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Jul 21

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De Manuel da Fonseca

 

             O Escritor Manuel da Fonseca, um dos maiores nomes literários do Alentejo, publicou o romance neo-realista Seara de Vento em 1958, sobre o acontecimento verídico que ocorreu na aldeia da Trindade, facto marcante para a população e de inspiração para o seu livro, o assassinato de António Dias Matos, operário agrícola, no lugar de Cantinho da Ribeira.

           Seara de Vento, obra famosa pela apreensão de aspetos da vida dos camponeses no plano da ficção, em que o tratamento da antinomia cidade-campo é bem diverso do uso tradicional. A obra, dentro da estética neo-realista, é ainda notável porque nela o próprio sentimento da morte passa a segundo plano em face de uma realidade social insustentável do ponto de vista humano. Mas não apenas na temática o neo-Realismo introduziria inovações na estrutura tradicional do romance. Também no modo de apresentar as personagens, talvez por influência da técnica de montagem cinematográfica, elas se apresentam a si próprias, pelo método implícito ou dramático.

         Seara de Vento é, sem dúvida, uma das obras literárias portuguesas mais bem conseguidas do século XX. O seu valor está longe de ser estritamente documental ou de mera erudição para os que estudam as correntes literárias mais importantes da escrita ficcional portuguesa do século passado.

          Na verdade, Seara de Vento vale, em simultâneo, pela sua temporalidade e pela sua intemporalidade. em Seara de Vento, Manuel da Fonseca descreve um episódio ocorrido em 1932, numa aldeia do concelho de Beja. O assassinato de António Dias Matos, operário agrícola, pelas autoridades.

         Seara de Vento é a demonstração viva de um cenário de fome, humilhação e privação nos campos do Sul de Portugal na primeira metade do século XX e é exemplarmente retratado por Manuel da Fonseca.

            Manuel da Fonseca trabalha a palavra com mestria, criando tipos psicológicos interessantíssimos. Neste quadro avulta a sogra de António (na narrativa, o Palma), Amanda Carrusca: símbolo de uma saudável desconfiança em relação aos senhores da terra e de uma dignidade humana profunda contra a sua condição de profunda privação e miséria. Mas Amanda Carrusca provavelmente, a personagem com o perfil psicológico mais trabalhado não é apenas o símbolo do Alentejo do início dos anos 30, o Alentejo da fome e da miséria. Ela é a simbologia de um operariado que ainda não tinha aprendido a confiar em si mesmo na luta contra as injustiças. Ao contrário, a neta Mariana é a porta-voz de um dado novo nos campos alentejanos: as reuniões às escondidas na vila.

          Esta é a grande lição de intemporalidade conferida por Manuel da Fonseca à sua obra, uma obra, diga-se, perversa e marginalmente esquecida pelos media de referência controlados pelo grande capital. O condenar dessa obra magna ao esquecimento pela intelectualidade burguesa ignorante, pretensiosa e arrogante reflete precisamente o carácter temporal/histórico e simultaneamente intemporal de Seara de Vento.

publicado por José Pereira Malveiro às 22:07

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Local do Arzil

 

             Ao se consultar os mapas antigos referentes à vila de Garvão ou em torno da área do extinto concelho, deparamo-nos com denominações de lugares que nos leva a ponderar sobre a origem desse vocábulo.

              A busca da origem ou significado de certas denominações, por vezes encontra barreiras para o seu devido entendimento, quando o paradigma estudado é essencialmente latinista e cristão, embora, já se observe nos meios académicos, alguns estudos obre outras fontes, nomeadamente sobre os povos e as respectivas línguas que se falavam na Península Ibérica anteriores à ocupação Romana.

              Segundo Ana Margarida Arruda, a investigação sobre a época pré-romana servia apenas uma historiografia de pendor marcadamente nacionalista, que procurava quase exclusivamente as evidências arqueológicas dos «primeiros heróis nacionais», os Lusitanos.[1]

 

               Por outro lado, nunca será demais recordar que esta invisibilidade foi também decorrente do reforço de uma postura ideológica de cariz marcadamente nacionalista, ditada por um cenário político de contornos ditatoriais nascido em Portugal com a implantação, em 1928, do que veio a chamar-se «Estado Novo». Com efeito, o marasmo que, entre os anos 30 e 80, atingiu a investigação arqueológica no âmbito da Idade do Ferro orientalizante deve relacionar-se com um conjunto de razões de âmbito sócio-político, que determinou o sentido dos trabalhos publicados.[2]

 

              Outra questão é a possibilidade de se conseguir ainda hoje descortinar algumas palavras cuja origem remonta a esses tempos? Já no século XIX o Cardeal D. Francisco de S. Luiz Saraiva, publicou um trabalho intitulado "Glossário de Vocábulos Portuguezes Derivados de Línguas Orientaes e Africanas Excepto a Árabe". Os estudos de autores mais recentes apontam igualmente nesse sentido.

