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Nov 18

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          A Igreja de São Barão é um antigo local de peregrinação, seguido de extenso arrail que juntava as populações das terras e montes vizinhos, até praticamente a meio do século XX. Tendo indo perdendo pogressivamente afluência a partir daí. com um total desconhecimento das gerações actuais. Sáo Barão, (ou mesmo Varão), tem a particularidade de não fazer parte do panteão católico. A sua origem terá de se procurar noutras culturas que marcaram a paisagem alentejana, conjuntamente com outros santos e santas não reconhecidos pela igreja católica e que se encontram amiúde nestas terras alentejanas.

          Excerto do livro SUL e SUESTE da autoria de Joaquim da Costa, natural de Garvão, publicado em 1940, sobre a Igreja e festa do São Barão, situada na Estrada do Saraiva, na confluência da freguesia de Ourique com a freguesia de São Martinho das Amoreiras.

             

             Sôbre alta lomba que, por esses tempos, uma vegetação rasteira - a esteva, o rosmaninho, a urze e o tojo – cobria, em plena serra, num lugar quási inacessível a veículos, ergue-se a branca ermida de S. Barão.
            Lugar aprazível dum pitoresco abrupto. Em volta, cerros mais altos, de cujas pregas irrompem, filhos do mesmo seio ressequido da terra atormentada, os sobreiros, os chaparros e os penhascos. Em baixo, num leito cheio de pedregulhos e ladeado de ravinas e trincheiras que mostram, como ossaturas esburgadas, raízes de árvores que o vento arrancou e rochedos quási a despenhar-se, corre um ribeiro.
            Païsagem áspera, bravia, de serra alentejana. Plena serra do Caldeirão...
           Do alto dêstes cêrros que circundam S. Barão, em tardes de perfeita visibilidade, que belo e variado panorama se disfruta!
        Olhando para os lados de Beja, e abarcando toda essa imensidade, a vista prende-se nesse panorâma raro de serra e de planície. Até Garvão e mesmo um pouco além dessa antiqüíssima vila, as lombas sucedem-se cada vez mais pequenas e mais redondas... Depois, a planície rasa estende-se até aos barros de Beja como pista imensa, sem obstáculos...
          Se olharmos, depois, em sentido contrário, para os lados do vizinho Algarve, vê-se que as as lombas avançam, sempre maiores, e vão formando cordilheiras até que, a distância, em linhas Irregulares, barram o horizonte. Mais longe, para a esquerda, por cima destas serranias, tocada de uma névoa ténue, azulada, lembrando cetáceo monstruoso repousando, ergue-se a serra de Monchique, a serra maior do Sul...
          Todos os anos, pela Primavera, quando a esteva mostra a branca flor de cális amarelo, êstes lugares solitários e pitorescos de S. Barão, rnoradias próprias de águias e de lobos, se animam com a presença de gente que vem de muitas léguas de terras em redor, dos casais da serra e dos montes da planície, desejosa, muito mais, verdade se diga, de provar a boa pinga que ali se vende em pipas colocadas sobre os carros alentejanos e que ramos verdes de salgueiros encobrem, e de se divertir em bailaricos e descantes, que de render homenagens, acompanhadas de oferendas ao Senhor S. Barão, que em tempos de viva crença, tão distantes, foi venerado e tido como obreiro de altos milagres.
