02
Dez 19

          Quem é que não gosta de Açorda?
          Alentejana, claro.
          Com pão de trigo. Como é óbvio! 
          Porque o pão alentejano já está abastardado.
          Já com uns diazitos. Mas nada de paposecos ou pão de Mafra.
           E, com água do poço, fria, fresquinha, pesada com sabor ferrenho.
           Porque a da torneira sabe a cloro, a mofo e, e, e ...!
           Com azeite puro, do lagar, esverdeado, daqueles que teimosamente não escorre da garrafa.
           Porque o da loja está filtrado e parece óleo.
           Ah… e alhos da horta pisados, nada de espremedor de alhos ou de alhos secos em pó que vêm em canudos de plástico e é só borrifar.
            E, claro os coentros (não se enganem e ponham salsa), tal como os alhinhos, da horta, criados também com água do poço, de preferência ferrenha.
             E se não for pedir demais, os ovinhos, um para cada freguês se houver, se não houver esmaga-se um e provam o caldinho, também de galinha criada no campo a alimpaduras, minhocas ou farelos, (não lhes deem farinha industrial carregada de hormonas, senão estragam tudo).
              Não ponham cebola nem grão-de-bico senão sai uma açorda afrodisíaca. Pelo menos é o que diz o Tratado Árabe do Amor, O Jardim Perfumado.
               A normal pitada de sal grosso, porque o fino não sabe a sal, uma colher de aluminio e umas talhadas de toucinho frito e, e, … apanhá-las.
              Chamemos-lhe Açorda ou se quisermos impressionar os amigos chamemos-lhe Çorda, do Árabe Andaluz thorda, (não se esqueçam que o th em árabe lê-se ç e ponham o a como em azeite az-zayt, ou açucar as-sukkar).
              Comida sacra, as freiras e frades adoram-nas, principalmente depois do jejum.
               Comida de profetas, Maomé adorava-as. Não fosse afinal o seu bisavô que as inventou.
               Comida de reis, Afonso II adorava-as, (não há referências, mas era gordo).
              Comida para todos.
              Seja açorda cega ou rica, conforme os acompanhamentos.
              Está aí para durar.

publicado por José Pereira Malveiro às 22:41

21
Nov 19

O Cavalo na Quinta da Estação de Garvão

          Numa das paredes interiores que rodeiam “A Quinta”, na estação de Garvão, até há relativamente pouco tempo ainda se notava a pintura, em tamanho real, de um cavalo, (na parede à esquerda de quando se entra pelo portão, diante da ponte da Estação), e ás perguntas mais curiosas de quem o terá feito? a resposta era sempre a mesma, de que “foram os militares quando lá estiveram”, sem contudo precisar quais ou quando.
          Na memória da população, nos anos sessenta do século passado, não havia lembrança da presença de militares neste local, ou da permanência prolongada destes que se pudessem identificar com a referida pintura, pelo menos durante o século XX.
         O que se sabe, é que pelas lutas liberais do século XIX, o exército do Duque de Terceira, apoiante da causa liberal, depois do desembarque da expedição liberal em Cacela, no Algarve, em 24 de Junho de 1833, pernoitou em Garvão de 14 a 17 de Julho de 1833, na sua caminhada rumo a Lisboa a qual tomou em 24 de Julho de 1833, sem qualquer oposição, depois do Duque da Terceira ter desbaratado as tropas inimigas, comandadas pelo brigadeiro absolutista Telles Jordão, na margem esquerda do Tejo, no que ficou conhecido como os combates da Cova da Piedade e de Cacilhas.1

 

Destes consta que a Divisão Expedicionaria, tendo deixado completamente tranquilo o Algarve, sahira no dia 12 de S. Bartholomeu, viera pernoitar a S. Marcos, donde sahindo o dia 13 viera ficar a Stª Clara, e no dia 14 a Garvão. Neste ponto fez a junção com ella a Brigada de Artilharia que partira de Faro com esse destino, e no dia 17 partio o Duque para Messejana, donde datou os últimos despachos.2

        

        Sabe-se igualmente que antes da chegada a Garvão do Duque da Terceira,3 o comandante das tropas absolutistas, encarregado da defesa do Alentejo e Algarve, Visconde de Molelos,4 tinha ou teve por alguns dias, o seu quartel-general em Garvão.

 

No mesmo dia 3 de Julho vim no conhecimento de que o General Mollelos se tinha retirado por S. Martinho das Amoreiras até Gravão, onde convergem as estradas, que vem do Algarve por Almodovar e Ourique, e por Santa Clara, a ultima das quaes o inimigo tinha devastado na sua passagem com huma barbaridade verdadeiramente atroz.5

 

No dia 4 o Visconde de mollelos officiou do seu Quartel General em Garvão, pedindo quanto antes gente, dinheiro, e polvora, por quanto se achava só, cercado de rebeldes, e sem meios nenhuns para se defender.6

 

          Sabe-se assim que tanto as forças absolutistas do rei D. Miguel, como as forças liberais afectas a D. Pedro, durante alguns dias fizeram quartel em Garvão. Ficando esta “Quinta” junto à Estrada Real do Algarve, não nos poderá surpreender que pernoitassem neste lugar, pelo menos algumas forças mais importantes, protegidas pelos muros altos da “Quinta”, caso já existissem por esta altura.
         Quanto à pintura do cavalo, numa das paredes interiores da “Quinta”, teria o seu interesse em se tentar identificar a origem dessa pintura e a possível relação com estes militares e com este período conturbado da história portuguesa nesta parte do Alentejo.

 

1 - Joaquim Telles Jordão, brigadeiro absolutista, foi reconhecido como o odioso comandante da prisão de São Julião da Barra, lugar de detenção dos presos liberais. A forma violenta com que tratou os presos, com cruéis abusos e torturas, mereceram o repúdio e ódio dos liberais e foi morto a golpes de espada pelo coronel liberal Romão José Soares.

2 - Chronica constitucional do Porto, Volume 3. 1833. P. 101.

3 - Marechal António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, 7.º Conde de Juro e Herdade, 1.º Marquês de Vila Flor e 1.º Duque da Terceira.

4 - O Visconde de Molelos, recebeu o título de barão em 17 de dezembro de 1815. Secretário militar de D. Miguel, era governador do Algarve com a patente de marechal-de-campo quando se verificou o desembarque dos liberais em Cacela, a 24 de junho de 1833. Devido a um erro tático permitiu o seu avanço sobre Lisboa, onde entram a 24 de julho desse ano, o que se tornou fatal para a causa miguelista. Morreu na sua terra natal a 7 de dezembro de 1852.

5 - Chronica constitucional do Porto, Volume 3. 1833. P. 178.

6 - Chronica constitucional do Porto, Volume 3. 1833. P. 68.

