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Estela do Viradouro-1.jpg

FRAGMENTO DE ESTELA EPIGRAFADA DA I IDADE DO FERRO DO SUDOESTE PENINSULAR, Procedente de Saboia - Odemira

 

Estudo de Mário Varela Gomes*, publicado na Revista Arqueologia & História, Revista da Associação dos Arqueólogos Portugueses, volume número 60-61, 2008-2009, por, pag. 143 e seguintes.

 

 * Doutor Mário Varela Gomes, Docente do Departamento de História da F. C. S. H. da Universidade Nova de Lisboa. Membro da Academia Portuguesa de História e da Academia Nacional das Belas-Artes.

 

Segundo o arqueólogo José Daniel Malveiro, a estela agora estudada foi recolhida em 2003,  pelo Sr. Gualdino, primo do Sr. Henrique, (negociante de ferro-velho e antiguidades na aldeia da Corte Malhão), perto da povoação de Viradouro, em local denominado Cerro dos Mouros (Carta Militar de Portugal, n° 570), onde parece existir necrópole, talvez contemporânea deste monólito. A estela aqui estudada foi posteriormente adquirida pelo autor deste Blog e encontra-se em Garvão.

 

O monumento

Conforme acima mencionámos, trata-se de porção com contorno trapezóidal, contendo parte do volume distai e mesial de monólito, com forma estelar, talhado em xisto, de cor cinzenta escura, embora as superfícies expostas mostrem cor cinzenta clara. Subsiste apenas parte original do bordo situado do lado direito, mostrando no restante perímetro numerosas fracturas, que muito afectaram a sua forma e dimensões originais, amputando grande parte do texto epigrafado que continha.

O anverso, ou seja, a superfície que serviu de suporte à inscrição, oferece forma plana, obtida naturalmente a partir de linha de fractura, e pátina, devido à sua exposição aos agentes meteóricos, o mesmo acontecendo com a porção conservada do bordo primitivo.

O volume proximal, totalmente desaparecido, era anepigrafo e destinava-se a fixar o monólito ao solo.

Mede 0,412 m de altura, 0,404 m de largura e 0,035 m de espessura máxima, sendo possível que a sua altura, quando inteira, atingisse quase o dobro da que actualmente se observa.

 

A epígrafe

Foi gravada no anverso da esteia, nas superfícies mesial e distai, utilizando-se, como esboço, linhas filiformes, depois alargadas e aprofundadas através de abrasão. Todavia, duas letras mostram finos picotados, em um dos casos para melhor definir linha semicircular, difícil de obter por abrasão. O texto, desenvolvendo-se no sentido dextrorso, foi integrado em carteia, com forma de pórtico, ou seja com um tramo ascendente, situado no lado esquerdo do leitor, um segundo horizontal, no topo, e o terceiro, descendente e à direita do observador.

No interior do espaço envolvido pela carteia detectaram-se algumas incisões filiformes, de carácter parasita.

A carteia foi figurada com técnica idêntica à das letras e mede 0,088 m de largura média, embora apenas se conserve em sector do último tramo acima indicado, dado que nos dois outros a sua linha exterior desapareceu totalmente, devido às profundas fracturas ali existentes e já referidas.

Identificaram-se sete letras completas, cinco quase completas e duas ainda reconhecíveis, ou seja, um total de catorze letras, das cerca de duas dezenas que possuiria a inscrição.

O texto encontra-se interrompido em duas zonas, ambas do seu tramo horizontal e onde as letras estão invertidas, apesar de continuarem a constituir texto dextrorso (Fig. 6).

Não existe a certeza absoluta se a epígrafe foi iniciada com a primeira letra que actualmente se detecta, ou se termina com a última letra que ali se observa, podendo, neste sector, ser originalmente algo mais extensa.

As letras maiores medem 0,088 m de altura e as menores, o ómicron, apenas 0,032 m. Todas elas oferecem formas bem conhecidas na escrita do Sudoeste Peninsular e, designadamente, no alfabeto de Espanca. Como característica mais evidente, observam-se os alfas com a barra muito oblíqua, tocando o extremo de uma das hastes, um heta com três barras oblíquas e um épsilon, contendo duas barras também oblíquas.

As letras da epigrafe em apreço oferecem morfologia semelhante às utilizadas na inscrição de Vale de Águia (São Bartolomeu de Messines, Silves) (Gomes e Cabrita, 2006-07).

