05
Jul 20

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Revolta e Contestação

         Iniciado o processo de “arredondamento dos concelhos”, em 1834, no seguimento das reformas liberais que conduzirá à extinção de mais de metade dos velhos concelhos medievais portugueses, incluindo o de Garvão, irá ocasionar momentos de grande convulsão política e grandes tensões a nível local que este tipo de modificações irá sempre provocar.
            Este tipo de “revolta” popular, não só pela extinção do seu próprio concelho, mas igualmente por se recusarem a integrar outros concelhos tradicionalmente rivais, gerou em vários lugares do reino, verdadeiras revoltas contra estas medidas.
          Garvão não foi exceção à regra e se a documentação é escassa e a memória popular já há muito que se esqueceu de alguns desacatos ou protestos ocasionados pela extinção do concelho, surge-nos, contudo, um documento do reinado de D. Maria II, no qual o Procurador Geral da Coroa concede ao Administrador Geral interino de Beja, poderes para obrigar os vereadores do concelho de Garvão, extinto em 1836, a entregar os respetivos livros de atas e contas, (o cartório) e os restantes instrumentos inerentes à administração do concelho (alfayas), sejam eles, mobiliário, carimbos ou sistemas de aferição de pesos e medidas.
           De facto, pelo que se pode aferir deste documento, o protesto dos vereadores de Garvão estendia-se à recusa em concluir o inventário e em entregar o Cartorio e as AIfayas da Casa da Camara, ameaçando-os com o recurso ao Poder judicial de forma a apagar a antiga divisão dos Concelhos.

 

Sua Magestade a Rainha, Conformando-se com o parecer interposto pelo Procurador Geral da Corôa sobre a Representação do Administrador Geral interino de Beja, datada de 7 de Junho passado em que expõe as duvidas que tem encontrado a Camara do Concelho de Ourique a que foi anexado o de Garvão, por se recusarem os membros da extincta Camara a concluir o inventario, e entrega do Cartorio e das AIfayas da Casa da Camara, as quaes não apparecem; e bem assim sobre a diferença dos pezos e medidas dos dous Concelhos, e sobre a divida contrahida antes da annexação: Manda, pela Secretaria d'Estado dos Negócios do Reino, declarar ao referido Administrador Geral, para o fazer constar á Camara de Ourique, que deve esta demandar perante o Poder Judicial os ex-Vereadores da Camara de Garvão pelo facto de não entrega do Cartório e das Alfayas; que pelo que respeita aos pezos e medidas; devem permanecer os Padrões como actualmente existem, até que huma Lei regule definitivamente este objecto; e finalmente, que sendo o Concelho de Garvão unido ao de Ourique, com todos os seus direitos, obrigações, vantagens, rendimentos, e encargos devem por isso as antigas dividas passivas do Concelho extincto ser pagas pelo novo, assim como receberia este as dividas activas, se as houvesse; pelo que Sua Magestade recommenda ao sobredito Administractor Geral que empregue lodos os esforços para apagar a antiga divisão dos Concelhos, estabelecendo no Municipío huma única administração.

Palácio das Necessidades, em 1 de Agosto de 1837.
António Dias de Oliveirra
No Diar. do Gov. de 4 de Agosto nº 182. (1)

 

           Devido à excessiva proliferação de concelhos medievais, e se nalguns concelhos portugueses, observava-se um escasso número de habitantes, ou mesmo despovoados, o que acabava por ter efeitos contraditórios, tornando-os ingovernáveis por falta de moradores em número suficiente, para preencher os respetivos cargos autárquicos e judiciais, juízes e demais oficiais para servirem o concelho, tal não parece ser o caso de Garvão, pois segundo o censo do Conde de Linhares de 1801, o concelho de Garvão teria, 976 habitantes nas duas freguesias, Garvão e Santa Luzia, o que o tornava num concelho mediano em termos de habitantes e de área, e muito acima de alguns concelhos que não foram extintos como o caso de Alvito entre outros.
           Esta densidade populacional proporcionava, segundo Maria Fernanda Maurício, rendimentos suficientes para uma efetiva autonomia financeira.