 

publicado por José Pereira Malveiro às 07:05

17
Nov 19

As Grandes Vias da Lusitânia

          Mario Saa, escritor alentejano de Avis, nasceu em 1893 e faleceu em 1971, menciona na sua obra, As Grandes Vias da Lusitânia: O Itinerário de Antonino Pio, a vila de Garvão e as várias vias romanas que por aqui passavam.
          Obra publicada entre 1957-1967, em seis tomos O seu interesse pela arqueologia e a investigação que realizou sobre vias romanas deram origem à sua obra de maior importância, «As Grandes Vias da Lusitânia», em seis volumes, o produto de mais de 20 anos de investigações e prospecções arqueológicas que é, ainda hoje, uma obra de referência.
          Este itinerário, datável, muito provavelmente, do tempo do imperador Caracala (princípios do século III), tem servido de base ao estudo da rede viária da Península Ibérica; dado que muitos dos topónimos nele mencionados ainda não foram identificados com segurança, presta-se, por outro lado, a muitas conjecturas. Sobre a rede viária peninsular, cf., por exemplo, ROLDÁN HERVÁS 1975 e SMJERES 1990.(1) 
             Contudo a sua obra, segundo José D´Encarnação, parafraseando Jorge de Alarcão, «a ler com muita cautela».
            E também não foi complacente a apreciação feita aos seis volumes regularmente publicados por Mário Saa, em Lisboa, sob a designação genérica de As Grandes Vias da Lusitânia. Como o subtítulo — (O Itinerário de Antonino Pio) — dá a entender, os volumes são, por um lado, a tentativa de identificar topónimos mencionados naquele Itinerário e, por outro, o relato das viagens empreendidas pelo próprio Mário Saa. Na verdade, as identificações apontadas pelo autor são frequentemente desprovidas de qualquer fundamento; daí que, no seu Portugal Romano (Lisboa, 31983, p. 222), Jorge de Alarcão advirta, a propósito desta obra, «a 1er com muita cautela».
           Assim é, de facto. No entanto, teve um mérito o deambular de Mário Saa pela terra portuguesa: deparou, aqui e além, com ruínas, foram-lhe dando a conhecer coisas antigas, ofereceram-lhe mesmo algumas delas, outras ele próprio recolheu. E, hoje, a colecção que legou ao povo do Ervedal (concelho de Avis) e que se encontra exposta na sua casa (onde viria a falecer a 28 de Janeiro de 1971 e que está transformada em sede da Junta de Freguesia local) constitui interessante repositório a merecer estudo a par da leitura atenta das páginas da sua obra. É que as interpretações poderão, efectivamente, estar erradas, mas o contexto arqueológico em que as peças foram encontradas é bastas vezes anotado. (2)


Pág. 96
«Conforme a tradição, apareceram, em tempos, colunas miliárias em S.ª Margarida do Sado, denotando que por ali haviam passado vias militares romanas. Com efeito assim era. Irrompiam do lugar diversas vias: para Alvalade, rumo a Garvão; para Santiago do Cacém, Impereatoria Salacia; para Grândola, Malecaeca, rumo a Tróia (Caeciliana); para Alcácer do Sal, Miróbriga; para Évora; para Ferreira do Alentejo, rumo a Beja, Pax.»

 

Pág. 140
«Irradiavam de Salir importantes vias, como (…) A de Garvão, com destino a Santiago do Cacém.»

 

Pág. 194
«O traçado romano, e legionário, da Boca do Rio a Évora, por Garvão e Santa Margarida do Sado, foi em parte aproveitado, desde a Serra de Monchique a Garvão pela Estrada Real do Algarve a Lisboa. Para norte de Garvão o traçado da Estrada Real diverge do romano. Esta busca Alvalade, pela margem esquerda da ribeira de S. Romão, enquanto aquele, sobre a margem direita, vai tocando as localidades (…).»

 

Pág. 196
«A trajectória da Boca do Rio a Garvão, e de Garvão para Norte, é de excelentes condições viais. A natureza abrira este caminho. São magníficos os tabuleiros ou plainos das margens do Mira e as depressões e várzeas conduzintes a Garvão; como daqui para Norte as planícies das margens do Sado, com Alvalade, Santa Ana do Roxo, Ermidas, Santa Margarida do Sado, Caneiras do Roxo, Vila Nova da Baronia, Viana do Alentejo. O costumado documentário romano, em destruições de paredes, telharia, epígrafes, etc., ladeia o caminho e é como que o sinal da sua trajectória.»

 

Pág. 203
«Aranni (que não sabemos se a poderemos fazer coincidir com a céltica Arandis, de Ptolomeu, sendo prudente não o fazermos) chefiava vasto distrito que, em si, conta notáveis centrações de arqueologia romana, e pré-romana, como Messejana, Aljustrel, Rio de Moinhos, Alvalade, Vale de Santiago, castelo da Senhora da Cola, Ourique, Panoias, etc.»

 

Pág. 204-206
«O prosseguimento normal da estrada romana de Ossonoba a Salacia do Sado, fazia-se de Aranni (Garvão) acompanhando o Sado para jusante, por Alvalade e Ermidas, até Santa Margarida do Sado. Entretanto a via longitudinal era cortada transversalmente em Garvão, de Noroeste para Sueste, por outra via, a da Imperatoria Salacia a Esuri. A transversal apresenta a extensão, aproximada, de 50 km, das ruínas romanas do Castelo Velho, em Santiago do Cacém, a Garvão.
Sai do Castelo Velho rumando ao Sueste, através da Chã Salgada, tangencialmente ao que resta do recinto dos jogos circenses da urbe Imperatória. Os 28 km da urbe à ribeira de Campilhas tangem os «talefes», ou sinais geodésicos, de Pocilgais, Vale de Água e Ameijoafa. Campilhas corre de Sudoeste a Nordeste, intercepta o caminho romano e, em Alvalade entra no Sado, de que é o principal afluente, da margem direita.
As suas copiosas águas são modernamente aproveitadas por barragem nacional, a do Pego Longo, no Cercal. Muitas antiguidades romanas têm sido encontradas nesta área, à travessia da ribeira de Campilhas pela estrada do Castelo Velho a Garvão. Imperatória, notável urbe do distrito salaciense, pertencia ao número dos «oppida» turdetanos do Alentejo. Avia romana para Aranni era das mais concorridas de então. Sobre ela, e a menos de «mil passos» das ruínas, erguia-se, na contigua planície da Chã Salgada, o grandioso «circus», com a respectiva «spnina», de que atrás falámos e de que há restos.»

 

Pág. 228 e 229
«A distância, de XXXII milia passuum, de Aranni à imediata mansão, mostra-se exata entre o castelo de Garvão e Santa Margarida do Sado – por Alvalade, Santa Ana do Roxo e Ermida. Em Alvalade, a estrada, até aí acompanhando a ribeira de S. Romão, por sua margem esquerda, passa à margem direita, sulcando as planícies marginais.»

