22
Jul 18

No Cemitério Velho

 

          Passado um século depois do levantamento de um corpo no Cemitério Velho da vila de Garvão, ainda hoje é do conhecimento da existência de uma “Santa”, sepultada nesse mesmo Cemitério. Cem anos depois deste acontecimento, a sua morte, a sua memória e o lugar do seu túmulo continuam a fazer parte do imaginário colectivo da vila de Garvão.

          De facto ao se proceder à exumação do corpo por necessidade de sepultar um familiar, este tinha resistido à decomposição e apresentava-se praticamente intacto, notando-se unicamente na ponta do nariz alguma detioração. Segundo a população tal facto deve-se por ser forneira e ter de cheirar o pão e os bolos quentes saídos do forno.

          A existência de corpos incorruptos encontra-se relatado em vários cenários culturais. Apesar de actualmente a ciência nos fornecer várias explicações para este fenómeno, tal não o era assim em 1918, (precisamente na mesma altura das aparições de Fátima). Numa sociedade essencialmente analfabeta, religiosa e supersticiosa esses acontecimentos tomavam uma feição miraculosa e propiciadora de graças.

          Assim estes corpos tomavam a denominação de “Santos” e assistia-se a uma sacralização do espaço, transformando a sepultura em um novo local de culto, metamorfoseando o túmulo em um altar, tornando-se este em local de oferendas, coberto por placas de agradecimento, coroas, fitas e velas, que uma legião de novos crentes deposita em agradecimento por alguma graça alcançada e que muitos acreditam poder realizar milagres e atender pedidos e promessas.

          Tal foi o caso igualmente em Garvão.

          Com a trasladação do corpo para o interior da Igreja, a noticia espalhou-se, “da existência de uma Santa em Garvão”, onde a população, tanto da vila como das terras vizinhas, ocorreram com enorme fervor religioso e solenidade que caracteriza estes fenómenos, dando lugar à imaginação colectiva e inclusivamente a atribuir-lhe poderes milagrosos que se evidenciavam nalgumas pessoas que se diziam “curadas”.

          Perante esta situação e por pressão do Administrador do Concelho, o regedor, (ou o presidente da Junta, segundo outras versões), mandou enterrar novamente o corpo na mesma sepultura, contudo tal acção não desmotivou as pessoas de continuarem a prestar culto e obtenção de alguma graça no local da sepultura no Cemitério Velho. Esta deposição de oferendas continuou por mais algum tempo, tendo-se perpetuado na memória popular até aos nossos dias.

          Segundo informações das pessoas mais idosas da vila, a “Santa”, era esposa de Bento Guerra e mãe de Joaquim Guerra e Bento Guerra que casou com a Ana Charrua, tia de vários elementos da família Charrua a residirem na vila de Garvão.

publicado por José Pereira às 20:37

14
Jul 18
 

CENTENÁRIO

“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”

SIDÓNIO PAIS

Parte 5 (de 10)

 

          O período que vai desde a implantação da República até ao golpe de Sidónio, é caracterizado por uma grande instabilidade politica, só entre 1910 e 1916 Portugal teve quarenta e cinco governos, demonstrativo da profunda divisão politica que reinava entre as diversas forças partidárias portuguesas.

          As várias fracções republicanas lutando pela hegemonia politica: os monárquicos e a maioria do clero pela restauração da monarquia e os anarco-sindicalistas e outros movimentos libertários pujando pela revolução social, levou à saturação do povo português e marcou um sucessivo apelo à salvação nacional, propicio ao aparecimento de líderes carismáticos, particularmente mistificados, embutidos de uma providência divina que surgem, aos olhos de um povo analfabeto, supersticioso e refém da propaganda clerical, como salvadores da Pátria.

          De facto são constantes os apelos na imprensa portuguesa «a um salvador da Pátria». Machado Santos, o herói da República, protagoniza uma série de tentativas subversivas com o intuito de derrubar o governo dos democráticos de Afonso Costa e implantar um governo de salvação nacional.

          Pela madrugada de cinco de Dezembro de 1917, Sidónio Pais e Machado Santos, à frente de uma junta revolucionária, chefiam um movimento militar contra o esforço nacional na participação na Grande Guerra Mundial que estava a provocar a falta de alimentos no país e a um aumento generalizado dos custos nos alimentos disponíveis.

          Sidónio Pais congrega assim à sua volta, não só os apoiantes dum governo que se queria de salvação nacional, mas um vasto leque de descontentes com o governo que o precedeu, de facto com Afonso Costa preso, Bernardino Machado, o presidente da República, expulso do país, estava aberto o caminho para Sidónio Pais implementar as suas políticas no meio de uma enorme expectativa.

          José júlio da Costa ao matar Sidónio Pais, não eliminou somente o presidente da República, um major ou um lente da Universidade de Coimbra, eliminou igualmente a génese do regime ditatorial, característico dos governos autoritários que se seguiram não só em Portugal mas igualmente noutros países, legitimado pelo caos político da República, já ensaiado anteriormente em 1915 com a ditadura de Pimenta de Castro e posteriormente com a instauração do Estado Novo, na consequência do golpe de 28 de Maio de 1926 que eventualmente conduzirá Salazar ao governo.

          “O génio político de Sidónio, que o transforma num precursor e num pioneiro numa escala global, foi ter encontrado a fórmula que muitos outros aplicariam com infinitas variantes nas décadas vindouras – e essa foi a causa da sua grandeza e da sua tragédia.”[1]

 

[1] Jorge Almeida Fernandes, Sidónio Pais e os sete pilares do futuro. Jornal Público, 09/09/2010.

 

In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. (no prelo).

publicado por José Pereira às 18:47

03
Jul 18

JG25 Capa.jpg

Para ler o Jornal de Garvão nº 24 click em: JG 24.pdf

 

 

publicado por José Pereira às 19:12

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