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Jul 21

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Barco no pego D´Andorde no ano de 1947

 

           Raramente nos debruçamos sobre o significado do nome de certos locais que ao longo dos anos conhecemos, localizamos e frequentamos.

             Contudo se o nome porque denominamos esses locais na actualidade, não tem um significado aparente aos olhos de hoje, terá tido, com certeza, uma razão aquando da sua nomeação, mas que cujo significado hoje desconhecemos apesar de, por vezes, se continuar a assistir a uma continuidade de certas praticas remotas.

           Porém, convém realçar que tem de se olhar com algum cuidado, quando se tenta encontrar uma explicação satisfatória, para a nomeação de tantos lugares e expressões que hoje desconhecemos.

             No mundo Celta, certos pegos nas ribeiras, poços e fontes de água eram locais sagrados e de peregrinação, como se observava no Pego do Sino junto ao Castro da Cola, onde as populações locais, até aos anos sessenta do século XX, lhe atribuíam propriedades curativas e se banhavam para curar alguma maleita que os atormentava, de notar que a raiz da palavra sino se encontra igualmente em Sintra, a montanha da lua e no monte Sinai com o mesmo significado, monte da lua.

            Igualmente em Garvão e em referência aos locais sagrados junto a cursos de água encontra-se o Pego Dandorde ou D´Andorde, na base do serro, (denominado Castelo), onde supostamente se situava um santuário pré-cristão e em cuja encosta se localiza o Depósito Votivo, (local onde o enorme número de oferendas, no santuário, eram guardados).

             Este pego D´Andorde, local que ainda na primeira metade do século XX era local de visitas/recreio da população de Garvão, (havia inclusivamente um barco), no inicio da Primavera, reverte, obviamente, para um período anterior em que este pego se revestia de alguma sacralidade senão mesmo peregrinação que se perpetuou no tempo e cuja memória local o associa como local de prazer e de recreio atá aos anos cinquenta/sessenta do século passado. 

              Sobre a origem da palavra D´Andorde, poder-se-á tecer várias considerações, contudo o mito em torno do deus grego Adónis; por ser de origem fenícia; por ser uma palavra semita Adonai, que significa “senhor” ou “deus” e por esse culto se encontrar igualmente na Península Ibérica, teremos de colocar esta palavra como uma das hipóteses que eventualmente terão degenerado em Andorde.

         De acordo com a mitologia grega, Adônis era um jovem de extrema beleza que nasceu de relações incestuosas, mais tarde passou a despertar o amor de Perséfone e Afrodite. O culto de Adónis era celebrado em toda a Fenícia e, especialmente, em Biblos. Os devotos do culto a esta divindade plantavam pela Primavera os chamados “Jardins de Adonis”, cujo objetivo era de simbolizar a renovação da natureza. Adônis tornou-se o simbolo da vegetação que morre no inverno e se renova na Primavera.

          Nos antigos festejos da primavera, (hoje denominados 1º de Maio, dia do trabalhador), esse tipo de espírito da vegetação era geralmente representado junto a árvores, fontes e outros lugares sagradas e por dançarinos e dançarinas vestidos e adornados com motivos florais; folhas verdes, ramos e flores, encarnavam o espirito da vegetação, da renovação da vida depois dos meses de trevas do Inverno.

publicado por José Pereira Malveiro às 16:08

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Propriedades da Comenda 

 

            No Livro da Misericórdia e do Sagrado Espirito Santo de Garvão tomamos conhecimento da existência da Comenda da vila de Garvão e propriedades pertença desta.

          Assim na folha 14, referente às confrontações da herdade do Arzil, “… cuja Erdade parte por huma parte com terras da Capela da Coroa e chamada de Anal, e com terras da Xarneca que são de Conselho desta Vila e com a Erdade de Orta das Masans que hé da Comenda desta Vila e com terras da Erdade de Val de Inxares de baixo de Dom Sebastião Maldonado, e por outra que hé pelo Nascente com terras do mesmo Dom Sebastião e com farrigial dos Erdeiros de Manoel Fernandes de Val de Inxares, e com terras de Dona Maria Bernarda de Odemira”

            Na folha 22, referente à Courela do Maó páso, “…. e confronta a dita courela com a Erdade do pixouto, e a Erdade de Carvalheira de baixo e terras da Comenda e ribeira que vem das Amoreiras”.