Pág. 232 e 233.
«A via de Antonino, a partir de Garvão, com destino ao Norte, a Salacia-Serapia, vai transpor a ribeira em Alvalade, notável centração romana com muitas facilidades viais e excelentes travessias fluviais. Alvalade era o funil do transito geral, dos sectores setentrionais para os meridionais. O lugar em si, e no seu contorno, é impregnado de demonstrações de colonização romana, de que alguma coisa figura no excelente museu municipal de Santiago do Cacém, a que Alvalade pertence.
Os achados nas circunvizinhanças desta vila mostram-se, sobretudo, em Ameira (2 km ao noroeste da vila, sobre a ribeira de Campilhas) e nas herdades e montes de Metade, Conqueiros, Corredoura e Gáspeas, localidades a sueste, sobre a ribeira de S. Romão, dum e doutro lado dela, nas distâncias de 2 a 4 km de Alvalade. Os vaus da ribeira de s. Romão, em Alvalade, são o Porto de Beja e, a jusante, o Porto dos Coitos, este situado na estrada romana, do nosso intento. Sulca, desde Garvão, a borda ocidental da ribeira, em um lanço de 30 km até ao Porto dos Coitos, situado a 1 km a norte de Alvalade.
Corre pelos lugares de Funcheira de Baixo, Monte Ruivo, marcação geodésica de Adobos, Vale de Romeira, Boizana. Passa defronte da ermida de S. Romão de Panoias, de Monte Alto e da torre Vã. Em comunhão com o traçado do caminho de ferro vai continuando para Norte, pela mesma borda da ribeira, por Defesa, Retorta, Valmargem, Gáspeas, Corredoura (este o nome que outrora era dado às grandes vias militares), e, enfim, Figueiras, defronte dos arqueológicos lugares de Conqueiros e Metade. Preforma a vila de Alvalade a sua principal artéria.
A estrada continua acompanhando a ribeira pela margem direita, até Santa Margarida do Sado, em lanço de 20 km, o qual se faz por Coitos, Sobral do Meio Dia, Santa Ana do Roxo – onde a estrada real de Santiago do Cacém a Beja atravessa, em excelente porto, ou vau, a ribeira do Sado. Ao depois, tangente à foz da ribeira do roxo, vai à aldeia de Ermidas, corta a ribeira da Figueira, em Algeda ou em Porto de Mouro, e, por Moinho da Volta e marcações geodésicas de Atalaia e Garcia Menino (por dentro da curva do Sado) atinge o local do santuário Serápis.
O Castelinho de Algeda, no Sado, defronte da foz da ribeira da Lageda, ou da Figueira, de época que procedeu o domínio romano, dá sinais de haver sido o local de travessia, na estrada mais antiga da Imp. Salacia à Salacia Serapía. Esta estrada irrompe do Castelo Velho, em Santiago do Cacém. Vinha de Abela, depois ao Castelo Velho do Louzal e daqui ao Castelinho da Algeda, onde passava ao outro lado do rio, para Santa Margarida do Sado, aqui entroncando em diversas vias, entre elas a que nos propomos seguir, até Évora. Os 50 km contados de Garvão a Santa Margarida são os mpm XXXII, do Itinerário latino, entre Aranni e o «serapeu» de Salacia.»
«Uma antiga Estrada do Algarve, de Norte para sul, pela margem esquerda do Sado, transpunha o rio em Alcácer do Sal depois do que seguia por Valverde e Charneca, sempre a leste e a par da E. N. N.º 120. Aproximava-se de Grândola; Canal; Mina da Caveira – cujo minério, na época romana, afluía a Santa Margarida do Sado onde, em parte, era tratado, como mostra o seu escorial, e em parte seguia em embarcações. Ao depois da Mina da Caveira: Brunheira, Loizal Novo, marcos geodésicos de Faleiros e Cartaxo, Mal Assentada, Balça, Ameira, onde passava a ribeira de Campilhas; Alvalade.

De todos os modos, Garvão, era lugar obrigatório de convergência.»

 

(1) José D´Encarnação, Universidade de Coimbra, A Colecção Epigráfica De Mário Saa No Ervedal. HVMANITAS — Vol. XLVII (1995). P. 629.

(2) Idem p. Idem, p. 629, 630.

publicado por José Pereira Malveiro às 22:36

23
Out 19

Mário Varela Gomes
O Oriente no Ocidente. Testemunhos iconográficos na Proto-história do Sul de Portugal: smiting gods ou deuses ameaçadores.

