21
Fev 16

67 Pardieiro3.jpg

 

Necrópole do Pardieiro
35 Anos depois
           Foi precisamente há 35 anos, em Agosto de 1981, que José Pereira Malveiro (JPM), Manuel Zacarias e José Pacheco acompanhados pelo proprietário do Monte do Pardieiro, (localmente conhecido por Galinha Preta), junto à Corte Malhão na freguesia de São Martinho das Amoreiras recolheram e levaram para o então Núcleo Arqueológico de Garvão uma Estela Epigrafada com caracteres da Escrita do Sudoeste.
           Esta Estela, com o encerramento do Núcleo Arqueológico de Garvão, foi guardada na residência de JPM, (junto a outras peças de interesse arqueológico, achadas e recolhidas ao longo dos anos pelo próprio), onde mereceu a visita de Jürgen Untermann e esposa, (ver artigo ao lado) e de Caetano de Mello Beirão, que foi inclusivamente levado ao local do Pardieiro por JPM,  tendo desenvolvido posteriormente a respectiva sondagem arqueológica com Virgílio Hipólito Correia em 1989/1990.
           Em 1996, quando esta Estela estava em exposição nos antigos Paços do Concelho de Garvão, foi indevidamente levada e à revelia do depositário, JPM, e só depois de devidamente denunciado o caso às autoridades foi esta entregue ao Museu Rainha D. Leonor em Beja e posteriormente ao Museu Escrita do Sudoeste em Almodôvar onde se encontra actualmente em exposição.
          Quanto ao sítio do Pardieiro, tem sido valorizado e aberto ao publico, segundo a nota de imprensa do presidente da Câmara Municipal de Odemira de 28/04/2008, “(…) vai abrir ao público o sítio arqueológico da Necrópole do Pardieiro, um espaço funerário construído durante a 1ª Idade do Ferro, entre os séculos VII e V a.C., localizado a cerca de 3 km de Corte Malhão, (…). O sítio é composto por um conjunto de 12 sepulturas individuais cobertas por um monumento construído com pedras ligadas com barro. Nestas sepulturas foram encontradas oferendas funerárias votivas, desde colares de contas de vidro, algumas armas de ferro e peças de cerâmica, bem como três lápides epigrafadas e duas estelas decoradas.
          A Escrita do Sudoeste, encontrada apenas no Sudoeste Peninsular, terá cerca de 2.500 anos e terá entrado em desuso a partir do séc. V a.C. Transmite uma língua muito antiga, que já estava perdida no período romano, não sendo possível ainda hoje decifrar o seu significado. A descoberta de estelas com este tipo de escrita conferem à Necrópole do Pardieiro uma importância singular no âmbito da arqueologia peninsular”.

publicado por José Pereira às 15:00

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JÜRGEN UNTERMANN
           Faleceu em 7 de Fevereiro de 2013, em Pulheim, na Alemanha, com 84 anos de idade, o Prof. Jürgen Untermann, eminente linguista que dedicou toda a sua vida ao estudo das línguas pré-romanas da Península Ibérica. Esteve, naturalmente, por diversas vezes em Portugal, inclusivamente na residência de José Pereira Malveiro em Garvão, onde tomou conhecimento da Estela do Pardieiro, tendo-se interessado muitíssimo quer pelos textos aqui encontrados em língua dita «lusitana» quer, de modo especial, pela chamada «escrita do Sudoeste», exarada em estelas identificadas no Sudoeste peninsular, designadamente no Alentejo e no Algarve.
          Um dos seus primeiros trabalhos, Elementos de un Atlas Antroponímico de la Hispania Antigua (Madrid, 1965), é citado ainda hoje como obra de referência, pois que, embora se tenham multiplicado muito os testemunhos dos antropónimos aí tratados, o certo é que permanecem válidas as conclusões retiradas já nesse longínquo 1965 em relação, por exemplo, às influências detectadas com vista à determinação de áreas linguísticas.
          Foi um dos grandes motores dos colóquios sobre línguas e culturas paleo-hispânicas, a cuja comissão coordenadora, de cariz internacional, presidiu durante longos anos e só a pouca disponibilidade para fazer viagens é que o impossibilitou de estar fisicamente presente no XI Coloquio Internacional de Lenguas y Culturas Prerromanas de la Península Ibérica, que se realizou em Valência, de 24 a 27 de Outubro, p. p.
          Importância marcante teve a sua obra monumental, os Monumenta Linguarum Hispanicarum, publicados em Wiesbaden, o I volume em 1975 e o IV, em 1997 (Band IV. Die tartessischen. keltiberischen und lusitanischen Inschriften). Logrou ainda terminar o último, dedicado à toponímia.