 

Ao lado da sua autonomia administrativa, os concelhos possuíam autonomia financeira, o que significava cobrarem eles próprios as receitas com que custeavam as suas despesas: rendimentos dos bens próprios do concelho, direitos cobrados pela utilização dos bens comuns do concelho, pelo produto das coimas, pela violação das posturas, pelos rendimentos da almotaçaria, pelos rendimentos provenientes da aplicação da justiça, pelas rendas cobradas pela aferição dos pesos e medidas, pelas rendas das portagens e outros. Dentre as despesas, destacamos a «têrça», o jantar ou colheita, dadas ao senhor da terra, o pagamento aos funcionários concelhios, as despesas com a aposentadoria dos funcionários régios. O conjunto das receitas e das despesas constituía o orçamento do concelho.  (2)

 

 

(1) Collecção da legislação Portugueza desde a última compilação das Ordenações, Volume 10, pelo desembargador António Delgado da Silva, Lisboa, 1839, p. 679.
(2) MAURÍCIO, Maria Fernanda. Entre Douro e Tâmega e as Inquirições Afonsinas e Dionisinas, Lisboa, Colibri História, 1997. P. 234, 235. IN: CAETANO, Carlos Manuel Ferreira. As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2011. dois volumes. Dissertação de Doutoramento. P. 63.

publicado por José Pereira Malveiro às 16:52

18
Jun 20

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Artigo na revista “Occidente” de 20 de Abril de 1897, da autoria de D. João da Câmara.

 

        O Occidente, Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro, foi uma revista ilustrada editada em Lisboa de 1 de Janeiro de 1878 a 1909. Ao longo das três décadas de publicação foi distinguida com vários prémios nacionais e estrangeiros. Acabou por se extinguir em 1909 deixando um extraordinário património artístico e literário, sendo hoje uma das mais importantes fontes de iconografia da época e o repositório de trabalhos de alguns dos maiores vultos da intelectualidade portuguesa de finais do século XIX.

        D. João da Câmara, (João Maria Evangelista Gonçalves Zarco da Câmara), nasceu em Alcântara, Lisboa, em 27 de Dezembro de 1852 e faleceu em 2 de janeiro de 1908, igualmente em Alcântara. Foi um dramaturgo português e o primeiro português a ser nomeado para o Prémio Nobel da Literatura, em 1901. Desenvolveu a sua carreira profissional nas obras públicas: construção do ramal de Cáceres e das linhas de Sintra e Cascais e chefiou a Administração Central de Caminhos de Ferro.
          Foi no desempenho das suas funções nos Caminhos de Ferro que o terá levado a pernoitar em Garvão vários dias e a escrever esta novela para a revista Occidente.


