne pela população num enorme banquete, e é com base precisamente nestas tradições que muitas vilas alentejanas se arreigam do privilégio de também matar o touro durante a tourada, tendo como justificação as mesmas tradições da distribuição de carne aos mais necessitados.
          Em Garvão, assim como noutros lugares, apesar da data da realização das festas, possivelmente já não coincidir com a data primitiva, e apesar de já não se fazer o bodo ou de tal haver lembrança, as festas de Garvão apresentam características próprias destas festas ao culto do Espírito Santo. A ideia principal mantém-se que é reunir o povo para a festa anual e a largada nas ruas da vila.

           Há notícias destes festejos de Norte a Sul do país, nomeadamente em Portel no Alentejo.

(…) dá mais jantar esplêndido à pobreza em dia do Espírito Sancto, e ração de pão e carne a todos os moradores pobres da villa a quem conciderão necessitados.(2)

           Na povoação de São João da Lampas, no concelho de Sintra, existe também notícias destes festejos.

A sua origem estará certamente relacionada com a instauração das Festas em louvor do Divino Espírito Santo pela Rainha Santa Isabel. Diz-nos João da Silva Marques, no decurso da sua aturada recolha documental: “A Instituição desta usança remontaria, assim, a uma data posterior a 1287, data da doação de Sintra à Rainha, e anterior a 1336, ano da sua morte” (Marques, 1938). Tal facto relacionar-se-ia com a autorização da monarca para a realização das ditas festa no interior dos “seus” paços na Vila de Sintra, difundindo a partir de então esta prática para as paróquias rurais.(3)

          Igualmente em Alvalade, distrito de Beja, surge a notícia de “O Bodo de 1943”(4)

O Bodo foi também tradição secular em Alvalade, que se cumpria a partir da Capela do Espírito Santo (instituída na segunda metade do séc. XVI), situada na Praça D. Manuel I no local onde hoje está a residência dos herdeiros do lavrador Ilídio, assim conhecido na terra.
A festa anual do Divino Espírito Santo decorria sempre de forma solene e muito participada, sendo a distribuição do Bodo um dos seus momentos altos e que consistia na distribuição de alimentos aos pobres ou remediados, a que por vezes se juntava algum dinheiro. Para o Bodo contribuíam os lavradores e proprietários mais abastados da terra, oferecendo farinha, feijão, vinho, reses, etc.

 

1) - No antigo calendário Israelita a Festa das Colheitas - no hebraico hag haqasir - recebeu o nome de Pentecostes a partir do domínio Grego. Estas festas das colheitas teriam a sua origem noutros povos do Mediterrâneo Oriental, nomeadamente os Cananeus, povo que cultivava os férteis vales de Canaã quando da chegada dos pastores semi-nomadas Hebreus.

2) - Francisco Macedo da Pena Patalin, na sua Relação Histórica da Vila de Portel, edição de 1730.

3) - Catarino Coelho, José Lourenço Gonçalves, A Ermida do Espírito Santo (Sintra): intervenção arqueológica realizada em 2001, in: Revista Portuguesa de Arqueologia. Volume 6, número 2, 2003, p.521-544

4) -  Luís Pedro Ramos. In: https://www.alvalade.info/o-bodo/

publicado por José Pereira Malveiro às 21:50

22
Jan 20

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Pia Baptismal da Igreja do sagrado Espírito Santo e Parede da dita Igreja incorporada na parede do Cemitério Velho.

           