          Logo na madrugada do dia de festa, serrenhos e campaniços ali afluem, e é de ouvir no ar fresco do dealbar, o alegre rumor das guizeiras dos carros que, por carreteiras estreitas, avançam nas ladeiras ingremes, rodeando precipícios, a caminho de S.Barão.
          Serrenhas de chaile e lenço de vivas cores, montadas em mulas ou barricos que trepam os cêrros por veredas de cabras, trazem animação e arruído à romaria.
Nas subidas e descidas, qualquer mocinha da serra se agüenta bem, segurando-se com firmeza, mão direita na rabicha da albarda, a esquerda esticando a arreata, não vá o brutinho que monta, num tropeço, deitar com ela no fundo de algum abismo onde a morte espreita.
          As albardas e albardões em que estas belas raparigas da serra se firmam, ostentam, em dias de festa, certos cobertores de côr azul de um belo efeito decorativo.
          Ah! montar gorda mula, ou burrico rijo, sôbre albardão engalanado, mostrando cobertor que faça vista, chame a atenção das gentes nas romarias, é um vivo prazer de corpo e de alma para as moçoilas da serra!
          S.Barâo! Dia de festa nas alturas!
         Surge gente de todos os lados, com fatos de «ver-a-Deus» e lavradores e lavradoras, serrenhos e serrenhas, pobres e ricos, ali se divertem nos bailaricos e se dessedentam no acidulado carrascão vendido a copo junto dos carros com pipas enramadas.
          Ao som do harmónium, concertina, ou gaita de beiços, não se faz questão de toque, tudo baila, minha gente!
          Para as bandas da tarde, nas barracas de «comes e bebes», onde cheira a massa frita com bacalhau, começam os cantares a despique, ao som do arrastado dlim -dlam -dlum da vióla portuguesa quer dedilhada pelo cèguinho de S. Martinho, tocador e cantador de fama, chega a lembrar toque de harpa...
          Conhecem-se pessoas dos arredores que, há mais de trinta anos são devotos de S.Barão, não própriamente do santo, valha a verdade, não da festa na ermida, mas verdade, verdadinha, daquela alegria das gentes, do arruído, dos petiscos, da rica pinga que espuma no copo e pica na língua, da pândega entre serras, da festa dionisíaca, pagã... Ali vereis, todos os anos, o Salustiano de S. Martinho, que sabe como poucos imaginar e contar uma anedocta, e no canto a despique, quando lhe dá para isso, leva de vencida qualquer parceiro, por muito destro que seja; ali vereis o Marguilho de Garvão, com o seu cachimbo a deitar fumo que nem locomotiva trepando a serra, o Marguilho, bom camarada em romarias. amigo do seu amigo, mas sem ficar a ganhar nada ao Salustiano, que é menos hábil todavia no derrubar das perdizes em pleno voo.
          Caras conhecidas a amigas de Garvão, S. Martinho, Colos, Ourique, dos rnontes da planície e dos casais da serra, ali se divertem, que tristezas não pagam dividas e a vida são dois dias...

