19
Fev 20

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VILA DE GARVÃO

          Cópia do Brasão, bordado em tecido, que existia nas instalações da junta de Freguesia de Garvão até 2009, quando foi retirado do quadro que o protegia e deixou de estar exposto, pelo presidente da Junta de Freguesia em final de mandato.
          A antiguidade desde brasão é aparente pela ligeira degradação que apresenta, contudo, sem o devido estudo, é difícil precisar a data da confecção deste bordado, todavia o vocábulo Vila, aparece somente com uma consoante “L”, o que aponta para uma escrita posterior à reforma ortográfica de 1911, pois uma das alterações dessa reforma foi precisamente a redução das consoantes dobradas a singelas, (com exceção de rr e ss e alguns casos pontuais),
          A data da confecção deste brasão, aponta assim para um período posterior à introdução desta reforma em 1911, cujos princípios já estavam propostos nas Bases da Ortografia Portuguesa, de 1885. Pouco mais se poderá acrescentar sobre este brasão bordado em tela de pano. Sem a peça em si para se proceder a uma mais minuciosa análise é impossível chegar a outras conclusões, a não ser, mais uma vez, lamentar a falta de sentido de responsabilidade cultural de quem lhe deu sumiço, sem, julga-se, qualquer contrapartida ou razão para tal acto.
          Tratava-se de um bordado, em razoável bom estado de conservação, com as dimensões, (de memória), aproximadas de 60 a 80 cm de altura por 40 a 50 cm de largura, onde sobressaía a cor vermelha e dourada, bordados sobre o fundo de pano branco. O escudo apresentava-se em prateado, sobre o qual sobressaiam duas cruzes de Santiago laterais superiores e o sobreiro, ao centro, com o tronco preto e a copa dourada. A ladear este bordado apresentava-se um cordão dourado com duas borlas que o atravessava numa posição pendente desde os cantos superiores direito e esquerdo. Apresentava igualmente na parte superior e inferior do bordado uma lista cadilhada ou esfiada, dourada a toda a largura do bordado.
          Este Brasão, bordado e emoldurado, assim como cerca de vinte livros antigos dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX, encontravam-se nas instalações da Junta de Freguesia, cujo executivo em finais de mandato, como já se afirmou, deu sumiço em 2009.
          Os novos executivos da Junta e da Assembleia, apesar de devidamente alertados sobre o desaparecimento destes livros e do brasão, nada fizeram para a recuperação desse espólio, ou pelo menos em saber o que lhes tinha acontecido.
             Torna-se difícil fazer uma avaliação dos vários responsáveis da Junta e da Assembleia de Freguesia, sem cairmos no banal e no ridículo. Se para uns, despreocupados com estas coisas do património, têm tido uma actuação aceitável, para outros, mais sensibilizados com a história e o património desta terra, não podem deixar de se sentir incomodados com a constante falta de sentido e responsabilidade pelo património desta terra que se reflete precisamente, na incúria e desleixo no tratamento destes espólios, não só bibliográficos mas igualmente materializados nos vários vestígios arqueológicos da freguesia.

publicado por José Pereira Malveiro às 18:46

09
Fev 20

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A Pedra Escorregadia e o Pego do Sino
Culto Pré-Cristão Cristianizado

 

          Segundo o historiador José Hermano Saraiva no programa da RTP, "A Alma e a Gente", emitido em 26 de Novembro de 2006, sobre Ourique e no qual menciona a Senhora da Cola, menciona que este culto e devoção, seriam as reminiscências de um culto pré-histórico, praticado pela população local, que deveria ser numerosa na altura, tendo em conta os povoados, necrópoles, antas e outros testemunhos desse passado, que têm sido encontrados na região.