CHRONICA OCCIDENTAL

          Fóra de todas as praxes tem hoje de ser a minha chronica infiel ao meu dever de chronista; nada sei do que se há passado em Lisboa, nada sei, nada aos ouvidos me chegou. Apenas uns dois ou três jornaes já antigos, encontrados por acaso sobre a mesa da hospedaria, me trouxeram de longe algumas novas, já velhas quando a mim chegaram.
          Mas que importa? Portugal é enorme e não só a capital merece, e muito menos deve merecer, as nossas attenções.
        Falar-lhes-hei d'um cantinho da província quasi desconhecido de Portugal inteiro e que, entretanto, é unta região encantadora.
       Escrevo de Garvão, uma villa muito velha, Gravão, como antigamente se dizia. É no Baixo Alemtejo, no concelho de Ourique.
        Há oito dias que aqui estou, na hospedaria do Xavier, o que pode haver de mais genuinamente alemtejano. Uma casita de taipa muito caiada, muito limpinha, com uma barulhada enorme de pardaes matutinos no telhado, que lhe dá alegria, e um porco morto no domingo, que nos fornece há três ou quatro dias jantares de estalo.
        Mesmo por detrás da estação nos fica a nossa morada. A pequenita do meu hospedeiro a Miraldina, anda ali a entoar uma cantiga, que lhe ensinaram, entre a chilreada dos pardaes. É quasi noite. D'aqui a pouco voam eles de todas essas arvores para os telhados, onde teem os ninhos. E quando anoitecer vai começar um outro concerto. Há uma infinidade de rouxinoes nessa ribeira. E toda a noite cantam. Coaxam as rãs. grillam os grillos. Ouve-se de espaço a espaço um sopro e uma coruja vem todas as noites ao pé da janella illuminada dar-nos uma gargalhada, quando acabamos de cear.
       Quando, depois de muitos annos de vida de cidade, podemos ter o enorme prazer de respirar na montanha um pouco desse ar finissimo, perfumado pelo rosmaninho, parece que a nossa alma toma um banho, que toda essa luz a penetra até ao íntimo, levando-lhe a par, amortecendo-lhe a dor, apagando-lhe a memoria de tanta pequenina miséria que por ahi rasteja.
        O campo vai lindo, embora os lavradores, por balda certa, se queixem sempre. São agora as searas que precisavam de mais uma pinguinha d'agua. Estamos em abril no tempo das águas mil. Há de a chuva chegar a tempo
         Nunca vi tanta flor junta como ahi por esses cabeços. A esteva está toda florida. É um mar verde e branco todo elle a ondolar. Em cada tronco abrem-se dez a doze flores enormes, a maior parte com cinco, uma ou outra com seis pétalas. Ao pôr do sol começam as flores a enrolar-se devagarinho, vão fechando-se em botão, mal se lhes percebe uma pontinha de branco, que fica espreitando para dar signa da aurora. E juntamente com as estevas crescem ahi por toda a parte as urzes, o rosmaninho, o alecrim. A ribeira está cheia de golfos, brancos nos sítios em que as águas dormem á sombra dos choupos e das azinheiras, que sobre ella se debruçam.
        Não há paizagem mais serena do que esta, nem mais preferida pela profusa variedade das aves de Portugal.
          É agora defeza á caça e fielmente é aqui por todos cumprida a lei. Andam ansiosos os caçadores pelo mez de julho. Levantam-se-nos perdizes a cada passo. Onde se roce um pouco de moita, apparecem logo tocas de coelhos. E, caso raro onde tanto coelho existe, abundam por aqui as lebres.
        O ar é constantemente cortado pelas aves mais variadas. Resoam as andorinhas, vão ondulando os bandos dos pintasilgos, os trigueirões riem em todas as arvores com ar trocista, os melros assobiam nas balsas, as milharucas, que parecem feitas de pedras preciosas, gritam, voando em círculos á procura das abelhas, os gaios berram fugindo de arvore para arvore, as põppas e as pegas fazem os ninhos nos troncos velhos das azinheiras, os corvos aos pares andam grasnando muito alto, e, mais alto do que elles, traçam grandes círculos as aguias caçadoras.
           Pouco se trabalha no campo neste momento. Apenas um ou outro pastor se encontra levando o rebanho atravez da serra.
           A grande riqueza da terra são os montados de azinho, que por ahi cresce formando por vezes cerradas florestas. Próximo d'aqui abundam os sobreiros. Em Carvão está-se construindo, por conta do sr. Rodolpho Torres uma vastissima fabrica de rolhas.
          Ainda é a cortiça uma das maiores riquezas da nossa terra menos sujeita do que o vinho à concorrência.
           A gente da terra é como a de todo o Alemtejo, intelligente, paciente no trabalho, honrada e humilde. Alguns do povo teem graça e ajuda-os a maneira de falar, uma cantoria especial, que já tem o que quer que seja de algarvio.
           Há dias, um cabreiro espantado deante d´um theodolitho perguntou a um trabalhador o que é que se via pelo oculo:
             — A tua avó, Santa luzia, Collos e o Vasco da Gama.
            Esta mistura de coisas embasbacou o cabreiro que quiz olhar e não viu nada senão uma bandeirola espetada com as pernas para o ar.
           Depois disto o mesmo trabalhador explicou que o Vasco da Gama era um homem, que tinha uns restos mortaes d'um cadáver que era também de muitos outros.
          Daqui a pouco começam os bailes, exactamente quando elles em Lisboa acabam. Para sabbado de alleluia annuncia-se o primeiro. E' uma notícia para o high-life do Occidente.
      Aqui vão quatro cantigas ao acaso, com todas as suas incorrecções, algumas dellas com verdadeira poesia:

 

Fui ao jardim colher trevo,
Achei o trevo colhido
Sem o trevo não me atrevo
A tomar amores comtigo.

 

No jardim vi uma rosa,
E colhi a meiga flor.
Era linda e tão mimosa
Como um suspiro d'amor.

 

Puz-me a pescar em um mar d'oiro
Com boias de amor tyranno.
As boias foram ao fundo,
Pesquei um eterno engano.