A primeira letra corresponde a kap& constituido por haste vertical e linha curva, muito aberta e separada daquela. Também nos exemplares mais antigos de tais signos, das escritas gregas arcaicas, as barras obliquas não se ligam ao traço vertical (Je-ffery, 1961, p. 30). O seu valor fonético é o do k ou do c latinos.

A segunda letra identifica-se com nu. O seu valor fonético é o do n latino.

As terceira, quinta e sétima letras são alfas, com duas hastes dispostas em forma de V invertido e barra bem obliqua, mais alta do lado esquerdo em dois dos exemplares e quase tocando a extremidade inferior da haste direita. O valor fonético é o do a latino.

A quarta letra é um gama, em forma de V invertido ou de ângulo agudo. Esta forma foi usada na Ática, entre os séculos VIII e V a.C. (Jeffery, 1961, p. 23). O seu valor fonético é o do g latino.

A sexta e oitava letras representam ómicrons, de médias dimensões, possuindo o valor fonético do o latino.

A nona letra é a vogal aspirada hera, com forma próxima daquela que surge no alfabeto arcaico de Tera, na escrita ática antiga e em outros alfabetos de diversos lugares da Grécia Central, como do Peloponeso, até ao século VI a.C. (Jeffery, 1961, p. 28). O seu valor fonético pode ser e, i, he ou de e longo, mas também de e aspirado ou apenas de h, indicando também aspiração (Ghinatti, 1999, p. 65).

A décima letra é um upsilon, com aspecto idêntico ao que surge nas escritas gregas arcaicas e valor fonético do u latino (Jeffery, 1961 p 35)

A décima primeira letra corresponde a rho, com a parte superior semicircular, embora em algumas epigrafias contemporâneas tenha forma triangular, talvez devido à dificuldade de se gravar um semicírculo. O seu valor fonético é o do r latino.

A décima segunda letra é um mu, com o valor fonético do m latino.

A décima terceira letra corresponde a épsilon, oferecendo duas barras obliquas, com o valor foné-tico do e latino ou do ditongo ei, conforme acontecia em Corinto. mas também da vogal aspirada he (Jeffery, 1961, p. 24).

A décima quarta letra encontra-se denunciada apenas por parte de traço vertical e de outro ho-rizontal, pelo que deve corresponder a "omicron quadrado: signo conhecido na esteia de Barradas (Gomes, 1996) e em outras da escrita do Sudoeste Peninsular, com paralelos no lemnio e no jónico (Della Seta, 1937, p. 121).

 

Comentário

A morfologia do suporte, das letras e a disposição destas indicam que o monólito em apreço corresponde a esteia funerária, da 1 Idade do Ferro, com abundantes paralelos no Baixo Alentejo e no Algarve e. mais raros, na Estremadura Castelhana ou na Andaluzia Ocidental. De facto, a disposição do texto em forma de pórtico, é uma das mais recorrentes daqueles monumentos, podendo mesmo registar simbologia de carácter escatológico, ligada portanto à morte. através do conceito grego de mundus, que aquela forma representaria, aludindo à passagem da alma para dimensão transcendente. A transcrição dos sectores conservados da epígrafe é a apresentada a seguir, a partir dos valores fonéticos dos alfabetos gregos arcaicos e minorasiéticos. dos séculos VIII a VI a.C.

 

O texto é o seguinte:

KNAGA?OA... O EURMEO?

A sua reconstituição será:

K(o/u)NAGA... 0A[REN)0 EUR(e)MEO[N]

Segundo julgamos, encontramo-nos perante epígrafe, correspondendo a fórmula funerária, constituída por três palavras, embora não correspondam aos fria nomina, conforme acontece com outras inscrições do mesmo período e conviria à função do monumento.

A primeira palavra constitui antropónimo. A nossa leitura Konaga/Kunaga é muito semelhante a Kónagos, antropónimo registado, no século II a. C., na Tessália (Fraser e Matthews, 2000, p. 243) e a Kúnagos, surgido na Lacónia, no século VI a.C. (Fraser e Matthews, 1997, p. 261).

A segunda, Oareno, também se identifica na esteia de Vale de Ourique (III) (Oaren), pelo que foi possível proceder à sua restituição na inscrição em estudo.