 

Havia aqui uma tradição muito antiga, um culto, um culto que vinha não se sabe de quando, mas que na fase cristã era um culto da mãe, da mãe. Um culto de Nossa Senhora aqui do Castro da Cola, é claro, era a Senhora da Cola, e as mulheres que queriam ser mães, vinham aqui numa peregrinação, continuam a vir, é em Setembro, e são romarias de milhares e milhares de mulheres que vêm fazer uma festa. A imagem está ali, veem-na lá em cima e ela segura numa das mãos um menino, na outra das mãos um fruto. Eu sei que aqui se discute se o fruto é uma pêra, se o fruto é um figo, eu julgo que é apenas um fruto, aquilo é uma ideia da Ave Maria, Ave Maria que diz que “bem dito é fruto do vosso ventre”, portanto é um culto da maternidade, da mulher mãe, é o fruto que ela mostra, e do outro lado o seu menino. Bom, este culto continua até hoje. Uma coisa curiosa, o que sai na procissão não é a imagem verdadeira que está além, dizem que aquela é a senhora, o que sai é esta que está cá em baixo, que dizem que é a criada, quem sai a fazer o trabalho é a criada, quem fica no seu trono é a senhora. Reparem como isto é ainda um vestígio medieval. 1

 

          De facto, à semelhança de outros lugares, o culto da Senhora da Cola, remonta ao período pré-histórico e seria um culto, não só dedicado à fertilidade feminina como o historiador José Hermano Saraiva menciona, mas igualmente devotado à fertilidade dos campos e animais, como ainda nos anos sessenta do século XX se observava nas preces e nas ofertas em géneros agrícolas que se depositava na portinhola lateral da Igreja, cuja função era precisamente receber tais ofertas.

         Contudo, segundo José Leite de Vasconcelos,2 a relação da fecundidade das mulheres e a esperança de um bom parto, encontra-se igualmente presente neste lugar. Tanto mulheres como homens procediam a um ritual de escorregarem numa formação rochosa natural, denominada por Pedra Escorregadia.

 

Numa ladeira que vai ter ao barranco da Horta do Marchitão ve-se uma lage natural a que se chama Pedra escorregadia, porque ai vão deixar-se escorregar homens e mulheres no dia da festa. O atrito fez que já se produzisse grande sulco ou rogo na pedra. Qual a razão d'este brinquedo? O povo não m'a disse quando estive na Cola, mas tempo depois ouvi contar que havia ali uma lage por onde as mulheres gravidas iam escorregar-se para serem felizes no parto. Se a lage é a mesma, como suponho, temos a explicação quanto ás mulheres. Falta quanto aos homens. Noutras terras de Portugal existem costumes analogos I, bem como lá fóra, por exemplo, em França2.
(NOTAS de RODAPÉ: 1 Vid. as minhas Trad. pop. de Portugal, § 203. 2 Vid. P. Sébillot, Le Folk-lore de France, I, 335 sgs.)

 

             Segundo Mircea Eliade, 3 Em algumas religiões acredita-se que a Terra Mãe é capaz de conceber sozinha, sem o auxílio de um companheiro. Encontram-se ainda os traços dessas idéias arcaicas nos mitos partenogênese das deusas mediterrânicas. Assim as mulheres estéreis procuravam engravidar, ao escorregarem na lage, depois das mulheres fecundadas nesse dia.

        Com a chegada do Cristianismo, era costume a nova religião, conquistadora, assimilar e moldar a seu proveito os cultos indígenas locais, como aconteceu não só neste caso, mas igualmente noutros lugares sagrados pré-cristãos. Essas religiões, pré-históricas, tinham um grande contacto com a natureza. A sacralização dos lugares campestres, por vezes manifesta-se nos mais diversos lugares, sejam em árvores,4 cursos de água,5 ou outros acidentes ou formações naturais, como certos relevos rochosos.6

          A religiosidade, dos povos autóctones, consagrava-se, assim, na adoração de locais naturais, fontes e rios, adorando e respeitando o espaço tribal. Os cursos e os pegos de água, eram assim, em certos lugares, considerados sagrados, pelas suas capacidades de cura e processos de regeneração de traumas físicos.

          Era assim no Pego do Sino, na ribeira do Marchicão, junto ao santuário, até aos anos sessenta do século passado,7 a que se atribuíam propriedades traumatúrgicas, onde os crentes se banhavam num processo mítico-religioso de esperança de cura das maleitas ou ferimentos que os afligiam. Esta tradição do banho sagrado no referido pego e a fecundação das mulheres, como se observou no caso da Pedra Escorregadia, poderá estar na origem da religiosidade deste local.

             A partícula Sin, encontra-se igualmente em Sintra e Sinai, relacionados com o culto da Lua. O Pego do Sino seria o pego da Lua, e em termos teóricos o termo poderia-se igualmente estender à elevação que o cinge , (como em Sintra e Sinai), e onde assenta o Castro da Cola e o actual Santuário, antes da presente designação de Marachique ou Marchicão.