               É prática ancestral na civilização cristã, deixar ao cuidado da religião a tarefa dos ritos funerários, cabendo-lhe não só cuidar do espírito mas também tratar do destino do corpo. Coube sempre à igreja cuidar da alma, ao mesmo tempo que dava destino aos restos mortais dos defuntos. Uma coisa era inseparável da outra, pelo que orando pela alma, enterrava os mortos no perímetro dos espaços sagrados, quer no interior dos próprios templos, para as classes mais privilegiadas, quer nos espaços adjacentes, claustros, jardins e adros.
          Contudo, independentemente dos rituais funerários e das rezas pelo destino das almas dos defuntos, a disposição dos corpos em condições deficientes nos adros das igrejas, sempre foi problemática. As pestes frequentes a que se assistia na idade média, são um exemplo dos efeitos mortais que os mortos poderiam ter sobre os vivos. Não era somente os corpos dos justiçados por morte perpétua que ficavam a balançar na forca por tempo indeterminado, eram igualmente os corpos em decomposição junto às igrejas, ou mal enterrados ou por falta de espaço.
           Nesse sentido, no seguimento das várias reformas executadas pelo regime liberal no século XIX, foi publicado o decreto de 21 de Setembro de 1835, por razões de salubridade pública, veio determinar que em todas as povoações do reino, serão estabelecidos Cemitérios Públicos para nelles se enterrarem os mortos, fóra dos limites das Povoações, para o que as Camaras Municipaes designarão os terrenos nas requeridas circumstancias para nelles se estabelecerem os Cemiterios.
           Como consequência desta mudança de práticas, foi publicado o Decreto de 16 de Setembro de 1844, que veio organizar a Repartição da Saúde Publica, passava a ser expressamente prohibido enterrar os mortos dentro de qualquer Igreja, ou Capella da Freguezia, ou Concelho, onde houver Cemiterio publico, como passava a ser igualmente prohibido fazer o enterramento de cadaveres fóra do Cemiterio publico depois de estabelecido e benzido.
             Assim, por razões de salubridade pública, a partir de 1835 o destino final dos despojos do corpo, passou a ser tarefa pública, a cargo dos municípios e deixou de ser tarefa a cargo da Igreja, contrariando os ancestrais ritos e práticas costumeiras.
             Estas alterações, com proibições de enterrarem os familiares em solo sagrado e a obrigatoriedade de enterramento nos novos cemitérios públicos, (pagando as devidas taxas), estão precisamente na origem da revolta da Maria da Fonte e, na sua sequência, a guerra da Patuleia, únicas revoltas verdadeiramente populares em Portugal, em que as populações armadas com alfaias de trabalho, (foices, machados, paus, alavancas, espingardas e com tudo quanto eles pudessem apanhar), procuravam o derrube do governo, inclusivamente da Rainha, e a mudança dos lideres políticos com o fim do regime liberal.
          Estas transformações pouca influência tiveram no quotidiano da população de Garvão, ou por habilidade política, ou por conveniência prática, a população continuou a enterrar os seus mortos em solo sagrado e no mesmo lugar.
          Em Garvão, em vez de se construir um novo Cemitério, optou-se por derrubar a igreja e continuar os enterramentos no mesmo lugar. A igreja do Sagrado Espírito Santo que se situava neste lugar, devido à falta de obras desde 1763, como consta no Livro da Misericórdia e da Irmandade do Espírito Santo, estaria degradada e em ruínas, algumas das suas paredes foram inclusivamente incorporadas, como ainda hoje se observa, no muro que circunda o Cemitério Velho.

publicado por José Pereira Malveiro às 20:59

21
Jan 20

         

IMG_6768.jpg porta da Igreja de Montoito.jpg

Entrada do Cemitério Velho cujas cantarias se julga serem da igreja do Espírito Santo e porta da Igreja do Espírito Santo de Montoito com cantarias similares.

 

 

             Existe uma tradição cultural desde a pré-história que se perpetua no tempo, referente aos locais onde são levantados os monumentos sagrados, com exemplos em várias localidades. Esta tradição tem mantido os locais de culto, independentemente da religião cultuada, no mesmo lugar ou próximo deste. Temos assim assistido à sobreposição de vários credos religiosos no mesmo edifício.
          Abundam os exemplos da cristianização de lugares sagrados pré-cristãos, nomeadamente a Srª da Cola na freguesia de Ourique onde se veo a edificar a igreja actual, e o Santuário de Endovélico, onde foi fundada a capela de S. Miguel da Mota, entre outros. O padrão seguido foi muito idêntico em várias localidades, primeiro encontramos um assentamento do tipo castrejo, depois seguiu-se uma assimilação romana, seguida pelos Visigodos e com a ocupação Árabe, do século VIII até ao século XIII, em Portugal, foram islâmicas,. A um lugar sagrado pré-cristão, sucedia uma igreja, a esta igreja, com a ocupação muçulmana, sucedeu uma mesquita e novamente uma igreja com a reconquista cristã.

