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EM GARVÃO

20210307_162457.jpgHERDADE DA MORGADA - Pedra Escorregadia.

20210307_162733.jpgHERDADE DA MORGADA - Pedra Escorregadia.

20210307_155215.jpgPedra Escorregadia, ao Barranco da Pontinha.

 

 

Existe uma prática antiga que nos chegou até hoje, através da presença física no terreno e de referências literárias, localmente conhecidas pelo nome de “Pedra Escorregadia”.

 

MONTE DA MORGADA

Existe um exemplo destas Pedras Escorregadias, em perfeito estado de conservação, no Monte da Morgada, cuja singularidade estética é de realçar, de facto no lado direito da estrada de acesso aos cómodos agrícolas e habitacionais, numa extensão plana, ergue-se uma pequena elevação, simétrica em ambos os lados e ao centro, no substrato rochoso, nota-se a saliência, num angulo aproximado de 45 graus que servia para a prática do escorrega, ainda praticado nos finais do século XX, tanto pelos residentes locais como pelos moços da vila em idade escolar.

 

BARRANCO DA FONTINHA

Segundo informação do Doutor António Martins Quaresma, num documento sobre as confrontações do Couto Pequeno deste Concelho, (Garvão extinto concelho em 1936), menciona:

 

Couto Pequeno tirado do Grande

19 de Maio de 1826

(…) tem o princípio no Barranco da Fontinha na estrada da Monxica de frente da Pedra Escorregadia que sobe pelo dito barranco pé ao sesmo de São Sebastião, digo pé ao sesmo do ferragial de São Sebastião, (…)

 

Ainda segundo informação de Martins Quaresma, o relato da visitação de 1518, menciona, uma vinha que ficava nas vinhas da pedra escorregadia, que pertencia ao hospital do Espírito Santo, cujo fólio descreve as confrontações com outras vinhas.

 

O breve relato da visitação de 1518, por falta de mais elementos, não nos permite localizar no terreno o lugar desta pedra escorregadia, contudo já a descrição das confrontações do Couto Pequeno, permite-nos identificar o Barranco da Fontinha, com o actual Barranco das Cangalhas que passa pela Herdade do Pouco Tempo e vem desaguar na Ribeira da Monchica, em cujo lugar, na margem oposta, já nos terrenos do Cerro da Forca, se situa um afloramento rochoso, cuja extração de pedra, em anos anteriores, terá feito desaparecer algum vestígio desta pedra escorregadia 

Neste barranco da Fontinha, ainda existe na memória da população a existência de duas fontes de água e cujos vestígios ainda afloram no terreno.

 

PENEDO DA PEDRA ESCORREGADIA

Igualmente no livro da Misericórdia e do Espírito Santo da vila de Garvão que chegou até aos nossos dias, menciona nos fólios 37 rosto, 37 verso e 39 rosto, o Penedo Escorregadio, no Vale de Santiago.

 

(…) sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil e sete centos secenta e nove annos, sendo aos onze dias do mez de Abril do dito anno nesta villa de Garvão em o Cartório (…) fólio 37 rosto.

 

(…) entre os mais bens de que eraõ administradores da Confraria do Espirito Santo por andar anexa á Santa Caza da Mizericordia desta villa era bem assim huma Courella de terras sitto aos redores da Aldeia do Vale de San Thiago o qual parte pela estrada do posso e com hum farrejal do penedo escorregadio (…) fólio 37 verso.

 

(…) hum farrejal que pessuia livre e izento e dezembaraçado que parte com as mesmas terras chamado o Penedo escorregadio (…) fólio 39.

 

RESUMO

 

A fecundidade, a fertilidade e a procriação tinham grande importância para as primitivas comunidades humanas, cujos exemplos e vestígios abundam em vários locais da Europa e do mundo.

Segundo Mircea Eliade em O Sagrado e o Profano, página 72.

 

Em algumas religiões acredita se que a Terra Mãe é capaz de conceber sozinha, sem o auxílio de um companheiro. Encontram-se ainda os traços dessas idéias arcaicas nos mitos e partenogênese das deusas mediterrânicas. Segundo Hesíodo, Gea (a Terra) pariu Uranos, “um ser igual a ela, capaz de cobri Ia inteiramente” (Teogonia, 126 ss.).