 

Quando eu conversei comtigo
N'aquella sala escura,
Mais valia que atirassem
Com meu corpo á sepultura

 

        Pela música com que são cantadas estas cantigas, percebe se ainda talvez a origem árabe d´esta população do Alentejo. Na alegria do canto há tons melancholicos, suspensões, conclusões que não se esperam, fóra das regras, fóra da logica. N'isso consiste a sua belleza principal e, quando a gente a ouve na charneca, entoada por algum pastorsito, sente uma impressão extranha.
           O verão é o grande tempo das festas e ainda hontem vi o programma das que em Garvão se realisaram o ano passado, no mez de setembro, Missa, carros enfeitados, danças ao ar livre, fogo de vistas e toiradas.
          Do valle do Tejo até é fronteira do Algarve, sem toiros é que não há festa possível. Entretanto nada mais diferente das famosas corridas de Lisboa, Setúbal, Cartaxo ou Santarém, de que estas toiradas que por aqui se realizam sem programma, sem cavalleiros„ sem capinhas e até às vezes sem touros.
       O que torna o espectaculo deveras attraente é a alegria dos espectadores, em cima dos carros, em pé sobre os palanques, às janellas ou às portas das casas, porque uma praça em qualquer sitio se improvisa de um dia para o outro.
       Não há farpas. O boi é chamado por toda a gente que na praça o quer chamar. Às vezes dez, vinte, quarenta ou cem, todos o chamam ao mesmo tempo. O boi olha espantado, foge, corre. Às vezes na carreira apanha um homem e atira-o ao ar. É a sorte. Toca a música. E todos aplaudem, gritam. No sol que dardeja raios d'oiro que sobem á cabeça e embebedam, vai uma alegria immensa! Sai outro boi, continua a festa, sempre assim, sempre com novas peripécias e a alegria sempre a mesma!
       O verão está-nos á porta. Dentro em pouco todas essas searas, por ora tão verdes, vão amarellecer, ondular á brisa de maio e na grande chapa d'oiro a alastrar-se opulenta pelas encostas da charneca onde voam os perdigotos, nas clareiras dos azinhaes, hão de baloiçar-se como robins as papoilas vermelhas. Os pastores indifferentes com as mãos cruzadas sobre os cajados em forma de báculos, o queixo sobre as mãos, olharão descer o sol esplendido nas nuvens iriadas e contarão as horas vendo a Barca a girar em volta da Tramontana, na grande paz, na grande quietação da noite cheia de cantos, opulenta de perfumes.
           E' uma região linda esta que se estende d'aqui até ás praias do Algarve, mais severa no Alemtejo, mais risonha desde que, transposta a serra, cometam a avistar-se os figueiraes alinhados, as amendoeiras, as alfarrobeiras, que são a grande riqueza duma província meridional, transformada pelo esforço duma raça activa n'um delicioso jardim.
          Merecem bem uma visita todas estas vilas e aldeias. Um perigo apenas: é que as estraguem. Que o que ellas teem de melhor é a gente.. que não se encontra.

João da Câmara.

publicado por José Pereira Malveiro às 06:17

14
Jun 20

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As chaminés alentejanas
E os minaretes muçulmanos.

          Não diferem muito, as chaminés de Garvão, das que se observam no Sul do país, ou mais precisamente das chaminés algarvias, onde, estas intrincadas obras de arte sobressaem das, por vezes, monótonas paredes de taipa caiadas de branco.
         Reminiscências mouriscas dos minaretes muçulmanos? Ou talvez não, o certo é que se se encontra alguma polaridade disfarçada na riqueza arquitetónica destes monólitos, como que a esquecer uma outra cultura, proibida, perseguida, desfigurada.
          Dos outros.
          Quando, afinal, os outros somos nós.
        Há algo de ancestral nesta forma singular de construir chaminés, mais parecem pequenas torres brancas, como uma erupção violenta em direção ao infinito, num mar de telhas vermelhas da cor do sangue, como recordações saudosistas dos minaretes árabes, de um passado não muito longínquo.
     Sejam em redondo, quadradas ou retangulares, as chaminés do Sul refletem toda uma influência de cinco séculos de ocupação muçulmana, seja no subconsciente, seja na tradição, ou seja, na cultura intrínseca a todos os povos, “a saudade do minarete a palpitar timidamente, no rebuço cristão da chaminé”, como alguém já escreveu.
       A chaminé das casas alentejanas são um dos elementos, que melhor refletem o apelo à tradição, para além da sua utilidade, tinha grande valor estilístico e ornamental, sempre presentes na arquitetura tradicional do Sul, herdeiras de uma cultura árabe, onde se nota os rendilhados e arabescos, de pequena ou grande escala, conforme as posses dos moradores e símbolo de um estrato social.
        Em Garvão, talvez devido à sua proximidade com o Algarve e à devida influência mourisca, ainda são visíveis alguns notáveis exemplos desta arte, uns a precisarem de reparos, outros primorosamente caiados de branco, outros infelizmente tombados, mas que as fotos antigas nos dão a conhecer.