             A origem das ordens militares, criadas no século XII, está associada às cruzadas e à Reconquista cristã da Península Ibérica. Caracterizam-se como braços armados da cristandade. Os seus cavaleiros deveriam seguir uma vida regrada pelas leis cristãs, assim como os monges, com votos de castidade, pobreza e obediência.

           A Ordem de Santiago, criada em 1290, cuja administração, denominada de Mestrado, estava sob a responsabilidade do mestre e era de facto, conjuntamente com as outras ordens militares em Portugal, o braço armado da Coroa portuguesa.

            Durante a reconquista, entre os vários funcionários públicos do concelho, constava o cargo de Alcaide, (do árabe al-qā'id, «o líder») com responsabilidade não só na defesa da povoação e do território, mas igualmente, como chefe das forças militares do concelho, cavaleiros, peões e besteiros, tinha a responsabilidade de organizar os fossados em terras inimigas.

              O Alcaide vivia geralmente no Castelo com a sua família, tendo igualmente a responsabilidade na sua conservação, e apesar de não responder perante o concelho, pois era de facto nomeado pelo rei, era-lhes contudo concedido terras na área do concelho para rendimento e uso próprio.

           Com o decorrer do tempo, findas as guerras com os muçulmanos, perdeu o seu carácter bélico e tornou-se gradualmente um mero magistrado judicial de nomeação régia o que causava várias dissabores entre os vizinhos concelhios, levando os procuradores dos municípios às Cortes a se queixaram ao monarca dos abusos cometidos pelos alcaides, tendo o rei então nomeado um outro alcaide, designado por alcaide menor, entre os homens-bons (vizinhos) do concelho, para vigiar a actividade do alcaide, entretanto re-designado alcaide maior.

            Ao longo dos séculos, diversas reformas foram esvaziando de poderes desta magistratura, tornando-a meramente honorífica. A distribuição de comendas foi uma importante ferramenta para que os monarcas portugueses conseguissem mais serviços de vassalagem da aristrocacia  com relevância no rendimento desta e no processo de concentração linhagística nas mesmas.

           De facto em Comendas das Ordens Militares na Idade Média, Actas do Seminário Internacional Porto, 3 e 4 de Novembro de 2008, nomeia vários titulares da comenda de Garvão da família Mascarenhas, de bisavô para bisneto e na família Moniz de pai para filho.

 

Fernão Martins Mascarenhas I, comendador

da Represa e Garvão, Comendador mor e

pertencente aos Treze na Ordem de Santiago,

pelo menos desde Janeiro de 1422 . Veio mais

tarde a ascender à Comenda mor desta milícia,

(Ordem de Santiago), tendo exercido estas

funções entre os anos de 1440 e 1454.

Era filho de Martim Vaz Mascarenhas Ide Évora. P.163

 

Fernão Martins Mascarenhas I, foi pai de

Martim Vaz Mascarenhas II, agraciado por

seu pai com a comenda de Aljustrel, a

31 de Janeiro de 1444. P. 173

 

Dos filhos de Martim Vaz Mascarenhas II, refira-se

Álvaro Mascarenhas II, comendador de Samora Correia

e membro dos Treze na Ordem de Santiago, que

casou com Mécia de Vasconcelos, filha de Vasco Pereira,

de quem herdou a referido comenda.

Desta união nasceu Luís Mascarenhas , que veio a receber

o hábito na Ordem de Santiago a 17 de Maio de 1510.

Mencionado como comendador de Garvão, Arrábida

e Belmonte na Ordem de Santiago. P.173

 

Mais informa a referida publicação, na página 180.

Sucedeu a Fernão Martins Mascarenhas na

administração da comenda de Garvão Vasco

Martins Moniz e em seguida, seu filho Cristóvão Moniz.

 

Surge igualmente na página 102 uma disposição do Mestre da Ordem de Santiago:

O Mestre estabelece o prazo de um ano para que na Igreja de

Garvão houvesse um missal , cortinas e armários.

(Se nesta igreja só foi apontada a falta de um missal, já em

Ourique, no ano de 1511,  foi sublinhada a falta de

outros livros, como foi o caso, por exemplo, de dois mis-

sais do costume de Évora e de um Domingal.

(IAN/TT., Ordem de Santiago, Códice nº 183, fl. 105).