      O desenvolvimento socioeconómico e cultural das populações que, sucessivamente, ocuparam o território a que hoje corresponde o Alentejo e o Algarve, beneficiou de intensos contactos com o Oriente, maioritariamente através do Mediterrâneo. De facto, tanto o processo lento de neolitização desta área ocidental da Europa, como inovações tecnológicas (arado, roda e carro) ou religiosas, detectadas naquela região durante o Neolítico final, como novas formas e soluções arquitectónicas, de índole militar e ritual, a tecnologia calcolítica da exploração e fundição do cobre ou, posteriormente, do bronze e do ferro, devem-se a estímulos provindos do Mediterrâneo Oriental.
        Nos últimos séculos do II milénio a.C., sucessivos influxos étnicos e culturais extrapirenaicos, de fi liação indo-europeia e resultantes dos grandes movimentos populacionais registrados sobretudo no Sul da Alemanha e na bacia danubiana dão origem a um panorama cultural inovador e à Proto-história peninsular.
          No Sudoeste Hispânico estes contributos, que oferecem ao nível do acervo material artefactos relacionáveis com os do Hallstatt A e B centro-europeu e do Sul da França (espadas pistiliformes de bronze, cerâmicas penteadas, incisas e excisas), irão misceginarem-se não só com as culturas autóctones (Bronze do Sudoeste) como receber as contribuições trazidas pelos mercadores orientais, nomeadamente fenícios e antes, mesmo, de ali fundarem as suas feitorias.
           Também as influências culturais provindas por via continental, através da bacia do Ebro e da Meseta, não se encontravam isentas de aspectos orientalizantes. Estes detectam-se nas armas e em outros artefactos de prestígio, produzidos em diferentes áreas do Mediterrâneo Oriental, designadamente nos discutidos escudos redondos com escotadura em V, tal como nos capacetes de cornos ou nos carros de combate bem representados nas estelas decoradas, de «tipo estremenho», da Idade do Bronze final, melhor conhecidas na Meseta e na Estremadura, e, ainda, em peças de ourivesaria. Um conjunto de trinta e cinco contas de pasta vítrea, de forma anular, elipsoidal ou cilíndrica, translúcidas, com cor amarela, castanha ou azul, recolhidas na necrópole da Idade do Bronze da Atalaia (Ourique), de provável manufactura egípcia ou milénica, são não só os mais antigos objectos de vidro conhecidos em Portugal como a sua presença testemunha significativas trocas comerciais, devidas à riqueza mineira da região, com os prospectores e comerciantes de metais originários do Mediterrâneo Oriental, em torno à segunda metade do II milénio a.C.
           O desenvolvimento dos contactos entre as populações do Sul de Portugal e as diferentes áreas do Próximo Oriente culmina, por um lado, com a fixação de entrepostos comerciais fenícios, como as instalações e os materiais descobertos em Castro Marim, Rocha Branca (Silves), Monte Molião (Lagos) e Alcácer do Sal permitem supor, e, por outro, com a implantação, naquela área, da I Idade do Ferro do Sudoeste; Surto civilizacional com origem exógena, que floresceu entre os séculos VIII e VI a.C., sob influência do legendário reino de Tartessos. Esta população, tida como pré-indo-europeia e que as fontes clássicas identificaram com os cónios, viviam em pequenos povoados abertos do tipo dos actuais «montes» alentejanos, devendo integrarem-se num sistema económico-social emergente da Idade do Bronze final, do tipo das chefaturas, administrativamente centralizado em cidades onde residia o poder político e militar.
        As casas mostravam a base das paredes construídas com pedra, argamassadas com barro, e a parte superior de taipa e adobes, com travejamentos de madeira, sendo, talvez, cobertas de colmo; processos construtivos comuns a todo o Mediterrâneo mas que encontram protótipos mais recuados na Ásia Menor, na Palestina e no Egipto.
            As necrópoles, sempre perto dos povoados, são formadas por conjuntos de túmulos de pedra, de planta circular (os mais antigos) ou rectangular, por vezes rodeados por muretes e degraus, cobrindo as fossas onde se inumavam os cadáveres ou, mais raramente, se recolhiam as cinzas das incenerações.
           As oferendas funerárias são ricas (fi g. 1), tendo-se descoberto verdadeiros tesouros (Gaio, Fonte Santa), que incluíam objectos de adorno, de ouro, de prata e bronze, contas e pendentes de pasta vítrea, de resina e de pedras semipreciosas, assim como escaravelhos, pulseiras, xorcas, anéis, armas de ferro (folhas e contos de lança e dardo, facas) e cerâmicas (formas carenadas, fabricadas sem roda, ânforas fenícias e massaliotas, taças e pratos de verniz vermelho fenício, cerâmicas cinzentas e peças coroplásticas). Um vaso em forma de prótomo de touro e outras pequenas peças zoomórficas denunciam-nos influências do mundo egeu e próximo-oriental, assim como das estruturas mítico-religiosas ali encontradas, associando os atributos de divindades agrárias e fecundantes (touro e pombas) com outros de carácter funerário ou infernal (cisne, felino) (fi g. 2).
             O mais importante elemento de caracterização é, sem dúvida, o conjunto de estelas epigrafadas encontradas nas suas necrópoles, conhecendo-se hoje cerca de setenta exemplares.
              Esta escrita, de estrutura alfabética, é a mais antiga da Península e uma das mais recuadas do Ocidente Europeu. Originária do Leste do Mediterrâneo, encontra paralelos nas escritas minorasiáticas da Lídia, Licínia, Cária e Fríngia, no grego arcaico (eídio e jónio) e no etrusco, revelando uma raiz comum no modelo semítico da Síria do Norte. A I Idade do Ferro do Sudoeste é, assim, responsável pela introdução de três importantes inovações culturais: a redução do ferro a cerâmica fabricada ao torno rápido e a escrita.
          No século V a.C. e nos inícios do século seguinte, profundas transformações culturais, sobretudo mesetanha, criam a II Idade do Ferro, sem escrita, e um novo equilíbrio territorial e socioeconómico, reduzindo-se os contactos com o Mediterrâneo Oriental, subsequentemente reactivados com o comércio púnico, que, a partir dos finais do século IV, se implantará, quiçá, de forma exclusiva, naquela região. Estas populações praticam o ritual da incineração, recolhendo as cinzas e os fragmentos ósseos dos seus mortos em urnas que enterram, por vezes na periferia das necrópoles da I Idade do Ferro (Fonte Santa, Abóbada, Fonte Velha), acompanhadas por armas de ferro, elementos de adorno e outros objectos (facas, fíbulas, cossoiros, etc…).
          A sua instalação está bem documentada em grandes povoados fortificados do Sul de Portugal (Alcácer do Sal, Miróbriga, Cabeço de Vaiamonte, Mesa dos Castelinhos), assim como no grande santuário que um enorme depósito votivo secundário, indica ter existido em Garvão (Ourique). Neste local prestava-se o culto a uma divindade feminina do tipo da Tanit cartaginesa, senhora da luz, da felicidade, mas também da morte e da regeneração a quem se ofereciam ex-votos, alguns anatómicos, de ouro e prata, além de peças coroplásticas e grande quantidade de recipientes com diversas formas e funções. A partir do século III a.C. até à romanização, o Sul de Portugal será dominado pela influência económico-política cartaginesa e pela rica cultura ibérica da região levantina da Península (Beirão,1986; Beirão e Gomes, 1980; 1983; 1984; 1988; Beirão, Silva, Soares, Gomes e Gomes, 1985;1987; Gomes, 1983a; 1986; 1986a; Gomes e Gomes, Beirão e Matos, 1986).

 

Gomes, M. V. — O Oriente no Ocidente. Testemunhos iconográficos na Proto-história do Sul de Portugal. Revista ICALP, vol. 22 e 23, Dezembro de 1990 / Março de 1991, 125-177.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:41

07
Out 19

Garvão Serro do castelo2.jpg

          Segundo Ana Margarida Arruda, o Cerro do Castelo de Garvão, apresentava-se, como o povoado central de pequenos aglomerados ou habitats limítrofes. A existência do seu santuário, cujo Depósito Votivo, posto a descoberto, aponta para um local de culto de grandes dimensões, sinónimo da sua importância e predominância na região, leva a crer que o Cerro do Castelo de Garvão seria o local onde se centravam os mecanismos de controlo, não só religiosos, mas, também, de coesão social e económica dos grupos circundantes.
          A sua supremacia, conjugando uma potencial riqueza agrícola com o acesso, sem intermediários, aos metais, estender-se-ia aos povoados limítrofes. De facto o Cerro do Castelo de Garvão, situado entre a peneplanície, do rio Sado, a Norte, rica em solos agrícolas, e a região Sul, associada ao rio Mira, rica em metais, permitiu uma superioridade económica e estratégica conduzindo-a a uma afirmação como centro religioso-político-económico da região.
         As sondagens arqueológicas efectuadas, forneceram materiais cerâmicos com a decoração denominada “retícula brunida”, própria do Bronze Final.

          O modelo de subordinação revelar-se-ia também verosímil no caso de se considerar que a importância que o Cerro do Castelo de Garvão detém na II Idade do Ferro só podia ter tido origem numa presença imediatamente anterior. Sendo frequentes as informações sobre a sua ocupação durante o Bronze Final (Beirão et al., 1985, 1987), não é de facto de desprezar a hipótese de o sítio ter estado ocupado durante a I Idade do Ferro.
         Neste caso, o Cerro do Castelo de Garvão apresentava-se, de facto, como um potencial “Lugar central”. A sua supremacia, conjugando uma potencial riqueza agrícola com o acesso, sem intermediários, aos metais, estender-se-ia ao povoado de Arzil e a sua superioridade económica e estratégica conduziria à sua afirmação como centro político-económico, pelo menos à micro-escala local.
         Esta situação parece indubitável, durante a II Idade do Ferro, onde na sua área de influência directa podemos colocar, nesse momento, os povoados de Ilha Grande e Fonte Santa, algo mais distantes, localizados na área das ribeiras do Sado. É inquestionável que a existência do seu santuário, certamente de grandes dimensões, o que indica a sua importância, permite afirmar que o Cerro do Castelo de Garvão era o local onde se controlavam os mecanismos de coesão social e económica de grupos gentilícios ou supra-gentilícios (Correia, 1996b), durante a segunda metade do I milénio a.C. (1)

         Deve salientar-se que se em alguns casos os povoados se implantam em locais nunca até então ocupados, em outros verifica-se uma instalação directa sobre os níveis do Bronze final, como parece ocorrer no Cerro do Castelo de Garvão, por exemplo. A primeira situação, aparentemente mais frequente, estará demonstrada em vários sítios do Alentejo Central e do Baixo Alentejo, concretamente na área urbana de Beja, nas Mesas do Castelinho, no Castelo Velho do Degebe e nos sítios intervencionados por Manuel Calado e Leonor Rocha, nos concelhos do Alandroal e Borba, concretamente o Castelo Velho, a Rocha da Mina e o Castelão (Calado e Rocha, 1997). (2)