               Por outro lado, tanto a conservação na toponímia, como no linguajar comum, de formas verbais pré-romanas que foram sistematicamente objeto de latinização e apesar da sua perdurabilidade, nem sempre se consegue descortinar a raiz da palavra em questão, ou porque a deturpação é tal que se presta a várias interpretações, ou não há, de facto, uma unanimidade nos meios académicos para o seu significado.

               Teremos assim, para o estudo de certos vocábulos que se usa atualmente na língua portuguesa, de procurar não só na herança Romana e Árabe, mas igualmente nas línguas germânicas, celtas, fenícias ou orientalizantes, assim como nas primitivas línguas Ibéricas.

              Existe atualmente toda uma série de palavras, divulgadas por certos autores que se conseguem identificar com esses povos que em diversas épocas habitaram a Península Ibérica.

               Sobre o significado de certas nomeações topográficas em Garvão, em artigo anterior examinou-se o vocábulo Andorde referente ao “Pego D´Andorde”, na base do Cerro do Castelo e do Santuário da idade do ferro, relacionado com Adónis[3], contudo abundam outras denominações cuja explicação se torna igualmente difícil, nomeadamente o local da Badanela e o Barranco da Badanela, na Herdade do Arzil, em Garvão.

               Existe igualmente noutras localidades, nomeadamente a Ribeira da Badanela em Ponta Delgada, a Safra da Badanela em Nisa, ruas da Badanela, em Viseu e em Monte Real, Leiria, e em vários locais na Galiza, assim como a variante Madanela.

              A explicação mais lógica seria derivar de badana de animal ou pele de animal de má qualidade, mas devido à enorme concentração de vestígios pré-históricos e cerâmicas romanas nas proximidades e ser um lugar abundante em água, teremos de considerar igualmente outras explicações.

              Existe uma certa tendência para os locais denominados por Badanela ou Madanela, se encontrarem em locais relacionados com água ou colheita, é o caso do Arzil, local de uma antiga lagoa, ou safra[4] da Badanela, Ribeira da Badanela e as várias praias na Galiza denominadas por Madanela.

            Segundo a informação disponibilizada em Arqueotoponimia, Toponimia Preromana, hdronimia paleoeuropea, etnografia, megalitismo y arte rupestre, de 30 de diciembre de 2012.

 

                Madanela, con 60 ocurrencias registradas en la base de datos de Toponimia de Galicia, 95 si contamos los topónimos Madalena en los que se ha operado transposición silábica, es diminutivo de meda, término con el que se designa principalmente al almiar, o montón de heno (medeiro). También se aplica a elevaciones del terreno (Cabezo da Meda) y a túmulos megalíticos "usque in mamoa da meda" (año 1130). Estas medas o elevaciones solían utilizarse, por su visibilidad, como limes territorial. El sustantivo madanela es, por outra parte, como diminutivo de meda, "montón cónico", un candidato perfecto para explicar el nombre que reciben los dulces llamados madalenas.

                Respecto al nombre Magdalena que tienen varias playas de Galicia (Cedeira, Cabanas), por el que me pregunta un conocido: todas ellas son, por supuesto, madanelas, formaciones dunares costeras que en otros lugares como Canarias o Portugal se conocen con otro derivado de meda, médano o médão.

 

[1] Ana Margarida Arruda. Fenícios e Púnicos em Portugal Problemas e Perspectivas. Lisboa, 2008. P. 13.

[2] Idem, ibidem.

[3] Embora seja geralmente associado à mitologia grega, Adónis teve origem na mitologia fenícia, na região da actual Síria. Na Bíblia, Ezequiel faz-lhe referência usando o nome semita de Tammuz. Crê-se que próprio nome ‘Adónis’ tenha origem na palavra Adonai, palavra hebraica que significa ‘Meu Senhor’.

[4] Safra: Período do ano em que se faz a pesca de determinada espécie

publicado por José Pereira Malveiro às 16:12

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