publicado por José Pereira Malveiro às 22:19

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Nov 18

CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
SOLTO na NOITE SANGRENTA
Em 19 de Outubro de 1921
Parte 10 (de 12)

         

            José Júlio Costa seria libertado no seguimento dos acontecimentos da noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921.
             Libertado por um grupo de 300 civis armado, ter-se-ão dirigido ao hospital Miguel Bombarda e levado-o para o Centro Republicano António Maria Baptista, onde lhe prestaram homenagem antes de seguir para lugar incerto no norte do país, por um grupo de revolucionários, nomeadamente dois irmãos de nome Brás e outro individuo de nome Alberto Midões, proprietário do hotel Central em Matosinhos.
            Naquela noite fatídica, militares comandados pelo tristemente célebre cabo Abel Olímpio, o “dente de ouro”, na chamada “camioneta fantasma”, circula pelas ruas de Lisboa prendendo aqueles que deverão ser mortos. São assassinados, nessa mesma noite, o próprio primeiro-ministro, (ou presidente do ministério como então se dizia), António Granjo e Machado Santos o herói da Rotunda, assim como José Carlos da Maia,1 o coronel Botelho de Vasconcelos e o comandante Freitas da Silva. Outros escaparam à turba assassina porque não foram encontrados.
            Se esta libertação era uma divida que se sarou para os seus antigos camaradas, o mesmo não se poderá dizer dos cabecilhas partidários, os mandantes, os que influenciaram e foram os responsáveis pelo reboliço político em que a Republica se transformou. Os seus acólitos libertaram-no mas foram os dirigentes políticos que proveram para a sua evasão, que proveram os transportes e os respectivos locais de fuga e para o seu sustento esses anos todos.
            Segundo o jornal A Capital,2 o próprio combustível do automóvel que o levou para o Norte foi fornecido pelo comando da polícia, No dia seguinte, conta A Capital, sai de Lisboa num automóvel de um «conhecido revolucionário», sendo a gazolina, queforam quatro latas, fornecida pelo comando da polícia, com a requisição assinada pelo conhecido comissário-geral major Carrão de Oliveira.3 
            Não se julgue contudo que depois desta libertação e nos meses seguintes José Júlio da Costa estava esquecido, pois Rocha Martins continuamente vinha a denunciar tal facto, nomeadamente nos Fantoches nº 48 de 1 de Dezembro de 1923, Neste panfleto tem-se pedido a todos os governos, a prisão do assassino de Sidónio Pais. Claro, que o medo nutrido pelo poder dos democráticos é tanto, que não se faz caso do que se escreve aqui e nos jornais decentes. Exigir a captura de um bandido, do matador de um chefe de Estado, é nobre missão de quem não uiva com os lobos daquele partido de traficâncias e de escandalo.Igualmente no número vinte e um na primeira página descreve os locais por onde tem andado, Os homens do 19 de outubro deliberaram, porém, pôr a salvo o criminoso, dar-lhe a fuga e a protecção. Como se fosse um benemérito, o José Júlio da Costa, exibicionista e excitado, é apageado agora em casa dum magnate republicano, umas vezes no Minho, logo noutra do Douro, amanhã em Traz-os-Montes, sempre de algibeireira cheia – porque mantem quotas para o seu sustento - e mostrando-se como um credor.4 
            A tese de que José Júlio da Costa não passava de um desequilibrado mental, vítima dos seus preconceitos políticos, e que procedera isoladamente, movido por uma doentia tendência de criminoso exibicionista, continua, todavia, a ser muito difícil de sustentar considerando-se a impunidade de que goza, depois do 19 de Outubro.5 

 

1 - Marta Maia, esposa de José Carlos da Maia, autora de “As minhas entrevistas com a Abel Olimpio “O Dente de Ouro”. Paginas para a historia da morte vil de Carlos da Maia, republicano - combatente de 5 de Outubro”. Publicado em Lisboa em 1928, revelou a identidade dos mandantes dos crimes, apesar dos nomes que avançou e das conclusões a que chegou, o processo judicial nunca foi reaberto ou os responsáveis castigados. Pelo que é referido por Berta Maia, Abel Olímpio teria sido aliciado pelo padre Lima, (ambos de Estevais da Vilariça), e a camioneta teria sido fornecida pelo tenente Mergulhão que juntamente com Fernando de Sousa, do jornal A Voz, mais Gastão de Matos, Luiz Moutinho de Carvalho, Carlos Pereira e o Conde de Tarouca, foram considerados, na época, como os principais mandantes dos crimes.

2 - Franco e Barriga, 2008. P. 108.

3 - Carrão de Oliveira viria a falecer em circunstâncias estranhas num acidente de automóvel. Em sessão da Câmara dos deputados de 10 de Agosto de 1922, o presidente desta, Domingos Leite Pereira, (dissidente democrático em 1920-21), Propôs à Câmara “Um voto de sentimento pela morte desastrosa do comissário geral de polícia de Lisboa, Sr. Carrão de Oliveira“, o qual foi aprovado, tendo igualmente o deputado Agatão Lança, (democrático), em nome dos Deputados independentes, declarado “Esta morte deu-se em circunstâncias que não estão ainda bem conhecidas. E eu pedia para que fosse bem averiguada a causa da morte, que podia muito bem ser devida a manejos criminosos”, tendo também o deputado João Camoesas, (democrático), declarado, Vindo directamente das camadas populares, e tendo chegado a uma classe muito diferente daquela donde emergira, jamais esquecera essa mesma classe. Ficara filho do povo, sob a sua farda de oficial do exército, e como filho do povo procedeu em todos os momentos de crise para a República, sabendo sempre cumprir o seu dever de republicano In: Diário da Câmara dos Deputados, Sessão 129, de 10 de Agosto de 1922.

4 - Fantoches nº 21 de 25 de Maio de 1923.