          Em Santarém, a mesquita da alcáçova parece ter sido substituída pela Igreja de Santa Maria, e é possível que na medina a Igreja de Santa Maria de Marvila estivesse em lugar da mesquita principal; em Lisboa, existe indicação da mesquita ter estado no sítio onde mais tarde foi construída a Igreja de Santa Maria Maior, a Sé; em Elvas, na alcáçova, sucede à mesquita da alcáçova a Igreja de Santa Maria da Alcáçova e à mesquita da medina a Igreja de Santa Maria dos Açougues; em Alcácer do Sal, a Igreja de Santa Maria, no espaço da medina, terá sido edificada sobre a mesquita maior; em Mértola, a Igreja Matriz ou Igreja de Santa Maria é resultante da mesquita; em Lagos, no sítio da mesquita construiu-se a Igreja de Santa Maria da Graça ou Santa Maria Mayor arruinada com o terramoto de 1755; em Tavira, sabemos que a mesquita maior foi antecessora da Igreja de Santa Maria do Castelo; e em Faro, a mesquita maior dá lugar à Igreja de Santa Maria de Faro.(1)

           No que concerne à vila de Garvão e mais propriamente ao lugar onde ficava situada e ainda se observam as ruínas da igreja do Sagrado Espírito Santo, junto ao Cemitério Velho, no cimo da Ladeira do Padre, este local, pelo tipo de vestígios encontrados, apresenta indícios de cultuação de um período anterior à cristianização.
             Não só a localização do Deposto Votivo da 2ª idade do ferro, indicador de um templo pré-cristão, fica relativamente perto, como inclusivamente há indícios que o próprio templo fique neste local, tendo em consideração o surgimento, em quintal particular, de uma estrutura cujos paralelismos com templos no oriente Mediterrânico é indiciador da sua funcionalidade cultual.
        Sobre o estado de abandono desta igreja, dois eventos, embora separados temporalmente, contribuíram para a sua degradação. Primeiro foi a rivalidade entre a Irmandade do Espírito Santo de Garvão e a Santa Casa da Misericórdia de Garvão, ou melhor a usurpação dos bens da Irmandade pela Misericórdia e uma vez desprovida de rendimentos, a impossibilidade da Irmandade prover para as obras na referida igreja.
             No fólio trinta verso do Livro da Misericórdia e do Espírito Santo,(2) com a data de Dezembro de 1763, desenvolve mais um episódio, entre outros, da disputa entre a Irmandade do Espírito Santo, detentora de várias propriedades e a Santa Casa da Misericórdia, ambas desta vila, que, animada de proteção régia, tentava assenhorar-se dos bens da Irmandade.

             (…) aprezentando lhe o Mordomo do ditto Hospital os livros da Reseita e despeza que na ditta Caza haviaõ lhos naõ quizera restituir entregando as ao Prior para governar a referida confraria fazendo suspender as obras que a Irmandade da ditta Caza trazia em reparos da Igreja (…)

          Terá sido a partir desta data que a Irmandade do Espírito Santo, desprovida de propriedades e receitas deixou de poder fazer os devidos reparos e à Misericórdia pouco interessaria manter, em arranjos e despesas, uma igreja duma confraria rival.
              O segundo acontecimento que ditou o fim desta igreja, aconteceu no século XIX, durante a revolução liberal, nomeadamente a lei que proibia o enterramento dos defuntos no adro da igreja e a obrigatoriedade de enterramentos nos novos Cemitérios Municipais, e como consequência da falta de reparos nesta Igreja desde 1763, esta devia de se apresentar por esta altura bastante degradada e optou-se pelo derrube do que restava da igreja e fazer o Cemitério neste lugar, só se aproveitando algumas paredes e possivelmente as cantarias da porta(3) no muro que circunda o referido Cemitério, conforme se observa ainda hoje.