 

(1) - José Hermano Saraiva no programa da RTP, "A Alma e a Gente", emitido em 26 de Novembro de 2006.

(2) - O Archeologo Português, Volume XXIX 1930-31_ edição de 1934, José Leite de Vasconcelos, Excursão ao Baixo-Alentejo, 1897. P. 239.

(3) - Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano, São Paulo, 1992. P. 153.

(4) - Como se observa na tradição Celta e ainda hoje se encontra nos santuários Xintoístas.

(5) - Como ainda hoje se assiste com o Ganges, rio sagrado para os Hindus.

(6) - Como é o caso do monte Ululu (Ayers rock), para os aborígenes australianos. Ou de tantos Montes-Santos que se encontram em Portugal. De notar igualmente, a formação geológica de dois sulcos naturais paralelos no terreno, da era do gelo, associados a um alinhamento astronómico, cujo sentido aponta na direcção do Solstício de Verão e cuja associação religiosa/astronómica levou, no final destes sulcos, à criação do santuário de Stonehenge.

(7) - Ainda na década de setenta do século passado, havia uma Srª em Ourique que só bebia água da fonte do Moinho do pego do Sino, não se sabendo se a podemos enquadrar numa vertente de tradição local ou familiar, passada às sucessivas gerações, ou se se trata de um episódio recente, mais do âmbito da moderna religião.

 

publicado por José Pereira Malveiro às 23:02

07
Fev 20

Festas e Bodos da Irmandade do

Sagrado Espírito Santo

         

          A origem das Festas populares que se observam em vários pontos do país, tanto nos meios urbanos como nos meios rurais, apesar de na maior parte dos casos se ter perdido a sua origem e hoje bastante desvirtuados e adulterados, conseguem-se identificar, na maioria, com as festas medievais consagradas ao culto do Espírito Santo, realizadas sete semanas depois da Páscoa, no Domingo de Pentecostes. (1) 
          As Festas do Espírito Santo, promovidas pela respectiva confraria, caracterizam-se pela cerimónia dos Impérios do Divino Espírito Santo que culminava na confeção de um enorme "Bodo", refeição comunitária de assistência aos mais carenciados.
          A carne para este "Bodo" provinha da morte de um touro, previamente toureado pelas ruas da povoação, para diversão da população e não só era distribuída pelos mais carenciados, como, inclusivamente, servia para confecionar um enorme banquete em que toda a população participava.
           Estas festas, reflectiam o compromisso entre a população e o divino, a falta destas festas/cerimónias, levava-os a recordar anos, em que estas se não fizeram, para catástrofes naturais, como tempestades, trovoadas, ciclones, secas, ou pragas de lagartas ou de gafanhotos que dizimavam as colheitas e infestavam os celeiros, conforme o fólio vinte e dois do livro do Sagrado Espírito Santo e da Misericórdia, nos elucida sobre as pragas de gafanhotos.

(…) nem poderião alegar os ditos
foreiros anno de esterilidade,
nem de gafanhotos (…)