 

Ainda segundo Mircea Eliade em Tratado De História Das Religiões, páginas 180 e seguintes.

77, A "escorregadela"

O costume denominado "escorregadela" é bem conhecido: para terem filhos, as mulheres deixam-se escorregar ao longo de uma pedra consagrada. Um outro costume ritual ainda mais espalhado e a "fricção"; a fricção é praticada por razões de saúde, mas são sobretudo as mulheres estéreis que fazem uso dela. Em Decimas (Ródano), há não muito tempo as mulheres se sentavam num monólito que se encontra nos campos num local chamado Pierre-FrIte. Em Saint Renan (Finisterra) a mulher que desejasse ter um filho deitava-se durante três noites consecutivas sobre um grande rochedo, La Jument de Pirre. Também as jovens recém-casadas vinham ali nas primeiras noites após o casamento e esfregavam o ventre naquela pedra. Esta prática é muito disseminada. Por exemplo na aldeia de Moêdan, do cantão de Pont-Aven, as mulheres que ruçavam o ventre na pedra ficavam com a certeza de que teriam filhos do sexo masculino. Ainda em 1923 as camponesas que iam a Londres abraçavam as colunas da catedral de São Paulo Para terem filhos.

É preciso integrar neste mesmo conjunto ritual o costume relatado por Sébillot: "Por volta de 1880, não muito longe de Carnac pessoas casadas havia vários anos sem que tivessem filhos iam, pela lua cheia, até um menir, despiam-se, e a mulher corria em volta da pedra, tentando escapar do marido; os familiares vigiavam a distância para afastar os intrusos”. É- provável que estes procedimentos tenham sido mais frequentes no passado. Citam-se numerosas interdições da parte do clero e dos reis era relação ao culto das pedras e sobretudo à emissão Seminal diante das pedras, na Idade Média. Mas este último rito é muito mais complexo e não pode ser reduzido - como os das "escorregadelas" ou das “fricções" - a uma crença na possibilidade de "fertilização" direta do dólmen ou do menir. Faz-se aí menção, em primeiro lugar, do tempo da cópula ("durante a lua cheia"), o que indica vestígios do culto lunar; depois, o coito dos casados ou a emissão seminal diante da pedra explicam-se pela concepção, mais evoluída, da sexualização do reino mineral, dos nascimentos que têm por origem a pedra e que correspondem a certos ritos de fecundação pela pedra.

A maioria desses costumes, dizíamos nós, conserva ainda a crença de que o simples contato com o rochedo ou com a pedra consagrada basta para fertilizar urna mulher estéril. Nesta mesma aldeia (Carnac) as mulheres sentavam-se no dólmen Creuz-Moqem, arregaçando os vestidos; sobre o rochedo, foi erigida uma cruz para evitar esta praticais. Existem muitas outras pedras chamadas de "amor" ou de "casamento" cujas virtudes são eróticas. Em Atenas, a mulheres grávidas dirigiam-se à colina das ninfas e deixavam-se deslizar sobre o rochedo ao mesmo tempo que invocavam Apolo para terem um parto feliz. Eis aqui um bom exemplo de mudança de significação de um rito, pois que a pedra da fecundação se transforma em pedra de parto. As mesmas crenças nas pedras que, só por se tocar nelas, determinam um parto bem-sucedido, são encontradas também em Portugal.

Muitos megálitos favorecem o andar das crianças ou proporcionam-lhes boa saúde. No cantão de Amence, existe uma pedra furada; as mulheres ajoelham diante dela e oram pela saúde dos filhos. jogando uma moeda no buraco. No momento do nascimento, os pais levam a criança à “pedra furada" de Fouvent-le-Haut e fazem-na passar pelo buraco. “Era, decerto modo o batismo da pedra destinado a preservar a criança de malefícios e a dar-lhe felicidade.

 

publicado por José Pereira Malveiro às 14:15

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