 

1 -  Mafalda Sampayo. O modelo urbanístico de tradição muçulmana nas cidades portuguesas, séc. VIII-XIII. Tese de Mestrado em Desenho Urbano, ISCTE-IUL, Lisboa. 2002. P. 334.

2- Este livro, da Irmandade do Sagrado Espírito Santo e da Santa Casa da Misericórdia de Garvão, com a data mais antiga de 1609, Foi entregue pelo Sr Augusto Loução Martins à Junta de Freguesia em 1974.

3 - Pela comparação com as portas de outras IgrejaS do Espírito Santo, ainda em vigor, aponta para que as cantarias da porta do Cemitério Velho, tivessem sido as da entrada da referida igreja.

publicado por José Pereira Malveiro às 22:22

14
Jan 20

Imagem 2.jpgPB230238.JPGEst Besteiros.jpg

 

          O local onde se situa o Cemitério Velho, (velho, em relação ao Cemitério Novo, inaugurado em 1937), no cimo da Ladeira do Padre, tem, pelos achados arqueológicos encontrados, sido o local de enterramento dos defuntos desde tempos remotos.
       No período anterior à reconquista cristã, apesar dos vestígios encontrados apontarem para uma presença de populações em Garvão, os indícios sobre a inumação dos corpos neste local ainda não produziram evidências, para que se possa afirmar, com alguma certeza que este lugar já servia para o enterramento dos defuntos, no período anterior à nacionalidade.
            Apesar das raras sondagens arqueológicas confirmarem uma presença dos vários povos e civilizações que precedeu a reconquista cristã. Principalmente uma presença romana e muçulmana, (composta por vários povos, Árabes, Berberes, Egípcios e Iemenitas entre outros) e observando-se uma continuidade habitacional, também podemos aferir numa continuidade na inumação dos corpos em volta deste local.
           As datas das poucas pedras de cabeceira dos túmulos que ainda se encontram, apontam para os enterramentos dentro dos muros do Cemitério para o século XX, contudo as circunstâncias em que este Cemitério se veio a constituir neste local, aludem também para enterramentos desde o século XIX.
           No exterior do recinto amuralhado, quando se procedia ao nivelamento de terras, encontrou-se algumas estelas medievais que leva a concluir pela inumação de corpos igualmente fora dos muros do Cemitério e num período anterior à construção deste.

         Estas estelas, ou cabeceiras de sepulturas, de caracteristicas medievais, encontram-se associadas ao enterramento dos defuntos nos adros das igrejas, como era costume no mundo cristão antes das alterações provocadas pela revolução liberal no século XIX.

          As necrópoles nos adros das igrejas, com as suas estelas, ou seja no interior do espaço urbano por vezes amuralhado, corresponde a inovação da autoria dos conquistadores cristãos (...).1

          Assim em Garvão e neste local as estelas encontradas extra-muros, correspondem aos enterramentos no adro da Igreja do Sagrado Espírito Santo, cujos restos arquitetónicos do edifício, ainda se encontram incrustados na parede do dito Cemitério.

          De facto, também podemos concluir que os maiores conjuntos de estelas agora estudadas, provêm de sítios que tiveram grande importância nos períodos sob administração romana e muçulmana, conforme aconteceu com Aljustrel (Metallum Vipascense), Mértola (Myrtilis, Martula), Moura (Arucci), Garvão (Arandis) e Serpa (Sirpens), existindo continuidade de povoamento entre aqueles tempos e os da presença cristã da Idade Média.2