publicado por José Pereira às 14:57

13
Fev 16

hemidracrma2 (1).jpgHemidracma descoberto em Garvão

GADES, cádiz. Hemidracma. A Cabeza de Melkart a izq. con piel de león. R Atún a der entre ley. fenicia “mhlm ‘gdr”. AR 2,3 g. I-1308. VILL-834. Bonita acuñación. EBC-. Muy es.jpgHemidracma (Exemplo)

                                 

HEMIDRACMA EM PRATA
Descoberta em Garvão

          A data da constituição do depósito votivo de Garvão é apontada por uma hemidracma em prata, batida em Gades, de 238 ou 237 a.C., que pode ter circulado até aos finais do séc. III. A sua vida “útil” como ex-voto pode, no entanto, ter sido um pouco mais alongada mas, o fecho do depósito não terá ocorrido para além da primeira metade do séc. II a.C. (Beirão et al. 1985, 91 nº 81).
          Segundo a discrição dos mesmos autores trata-se de uma moeda (Vala), de prata, pertence à oficina de Gades, com 17 cm de diâmetro máximo, 2 mm de espessura e 2,5 (?) g de peso. No anverso, muito deteriorado, reconhece-se a representação da cabeça de Hércules-Melkart, toucado com a pele de um leão.
          O reverso mostra, centralmente, um atum, voltado para o lado direito, sobre o qual se vêem quatro signos, quase ilegíveis, de uma legenda púnica. O conjunto é rodeado por uma gráfia de pontos.
          Parece tratar-se de um hemidracma (2,5g) cunhada na segunda metade do século III a. C.
          O Dracma foi uma moeda de origem grega muito utilizada no mediterrâneo durante vários séculos, tomando várias formas e valores segunda a época e origem da cunhagem, esta, encontrada em Garvão, segundo os referidos autores tudo indica que tivesse sido cunhada nas oficinas de Gades, actual Cádis no sul da Espanha e o hemidracma refere-se ao valor de metade de um Dracma.
          O Dracma, em utilização desde meios do sexto século a. C. era de facto a moeda da Grécia clássica, foi uma das primeiras moedas em circulação e de uso geral, o nome derivaria da palavra grega “apanhar” ou “segurar” e o seu valor corresponderia à quantidade de setas que uma mão conseguia agarrar.
          O Dracma a principio tinha vários valores, conforme o lugar onde era cunhado, a partir do século quinto a cidade-estado de atenas sobrepôs-se comercialmente aos outros estados gregos e o Dracma ateniense ganhou preponderância em relação aos outros Dracmas cunhados em diferentes cidades-estados.
          Diz-se que o culto de Hércules foi introduzido na Hispânia pelos fenícios. Este Hércules era o nome romano do Deus Saturno ou BAAL-MELKART, regente do tempo e dos testemunhos.
          Deuses como Melkarte, o Hérakles fenício, ou Tanit, a Vénus guerreira, são pervivências de cultos que iriam prolongar-se até à época romana. Os cultos egípcios, espalhados por toda a Península, atingiram o seu grande auge na época romana, em particular o de Ísis. Encontramo-los, inclusivamente, na etapa ibero-fenícia, e talvez tenham sido até, porventura, muito anteriores. Deuses celtas como Cernunno, o Sol-Cervo, ou o culto das bifaces, ou deuses Acha, são comuns por toda a Celtibéria, mas não parecem iberos de origem.

publicado por José Pereira às 17:26

08
Fev 16

garvão001.jpgpassagem da varzea.jpg ponte ant brito ramos.jpg

 AS TRAVESSIAS DA RIBEIRA

          Antes do nivelamento da ribeira e da cimentação do leito e das margens, o cenário que se apresentava em termos de via, ruas e travessas era totalmente diferente do actual.
De facto antes da construção daquilo que ficou sendo conhecido como “A Placa”, ou pelo menos a primeira fase deste nivelamento da ribeira que atravessa a vila, as vias para a sua travessia eram outras.