 

        Quando da extinção do concelho de Garvão, pelo Decreto de 6 de Novembro de 1836, era comenda dos Condes de Basto.

 

           Assim, esvaziado das suas funções iniciais, o alcaide da reconquista, dará lugar ao comendador nos séculos seguintes, cargo honorífico com que o rei procurava agraciar os nobres, cavaleiros e aristocracia em geral. No século XVIII D. Maria I procurando sanar o aumento do número de concessão de hábitos e o consequente desprestígio que as ordens adquiriram, institui uma hierarquia nas principais Ordens do Reino,  Cristo, Aviz e Santiago, criando, para além dos já existentes cavaleiros, os comendadores e grão-cruzes, que perfaziam uma ordem hierárquica. Com isso, enquanto a Coroa podia continuar a distribuir em profusão os hábitos de cavaleiros, a nobreza poderia resguardar para si títulos distintos e mais valiosos hierarquicamente: de comendadores e grão-cruzes, o que permitia a Coroa angariar muitos serviços sem desprestigiar por completo as ordens. 

                Estes cargos, mediante compensação financeira, eram concedidos inclusivamente àqueles que não tinham condições para serem cavaleiros, aqueles que nela investissem garantiam para si e para seus filhos o direito de requerer o hábito de comendador. Quando a comenda era concedida, o agraciado deveria investir-se do hábito. Este era a insígnia que tornava possível a exibição no ambiente social do símbolo distintivo. Constituía-se de manto e medalhas da ordem à qual o cavaleiro pertencia. Com a reforma de D Maria I, foram instituídas distinções entre as medalhas e mantos de cavaleiros, comendadores e grão-cruzes.   

             Dos vários factores que terão contribuído para que indivíduos pertencentes à nobreza, procurassem ingressar nas Ordens Militares, são de salientar, entre outros, os seguintes:

          - A fragmentação da propriedade decorrente das partilhas igualitárias, praticada pelo menos até finais do séc. XIV, que contribuiu para a diminuição dos recursos que os diferentes beneficiados poderiam usufruir;

           - A institucionalização do morgadio, que por impossibilitar a divisão do núcleo patrimonial, determinava que apenas o filho primogénito varão fosse o único beneficiário, ficando os restantes herdeiros cerceados, muitas das vezes, de meios de subsistência;

          - A subida ao poder da Dinastia de Avis, e a entrega da administração das Ordens Militares aos Infantes que levou, muitos sectores da nobreza a olhar para o ingresso nestas instituições como uma possibilidade de aceder a cargos e a dignidades de relevo, aos centros de decisão – a Corte – e à principal fonte do poder – o Rei.

            - A possibilidade de quem ingressava nestas instituições poder dar continuidade a uma das suas principais funções – a guerra –, orientada para luta contra o Infiel, inimigo do nome de Cristo;

           - As reformas de que foram alvo algumas destas instituições – Avis e Cristo – que ao isentar os seus freires cavaleiros do voto de castidade, as tornou mais atractivas a determinados sectores da sociedade que viam nestas restrições um entrave de peso, para nelas ingressar;

      - E o acesso a novas fontes de rendimento, e a possibilidade de administrar, muitas vezes a título vitalício, vastas áreas geográficas pertencentes a estas instituições – ou seja, as Comendas.

publicado por José Pereira Malveiro às 15:59

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ENQUADRAMENTO  LOCAL

 

           O Castro da Cola, encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1910, traduzindo assim a sua importância em termos nacionais. Difere dos restantes itinerários arqueológicos devido à forma como foi planificada a sua promoção e organização da visita, já que abarca circuitos, que conduzem o visitante a diversos pontos de interesse turístico.

             Situa-se no interior do Baixo Alentejo, mais exactamente no concelho de Ourique, num território onde o Rio Mira e as suas margens abrigaram populações desde os tempos mais remotos, desenvolvendo actividades ligadas à agricultura, as quais estabeleciam um ténue contacto entre a terra e o rio que fertilizava  “uma zona pouco povoada, onde algumas aldeias dispersas pelo território (o Castro da Cola foi uma delas até ao século XIII) organizaram o povoamento” (IPPAR - Roteiros da Arqueologia Portuguesa: 2002; 9). Neste contexto destacam-se as pequenas explorações agrícolas complementadas com pequenas casas, formando o tão conhecido monte alentejano.