         Devido à lei, introduzida durante o regime liberal num período conhecido por Cabralismo em 1842, que proibia o enterramento nos adros das igrejas e a obrigação de construção de Cemitérios Camarários. Em Garvão, devido ao estado de degradação da Igreja do Sagrado Espírito Santo, optou-se por destruir o que restava da mencionada igreja e amuralhar o recinto adjacente, incorporando, inclusivamente algumas paredes dessa igreja na estrutura do Cemitério, conforme ainda se pode observar nos respectivos muros que circundam o mencionado Cemitério.
          Podemos assim aferir, até que as devidas investigações arqueológicas nos deem maiores certezas, que a construção do Cemitério Velho se realizou no seguimento desta lei, assim como os respectivos enterramentos.
          Nota-se igualmente que a construção deste Cemitério se observou em duas fases. Uma inicial em torno do lugar e dos restos da referida igreja e outra posterior como se observa pelas paredes que o rodeiam. Poderemos, igualmente supor que esta segunda fase construtiva se terá processado durante um período de maior mortalidade observada na população, como aquela que ocorreu durante a chamada pneumónica de meados do século XX.
          Ainda sobre a antiguidade das estelas achadas no exterior deste Cemitério e que remontam ao período medieval, podemos encontrar a representação de uma arma denominada por besta, e que corresponderia ao local do sepultura deste militar, denominados por besteiros.

         Os corpos de besteiros constitui uma das mais originais e bem-sucedidas experiências da organização militar portuguesa medieval. De facto, a milícia dos Besteiros do Conto, criada por D. Dinis em finais do século XIII, marcou presença nas mais importantes operações militares de todo o século XIV e atingia, nas primeiras décadas do século XV, um total de 5000 efectivos, provenientes de perto de 300 unidades locais de recrutamento.3

            Não se pode deixar de referir o estado de degradação e abandono que se observa neste conjunto arquitetónico composto pela Necrópole/Igreja/Cemitério/Ossário, apesar das constantes chamadas de alerta para a necessidade de salvaguardar este património, continua abandonado e a degradar-se e sujeito à perda irremediável de elementos arqueológicos e arquitetónicos que só iriam enriquecer a vila de Garvão.

 

1 - José Daniel Braz Malveiro. Estelas Medievais do Distrito de Beja. Volume I. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, UNL-FCSH. Janeiro, 2013. P. 1.

2 - Idem, Ibidem.

3 - Idem. P. 76.

publicado por José Pereira Malveiro às 13:19

11
Jan 20

Placa no Castelo de Ourique.jpg

PLACA NO MIRADOURO DE OURIQUE

 

Castelo-Ourique[1].jpg

CASTELO DE OURIQUE. (Foto de 1930)

 

          Quem é que não quer ter um castelo?
          De preferência romano ou árabe.
          Com torre de menagem e albarrã, muralhas, adarve e barbacã.
          De conquistas e reconquistas.
          De cavaleiros intrépidos e princesas mouras encantadas.
          Se não se tem, inventa-se.
          E, coloca-se uma placa, toda bonita, a dizer que isso aconteceu.

 

CASTELO DE ORIK
Foi aqui neste lindo
Miradouro rico em belezas
Paisagísticas sem par
Que os Árabes no Ano de
711 edificaram o
Castelo de Orik

 

          Só que os Árabes em 711, ainda estavam a atravessar o estreito.
          Em 713 ainda estavam em Faro.
        E o castelo já estava construído. Pelo menos, segundo alguns autores seria um antigo castro romanizado.
          Não seria Tárique ibn Ziade (طارق بن زياد, para quem souber árabe), o general árabe invasor, (que por acaso era bérbere), que o construiu.
          Esse deu o nome às Colunas ou Pilares de Hércules, (Ἡράκλειαι Στῆλαι, para quem souber Grego), no ano de 711, ao qual, de então em diante, passou a ser denominado Jabal Tarique, para o rochedo conhecido hoje por Gibraltar e Estreito de Gibraltar para aquela língua de água que separa os dois continentes.
          Atravessado as platónicas Ἡράκλειαι Στῆλαι, (lê-se Herakleiai Stelai), a convite de uma das partes do reino Visigodo em luta pela coroa, em poucos anos assenhoraram-se da Península e nos anos seguintes a 711, completaram a conquista do território que viria a ser o reino de Portugal.
           Ter os vestígios de um castelo é bonito.
           Ainda mais, associado à história de Portugal.
          Só que o que restava do castelo de Ourique foi arrasado na segunda metade do século XX.
          Mas fizeram um lindo Miradouro.
          O que se perdeu em arqueologia, ganhou-se em betão.
          Mas, “sem dúvida”, Rico em belezas paisagísticas sem par.
          O que se perdeu em história, ganhou-se em demagogia.
         Tal como os silos descobertos em Ourique.
         É para ignorar e tapar.
         Como se não houvesse alternativas.

publicado por José Pereira Malveiro às 23:27

06
Jan 20

cemiterioantigocadastro.jpg

Mapa Cadastral do local do Cemitério Antigo 

cemiterioantigo2.jpg

Fotografía área do local do Cemitério antigo, notando-se a parede virada a poente

Cemitério antigo no mapa de.jpg

Segmento da foto aérea de 1947. Centro de informação Geoespacial do Exército.