         O medo do castigo divino comprometia toda a comunidade e estes festejos, com a oferta de comida á divindade e a respectiva distribuição pelos pobres, procurava a protecção das colheitas agrícolas, das catástrofes naturais e a salvaguarda dos celeiros, das pragas de formigas ou ratos.
           As festas eram como um agradecimento de uma promessa cumprida, pelas colheitas dos anos anteriores e uma prece de protecção, para os anos vindouros.
           As tradicionais Festas populares que se observam de Norte a Sul do país, terão, na sua maior parte, origem nestas festas do Espírito Santo. Surgem nos documentos medievais, praticamente em todos os concelhos, referências a estas festas, nomeadamente em; Tomar nas Festas do tabuleiro; em Barrancos; nos Açores e no Penedo em Sintra onde a tradição do Espírito Santo ainda se mantém viva; em Portel e em muitas outras povoações de Norte a Sul do país, assim como em vários outros países, levado pelas várias comunidades de imigrantes, nomeadamente no Brasil e Estados Unidos da América.
            Em Tomar realiza-se a tradicional Festa dos Tabuleiros de quatro em quatro anos, no princípio de Julho, a qual atrai á cidade muitos turistas nacionais e estrangeiros. Esta Festa tem como origem o culto do Espírito Santo instituído no séc. XIV.
          Os tabuleiros com o pão que as participantes carregam à cabeça, são adornados com os elementos típicos das antigas festas das colheitas e da celebração da fertilidade da terra, flores e espigas de trigo, e encimados pela Cruz de Cristo ou pela Pomba do Espírito Santo. Depois do cortejo faz-se a distribuição da carne, do pão e do vinho, benzidos no dia anterior, pelos mais necessitados da cidade.
          A antiga tradição do sacrifício dos bois, cuja carne seria depois distribuída por todos, (como acontece ainda no Penedo/Sintra, após a tourada à corda), manteve-se na Festa dos Tabuleiros, em Tomar, até 1895, a partir de 1966, os bois do Espírito Santo voltaram ao cortejo, mas agora só com funções simbólicas.
          As festas tradicionais de Barrancos, com a largada de touros no largo principal desta vila alentejana e a exigência da morte do touro, durante a garraiada, é justificada pela tradição da distribuição de carne pela população num enorme banquete, e é com base precisamente nestas tradições que muitas vilas alentejanas se arreigam do privilégio de também matar o touro durante a tourada, tendo como justificação as mesmas tradições da distribuição de carne aos mais necessitados.
          Em Garvão, assim como noutros lugares, apesar da data da realização das festas, possivelmente já não coincidir com a data primitiva, e apesar de já não se fazer o bodo ou de tal haver lembrança, as festas de Garvão apresentam características próprias destas festas ao culto do Espírito Santo. A ideia principal mantém-se que é reunir o povo para a festa anual e a largada nas ruas da vila.

           Há notícias destes festejos de Norte a Sul do país, nomeadamente em Portel no Alentejo.

(…) dá mais jantar esplêndido à pobreza em dia do Espírito Sancto, e ração de pão e carne a todos os moradores pobres da villa a quem conciderão necessitados.(2)

           Na povoação de São João da Lampas, no concelho de Sintra, existe também notícias destes festejos.

A sua origem estará certamente relacionada com a instauração das Festas em louvor do Divino Espírito Santo pela Rainha Santa Isabel. Diz-nos João da Silva Marques, no decurso da sua aturada recolha documental: “A Instituição desta usança remontaria, assim, a uma data posterior a 1287, data da doação de Sintra à Rainha, e anterior a 1336, ano da sua morte” (Marques, 1938). Tal facto relacionar-se-ia com a autorização da monarca para a realização das ditas festa no interior dos “seus” paços na Vila de Sintra, difundindo a partir de então esta prática para as paróquias rurais.(3)

          Igualmente em Alvalade, distrito de Beja, surge a notícia de “O Bodo de 1943”(4)

O Bodo foi também tradição secular em Alvalade, que se cumpria a partir da Capela do Espírito Santo (instituída na segunda metade do séc. XVI), situada na Praça D. Manuel I no local onde hoje está a residência dos herdeiros do lavrador Ilídio, assim conhecido na terra.
A festa anual do Divino Espírito Santo decorria sempre de forma solene e muito participada, sendo a distribuição do Bodo um dos seus momentos altos e que consistia na distribuição de alimentos aos pobres ou remediados, a que por vezes se juntava algum dinheiro. Para o Bodo contribuíam os lavradores e proprietários mais abastados da terra, oferecendo farinha, feijão, vinho, reses, etc.

 

1) - No antigo calendário Israelita a Festa das Colheitas - no hebraico hag haqasir - recebeu o nome de Pentecostes a partir do domínio Grego. Estas festas das colheitas teriam a sua origem noutros povos do Mediterrâneo Oriental, nomeadamente os Cananeus, povo que cultivava os férteis vales de Canaã quando da chegada dos pastores semi-nomadas Hebreus.

2) - Francisco Macedo da Pena Patalin, na sua Relação Histórica da Vila de Portel, edição de 1730.

3) - Catarino Coelho, José Lourenço Gonçalves, A Ermida do Espírito Santo (Sintra): intervenção arqueológica realizada em 2001, in: Revista Portuguesa de Arqueologia. Volume 6, número 2, 2003, p.521-544

4) -  Luís Pedro Ramos. In: https://www.alvalade.info/o-bodo/

publicado por José Pereira Malveiro às 21:50

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