publicado por José Pereira Malveiro às 10:09

17
Mai 20

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Morreu hoje, 17/05/2020, José Cutileiro.
Alentejano de Évora, com 85 anos.
Hesito,
Em homenagear o Antropólogo.
Ou o diplomata.
No fundo foi ambos.
Com igual devoção.
Mas entre o criador de “Ricos e Pobres no Alentejo”
E as,
Suas contribuições para a paz mundial,
Seja na antiga Jugoslávia
Ou,
Na África do Sul,
Entre outras ações diplomáticas,
“Os diplomatas servem para impedir que haja guerras”. Dizia.
Talvez,
Prefira a humanidade expressa nas suas escritas.
A personalidade académica,
As cuidadas análises políticas,
O prestígio internacional,
O equilíbrio cuidado,
O respeito por de quem não gostava,
No fundo,
Homenageio José Cutileiro, o Diplomata e o Antropólogo que nos legou Ricos e Pobres no Alentejo.

O  livro descreve a vida de uma freguesia rural alentejana, em meados dos anos sessenta do século XX, uma obra considerada um clássico da antropologia portuguesa e europeia dos anos 70 do século XX, pela forma como retrata o Portugal mediterrânico de então, centrado na geografia humana e com uma intenção de realismo ao mostrar um mundo dramaticamente desigual, o que tornou a sua publicação possível somente após o 25 de abril.

publicado por José Pereira Malveiro às 23:06

09
Mai 20

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Feira de Garvão

          A corredoura da feira depressa se enchia de gente, uns para comprar, outros para vender, outros admirando aquele espetáculo todo, eram ciganos a mostrar as dentaduras dos bichos e mesmo faltando-lhe dois dentes afiançavam que a besta só tinha dois anos.

          Eram bestas aos pinotes, cavalos a cocear, burros a zurrar, mulas aos coices, albardas de reboleta, cilhas partidas e no meio daquela poeirada toda emergia o cigano triunfante, com a melhor das bestas pela arreata, besta nunca vista naquela feira, nem dez contos de réis pagam este animal, assim recitavam frases repetidas sabe-se lá já quantas vezes. Ai homem atão não vê que o cavalo é da melhor raça, até pode montar o cavalo virado ao contrário, qu´ele continua a ir pr´á frente.
          As fazendas que vendem são sempre as melhores, não se rasgam, não se queimam, nem que lhe mandem petroli e lhe puxem fogo e se encurtarem depois do fato feito e lavado é porque o cliente cresceu, nem que já tenha setenta anos.
          Não negoceiam em barro cozido, mas as panelas de ferro, alumínio ou esmalte que vendem são sempre do melhor material, fabricadas no estrangeiro, numa terra onde custam mais do dobro, não se partem, não se furam, nem se amolgam, não podem é ir ao fogo muitas vezes.
          O cabedal das botas é do melhor e do mais fino, importado directamente da frância, faça chuva ou faça sol nada lhes pega, podem-lhe passar com um tratori ou um carro de bestas por cima que não se rompem, nem se estragam, é sempre a aviar, é só uma notinha.
           Nas roupas, plásticos e bijutarias é tudo da melhor marca, nem que sejam variações inventadas de nomes de marcas famosas, à camisola Lacoste falsa, para ser verdadeira só lhe falta o crocodilo que custa dez mil réis.

        Até já vendem carteiras anti-roubo que apitam quando se aproximam os carteiristas.