 

Junto ao Moinho
          O conhecimento deste Cemitério chega-nos através da tradição oral da população mais idosa da Vila de Garvão, consubstanciado tanto pela presença de alguns vestígios no terreno ainda visíveis nos anos sessenta do século passado, como pelo registo cadastral nacional da área, (secção F da freguesia de Garvão), o acesso a este Cemitério fazia-se pelo "Furadouro" por caminho próprio, ainda hoje visível no terreno.
          Mais tarde o caminho passou a ser feito pela Estrada Real, logo a seguir às últimas casas do lado esquerdo à saída da vila. O proprietário do terreno circundante, até à década de oitenta do século XX, pagava anualmente à junta de freguesia de Garvão, renda pelo uso desse espaço.
          Sobre este cemitério e a questão de quando esteve em uso, sem a devida intervenção arqueológica no terreno é difícil de determinar, contudo tendo em consideração ainda estar na memória dos mais idosos e com o Cemitério Velho situado a cerca de cem metros de distância e com ocupação comprovada desde a idade média, teremos de considerar várias suposições.
          Ou o Cemitério Velho, devido a um número invulgar de defuntos, não tinha condições para suportar tantos enterramentos, como se observou durante o flagelo conhecido como pneumónica (ou gripe espanhola) que devorou cerca de 60.000 vítimas nacionais (cerca de 1,08% da população),1 e procedeu-se a alguns enterramentos neste local.2
          Ou até mesmo, a população receosa dos efeitos de contágio desta gripe, preferiram enterrar as vítimas num local mais afastado da vila.
          Ou, mesmo sem o aumento do número de mortes provocado pela pneumónica, o Cemitério Velho precisava de ser ampliado, como veio a acontecer e se nota nas várias fases construtivas deste cemitério.
          Devido à lembrança que ainda existia na população sobre este cemitério, leva a crer que esteve em funcionamento nos princípios do século XX.

 

1 Laurinda Abreu e José Vicente Serrão, apontam para 117 764 mortos causados pela pneumónica, no espaço de apenas um ano, in: Revisitar a Pneumónica de 1918-1919, na revista “Ler História”. Nº 73, 2018.
2 Existe notícias, deste período, em que os Governadores Civis informavam o governo de enterramentos em campa rasa devido ao Cemitério estar cheio, devido ao elevado número de mortos, caso de Faro. In: José Manuel Sobral e Maria Luísa Lima, A epidemia da pneumónica em Portugal no seu tempo histórico, revista “Ler História” Revisitar a Pneumónica de 1918-1919, nº 73, 2018.

publicado por José Pereira Malveiro às 23:03

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Dez 19

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Neste artigo dá-se a conhecer as placas oculadas em ouro e prata, descobertas no Depósito Votivo de Garvão.


          Descrição: Placas oculadas representando um olho humano de forma circular, de onde partem pequenos raios realizados por repuxamento fino, sugerindo as pestanas ou raios solares.
          Proveniência: Garvão. (Museu Nacional de Arqueologia)
          Grupo Cultural: Idade do Ferro do Sul de Portugal
          Datação: 2ª Idade do Ferro
          Matéria: Ouro e Prata
          Técnica: Repuxado
        Origem / Historial: Peças recolhidas no decorrer de escavações arqueológicas efectuadas em Garvão de Junho de 1982 a Dezembro do mesmo ano. Posteriormente ficaram depositadas no IPPAR de Évora. Vieram para o Museu Nacional de Arqueologia em 1989 para integrar a exposição permanente "Portugal das Origens à Época Romana", a título de depósito temporário. Por despacho do Sr. Ministro da Cultura de 10 de Novembro de 1997 passaram a integrar o espólio deste Museu.