 

PONTE DE MADEIRA
          Se por esta altura a ponte em alvernaria, no centro da vila, já existia, tempos houve em que a ponte era construída de madeira, e a história de que, “Garvão tem uma ponte rota”, não deixa de ter alguma verdade e remete-nos precisamente para o tempo em que a travessia da ribeira no centro da vila que ligava o Largo do Poço da Praça ao Largo do Lagar, (agora Largo da Amoreira), se fazia através de uma ponte de madeira, segundo a memória popular, que se julga ser tanto para peões como para carros de tracção animal.
          De facto a ponte de madeira deveria estar de tal maneira degradada que justificou a construção de uma nova ponte em alvenaria, contudo a história da “Ponte Rota” e ainda segundo a versão popular, se relacionar com um individuo que perdido de bêbado pura e simplesmente caiu da ponte, quando se preparava para se aliviar do que tinha bebido em excesso.
          Numa fotografia do início da edificação da nova ponte, onde se observa a configuração dos dois vãos ainda em construção, nota-se, no local onde actualmente estão plantadas as laranjeiras, uma passagem rebaixada de acesso à ribeira.
          Essa mesma fotografia mostra um candeeiro de iluminação publica cuja base se encontra numa posição muito mais baixa que o novo tabuleiro da ponte em construção, o que parece levar a crer que a ponte de madeira seria mais baixa que a nova, permitindo assim tanto o acesso, de um lado para o outro, pela ponte de madeira, para pessoas ou animais e pelo leito da ribeira para cargas mais pesadas.
          Esta nova ponte, de dois vãos, apesar de superficialmente danificada pelas intempéries de 1997, foi, subsequentemente, substituída por uma nova ponte de um só vão. Encontra-se ainda no local, pregada na parede do posto da GNR a primitiva placa com que a Junta de Freguesia de Garvão homenageou o dono da moagem António de Brito Ramos em 1943, o qual não se poderá aqui deixar de prestar igualmente o devido reconhecimento a um dos industriais de Garvão, a quem muito se deve uma grande parte do vigor económico que se viveu nesta vila por essa altura.

 

A passagem do POÇO NOVO e a Ponte do Perú
          A antiga passagem junto ao Poço Novo, combinava passagem pedonal para pessoas, bestas e nos seus últimos dias também bicicletas, era a chamada Ponte do Perú com aproximadamente um metro de largura e possivelmente com trinta ou quarenta metros de comprimento, para compensar o vão da ribeira que aqui se alargava, muito usada por pessoas que iam ao Poço Novo abastecer-se de água, com as tradicionais quartas de água de barro cozido á cabeça ou ao quadril, quando não era em carrinhos de mão ou no dorso dos animais.
          A passagem da ribeira, pelo leito, permitia igualmente a travessia de gados, bovinos, ovinos ou caprinos quando não era também por varas de porcos e por carros de parelhas de muares para cargas pesadas, que vinham ou iam pelo “Furadouro” e evitavam assim as ingremes ladeiras do castelo.
          A criação de perus, neste local, poderá ser igualmente uma realidade, mais do que um simples lugar de passagem, de um local para o outro, destes repastos natalícios, a sua criação, no próprio leito da ribeira, alimentando-se das tenras ervas e outros arbustos, quando a corrente de água o permitia, poderá muito bem ter dado o nome á referida ponte pedonal, já que a criação destas aves em grande número, era até há bem poucos anos uma realidade que se poderia encontrar nestes lugares.

 

TRAVESSIA JUNTO AO POÇO DA VARZEA
          Havia outra passagem que desapareceu completamente, sem qualquer alternativa viária, com a construção da primeira fase da placa, que era de facto o seguimento da Rua da Oliveira rumo às hortas e atravessava a ribeira diagonalmente imediatamente a seguir às últimas casas do lado direito e ia ter um pouco antes onde actualmente se situa o lavadouro, emborcando na rua que vinha do Largo do Lagar, (actual Largo da Amoreira), e seguindo rumo à Funcheira, com um ramal rumo à Sardoa logo a seguir ao poço da Várzea atravessando a avenida nova que ainda não tinha sido construída, (actual rua Gonçalo Nobre Valente).
          O seguimento do caminho da antiga estrada da Funcheira, (que não tem nada a ver com a moderna estrada de alcatrão), seria, assim que atravessava a ribeira, junto a esta e adjunto às últimas casas da vila. A posterior e moderna estrada para Santa Luzia acabou por atravessar esta antiga estrada e dividir as casas que aí se encontram, umas ficando a Sul do lado da vila, outras a Norte no lado da estrada que seguiria para a Funcheira e Panoias.
          Esta travessia, juntamente com a do Poço Novo, seriam as primitivas travessias da vila antes desta se ter prolongado para a outra margem da ribeira e justificado a construção da mencionada ponte de madeira.