5 - Wheeler, 1978, p.50

 

In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. 

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publicado por José Pereira Malveiro às 04:46

14
Nov 18

CENTENÁRIO
“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”
A PRISÃO - O FALSO RELATÓRIO MÉDICO
Parte 9 (de 12)


          Preso nos calabouços do Governo Civil de Lisboa, José Júlio da Costa foi brutalmente espancado e torturado durante dias e só o pedido para que o deixassem falar terá salvado a sua vida.
          Contudo se no processo de investigação ao acto de José Júlio da Costa havia forças que procuravam desenvolver o seu trabalho, outras havia que procuravam subverter a justiça e terão contribuído para aumentar a desconfiança no defensor oficial do preso e requerer formalmente um exame pericial sobre o seu estado mental.
          Assim, em Junho de 1920, José Júlio da Costa foi submetido a um exaustivo exame psicológico, por prestigiadas figuras médicas da altura, nomeadamente o psiquiatra Júlio de Matos que posteriormente daria o seu nome ao Hospital Psiquiátrico de Lisboa, pelo médico e professor de psiquiatria Sobral Cid, igualmente com uma unidade hospitalar com o seu nome em Coimbra e do psiquiatra Caetano Beirão, um dos fundadores do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda.
          As conclusões desse exame eximem José Júlio da Costa de qualquer perturbação mental que o levasse a cometer o atentado e como tal imputável perante a justiça, segundo o Relatório sobre o estado mental de José Júlio da Costa apresentado pelos mencionados psiquiatras em 10 de Fevereiro de 1921.
          Contudo apesar deste parecer bastante categórico sobre o estado mental do preso e apesar de já ter o julgamento marcado para o dia 31 de Março de 1921, no dia 5 desse mesmo mês e ano, vinte e cinco dias depois da emissão desse relatório médico e vinte e seis dias antes do julgamento, o médico prisional António José Furtado de Mendonça Boavida redige um relatório, para o ministério da Justiça, sobre o estado mental de José Júlio da Costa, no qual, arredado de qualquer investigação médica independente e baseado em pressupostos que entravam em conflito com o relatório médico dos três psiquiatras, pura e simplesmente, recomenda o “internamento deste num manicómio para ser observado por um psiquiatra”, o que levou o Procurador da República, Pais Rovisco, no antigo convento da Boa-Hora, agora convertido em tribunal, a adiar o julgamento indefinitivamente.
          Com que bases Mendonça Boavida faz esta analise?
        Que pressões terão havido para vinte e cinco dias depois da emissão do relatório médico por três conceituados psiquiatras portugueses que o davam com uma sanidade mental sã e em condições para ser julgado, fazer um juízo destes? Do que é que o advogado defensor de José Júlio da Costa se apercebeu para requerer um exame mental ao preso? A quem é que interessava que vinte e seis dias antes do julgamento o dessem como inimputável perante a justiça?
         Que forças se movimentavam nos bastidores que não permitiram o seu julgamento e o devido depoimento em tribunal? Porque não foi feito então outro exame psiquiátrico ao preso, antes de o submeter novamente a julgamento, como o próprio Mendonça Boavida sugeria?
          De facto o relatório de Mendonça Boavida se por um lado é bastante perentório sobre o estado mental de José Júlio da Costa, na medida em que tem a palavra final e o surripiou ao julgamento público, por outro lado não deixa de ser ambíguo na decisão que tomou e do exame que faz do preso.
          Contudo acontecimentos posteriores à noite sangrenta e à sua libertação, muito dificilmente esta versão sobre o estado mental de José Júlio da Costa se mantêm. Torna-se de facto insustentável justificar, baseado numa alineação mental, como se manteve fugitivo todos esses anos até à definitiva mudança da situação politica com a instauração do Estado Novo, saído do golpe de 28 de Maio de 1926.
           Quem estaria envolvido? Muitos e muitos eram de facto os interessados ou cúmplices que pactuaram com a tramoia, capazes de subverter instituições que se queriam íntegras e independentes.

 

In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. 

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publicado por José Pereira Malveiro às 09:11

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