         Integram este circuito um conjunto de quinze sítios:

Fernão Vaz 1 - Neo-Calcolítico (Monumento Funerário Megalítico);

Fernão Vaz 2 - Neo-Clacolítico (Monumento Funerário Megalítico);

Cortadouro – Idade do Ferro e época indeterminada (Povoado);

Nora Velha 1 - Neo-Calcolítico, com reutilizações nas Idades do Bronze e Ferro (Monumento Funerário Megalítico);

Alcaria 1 – A e B - Idade do Bronze (Necrópole e estrutura associada);

Alcaria 2 - Idade do Bronze (Necrópole);

Atalaia - Idade do Bronze (Necrópole);

Fernão Vaz - Idade do Ferro, com uma ocupação posterior Medieval/Islâmica (Povoado);

Porto das Lajes - Idade do Ferro (Povoado);

Fernão Vaz - Idade do Ferro (Necrópole);

Casarão - Idade do Ferro (Monumento Funerário);

Pego da Sobreira - Idade do Ferro (Monumento Funerário);

Vaga da Cascalheira - Idade do Ferro (Necrópole);

Nora Velha 2 - Idade do Ferro (Necrópole);

Castro da Cola - Neolítico até à Época Medieval (Povoado).

            Este sítios ilustram diversas épocas e revelam a evolução humana ao longo dos tempos, numa área onde o clima era seco e no qual a água era um bem precioso e raro. Os pontos de interesse inseridos no itinerário arqueológico encontram-se dispersos em torno de um deles, que dá o nome ao próprio Circuito – o Castro da Cola.

           O CIRCUITO ARQUEOLÓGICO

           O circuito possui quinze pontos de relevância (já referidos), mas nem todos estão disponíveis para o visitante comum, devido aos difíceis acessos. Deste modo, o IPPAR pretende adquirir, num futuro próximo, um jipe para colmatar tais dificuldades, garantindo assim o acesso a todos os sítios mesmo os mais complicados como é o caso da Alcaria de Fernão Vaz, ainda não disponível ao comum turista/visitante.

           Face ao exposto, passaremos a descrever somente o que nos foi possível visitar – o Castro da Cola, ou seja o ponto central. Mesmo aqui encontrámos inúmeras dificuldades, nomeadamente a própria leitura (imediata) das ruínas dada a existência de inúmeras ervas que coabitam, descontroladamente, com os vestígios, pouco perceptíveis aos olhos do turista.

           PRECARIEDADE DO PERCURSO E SINALÉTICA EM DIFÍCIL ACESSO

          O difícil acesso e a deficitária leitura das placas dispostas pelo Castro da Cola, quase inviabilizam a compreensão do sítio. Torna-se imperativo o acompanhamento efectivo de um guia para que seja possível usufruir do local.

         O PERCURSO E AS PLACAS EXPLICATIVAS NO CASTRO DA COLA.

          As placas explicativas apresentam a mensagem principal escrita apenas em português. Os desenhos referentes ao que se está a visualizar no terreno não são de fácil apreensão, devido à projecção de números que identificam os compartimentos do Castro, o que poderá conduzir a umas interpretações desajustadas.

            INTERVENÇÃO E  MUSEALIZAÇÃO

           O Castro da Cola,  “foi um dos sítios arqueológicos portugueses que primeiro despertou a atenção dos antiquários” (IPPAR - Roteiros da Arqueologia Portuguesa: 2002; 7). Foram muitas as investigações realizadas neste terreno. No entanto, recorda-se a primeira escavação efectuada, a qual  “deve-se a Abel Viana (...) ao longo de muitos anos, e em condições (...) de uma extraordinária  dificuldade e de grande sacrifício pessoal, este investigador, notável pela sua capacidade de compreensão da realidade humana em que trabalhava (...) escavou o castro e vários monumentos ao redor” (IPPAR - Roteiros da Arqueologia Portuguesa: 2002; 7).