 

OUTRAS TRAVESSIAS
          Outras travessias haveria, com certeza, umas mais próximas da vila, outras mais afastadas, das mais próximas há a destacar a do Curral dos Bois, a Sul, na saída da vila para o Cerro da Forca e a passagem da ribeira junto à estrada da Funcheira, a Norte, praticamente no local da nova Estada Nacional junto à parede em taipa da várzea que se estende para Norte, direito à Igrejinha de São Pedro e Estrada Real.
          De realçar igualmente a passagem da Ribeira do Arzil junto à Estação de Garvão e no sítio da localmente chamada “Ponte Romana”, (a romanidade dessa ponte, ou não, ficará para outra altura), fiquemo-nos, por agora, em realçar o caminho que ainda se nota por detrás da antiga padaria do Arreganhado, mesmo diante da Igreja de São Sebastião (para quem está de costas para a referida Igreja) e que viria, certamente, ter à Ladeira do Padre rumo à vila.

publicado por José Pereira às 16:11

03
Fev 16

O CRÂNIO TRESPASSADO do Depósito Votivo de Garvão

          Uma das particularidades do Deposito Votivo de Garvão foi a descoberta de um crânio trespassado numa clara cerimónia de fundação do próprio Depósito Votivo.
          O crânio localizado na base do depósito pertenceu a uma mulher cuja idade oscilaria entre os 35 e os 40 anos (Fernandes 1986, 78).
          A morte foi-lhe provocada por três golpes desferidos na zona occipital e parietal por um instrumento contundente, pesado, dotado de um gume curvo pouco penetrante, que incidiu obliquamente sobre a cabeça da vítima.
          Foi assim reconstituído que a vítima se encontraria deitada em decúbito ventral, quando lhe foram desferidos sucessivamente três golpes. Qualquer um deles seria o suficiente para lhe provocar a morte, e certamente que com o primeiro deles ela entrou em lipotimia (perda de sentidos).
          A morfologia das lesões sugere que o instrumento utilizado terá sido um machado de pedra polida de que, aliás, se recolheu um exemplar no depósito (Antunes e Cunha 1986, 84-85).
          O crânio foi então separado do corpo; a forma como isso se deu e o espaço de tempo que mediou entre este facto e a deposição do crânio como elemento ritual na criação do depósito votivo são, no entanto, indetermináveis.
          O crânio, estava, aparentemente, associado a alguns ossos de animais o que sugere um fenómeno de libação sacralizadora associada a um sacrifício humano.
           Na sequência deste tema da trepanação, muitos outros achados provêm de depósitos de épocas subsequentes ao período mesolítico, mostrando assim a continuidade e a larga diacronia desta prática.
           Um crânio muito mais tardio encontrado em Tróia (Setúbal) «deixa a ideia de que a trepanação era um tratamento a que os habitantes da Península Ibérica tinham acesso no período romano».
           Mas entre estes tempos históricos, diversas jazidas portuguesas neolíticas e calcolíticas ou da Idade do Bronze revelaram crânios humanos com tais marcas.
Cerimónias fundacionais com recurso a despojos humanos como parece ser o caso de Garvão do século III a. C., será já epifenómenos consequentes de uma resistência de cultos e crenças profundamente enraizados que atravessam a I idade do ferro.
           Reminiscências de conceitos e esquemas de estruturação do território em que se conjugariam, num hábil sincretismo, os espaços tumulares monumentais que se construíram com os mais antigos, dando e renovando sentido à memoria de significados e significantes impregnados na paisagem.
           Todo o espólio parece implicar a existência de um eventual ritual relacionado com um sacrifício humano, próprio do culto das cabeças cortadas em contexto guerreiro, bem como do culto das cabeças inserido em rituais fundacionais e de soberania. A natureza dos objectos votivos encontrados, como a cerâmica ou as placas oculadas – na linha dos achados do Escoural, Estremoz, Vidigueira ou Évora, de épocas anteriores – e os múltiplos restos animais – a sugerir refeições e libações rituais cíclicas, como seriam as cerimónias solsticiais –, indica-nos, assim, não só a persistência de crenças, como também a presença da segunda fase deste culto céltico.
           Efectivamente, muitos achados parecem indiciar ter havido um tratamento especial dado a certos crânios, tratamento esse que pode remeter-nos para práticas rituais de cariz mítico-religioso próprio do mundo celta.
           Segundo alguns autores, para estas populações, a cabeça possuiria atributos divinos. Como tal, talvez considerada incorruptível e autónoma do corpo, teria poderes protectores – das pessoas ou colectividades, do gado ou da vegetação –, divinatórios ou proféticos, de cura e de regeneração, a cabeça seria, assim, o centro dos poderes sobrenaturais, para além de ser o local onde se acreditaria estar alojada a histeria, a loucura ou os defeitos físicos mais impressionantes – mal sagrado ou mal de santo, na máxima popular de que o que é raro é maravilhoso.

In: Gabriela Morais, Contributos Portugueses Para O Estudo Do Culto Das Cabeças

publicado por José Pereira às 11:57

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