 

1 Ana Margarida Arruda. A Idade do Ferro pós-orientalizante no Baixo Alentejo. Revista Portuguesa de Arqueologia. volume 4, número 2, 2001, pag.238

2  Idem. P. 287

publicado por José Pereira Malveiro às 21:08

17
Set 19

A Lenda da Princesa Moura
          Fátima era o nome da filha do profeta Maomé, assim como os cristãos gostam de nomear os seus filhos segundo os santos do panteão cristão, daí Purificação, Sacramento, Natividade, Assunção, Conceição, Aparecida e Ressurreição entre outros, também é costume no mundo muçulmano, os progenitores nomearem os seus filhos segundo aqueles que mais reveneram.
          Daí o nome Maomé e as suas variantes, ser um nome muito popular entre os homens e Fátima, entre as mulheres, nos crentes islâmicos.
            Uma das versões que se conta de uma lenda na zona de Fátima, Ourém, Tomar, Cova da Iria e regiões em redor na Serra D´Aire, relata que aos pastorinhos perdidos e em aflição, aparecia uma princesa árabe de nome Fátima que os guiava e ajudava a encontrar o caminho para casa.
            Será a partir desta lenda que aquele lugar em especial tomou o nome de Fátima, em memória da princesa árabe, filha de um rei mouro que na iminência de ser capturada pelos cristãos, preferiu mandar-se das ameias do castelo abaixo, vagueando ainda hoje a sua alma pelas serranias em redor.
         Esta lenda contada aos serões, tanto aos adultos como às crianças, depressa tomou a forma de Nossa Senhora e enchia o imaginário destas populações, numa altura de extrema religiosidade e crença em fenómenos fora do normal, era recorrente, naquela serra, ouvir histórias que Nossa Senhora tinha aparecido a alguém que andava perdido e o encaminhou para casa.
           As criancinhas interiorizavam estas histórias e contavam-nas umas às outras, era tido como uma normalidade que as populações interiorizavam, estas histórias faziam parte do imaginário popular.

            Numa altura de extremo fervor religioso e em tempos de crise, quando as armas do medo do inferno não são suficientes, quando a ameaça da excomunhão não são suficientemente poderosas contra as forças hostis que se levantavam contra a igreja, há que mobilizar a vontade popular com histórias fantásticas de aparições em que Nossa Senhora, apareceu para expiar os pecados dos homens.
              Já assim o tinha sido em 1822, Nossa Senhora apareceu a duas pastorinhas em Carnaxide,(1) para salvar a realeza da ameaça liberal e só a Vila-Francada, com o restauro do absolutismo, tornou obsoleto o prosseguimento de tal milagre.
             Em 1917 a situação era diferente, a República já durava há sete anos e as forças anti-católicas não desarmavam, haveria de levar estas criancinhas a acreditar que as histórias que contavam umas às outras eram verdadeiras e a luz que imaginaram em cima da azinheira era Nossa Senhora.
          Sob a capa da negação, mas comprando os terrenos em volta das supostas aparições, a igreja foi manipulando e interiorizando nestas mentes frágeis a construção de uma narrativa que favorecesse o contexto político da época, a pregação que davam do castigo divino e do inferno, eram de tal forma violentas para estas criancinhas que foram levadas a acreditar nas histórias de infância e no que não viram.

           Porém, e mais reveladora de uma certa fragilidade da análise das aparições e da sua recepção parece-nos ser a ideia forte deste capítulo, de que o "proletariado rural local" da zona de Fátima teria uma predisposição para "a adesão entusiástica e acrítica a fenómenos maravilhosos" (p. 40). Ou seja, uma explicação assente numa causalidade determinista, materialista e geográfico da crença religiosa (ver o comentário à citação de Amorim Girão, p. 67). O que nos coloca várias questões. Seria a zona da Cova da Iria mais agreste, pobre, rural, isolada e analfabeta do que o Alentejo, provavelmente a zona menos católica do país? (2)

            Milagre do sol? Ou alucinação visual colectiva? Ou um fenómeno mental em que indivíduos saudáveis, independentemente das suas crenças religiosas, passam por ilusões ou experiências psicóticas de fundo religioso, ao visitar espaços de adoração e de forte carga simbólica e emocional?
             Curas milagrosas? De joelhos, a pé ou de rastos quando afinal não valeu aos dois supostos videntes, Francisco morreu em 1919, com apenas 11 anos, com pneumonia. Jacinta faleceu no ano seguinte aos 9 anos da mesma doença. Lúcia ficou reclusa e incomunicável até morrer.
            O que poderá levar uma Nossa Senhora, com poder para adivinhar o futuro nos três segredos de Fátima, a deixar morrer duas inocentes criancinhas?
             O que poderá levar uma igreja a furtar ao mundo exterior, outra criança?


(1) Serões: revista mensal ilustrada. N.º 62, Ago. 1910.
(2) Lusitânia Sacra nº 16. Mutações religiosas na época contemporânea: figuras e pensamento, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2004.

publicado por José Pereira Malveiro às 19:58

14
Set 19

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Receptáculo para cartas no Posto de Correios de Garvão

                

OS CORREIOS EM GARVÃO              

                Uma das primeiras formas de enviar notícias e conhecimentos, foi a troca de mensagens, esta necessidade milenar levou os homens a idealizar formas de vencerem as distâncias para fazerem chegar as missivas aos seus destinos. Desde a utilização de caminhantes, peregrinos, cavaleiros, almocreves, feirantes e outros mercadores ambulantes, para transportarem as missivas, ao uso de animais como o pombo-correio, sendo esta uma da forma mais remota para troca de correspondência, conhecido desde a antiguidade.
              Em Portugal, D. Manuel I, em 6 de Novembro de 1520, publicou a Carta Régia que criava o ofício de Correio-Mor, com grandes deficiências na execução deste serviço, pois o Correio-Mor fazia um serviço mais ditado pela solicitação dos utentes do que pela regularidade, e só em Setembro de 1798, a administração central dava corpo ao projecto dos correios, e estabelecia o serviço das diligências de Mala Posta entre Lisboa e Coimbra que veio mais tarde a cobrir todo o território nacional, só destronado pelo advento do comboio que passou a incorporar uma carruagem para o efeito, o vagão-correio.