            Este investigador foi o impulsionador da descoberta e posterior inventariação das peças recolhidas. A sua obra foi continuada pelo arqueólogo Caetano de Mello Beirão o qual, na década de 70, realizou descobertas importantíssimas sobre a Idade do Ferro. Pode-se, pois, afirmar que  “a este arqueólogo se deve a primeira ideia de um parque arqueológico, hoje materializada no Circuito Arqueológico da Cola.” (IPPAR - Roteiros da Arqueologia Portuguesa: 2002; 7)

             Deste projecto a maior intervenção realizada consistiu na construção do Centro de Acolhimento e de Interpretação e no planeamento de um circuito delineado em pontos arqueológicos de indiscutível interesse. Todas estas intervenções ajudaram na concretização dos principais objectivos que fundamentam a definição actual do  Museu-Território.

               OS  VISITANTES

           Em reposta a este novo tipo de musealização, surge um visitante mais exigente em novos aspectos museológicos e informativos. Deste modo, teremos que criar estratégias apelativas e promocionais a fim de cativar os turistas, promovendo a sua deslocação ao circuito arqueológico estudado. Com base na perspectiva e testemunho do guia do circuito, é preciso aplicar métodos promocionais mais agressivos, promover conjuntamente este produto com outras potencialidades da região e, apostar fortemente na formação de recursos humanos, ou seja, em guias.

         Assim como exemplo, atrever-nos-íamos a afirmar que o Circuito Arqueológico da Cola é um espaço, actualmente, pouco apelativo e acessível. Graças ao recente Centro de Acolhimento e Interpretação e ao esforço na planificação do circuito, pretende-se num futuro próximo, com a aquisição de jipes, ou dos meios de transportes adequados que seja dada a possibilidade ao turista de sentir-se motivado e atraído para este tipo de produto.

           Com base na tipologia de Alberto Angela (1988) 15 e na experiência e testemunho do nosso guia/recepcionista ao Castro da Cola, podemos afirmar que os tipos de mercado correspondentes ao circuito são as  famílias , incluindo as  crianças , integradas nas visitas escolares ou nas famílias.

             Baseado no inquérito enviado ao Circuito Arqueológico da Cola identificamos uma grande oscilação no número de visitantes anuais, realçando o decréscimo registado no ano de 2003 e a posterior retoma no ano seguinte.

             É fulcral salientar o facto de não existir uma avaliação de mercado que nos possa auxiliar na importância do investimento que o IPPAR tem vindo a efectuar nos últimos 5 anos, com o objectivo de valorizar e estreitar a relação patrimonial entre o público e a população local. Como tal é urgente criar meios de análise que conduzam à avaliação e/ou adopção de estratégias eficazes para atingir o fim principal – atracção de turistas/visitantes.

          De acordo com a análise SWOT realizada durante a visita ao sítio arqueológico evidenciamos como principais fragilidades:

- A falta de sinalética durante o percurso exterior;

- A inexistência de informação turística noutras línguas estrangeiras;

- A precaridade nos acessos.

            Contudo, no inquérito preenchido pela entidade denotámos algumas disparidades comparativamente com a nossa análise. Por exemplo, quando a entidade refere a existência de idiomas na sinalização, que não detectámos, ou de placas identificativas no decorrer do percurso possibilitando a realização de trilhos autoguiados. De facto foi extremamente difícil realizar a visita sem o auxílio do guia/recepcionista do Centro de Acolhimento e Interpretação.

 

In: Sítios Arqueológicos E Centros De Interpretação, Em Portugal – Alentejo E Algarve

Patrícia Mareco, 2007

 

publicado por José Pereira Malveiro às 15:00

Ao efectuar uma prisão

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Documento da Chancelaria de D. Afonso V, Livro 30, fólio 12.

 

             Segundo Luís Miguel Duarte, Justiça e Criminalidade no Portugal Medievo. Em Garvão (…), pai e filho, avisados de uma rixa, "sayram com senhas lanças nas mãaos pêra averem d'estremar" os desavindos. E encontraram alguns homens "apegados em huum Estevam Junqueiro seu primo parecendo lhe que davam nelle e lhe[s] diseram que o leixassem e elles o leixaram nom cuidando que elle estava presso".

            O alcaide, Estêvão Luís Viseu presenciou o incidente. Mais tarde, "foram dizer" ao juiz da vila que pai e filho tinham tirado o preso, Estêvão Junqueiro, da posse do alcaide. O juiz manifestou o propósito de prender de imediato os dois, ao que o suplicante, Afonso Eanes Carrasco (o filho) respondeu "que nom avia porque porque elle nom sabia que o Junqueiro estava preso nem o tirara salvo quanto lhe parecera que davam nelle e que hy estava o dicto Estevam Junqueiro que elle juiz bem poderia mandar prender o que elle juiz fazer nam quisera por nom teer delle querella nem denunciaçam algua soomente porque diziam que alevantara arroydo".