É semelhante àquela, lareno/lareni/Uareni, pre-sente em cinco epígrafes do Sudoeste (Cerro dos Enforcados I e II, Ameixial II, III e talvez IV). Oareno e lareno podem relacionar-se com oaros, que em grego designa esposa, tendo-se registado na Ásia Menor o teónimo Oreai (Mater Oreia) (Robert, 1963, p. 84).

A última palavra, outro antropónimo, designa, em grego, eloquente (eurémon) e foi igualmente reconhecida na esteia de Fonte Velha de Bensafrim I, hoje no Museu Nacional de Arqueologia, em Lis-boa. Ela encontra paralelo em Eurémon, de inscri-ção procedente de Salamina, em Chipre, datada no século II a. C. (Fraser e Mathews, 1987, p. 183), como em epígrafe, de meados do século III a.C., da Beócia (Fraser e Matthews, 2000, p. 164) ou em outras de Epidauro, na Argólida, datada no século IV a.C., e da Arcádia, com cronologia do século II a. C. (Fraser e Matthews, 1997, p. 173). Segundo R Chantraine (1999, p. 388), o prefixo eu, muito usado na formação de nomes, desde o micénico, exprime abundância.

Em cupa funerária de Mértola, do século II, regista-se um Aemilius Eurémon. Este nome não é conhecido no mundo romano, pelo que a sua pre-sença foi explicada a partir da possível origem grega daquele (Encarnação, 1984, p. 177), mas que podemos agora fazer ascender à Proto-História local.

A tradução da lápide, de Sabóia, será: "Kunaga, esposa de Eurémeon."

 

Bibliografia

BEIRÃO, C. de M. (1990) - Epigrafia da I Idade do Ferro do Sudoeste da Península Ibérica. Novos dados arqueológicos. Estudos Orientais, vol. I, pp. 107-118.

 

BEIRÃO, C. M.; GOMES, M. V. (1988) - A esteia epigrafada do Pardieiro. S. Maninho das Amoreiras (Odemira, Beja), Veleia, vol. 5, pp. 115-123.

 

CHANTRAINE, P (1999) - Dictionnaire Étymologique de Ia Langue Grecque, Histoire des Nons, Klincksieck, Paris.

 

DELLA SETA, A. (1937) - Iscrizioni Tirreniche di Lemno, Scritti in Onore de Bartolomeo Nogara, pp. 119-146, Città dei Vaticano, Roma.

 

ENCARNAÇÃO, J. d' (1984)- Inscrições Romanas do Conventus Pacensis, Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras de Coimbra, Coimbra.

 

FRASER, P. M.; MATTHEWS, E. (1987) - A Lexicon of Greek Personal Names. vol. I, The Aegean Islands, Cyprus, Cyrenaica, The British Academy Press, Oxford.

 

FRASER, P M.; MATTHEWS, E. (2000) - A Lexicon of Greek Personal Names. vol. III.B, Central Greece: From the Megarid to Thessaly,The British Academy Press, Oxford.

 

GHINATTI, E (1999) - Alfabeti Greci, Problemi e Prospettive dei Mondo Antico, G. B. Paravia,Torino.

 

GOMES, M. V. (1996)- Esteia epigrafada e necrópole, da I Idade do Ferro, de Barradas, Benáfim (Loulé), ai-Ulyã, n° 5, pp. 9-22.

 

GOMES, M. V.; CABRITA, L. M. (2006-07) - Inscrição, na escrita do Sudoeste, do Vale de Águia. São Bartolomeu de Messines, Silves, Arqueologia & História, vols 58, 59, pp. 79-82.

 

JEFFERY, L. H. (1961) - The Local Scripts of Archaic Greece. A Study of the Origin 01 the Greek Alphabet and its Development Irem the Eight to the Fifth Centuries B.C., Oxford Monographs on Classical Archaeology, Oxford University Press, Oxford.

 

MALVEIRO, J. P (2003) - Garvão. Herança Histórica, Edição do Autor, Garvão.

 

ROBERT, L. (1963) - Noms Indigènes dans l'Asie-Mineure Gréco-Romaine, Bibliothèque Archeologique et Historique de l'Institut Français d'Archéologie d'Istambul, Paris.

 

publicado por José Pereira Malveiro às 18:25

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