               Durante o Estado Novo ir-se-á assistir à construção de estações de correio em todo o território nacional, apostando no crescimento do património para uso dos utentes, sendo algumas delas um bom exemplo de vanguarda arquitetónica, embora no caso de Garvão se tivesse optado por um estabelecimento arrendado situado na Rua de Ourique.
             Este Posto ou Estação dos Correios veio a fechar na década de noventa do século XX e os serviços postais e de encomendas, passou para a Junta de Freguesia, onde o serviço é prestado pelas funcionárias.
           Para além do serviço de entrega e recepção de cartas, postais ou aerogramas durante a guerra colonial, também procedia à recepção e ao envio de encomendas, serviços de telegramas e telefone. Este serviço era prestado por uma funcionária permanente nas instalações e por um carteiro com entrega da correspondência ao domicílio.
           Como se referiu, muito antes destas instalações entrarem em funcionamento, já se procedia ao serviço de correios em Portugal e inclusivamente em Garvão, tanto através da entrega da correspondência, destinada à vila, transportada pelo comboio, desde 1888, com paragem na Estação de Garvão e na Funcheira, como antes, desde o século XIX, pela Mala Posta, cujo percurso se fazia pela Estrada Real, entre Lisboa e o Algarve.
            Primeiramente o porte, era pago por quem recebia as cartas e só a partir de 1853, começou a ser pago pelo remetente com a introdução do selo, no reinado de D. Maria II, cujos primeiros exemplares têm como motivo a efígie da soberana.
             A Mala Posta, para a distribuição do correio, tinha estações de muda de cavalos e pontos de repouso para os cavaleiros, dispostos regularmente ao longo dos percursos, de salientar que nestes tempos, não era fácil encontrar cavaleiros para esta arriscada profissão e dispostas a efectuar estas jornadas, devido ao perigo que representava a deslocação, por estradas ou caminhos do país.

            Pesada e árdua tarefa a destes correios que tinham de transportar as malas do correio por esses troços escusos e de difícil caminhada, como eram as estradas de então, atapetados de poeira e sob o sol escaldante das planícies alentejanas, ou, pior ainda, terem de suportar o frio invernoso e a chuva que transformava a poeira em lameiros intransitáveis, fazendo também transbordar ribeiras intransponíveis. Como se não bastassem estas partidas da natureza para atrasar os correios, ainda tinham de contar com o eventual e provável mau encontro com a guerrilha miguelista ou com um qualquer salteador fortuito. Receando pela própria vida muitos dos estafetas desistiam do seu emprego ante a iminência de um assalto e outros logo após a sua ocorrência, (…) (in: Vilela, 1982)

              Os assaltos e as intempéries, eram as causas maiores dos atrasos da Mala Posta, provocando graves demoras aos correios e inclusivamente a perca de malas quando os estafetas eram surpreendidos pelas cheias das ribeiras que tinham de atravessar. Os assaltos das guerrilhas do Remexido aos correios, eram notórias e se o governo se servia dos correios para transmitir e receber as informações da província, também os rebeldes procuravam estar informados e controlar estas missivas.
            Em 1839, das duzentas e noventa e uma povoações do Alentejo, apenas oitenta usufruíam de serviço de correios no Alentejo, incluindo Garvão.
              A Posta do Alentejo, partia de Lisboa e fazia a travessia do Tejo até à casa de posta de Aldeia Galega do Ribatejo (hoje Montijo) e daí continuava a carreira com paragem nas seguintes casas de posta: Pegões, Montemor-o-Novo, Venda do Duque, Estremoz, Alcraviça e Elvas.
               A posta do Algarve partia de Montemor em direcção a Évora, Viana do Alentejo, Alvito, Beja, Almodôvar, Loulé e Faro, era a partir destas localidades que partiam outros correios para as restantes populações, tanto no Alentejo, como no Algarve, nomeadamente o correio que partia de Beja em direcção a Odemira e parava em diversas localidades incluindo Garvão.

 

1 O lanço da linha do Sul onde se insere a estação de Garvão e da Funcheira, foi aberto em 3 de Junho de 1888.
2 Em Setembro de 1798, aprovou o estabelecimento das diligências entre Lisboa e Coimbra que deu origem à primeira carreira da Mala-Posta. No entanto, o estabelecimento de carreiras regulares de Mala-Posta em todo o território nacional só seria feito 50 anos depois
3 Vilela, José Luís. O remexido e os assaltos ao correio. In: História, nº 148, Jan. 1992, pp. 28-46
4 Barros, Guilhermino Augusto de. Relatório Postal do Anno Económico de 1877-1888. Lisboa, 1879.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:33

25
Ago 19

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          Em fotografias de 1956, do Sindicato Nacional dos Arquitectos,  no seguimento do projecto de recuperação, tratamento e organização do espólio do "Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa" (IARP), entre 1955 e 1960, nota-se o estado de degradação da Igreja Matriz de Garvão.
        Apesar de em 24 de Maio de 1939 a Igreja Paroquial de Garvão ter sido classificada como Monumento Nacional e haver correspondência, desde 25 de Maio de 1938, entre os vários departamentos da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, a alertarem para o estado precário da Igreja Matriz e a necessidade de se fazerem obras de reconstrução, ainda em 1962 essas obras não se tinham realizado.
         Em 2 de Abril de 1962, uma habitante de Garvão, de nome Maria Guerreira Gomes, moradora no Largo da Palmeira, escreve ao então Presidente do Conselho, Dr António de Oliveira Zalazar, a solicitar ajuda na reconstrução da Igreja.
          As obras foram eventualmente realizadas durante os anos sessenta do século vinte, não obedecendo contudo, à edificação original, com o derrube do galilé abobadado que protegia a entrada e como o arquitecto-chefe, na missiva de 25 de Maio de 1938, aconselhava que se mantivesse.
          Uma das particularidades dessa Igreja era precisamente o alpendre, (Galilé) que protegia a entrada de estilo Manuelino, “pelo agradável conjunto que forma com a Igreja”, conforme o mencionado arquitecto menciona.
          Outra particularidade era uma pintura que encimava o altar-mor e terá sido destruído durante as obras de recuperação. Apresentava, a toda a largura do arco que compõe o altar, a dita pintura de várias cores, tendo como peça central um brasão da monarquia portuguesa.
           Esta pintura tipifica as decorações do brasão real da quarta dinastia: a forma da coroa e dos ramos laterais, aponta para o reinado de D. Miguel ou de D. Maria II.
          Apesar de a partir de D. João VI se observar a inclusão do ramalhete envolvendo o escudo, este inclui também a esfera armilar, que aliás já se observava desde D. João I, embora sem os ramalhetes laterais, o rei que se lhe seguiu D. Pedro IV, deixou cair a esfera armilar, mas apresenta um escudo ovalado, é só a partir de D. Miguel ou D. Maria II que de facto o brasão pintado na igreja de Garvão se assemelha com os brasões usados por esses monarcas.
          Tudo aponta para o reinado de D. Maria II, devido à guerra civil que envolveu D. Miguel e com a vitoria liberal e a pacificação do território, observou-se uma renovação das artes no reino como se observa nestas pinturas. 

          Este brasão real, dos tempos da monarquia e apesar da instauração da República em cinco de Outubro de 1910, manteve-se por cima do altar até às referidas obras nos anos sessenta do século passado, em pleno desafio às autoridades republicanas.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:42

11
Ago 19

(Proposta)

 

A descoberta do Depósito Votivo em Garvão, em 1983, onde as oferendas eram guardadas, depois de previamente oferecidas no local de culto pelos crentes, leva-nos a ponderar sobre a localização do santuário propriamente em si.


A descoberta deste Depósito Votivo, leva-nos igualmente a tecer considerações sobre a possibilidade da existência de outros locais de deposição das oferendas.


Não é de todo plausível que as bases de uma estrutura desta natureza, passados mais de dois mil anos, situado no primitivo núcleo urbano da vila de Garvão, numa zona densamente povoada, onde os vários períodos de construção são visíveis, ainda aflorem à superfície e sejam capazes de serem identificados com o templo em questão.