            A candura do relato é prejudicada pelo facto de, contra Afonso Eanes Carrasco, penderem mais três acusações de violência - mas fica a história (Chanc. Af. V, L. 30, fól. 126).

            A figura do Alcaide, como representante do rei, governador de vilas dotadas de fortificações depois da reconquista cristã em Portugal aparece amiúde na Carta de Foral de Garvão. A denominação derivou, contudo, do árabe, Al-Kaid ou Al-caid, pois na altura da presença muçulmana conheciam-se como alcaides os governadores de províncias ou de praças.

               A partir da época cristã, os alcaides (também chamados, num período inicial e por inspiração romana, de pretores, e depois de alcaides-mores ou maiores) viram a sua jurisdição alargada até abranger os territórios vizinhos.

               Estes funcionários pertenciam à nobreza e tinham como missão a defesa militar da vila e o desempenho de funções judiciais e administrativas, prestando contas diretamente ao rei. Nas alturas em que se tinha de ausentar da vila, era nomeado para o substituir um alcaide-pequeno ou alcaide-menor.

                O rei D. Dinis chegou a emitir forais em que impedia os alcaides de desempenhar funções judiciais, restringindo-os às militares. O título de alcaide era hereditário e tornou-se, a partir do século XVII, apenas sinal de honra e prestígio, visto que as funções que tradicionalmente desempenhara deixaram de existir. Estas mesmas funções, de gestão e coordenação, fizeram com que o título fosse assimilado em outros âmbitos, como a justiça (alcaide da vara), a educação das crianças da nobreza (alcaide dos donzéis) e os ofícios marítimos (alcaide do navio), por exemplo.

               Em relação aos presos o Foral de Garvão determina que o alcaide manteria na sua posse os bens do detido mesmo que apresentasse fiador antes ou depois do encarceramento no castelo, contudo, como se observou, só aos juízes cabia a ordem de captura, assim como teriam de ter conhecimento se à sua revelia alguém fosse preso e teriam de investigar, ao alcaide se não obedecesse às ordens dos juízes era-lhe vedado o direito de receber direitos de carceragem, “Todo homem que o alcayde prende e der fiador ante que ao Castello uaa daremno com todo o seu. E se fiador non acha e o leuam ao Castello depoys que der fiador daremno com todo seu. e se poys lly podem poer perante os juizes que feytor é daquillo que li apoem dê V soldos de aliubádigo e se llo non podem poer non nos dê.” (fl. 7r)

                  Contudo, as pelejas causadas pelos vizinhos nos termos da vila ou fora da área do concelho, os mesmos costumes estipulam igualmente de que terão de ser resolvidas pelo alcaide, no lugar dos Juizes, desde que estes não fossem capazes de o resolver, “Peleia que pelegem vezinos na villa ou fóra da uila se foren y os juyzes emfiinnos pera dereyto que façam dereyto perantelles. e se os juyzes se sy non acertarem traue en eles o alcayde e enfiios pera dereyto dos juyzes. e se for de morte non nos dê por fiadores e uiirem os juyzes e fazerem y com no alcayde todo dereyto aquelo que iaz en sa carta.”. (fl. 7r)

 

publicado por José Pereira Malveiro às 14:52

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Faleceu há 50 anos

 

             Volvidos 50 anos sobre o falecimento do Arqueólogo Abel Viana (1896-1964), pretende este jornal homenagear esta figura marcante e incontornável da Arqueologia Portuguesa e evocar a sua generosa herança e o seu contributo em termos de produção científica e bibliográfica. Os seus trabalhos extrapolaram em muitos os limites geográficos do seu Minho natal, nos quais se destacam as investigações realizadas na região do Algarve e Alentejo, o exemplo do empenho laborioso no estudo, salvaguarda e divulgação do património local/regional, garantindo assim às gerações vindouras o acesso a testemunhos imprescindíveis para o conhecimento da ocupação humana no nosso país.