          Os Ciganos sempre foram uma presença na feira de Garvão desde que há memória, a sua chegada a Garvão, ter-se-á iniciado com a vinda destes primeiros povos para o Alentejo, onde o modo de vida errante, forçada ou por vontade própria, se tem mantido ao longo dos séculos.
           Tal como há umas décadas, ainda se deslocam em carroças e se reúnem em acampamentos, geralmente nos eucaliptos na periferia da feira, onde possam preservar a sua autonomia e manter a unidade familiar. Já não se encontram os tradicionais caldeireiros a trabalharem em cobre, os tachos e panelas, desde que há memória ganham a vida de volta do gado, negociando equinos, asininos ou muares. As mulheres continuam a ler a sina, nas mãos ou a deitar as cartas.
            Ciganas com as suas roupas coloridas, (quando não estão de luto), de vestuários ornados, de colares de contas e de abotoaduras metálicos, davam uma nova animação à feira, tingindo o ambiente com cores fortes e vivas, abordavam a população, principalmente as moças casadoiras, fazendo profecias na leitura de mãos.
            Os homens por hábito usavam chapéu, botas e calças usualmente de cotim ou fazenda semelhante, curta, muito justa ao corpo e colete e jaqueta, presas com cordão entrançado, ou, no vestuário dos mais abastados, adornada com botões de prata forrado de tecido e enfeitado com cordões em intricados desenhos, por onde passa o botão.
              À noite sentavam-se em redor de uma fogueira ao ar livre, em cima de fardos de palha comendo e bebendo e onde, na maior parte das vezes, cantavam ao som de uma viola, batendo palmas e dançando. É o espírito viajante, como feirantes e vendedores ambulantes.
             Vinham não só do Alentejo e Algarve, mas inclusivamente do resto do país e até de Espanha e durante os dias de feira, desenvolviam intensa actividade comercial, vendendo, trocando e comprando cavalos e éguas, burros e burras, bestas e machos, correndo na corredoura das bestas, no meio da poeirada levantada pelos cascos destas
           Mais do que romancear a cultura deste povo, os ciganos como o último povo nómada do mundo ocidental, têm, na maioria dos casos, sido rejeitados por uma sociedade que menospreza uma parte dos seus próprios cidadãos. Não só a falta de políticas de integração deste povo, mas fundamentalmente a desconfiança e rejeição do resto da sociedade, levou-os a optar por uma exclusão do modelo de sociedade onde vivem, vivendo à margem, rejeitando até há bem pouco tempo, na maioria dos casos, a cidadania.
         Esta ostracização, este fechamento sobre si próprios, permitiu até aos dias de hoje a continuação de usos e preceitos ultrapassados. Ainda é o mundo dos casamentos arranjados, onde as raparigas casam cedo, de preferência entre primos, onde se recusa a mandar os filhos à escola.
          Descendentes de um povo nómada originário do noroeste da Índia. Por volta do século X/XI começa a odisseia deste povo que a partir do delta do rio Indo, entre a Índia e o Paquistão, chegaram, nos séculos seguintes, praticamente a todas as partes do globo.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:15

28
Abr 20

Proibido pela Censura

 

ABANDONO Ou Fado de Peniche

Letra: David Mourão Ferreira.
Música: Alain Oulman.
Intérprete: Amália Rodrigues

 

          Por volta de 1962, o fado interpretado por Amália Rodrigues, “Abandonado”, também conhecido como o Fado de Peniche. Foi proibido por ser considerado um hino aos que se encontravam presos em Peniche,

 

          O dia 25 de Abril de 1974 a prisão da Fortaleza de Peniche foi cercada por uma força militar do MFA proveniente de Leiria, mas os elementos da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) só se renderam na manhã do dia seguinte.
          A concentração de populares junto à Fortaleza, a ação dos militares do MFA e a decisão tomada pelos presos de que ou “saíam todos, ou nenhum” impulsionaram a libertação dos presos concretizada, enfim, na madrugada do dia 27 de abril. (Museu Nacional, Resistência e Liberdade. Fortaleza de Penivhe)


Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar

 

E apenas ouves o vento

E apenas ouves o mar
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria

 

Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.

 

Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.

 

https://www.youtube.com/watch?v=0-_7BqY7e-8

publicado por José Pereira Malveiro às 14:46

26
Abr 20

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Trump,
o presidente dos Estados Unidos da América,
o líder do mundo livre.
Teve uma ideia genial.
          De como nos livrarmos do mais ignorante e estúpido presidente que os EUA alguma vez tiveram.
          Basta para isso que ele experimente em si próprio a receita que protagonizou.
          Engolir umas luzinhas, para aquecer o corpo.
          E,
          Injetar-se com desinfetante.
          De notar que: apesar das fábricas destes produtos, lixivias, álcool ou outros desinfetantes, em desespero terem alertado para tal perigo e que em nenhuma circunstância o deveriam fazer,
           Nada disseram para Trump não o fazer.
           Que experimente em si próprio,
           Que seja a cobaia das suas idiotices.
           E acabava-se com as parvoíces.
          O partido republicano americano, tem o dever, perante os próprios Estados Unidos e o mundo de se verem livres desta abominação.
          Porque de um doente altamente narcísico só pode vir, a sugestão, completamente tresloucada, que as pessoas infetadas com o vírus do Coronavirus, se podem curar ingerindo desinfetantes, lixívia e outros, é doentiamente indiscritível.
            Não há descrição possível, nem modelos, nem palavras para encaixar tamanha idiotice.
            Quem o ouve, fica completamente terrorizado, sejam os jornalistas, os especialistas de saúde, os seus conselheiros mais próximos, sem reação possível perante tal estupidez.