 

IN: http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=119855

publicado por José Pereira Malveiro às 16:58

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Dez 19

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            As fotografias da Anta do Monte Prior, no lugar do Saraiva da Freguesia de Ourique que se apresentam, foram tiradas em 1995. Desde então, sem qualquer tipo de protecção, o cenário alterou-se e tanto o carrego de algumas pedras para obras, como o uso de charruas cada vez mais fundas e mais perto deste monumento, tem provocado danos irremediáveis e impossíveis de recuperar.

          Infelizmente este estado de degradação não se limita somente a este monumento, os restantes monumentos megalíticos do concelho de Ourique, encontram-se igualmente em estado de abandono.

            O Circuito Arqueológico do Castro da Cola, lançou, durante algum tempo, uma réstia de esperança para o estudo e divulgação do património pré-histórico da região, contudo mais uma vez não se observou o empenho e determinação dos responsáveis locais, pela prossecução deste roteiro e acabou inevitavelmente por seguir o caminho dos restantes monumentos.

              Fica aqui para a memória local, este conjunto de fotografias tiradas, como se referiu, em 1995.

publicado por José Pereira Malveiro às 22:04

02
Dez 19

          Quem é que não gosta de Açorda?
          Alentejana, claro.
          Com pão de trigo. Como é óbvio! 
          Porque o pão alentejano já está abastardado.
          Já com uns diazitos. Mas nada de paposecos ou pão de Mafra.
         E, com água do poço, fria, fresquinha, pesada com sabor ferrenho.
           Porque a da torneira sabe a cloro, a mofo e, e, e ...!
           Com azeite puro, do lagar, esverdeado, daqueles que teimosamente não escorre da garrafa.
           Porque o da loja está filtrado e parece óleo.
           Ah… e alhos da horta pisados, nada de espremedor de alhos ou de alhos secos em pó que vêm em canudos de plástico e é só borrifar.
            E, claro os coentros (não se enganem e ponham salsa), tal como os alhinhos, da horta, criados também com água do poço, de preferência ferrenha.
             E se não for pedir demais, os ovinhos, um para cada freguês se houver, se não houver esmaga-se um e provam o caldinho, também de galinha criada no campo a alimpaduras, minhocas ou farelos, (não lhes deem farinha industrial carregada de hormonas, senão estragam tudo).
              Não ponham cebola nem grão-de-bico senão sai uma açorda afrodisíaca. Pelo menos é o que diz o Tratado Árabe do Amor, O Jardim Perfumado.
               A normal pitada de sal grosso, porque o fino não sabe a sal, uma colher de aluminio e umas talhadas de toucinho frito e, e, … apanhá-las.
              Chamemos-lhe Açorda ou se quisermos impressionar os amigos chamemos-lhe Çorda, do Árabe Andaluz thorda, (não se esqueçam que o th em árabe lê-se ç e ponham o a como em azeite az-zayt, ou açucar as-sukkar).
              Comida sacra, as freiras e frades adoram-nas, principalmente depois do jejum.
               Comida de profetas, Maomé adorava-as. Não fosse afinal o seu bisavô que as inventou.
               Comida de reis, Afonso II adorava-as, (não há referências, mas era gordo).
              Comida para todos.
              Seja açorda cega ou rica, conforme os acompanhamentos.
              Está aí para durar.