               No Alentejo produziu grande parte das suas investigações históricas e arqueológicas, principalmente na região de Beja, embora nunca tenha perdido o contacto com o Algarve e o seu Minho natal. Referente a Garvão dá a conhecer pela primeira vez os monumentos megalíticos que se encontram em torno da vila nas publicações “Monumentos megalíticos dos arredores do concelho de Ourique” editadas pelos anos cinquenta do século passado. Os materiais arqueológicos que encontrou foram entregues a museus públicos como o Museu dos Serviços Geológicos em Lisboa, os museus de Elvas, Faro, Lagos, o Museu de Viana do castelo, o Museu – Biblioteca da Fundação da Casa de Bragança e o Museu Regional de Beja, cumprindo a promessa de preservação, salvaguarda e divulgação da nossa herança histórica e cultural.

               O último grande trabalho a que se dedicou foram as escavações arqueológicas do castro de Nossa Senhora da Cola, no concelho de Ourique. Sob o patrocínio da Fundação Gulbenkian, começou os trabalhos em 1958 baseado nas primeiras referências de André de Resende, D. Frei Manuel do Cenáculo e Leite de Vasconcelos. Colocou a muralha a descoberto, restaurou-a, procedeu à escavação do local e inventariou os materiais aí encontrados. Estudou todo o conjunto da Cola (castelo, fortificações secundárias e respetivas necrópoles) descobrindo o que restou de um monumento megalítico no Barranco da Nora Velha e uma necrópole da Idade do Bronze na Herdade da Atalaia. Neste conjunto encontrou materiais arqueológicos das sucessivas ocupações: neolítico, romano, visigótico e islâmico. Alguns destes importantes achados deram entrada no Museu Regional de Beja.

             Depois de seis longos anos de trabalho na Cola, fez a última visita ao local em janeiro de 1964, integrado numa visita com o ministro das Obras Públicas. Todo o esforço e empenho que colocou na descoberta, estudo e divulgação das ruínas tinham valido a pena, assim o expressa numa carta enviada a um amigo e discípulo:

              “Foi grande o dia para Ourique, uma verdadeira data histórica. E para a Senhora da Cola Idem. No ‘Diário do Alentejo’ terás visto aquele passo do ministro no qual assinalou a contribuição importante que para o património arqueológico do País representa o castro da Cola que há muito desejava visitar e cuja defesa e valorização eram apoiados com fundamentado interesse pelo Ministério das Obras Públicas. Vê lá tu! E eu com tantas atrapalhações, porque o dinheiro tem sido pouco e pago tão tarde que tenho andado sempre com milhares de escudos adiantados do meu bolso e a incerteza de que mos paguem! Isto é assim mesmo meu velho: temos que nos arriscar e sacrificar muito, até que nos vejam e nos façam justiça. Agora parece que a coisa carrila devidamente. Antes que arrefeça, vou-me desunhar em relatórios, exposições, sugestões, petições, (...).”

            Não chegou a concretizar este último sonho, faleceu na madrugada de 17 de fevereiro de 1964. Por sua expressa vontade foi sepultado em Beja, a sua amada Pax Julia. Tinha 68 anos.

 

publicado por José Pereira Malveiro às 14:47

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A Caminho da Feira de Garvão

 

            Há patinhas d’um ladrão, naquele tempo as coisas eram levadas da breca, em se juntando a Zefinha de Portel, ceguinha, apoiada no seu velho companheiro Faísca, o Norberto Gateiro da Chada-Velha, o Adelino do Monte da Vinha e outros tangedores mendicantes, era certo que iria dar cantoria, e, já agora, que bem soava ouvi-los, mas também era certo que em o vinho começando a fermentar naquelas cabecinhas, mais cedo ou mais tarde iria dar pancadaria.

            A Zefinha, coitada, ceguinha, bem se tentava abrigar dos porradões que soavam à sua volta, o Faísca bem tentava, coitado, escapulir dos bordões que no ar zuniam e segurando no braço da ceguinha para lá a encaminhava para fora daquele reboliço todo.

            Quem não se dava muito bem com aquilo tudo era o António Emídio, tinha vindo de propósito da Aldeia de Palheiros para a anual feira de Garvão e o acostumado cante ao baldão, desgarrada ou despique como lhe quiserem chamar, de viola à tiracolo metia-se direito ao Curral Velho, uma copada com um bom pedaço de conduto no Encalho e em menos de nada, que é como quem diz ao fim de uma semana ou duas, estava na Feira de Garvão.