            É demasiado penoso assistir a tanta barbaridade, é de uma mágoa arrepiante.
             Não sabe o que diz, nem diz o que sabe, envergonha o país, na Rússia rebolam-se de tanto rir, na China as caricaturas são demasiado cruéis para as definir, a Europa está apática e incrédula, de todos os lados surgem avisos alarmistas, de médicos, de cientistas, de técnicos das fabricas de produtos químicos: Em nenhum caso possível ou imaginário, não bebam ou injetem lixivia.
              Hoje são os desinfetantes, amanhã será o quê? O 605-forte? Está no auge da idiotice.
               Os desvaneios psicóticos do Trump, só podem servir para nos dizer o que não podemos fazer.

publicado por José Pereira Malveiro às 12:54

25
Abr 20

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A manhã tinha acordado fresquinha.
Na rádio ouvia-se o hino nacional,
E o programa das forças armadas,
17 aninhos.
Paquete na empresa Nova idade que publicava:
O Volante
E

O Musicalíssimo
Mário Ventura Henriques, (preso em Caxias e solto pelo 25 de Abril), José Vaz Pereira, Bernardo Brito e Cunha (BBC), eram, entre outros, os “colegas”. 

Também por lá passaram, Zeca Afonso, José Saramago e Lino de Carvalho, (igualmente preso no forte de Caxias e libertado pelo 25 de Abril), no projeto de um novo jornal.

Dia 24, uma quarta-feira.
Na sede da PIDE, entregava documentos.
Dia 25, na rua da PIDE, António Maria Cardoso, as balas zumbiam no ar e assistia ao assassino de cidadãos.
No quartel do Largo do Carmo,
Ouve-se a rajada e as paredes metralhadas.
Saiu um carro preto.

Sai uma autometralhadora.
Rende-se Marcelo Caetano a Salgueiro Maia.
Nos dias seguintes era a festa.
Desse dia ficou a lembrança. 
Uma foto no jornal República e um capacete de ferro do assalto a uma delegação da Legião Portuguesa no Bairro Alto.

 

publicado por José Pereira Malveiro às 23:11

19
Abr 20

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1996 foi, sem dúvida, um annus terribilis.
Ano das cheias que num ápice devorou, paredes, telhados, casas e tudo o que lá se encontrava.
          Se uns lamentam a falta dos tarecos, outros lamentarão as recordações, os livros, as fotos e as coleções de artefactos juntados ao longo dos anos.
         Vem isto a propósito de um caco encontrado no quintal, ainda das cheias de 1996, mais precisamente uma pega de um penico (ou púnico se preferirmos os arcaísmos locais), de uma pequena coleção da altura, mas que prometia vir a tornar-se numa coleção interessante.
          Num ápice, acabou-se assim com a coleção de penicos.
         Nesta pequena coleção, não havia penicos de plástico, nem de metal, só loiça e da melhor e de comprovada qualidade e antiguidade, com rebordos fortalecidos, para que o mimoso assento ao “obrar” as necessidades fisiológicas, não ostentasse vergões vermelhos ou arroxeados, consoante o tempo que ostensivamente permanecesse nesse trono de efémera glória.