O que passou com as muralhas do Castelo, cujas pedras que constituíam as suas paredes, foram carregadas ao longo dos anos, para as mais diversas formas de construções na vila, o mesmo seria de esperar de uma estrutura elevada do solo, sem qualquer utilidade actual que justifique a sua conservação todos estes anos, como aquela que aqui se dá a conhecer.


A título meramente informativo, mais que não seja, para divulgar esta singular estrutura que se destaca das restantes construções da vila ou conhecidas na região e que por si só justifica a devida investigação, antes que se proceda a alguma remodelação construtiva que lhe provoque danos irremediáveis.


O edifício que aqui se trata, em terreno privado, existe a cerca de 50 metros do Depósito Votivo e ao mesmo nível topográfico, é uma estrutura de construção pétrea, elevada a cerca de 2.50 metros do solo, sem portas ou janelas, com o topo aplanado, sem qualquer utilidade actual ou que se conheça quem a construiu ou a que propósito, com cerca de 5 metros de comprimento por 3 metros de largura, com acesso por escadaria frontal à mesma largura da edificação.


O que se observa actualmente e caso se venha a comprovar a sua função com o santuário, seria a base desse templo, onde assentaria o resto do edifício e as duas colunas marmóreas que se encontraram nas imediações do local, poderiam estar relacionadas com esta estrutura, cuja similaridade com a base de outros templos/santuários que se encontram no mundo mediterrâneo antigo, leva-nos a tecer paralelismos e considerar esta edificação como digna da devida investigação.


Esta estrutura destaca-se das restantes construções da zona, pela singularidade da sua construção, imponência, situada num lugar elevado e como se referiu, mesmo que se venha a verificar a sua não conformidade com o templo a que as oferendas no Deposito Votivo se referem, tem todo o interesse a ser devidamente investigado, como estrutura imponente que sobressai das restantes construções típicas da zona.


A coluna “Romana” que se encontra numa das ruas da vila, foi localizada no leito da ribeira relativamente perto deste local, assim como o fragmento de uma outra coluna, que se encontrava junto às hortas e recolhida pelo autor, também se localizava nas imediações do local desta estrutura, (sobre este fragmento de coluna subsiste a dúvida se faria parte do Pelourinho que se encontrava no largo junto aos Paços do Concelho).

publicado por José Pereira Malveiro às 23:29

08
Jul 19

Garvam/Garvã ou Arandis/Aranni

I

          A origem do topónimo Garvão, sempre foi um enigma para os investigadores que se debruçam sobre este tema.
          Nem as fontes cristãs, portuguesas ou dos vários reinos que vieram a formar a Espanha actual, ou muçulmanas, deixam antever a origem da nomeação deste concelho medieval. Nem os autores Árabes sobre os quais António Borges Coelho assenta o seu estudo, Portugal na Espanha Árabe, (1) al-Râzî, (2) o de al-Idrîsî (3) e o de al-Himyarî, (4) mencionam alguma povoação que se possa identificar com a localidade em questão, nem quaisquer outros autores Árabes, de conhecimento mais recente, a mencionam.
          A carta de foral atribuída em 1267, vinte e oito anos depois da conquista total das terras alentejanas, em 1238, menciona o nome Garvã, o que leva a crer na continuidade deste topónimo desde o período anterior à nacionalidade. Já em 1260 aparece Garvam, na Carta de doação de uma herdade, no extinto concelho de Marachique, onde menciona o Semedarium qui venit de Garvam et vadit al Algarbium.
          Em termos meramente especulativos, a partícula Garv, que se encontra na palavra Garvão, poderia advir do Árabe Garb, este vocábulo encontra-se amiúde no mundo Àrabe e sempre em relação a Oeste de outro lugar, é assim com o Algarve, o Al-Garb muçulmano, a Oeste do Al-Andaluz, de Meca e da expansão Árabe, em Malta, (5) na ilha de Gozo, onde a povoação Gharb, topónimo de raiz Árabe, se situa no Oeste da ilha, ou, entre outros exemplos, a região Oeste do emirato Abu Dhabi, denominada Al Gharbia.
          Seria assim uma povoação a Oeste de qualquer outra, ou a estrada do Oeste em direcção ao Norte, em relação à estrada Romana a Este que passa por Mértola, ou em relação à ribeira que passa por Garvão, a Oeste de outras, nomeadamente ao curso do Alto-Sado que passa mais a Oriente. Não sendo nenhum destes cursos, nesta zona, navegáveis, tal explicação faria sentido num contexto mineiro, do qual existe algumas referências, sobre o eixo mineiro pré-romano de Marachique-Garvão, que passava pelo coração da antiga zona da escrita do Sudoeste. Este corresponde, na opinião do autor, ao eixo mineiro ancestral de Ossonoba, sem dúvida utilizado desde os tempos fenícios, sendo o sítio de Fernão Vaz uma etapa natural do seu percurso. Liga também Ossonoba a importantes oppida célticos da II Idade do Ferro (Mesas do Castelinho, Garvão e outros. (6)
          Contudo o vocábulo Garvan, também se encontra noutras línguas, tanto no Gaélico Escocês e Irlandês, como inclusivamente no Inglês antigo, (existe também, na ilha de Skye, na Escócia, uma montanha denominada Garbh). Assim como na Bulgária, Macedónia do Norte, Roménia e noutros países do Leste europeu, existem topónimos denominados por Garvan.
          Garvan do Gaélico, denomina, pequeno, áspero, talvez em relação à ribeira que atravessa a vila que se torna violenta e escabrosa, por alturas das cheias invernais. Já João e Augusto Ferreira do Amaral, na sua obra Povos Antigos em Portugal, (7) mencionam que o nome Garvão, teria a sua origem na palavra Celta “Garv”, cuja tradução seria áspero, um hidrónimo de origem Celta, que designaria o rio que divida a vila em duas partes.
          Certos autores, no século XIX, nomeadamente Pinho Leal em Portugal Antigo e Moderno, denomina Garvão por Garabon que supostamente designaria Corvo em Árabe, de facto, encontra-se no leste europeu, várias povoações ou lugares denominados Garvan, cuja palavra significa precisamente Corvo. Contudo, este Garvan, (Гарван), do Leste Europeu, exprime-se numa língua Eslava, embora faça parte das línguas Indo-Europeias, como o Latim e o Celta, é muito diferente destas e Pinho Leal não justifica nem referência a origem dessa informação.
          Em França, mais precisamente na Bretanha, existe um rio denominado Le Garvan, numa região de tradições celtas.
          Todos estes lugares, no mundo Celta, têm em comum, o facto de se situarem junto a cursos de água, inclusivamente na Bretanha, onde, como se afirmou, o próprio rio que banha a povoação, Trégarvan, denomina-se Le Garvan, enquanto no Leste europeu, todos estes lugares se situam em sítios elevados, mais de acordo com o sentido de altura, espaço de voo e da identificação com Corvo. Na Macedónia do Norte, Garvan, é inclusivamente a denominação de uma montanha.