            A visita ao compadre Zé na taberna do Saraiva também era uma obrigação, senão na ida pelo menos na volta, apesar de depois de umas boas cantorias agarrado à viola sobrarem sempre umas boas sopas e faltar sempre o bom vinho, a ti’Maria do Saraiva é que não o largava, era malina, queria era “Balho”, mas então quem é que se agarrava atracado a um pedaço de mulher daquelas, usava uma cinta de lã preta para segurar a saia que dava duas voltas à cintura de qualquer homem, uma vez desancou de tal maneira o Blei do Vale de Mu que se não a tivessem agarrado tinha-o enforcado com a cinta de uma oliveira abaixo.

            Então o malandro, assim relatava a criatura, não tem vergonha depois do bailarico em que os rodopios da ti’Maria até faziam o Blei levantar os pés no ar com a cabeça bem enterrada nos farfalhudos peitos, valendo-lhe a providencial cinta, onde se agarrava, até que esta se desmanchou e por pouco não ficava a mulher em trajes menores, (se os havia), diante daquele pagode todo, e ainda por cima com o outro a querer beija-la, o pior não eram as tentativas beijoriqueiras do Blei, o pior era quando o raio do tabaco queimava os poucos pêlos que sobressaíam das bexigas na cara da ti’Maria, aí é que estava o caldo entornado, “tamas o que é isto, tás parvo ou quê”, assim dizia de sua justiça, e dizendo isto afinca-lhe três bordoadas que o deixaram espojado nos restos da calçada do monte, entre ais para aqui e uis para ali, o certo é que os polaropos que tinha na cabeça já ninguém lhos tirava.

            Mas valia a pena, quem é que arredava pé, diante de tal cantoria, da Corte Malhão vinha o Miguel Guerreiro, do Monte da Viúvas em Almodôvar vinha o Belchior, e até das bandas de Alcoutim vinha o Romanito cego, e muito cantavam aquelas alminhas, a Ti’Mariana da estação d’Ourique não tocava, nunca teve muito jeito para aquilo, mas arrufava bem e era certo que quem se metesse com ela à despique ou à desgarrada, tinha que puxar muito bem pela cachimónia para lhe dar a volta, e aquilo é que era cantar, animavam as vendas das aldeias e os bailes no caminho para as feiras, ganhavam umas coroas aqui e umas sopas ali, dormiam ora em palheiros ora ao relento, mas não era disso que cantavam, "Não quero que vás à monda", "Avoa, pombinha avoa", "Oh que festa linda festa", "Fui colher uma romã", "Baile do pézinho" ou "Quero ir para o altinho, qu'eu daqui não vejo bem, quero ir ver o meu amor, se ele adora mais alguém", assim cantavam as modas e picados por uns e por outros lá vinham à baila os despiques, salpicados aqui e acolá com alguns versos mais atrevidos para consolo e galhofada da assistência.

            Até o desgraçado do Finfas e o Figueiredo parvo de Panóias, com o seu sorriso cacofónico, por lá apareciam, esses eram pedintes, corriam atrás das moças e dos moços.

            O Manuel Inácio Verónica das Amoreiras-Gare andava de “balho” em “balho” pelas terras vizinhas, e lá arranjava sempre maneira para que a sua volta nos fins de Abril, princípios de Maio ir dar a Garvão, este ano chegou mais cedo, bem o trombicaram no baile do “Vale Ganim”, para lá o arrastaram desde o Chaparral à pressa para ir tocar num baile-promessa e quando lá chegou já o magala Almerindo dos Arraiois estava em cima da mesa agarrado a um harmónio, como aquilo soava mais alto que a viola, para lá lhe deram umas migas para ele se calar, mas não, não se sentia bem com o outro todo arrufado em cima da mesa a debitar aqueles fados que tinha aprendido lá para a cidade, “nam senhor, aqui nam fico”, e arrancou direito ao monte Major onde o velho amigo Estopa lhe arranjaria, com certeza, dormida nas arramadas junto ao gado e com um pouco de sorte, depois de umas cantorias valentes agarrado à viola, para lá lhe arranjaria, também, qualquer coisa quente que se coma.

publicado por José Pereira Malveiro às 14:36

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