17
Set 19

A Lenda da Princesa Moura
          Fátima era o nome da filha do profeta Maomé, assim como os cristãos gostam de nomear os seus filhos segundo os santos do panteão cristão, daí Purificação, Sacramento, Natividade, Assunção, Conceição, Aparecida e Ressurreição entre outros, também é costume no mundo muçulmano, os progenitores nomearem os seus filhos segundo aqueles que mais reveneram.
          Daí o nome Maomé e as suas variantes, ser um nome muito popular entre os homens e Fátima, entre as mulheres, nos crentes islâmicos.
            Uma das versões que se conta de uma lenda na zona de Fátima, Ourém, Tomar, Cova da Iria e regiões em redor na Serra D´Aire, relata que aos pastorinhos perdidos e em aflição, aparecia uma princesa árabe de nome Fátima que os guiava e ajudava a encontrar o caminho para casa.
            Será a partir desta lenda que aquele lugar em especial tomou o nome de Fátima, em memória da princesa árabe, filha de um rei mouro que na iminência de ser capturada pelos cristãos, preferiu mandar-se das ameias do castelo abaixo, vagueando ainda hoje a sua alma pelas serranias em redor.
         Esta lenda contada aos serões, tanto aos adultos como às crianças, depressa tomou a forma de Nossa Senhora e enchia o imaginário destas populações, numa altura de extrema religiosidade e crença em fenómenos fora do normal, era recorrente, naquela serra, ouvir histórias que Nossa Senhora tinha aparecido a alguém que andava perdido e o encaminhou para casa.
           As criancinhas interiorizavam estas histórias e contavam-nas umas às outras, era tido como uma normalidade que as populações interiorizavam, estas histórias faziam parte do imaginário popular.

            Numa altura de extremo fervor religioso e em tempos de crise, quando as armas do medo do inferno não são suficientes, quando a ameaça da excomunhão não são suficientemente poderosas contra as forças hostis que se levantavam contra a igreja, há que mobilizar a vontade popular com histórias fantásticas de aparições em que Nossa Senhora, apareceu para expiar os pecados dos homens.
              Já assim o tinha sido em 1822, Nossa Senhora apareceu a duas pastorinhas em Carnaxide,(1) para salvar a realeza da ameaça liberal e só a Vila-Francada, com o restauro do absolutismo, tornou obsoleto o prosseguimento de tal milagre.
             Em 1917 a situação era diferente, a República já durava há sete anos e as forças anti-católicas não desarmavam, haveria de levar estas criancinhas a acreditar que as histórias que contavam umas às outras eram verdadeiras e a luz que imaginaram em cima da azinheira era Nossa Senhora.
          Sob a capa da negação, mas comprando os terrenos em volta das supostas aparições, a igreja foi manipulando e interiorizando nestas mentes frágeis a construção de uma narrativa que favorecesse o contexto político da época, a pregação que davam do castigo divino e do inferno, eram de tal forma violentas para estas criancinhas que foram levadas a acreditar nas histórias de infância e no que não viram.

           Porém, e mais reveladora de uma certa fragilidade da análise das aparições e da sua recepção parece-nos ser a ideia forte deste capítulo, de que o "proletariado rural local" da zona de Fátima teria uma predisposição para "a adesão entusiástica e acrítica a fenómenos maravilhosos" (p. 40). Ou seja, uma explicação assente numa causalidade determinista, materialista e geográfico da crença religiosa (ver o comentário à citação de Amorim Girão, p. 67). O que nos coloca várias questões. Seria a zona da Cova da Iria mais agreste, pobre, rural, isolada e analfabeta do que o Alentejo, provavelmente a zona menos católica do país? (2)

            Milagre do sol? Ou alucinação visual colectiva? Ou um fenómeno mental em que indivíduos saudáveis, independentemente das suas crenças religiosas, passam por ilusões ou experiências psicóticas de fundo religioso, ao visitar espaços de adoração e de forte carga simbólica e emocional?
             Curas milagrosas? De joelhos, a pé ou de rastos quando afinal não valeu aos dois supostos videntes, Francisco morreu em 1919, com apenas 11 anos, com pneumonia. Jacinta faleceu no ano seguinte aos 9 anos da mesma doença. Lúcia ficou reclusa e incomunicável até morrer.
            O que poderá levar uma Nossa Senhora, com poder para adivinhar o futuro nos três segredos de Fátima, a deixar morrer duas inocentes criancinhas?
             O que poderá levar uma igreja a furtar ao mundo exterior, outra criança?


(1) Serões: revista mensal ilustrada. N.º 62, Ago. 1910.
(2) Lusitânia Sacra nº 16. Mutações religiosas na época contemporânea: figuras e pensamento, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2004.

publicado por José Pereira Malveiro às 19:58

14
Set 19

Recept]aculo.jpg

Receptáculo para cartas no Posto de Correios de Garvão

                

OS CORREIOS EM GARVÃO              

                Uma das primeiras formas de enviar notícias e conhecimentos, foi a troca de mensagens, esta necessidade milenar levou os homens a idealizar formas de vencerem as distâncias para fazerem chegar as missivas aos seus destinos. Desde a utilização de caminhantes, peregrinos, cavaleiros, almocreves, feirantes e outros mercadores ambulantes, para transportarem as missivas, ao uso de animais como o pombo-correio, sendo esta uma da forma mais remota para troca de correspondência, conhecido desde a antiguidade.
              Em Portugal, D. Manuel I, em 6 de Novembro de 1520, publicou a Carta Régia que criava o ofício de Correio-Mor, com grandes deficiências na execução deste serviço, pois o Correio-Mor fazia um serviço mais ditado pela solicitação dos utentes do que pela regularidade, e só em Setembro de 1798, a administração central dava corpo ao projecto dos correios, e estabelecia o serviço das diligências de Mala Posta entre Lisboa e Coimbra que veio mais tarde a cobrir todo o território nacional, só destronado pelo advento do comboio que passou a incorporar uma carruagem para o efeito, o vagão-correio.