         O primeiro veio do Monte Ruivo (Santa Luzia), assim como uma mesa com mais de um século, (segundo os curiosos), que as mencionadas cheias, fizeram o favor de arrastar.
          Mas voltando aos penicos, os outros vieram de finas casas, (urbanas ou rústicas), mas de comprovada qualidade e antiguidade, da feira da Ladra veio um, de uma casa de antiguidades das Portas de Santo Antão veio outro e até da casa de velharias da Aldeia da Corte Malhão veio outro, cujos motivos alegóricos não só são inapropriados, como não é aqui o local para os descrever.
          Penicos há muitos, (seu palerma, dirá alguém, parafraseando Vasco de Santana), mas estes tinham um significado especial, primeiro porque eram antigos, segundo porque não se encontra muitas coleções de penicos, terceiro porque foram escolhidos com o melhor cuidado e qualidade e quarto pela irreverência, porque de sábio e de louco todos temos um pouco.
          Enfim, era uma coleção, no mínimo, interessante, do qual só resta a pega de um.
         Testemunhas de um glorioso passado, presentes em todas as casas de família, arredados de salões nobres, sem direito a se exibir em aparadores de fina madeira ao lado de jarras e jarrinhas de inferior qualidade.
         Relegados para debaixo da cama, ou dentro da mesa de cabeceira, foram ingloriamente destronados, na maior parte das casas de família, pelas modernas retretes.
       Apesar da inegável contribuição para a civilização ocidental e mundial, em termos de higiene e na prevenção de doenças infecto-contagiosas, ainda não lhes foi feito o devido reconhecimento.
        Não há uma única Travessa, Azinhaga ou Beco com o nome de penico, quanto mais uma Avenida, Praça ou Rua.
        Devia de ser dado o seu nome á Avenida da Liberdade, ou até mesmo á Ponte 25 de Abril, se já antes foi Ponte Salazar, bem podia ser agora a Ponte do Penico.

publicado por José Pereira Malveiro às 19:46

18
Abr 20

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ANTÓNIO ALBARDEIRO - último albardeiro de Garvão.

Molin e Albarda.jpg

ALBARDA e MOLIN

Albarda e Mula.jpg

MULA COM ALBARDA E ARREIOS


               Albarda-se o burro à vontade do dono.
               E para bom entendedor, basta.
               Terá as medidas da carteira do dono.
        

          Já lá vai o ofício de albardeiro e por assim dizer, do abegão, do ferrador, do latoeiro, do carpinteiro, ou outras profissões doutros tempos, antes das maquinização da agricultura.
               Só o tosquiador é que se safou, ao tratori não lhe cresce o pelo, rematava o barbeiro da Rua do Salitre, lá para mil novecentos e sessenta e poucos, não se tosquia o burro, corta-se o cabelo ás pessoas, dizia de sua razão.
           Agora ao albardeiro, a mudança de profissão, não se mostrava tão prometedora. O ofício aprendera-o com o pai e o pai já o tinha aprendido com o avô, por isso há-de continuar a albardar até morrer.
             Ao último albardeiro de Garvão, António Albardeiro, com oficina na Rua de Ourique, pouca diferença lhe fazia, não tinha filhos para ensinar, por isso quando morresse, morria a profissão com ele, se já não fazia albardas, molins ou enxergões de palha de centeio, pelo menos entretinha-se a fazer miniaturas, coisa que até se vendia bem, não era preciso andar carregado, para vender na feira.
           Se nos últimos anos lhe faltava as encomendas de albardas ou molins novos ou para remendar, tempos houve que não dava mãos a medir, até do Algarve, desde Monchique a Loulé, procuravam os seus serviços, para além das terras em redor até Beja e Alcácer.
                O centeio tinha de ser inteiro, para maior resistência e a sarapilheira tinha de ser da melhor, primeiro media o animal, burro, burra, besta ou mula, para lhe assentar bem, depois, com artifício de mestre, fazia o molde em sarapilheira e enchia de palha, sempre a apertar e em sentido milenar, para não ficar frouxa, tornava a reforçar com sarapilheira, reforçava os cantos, por vezes, com couro, há medida da carteira do dono, e enfeitava com pontos e berloques de lã colorida.
            A albarda depois de apertada no lombo do animal com uma cilha, estava pronta para o carrego de pessoas, de cargas pesadas nas cangalhas, enchapotas e outra lenha, de cântaros de água, de cereais, palha e o que fosse preciso. Sentadas na albarda, em cima do burro ou da besta, chegavam ainda há pouco tempo há feira de Garvão, as donzelas e outras menos donzelas, dos montes e aldeias em redor.
             Outras e familiares, vinham no carro de bestas, de um só animal ou de parelha, os molins eram peça obrigatória para as cangas, onde atrelava a vara do carro ou as charruas e arados, não ferirem o cachaço do animal. Se havia molins para a lavoura, outros molins apresentavam-se coloridos e vistosos para ocasiões de festa, garridos e enfeitados com berloques, fitas de lã e ponteados em flor encimados com um espelho que reluzia quando o Sol lhe dava.

publicado por José Pereira Malveiro às 23:21

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