publicado por José Pereira Malveiro às 22:41

21
Nov 19

O Cavalo na Quinta da Estação de Garvão

          Numa das paredes interiores que rodeiam “A Quinta”, na estação de Garvão, até há relativamente pouco tempo ainda se notava a pintura, em tamanho real, de um cavalo, (na parede à esquerda de quando se entra pelo portão, diante da ponte da Estação), e ás perguntas mais curiosas de quem o terá feito? a resposta era sempre a mesma, de que “foram os militares quando lá estiveram”, sem contudo precisar quais ou quando.
          Na memória da população, nos anos sessenta do século passado, não havia lembrança da presença de militares neste local, ou da permanência prolongada destes que se pudessem identificar com a referida pintura, pelo menos durante o século XX.
         O que se sabe, é que pelas lutas liberais do século XIX, o exército do Duque de Terceira, apoiante da causa liberal, depois do desembarque da expedição liberal em Cacela, no Algarve, em 24 de Junho de 1833, pernoitou em Garvão de 14 a 17 de Julho de 1833, na sua caminhada rumo a Lisboa a qual tomou em 24 de Julho de 1833, sem qualquer oposição, depois do Duque da Terceira ter desbaratado as tropas inimigas, comandadas pelo brigadeiro absolutista Telles Jordão, na margem esquerda do Tejo, no que ficou conhecido como os combates da Cova da Piedade e de Cacilhas.1

 

Destes consta que a Divisão Expedicionaria, tendo deixado completamente tranquilo o Algarve, sahira no dia 12 de S. Bartholomeu, viera pernoitar a S. Marcos, donde sahindo o dia 13 viera ficar a Stª Clara, e no dia 14 a Garvão. Neste ponto fez a junção com ella a Brigada de Artilharia que partira de Faro com esse destino, e no dia 17 partio o Duque para Messejana, donde datou os últimos despachos.2

        

        Sabe-se igualmente que antes da chegada a Garvão do Duque da Terceira,3 o comandante das tropas absolutistas, encarregado da defesa do Alentejo e Algarve, Visconde de Molelos,4 tinha ou teve por alguns dias, o seu quartel-general em Garvão.

 

No mesmo dia 3 de Julho vim no conhecimento de que o General Mollelos se tinha retirado por S. Martinho das Amoreiras até Gravão, onde convergem as estradas, que vem do Algarve por Almodovar e Ourique, e por Santa Clara, a ultima das quaes o inimigo tinha devastado na sua passagem com huma barbaridade verdadeiramente atroz.5

 

No dia 4 o Visconde de mollelos officiou do seu Quartel General em Garvão, pedindo quanto antes gente, dinheiro, e polvora, por quanto se achava só, cercado de rebeldes, e sem meios nenhuns para se defender.6

 

          Sabe-se assim que tanto as forças absolutistas do rei D. Miguel, como as forças liberais afectas a D. Pedro, durante alguns dias fizeram quartel em Garvão. Ficando esta “Quinta” junto à Estrada Real do Algarve, não nos poderá surpreender que pernoitassem neste lugar, pelo menos algumas forças mais importantes, protegidas pelos muros altos da “Quinta”, caso já existissem por esta altura.
         Quanto à pintura do cavalo, numa das paredes interiores da “Quinta”, teria o seu interesse em se tentar identificar a origem dessa pintura e a possível relação com estes militares e com este período conturbado da história portuguesa nesta parte do Alentejo.

 

1 - Joaquim Telles Jordão, brigadeiro absolutista, foi reconhecido como o odioso comandante da prisão de São Julião da Barra, lugar de detenção dos presos liberais. A forma violenta com que tratou os presos, com cruéis abusos e torturas, mereceram o repúdio e ódio dos liberais e foi morto a golpes de espada pelo coronel liberal Romão José Soares.

2 - Chronica constitucional do Porto, Volume 3. 1833. P. 101.

3 - Marechal António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, 7.º Conde de Juro e Herdade, 1.º Marquês de Vila Flor e 1.º Duque da Terceira.

4 - O Visconde de Molelos, recebeu o título de barão em 17 de dezembro de 1815. Secretário militar de D. Miguel, era governador do Algarve com a patente de marechal-de-campo quando se verificou o desembarque dos liberais em Cacela, a 24 de junho de 1833. Devido a um erro tático permitiu o seu avanço sobre Lisboa, onde entram a 24 de julho desse ano, o que se tornou fatal para a causa miguelista. Morreu na sua terra natal a 7 de dezembro de 1852.

5 - Chronica constitucional do Porto, Volume 3. 1833. P. 178.

6 - Chronica constitucional do Porto, Volume 3. 1833. P. 68.

 

publicado por José Pereira Malveiro às 07:05

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