               Durante o Estado Novo ir-se-á assistir à construção de estações de correio em todo o território nacional, apostando no crescimento do património para uso dos utentes, sendo algumas delas um bom exemplo de vanguarda arquitetónica, embora no caso de Garvão se tivesse optado por um estabelecimento arrendado situado na Rua de Ourique.
             Este Posto ou Estação dos Correios veio a fechar na década de noventa do século XX e os serviços postais e de encomendas, passou para a Junta de Freguesia, onde o serviço é prestado pelas funcionárias.
           Para além do serviço de entrega e recepção de cartas, postais ou aerogramas durante a guerra colonial, também procedia à recepção e ao envio de encomendas, serviços de telegramas e telefone. Este serviço era prestado por uma funcionária permanente nas instalações e por um carteiro com entrega da correspondência ao domicílio.
           Como se referiu, muito antes destas instalações entrarem em funcionamento, já se procedia ao serviço de correios em Portugal e inclusivamente em Garvão, tanto através da entrega da correspondência, destinada à vila, transportada pelo comboio, desde 1888, com paragem na Estação de Garvão e na Funcheira, como antes, desde o século XIX, pela Mala Posta, cujo percurso se fazia pela Estrada Real, entre Lisboa e o Algarve.
            Primeiramente o porte, era pago por quem recebia as cartas e só a partir de 1853, começou a ser pago pelo remetente com a introdução do selo, no reinado de D. Maria II, cujos primeiros exemplares têm como motivo a efígie da soberana.
             A Mala Posta, para a distribuição do correio, tinha estações de muda de cavalos e pontos de repouso para os cavaleiros, dispostos regularmente ao longo dos percursos, de salientar que nestes tempos, não era fácil encontrar cavaleiros para esta arriscada profissão e dispostas a efectuar estas jornadas, devido ao perigo que representava a deslocação, por estradas ou caminhos do país.

            Pesada e árdua tarefa a destes correios que tinham de transportar as malas do correio por esses troços escusos e de difícil caminhada, como eram as estradas de então, atapetados de poeira e sob o sol escaldante das planícies alentejanas, ou, pior ainda, terem de suportar o frio invernoso e a chuva que transformava a poeira em lameiros intransitáveis, fazendo também transbordar ribeiras intransponíveis. Como se não bastassem estas partidas da natureza para atrasar os correios, ainda tinham de contar com o eventual e provável mau encontro com a guerrilha miguelista ou com um qualquer salteador fortuito. Receando pela própria vida muitos dos estafetas desistiam do seu emprego ante a iminência de um assalto e outros logo após a sua ocorrência, (…) (in: Vilela, 1982)

              Os assaltos e as intempéries, eram as causas maiores dos atrasos da Mala Posta, provocando graves demoras aos correios e inclusivamente a perca de malas quando os estafetas eram surpreendidos pelas cheias das ribeiras que tinham de atravessar. Os assaltos das guerrilhas do Remexido aos correios, eram notórias e se o governo se servia dos correios para transmitir e receber as informações da província, também os rebeldes procuravam estar informados e controlar estas missivas.
            Em 1839, das duzentas e noventa e uma povoações do Alentejo, apenas oitenta usufruíam de serviço de correios no Alentejo, incluindo Garvão.
              A Posta do Alentejo, partia de Lisboa e fazia a travessia do Tejo até à casa de posta de Aldeia Galega do Ribatejo (hoje Montijo) e daí continuava a carreira com paragem nas seguintes casas de posta: Pegões, Montemor-o-Novo, Venda do Duque, Estremoz, Alcraviça e Elvas.
               A posta do Algarve partia de Montemor em direcção a Évora, Viana do Alentejo, Alvito, Beja, Almodôvar, Loulé e Faro, era a partir destas localidades que partiam outros correios para as restantes populações, tanto no Alentejo, como no Algarve, nomeadamente o correio que partia de Beja em direcção a Odemira e parava em diversas localidades incluindo Garvão.

 

1 O lanço da linha do Sul onde se insere a estação de Garvão e da Funcheira, foi aberto em 3 de Junho de 1888.
2 Em Setembro de 1798, aprovou o estabelecimento das diligências entre Lisboa e Coimbra que deu origem à primeira carreira da Mala-Posta. No entanto, o estabelecimento de carreiras regulares de Mala-Posta em todo o território nacional só seria feito 50 anos depois
3 Vilela, José Luís. O remexido e os assaltos ao correio. In: História, nº 148, Jan. 1992, pp. 28-46
4 Barros, Guilhermino Augusto de. Relatório Postal do Anno Económico de 1877-1888. Lisboa, 1879.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:33

Setembro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13

15
16
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO