CENTENÁRIO
“O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio”
José Júlio da Costa
Parte 1 (de 12)
Faz, este ano de 2018, em 14 de Dezembro, cem anos, sobre o acto cometido por José júlio da Costa, natural de Garvão, que vitimou o presidente da República Sidónio Pais.
Falar do homem que matou um presidente da República não é fácil porque já foi quase tudo dito, ou pelo menos: onde nasceu e quando morreu, nome dos pais, nome da esposa, porque cometeu o atentado, (segundo as várias opiniões), com quem jantou, com quem falou, onde dormiu, que pistola tinha e pouco mais se adianta, como se um atentado desta natureza pouco mais tivesse de interesse.
Contudo a questão é muito mais complexa do que isso.
A sua complexidade reside no facto de o mais importante ainda não foi dito, não o foi na altura do atentado, não o foi na sua segunda prisão e nem o foi quando faleceu, assim como não possivelmente também não o será agora nesta altura que perfaz cem anos sobre o acontecimento, ou porque os autores principais já faleceram, ou porque não existe registo de uma investigação isenta e imparcial que, de facto, nunca aconteceu.
O que nos resta então? Resta-nos a memória local, que sucessivamente, de geração em geração chegou aos nossos dias e os escritos da imprensa da altura.
Tanto uns como outros, cheios de incongruências e incertezas, a memória local porque não está incólume à devassa do tempo e, lá diz o povo, “quem conta um conto acrescenta um ponto”, a imprensa da altura, tendenciosa, ao serviço da situação, pinta um quadro de exaltação do chefe morto e denigre o autor do atentado.
Contudo, temporalmente afastados do acontecimento e descomprometidos, tanto politicamente como emocionalmente, ainda se poderá ler nas entrelinhas dos jornais aquilo que não se escreveu ou se escreveu tendencialmente? Ou ainda se poderá descortinar na memória popular o que não se disse ou se disse erradamente?
De facto, numa leitura atenta, aos jornais e restante imprensa da altura, ainda se pode distinguir aquilo que tanto os jornalistas como os escritores, não tiveram a coragem de explanar nos jornais e noutras publicações, ou porque estavam aquentados com a situação ou porque foram travados por forças superiores, mas, na história de José Júlio da Costa, as contradições são tão evidentes que teremos de ler nas entrelinhas e distinguir o exagero do racional e o emocional do racionável.
Igualmente se aplica, ao que diz o povo, a história passa de uma geração para a outra, sempre no segredo dos lares e longe dos ouvidos da crianças, não fossem estas, na sua inocência, numa altura de extrema crispação politica, comprometer os familiares, mas a história fica, contada nos serões de Inverno, temeroso para uns, embaraçoso para outros e ainda inconveniente para alguns, não deixando contudo de influenciar a versão do acontecimento, segundo a opinião tendenciosa, ou não, de quem a conta e transmite.
A história de José Júlio da Costa é uma história empolgante cheia de mistérios e enredos, de fugas, cabalas e maquinações que subverteram o estado de direito e o remeteram a uma prisão eterna sem julgamento.
Não faltam as conspirações políticas na história de José Júlio da Costa, nem os enredos policiais, nem as conjuras e intrigas político-partidárias, não foram só os acontecimentos do Vale de Santiago, pela Greve Geral que o comprometeram politicamente, não foi só a traição à sua República por Sidónio Pais, não foram só os arruaceiros de rua dos Democráticos que o empurraram a cometer o atentado, foram também os investigadores policiais que não prosseguiram com as devidas investigações, foi também o médico prisional, António José Furtado de Mendonça Boavida, que forjou um boletim clinico, foi também um procurador da República, Pais Rovisco, que o internou num hospital de malucos e o subtraiu ao julgamento, vinte e seis dias antes e vinte e cinco dias depois da emissão dum relatório médico por prestigiadas figuras médicas da altura, nomeadamente o psiquiatra Júlio de Matos, pelo médico e professor de psiquiatria Sobral Cid e do psiquiatra Caetano Beirão que o davam com uma sanidade mental sã e em condições para ser julgado.
José Júlio da Costa sabia ler e escrever e não lhe era estranha a literatura progressista da altura.
José júlio da Costa, não era louco nem morreu esquizofrénico.
O estado de loucura interessava a muita gente e muita gente pactuou com esta cabala que o impedia de ter um julgamento justo e imparcial.
Afinal o que sabia e o seu depoimento em tribunal iria comprometer muita gente. Uns, os cabecilhas do reboliço da primeira república, enchiam agora a Assembleia Nacional do Estado Novo, outros, os arruaceiros de rua ao serviço dos partidos, preenchiam agora as vagas na nova policia politica.
Afinal a sua prisão logo no início da ditadura não foi por mero acaso.
In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018.