II

          A confirmar-se esta nomeação de Garvão, ao período da influência Celta na Península, a cuja família pertence o Gaélico Irlandês e sendo o topónimo Garvan, transversal ao período de ocupação Romana, visigoda e Árabe, ter-se-á de considerar a pretensão em identificar Aranni ou Arandis, com a povoação de Garvão.
          As investigações têm-se debruçado quase na totalidade, sobre a localização de Arandis/Aranni em Garvão, ou noutra povoação do Alentejo e muito pouco sobre o vocábulo Garvão.
          De facto, sobre a nomeação desta terra, no período anterior à ocupação Árabe, pelo império Romano e por tribos de origem germânica que se lhes seguiu, certos autores identificam Garvão com esses topónimos, com base nos escritores mais antigos que mencionam o Sul de Portugal: Plinio, (o velho), na sua Historia Naturalis, (8) do século primeiro, menciona, nesta zona, os Aranditani. Cláudio Ptolomeu, astrônomo grego, na sua Geografia (9) do ano 150, menciona Arandis. O Itinerário de Antonino Pio (10) do século III, menciona Aranni e o Anónimo de Ravena, (Ravennatis Anonymi Cosmographia), (11) elaborado por um cosmógrafo cristão no século VII, (relativamente perto da ocupação muçulmana de 711), menciona igualmente Arani.
          Como se afirmou, foi teorizada a localização Aranni/Arandis em Garvão, com base no Itinerário Antoniano, contudo se a historiografia não é consensual e a documentação existente, não revela respostas a esta questão, a verdade é que a arqueologia, também, ainda não trouxe respostas esclarecedoras sobre estas questões, seja em Garvão ou noutras localidades.
          A questão da identificação de Aranni/Arandis com Garvão, segundo o caminho XXI do Itinerário, tem produzido teorias interessantes e imaginativas, contudo a questão principal, revolve em torno da impossibilidade de Arandis/Aranni se situar simultaneamente a 60 milhas de Ossonoba (90 Km de Faro) e a 35 milhas de Salacia (52 Km de Alcácer do Sal), como se apresenta nesse caminho do Itinerário Antoniano. Ou há de facto um erro no Itinerário, ou estaremos perante localidades diferentes, mas com a mesma denominação.
          Contudo, independentemente da sua localização, situar Arandis/Aranni no Oriente alentejano, peca por a sua área territorial se sobrepor a Beja e Mértola e deixar vazio todo o território a Ocidente, desde Miróbriga, (Santiago do Cacém) e Salacia, (Alcácer do Sal), ao Algarve, incluindo a bacia do Alto Sado e a Bacia do Rio Mira, ambos ricos em minério, (ter em atenção, igualmente, os polígonos de Thiessen, sobre a técnica do vizinho mais próximo). (12)
          A observar-se a origem Celta do vocábulo Garvan e a sua manutenção até aos nossos dias, entra em contradição com a pretensão de localizar Arandis/Aranni em Garvão. Contudo não é inédito a mesma povoação ter duas denominações diferentes em simultâneo, uma indígena e outra Romana, ou inclusivamente ter duas assembleias, como parece ser o caso em Beja, não só mencionada por frei Amador Arrais, no século XVI, mas igualmente consubstanciada pelas recentes intervenções arqueológicas.
          As duas nomeações não são irreconciliáveis, nem é de excluir, embora em termos meramente teóricos que Garvan, corresponda ao primitivo núcleo urbano da vila de Garvão, em torno do castelo e do santuário e que Arandis/Aranni, corresponda aos vestígios arqueológicos encontrados no local denominado por Franciscos e à tal municipalidade falhada de que fala Jorge de Alarcão. (13)
       Segundo este autor, a falta de edifícios que tipificam as novas entidades políticas em formação e caracterizam o quotidiano Romano, leva-o a classificar, para o problema da localização de Arandis/Aranni, como uma experiência urbanística falhada. Contudo Virgílio Hipólito Correia, (14) acrescenta que: Neste sentido, talvez a experiência de Arandis não tenha falhado, mas não tenha nunca existido; o que terá falhado, na realidade, terá sido a experiência política necessariamente subjacente ao projecto urbano e administrativo. Não sendo um argumento que a justifica, também não a invalida.
          O sítio dos Franciscos, integrado na propriedade do Arzil, onde Caetano Mello Beirão e José Olívio Caeiro procederam a sondagens arqueológicas de emergência, na década de 80 do século XX, numa área que iria ser afectada pela construção da estrada entre Garvão e Aldeia das Amoreiras, puseram a descoberto enorme concentração de ruínas romanas, restos de paredes e cerâmicas, numa área bastante extensa, tratando-se ou de uma vila rústica romana de enormes proporções ou, mais concretamente, de uma cidade Romana, forçando assim o desvio da dita estrada para salvaguardar estes vestígios arqueológicos.
          De notar que deste local, foi recolhido uma Estela Romana que Mário e Rosa Varela Gomes estudaram e devidamente divulgaram. (15)
          A Herdade dos Franciscos è um dos latifúndios da freguesia de Garvão, situando-se apenas a cerca de 1km a sul daquela vila. Administrativamente pertence ao concelho de Ourique e ao distrito de Beja. O monumento funerário agora dado a conhecer foi descoberto avulso, numa extensa zona da herdade onde se observam ruínas, talvez de um vicus, ou de uma villa rustica e  de onde provêm outros materiais do período romano. (16)
          Já em 1908, no Archeologo Português, José leite de Vasconcellos, (17) menciona um busto em mármore, de Agripina Menor, retirado dos Franciscos e guardado no Museu Regional Rainha Dona Leonor, em Beja.
          Na freguesia de Garvão, concelho de Ourique, na margem esquerda da ribeira dos franciscos, fica a herdade do mesmo nome, onde estive em Março de 1909.
          Em volta do monte há grande quantidade de tégulas, de ladrilhos, de imbrices, em fragmentos, e alicerces de um edifício antigo que já estava soterrado, mas que tem sido várias vezes excavado pelos sonhadores de tesouros, à busca de riquezas. Disseram-me que apareceu lá um busto marmóreo que está hoje no Museu de Beja.
          Haveria aqui uma povoação romana, ou simples villa? Só com excavações se poderá responder à pergunta. (18)
          Em jeito de conclusão, muitas dúvidas persistem, tanto sobre a origem do vocábulo Garvão, como da localização de Arandis/Aranni e a sua coincidência com Garvão. Mas, a observar-se a origem Celta no topónimo Garvão, o que levará, de facto, a mudar o nome indígena? Ou como Jorge de Alarcão se referiu a Beja, Enigmas da cidade de Beja, (19) Se Lisboa conservou o nome antigo: Olisipo e Évora manteve a designação indígena: Ebora. Se havia uma povoação pré-romana em Beja, porque não manteve esse nome indígena? O mesmo se poderá perguntar de Garvão, Garvã, Garvan. Garbonis, Gharb, غرب ou Гарван, se havia um nome indígena, porquê uma nova nomeação para o mesmo local ou próximo deste? 

 

Notas

1 António Borges COELHO, Portugal na Espanha Árabe, 2ªed., 2 vols., Lisboa, Caminho, 1989 (1ªed. : 4 vols., Seara Nova, 1972-75).
2 Abû Bakr Ahmad ibn Muhammad al-Râzî, é considerado o Pai da Historiografia Árabe Andalusi. Nasceu em Córdova, no ano de 888 e compôs a obra Akhbâr Mulûk al-Andalus.
3 Abû ‘Abd Allâh Muhammad ibn ‘Abd Allâh ibn Idrîs al-Sharîf al-Idrîsî. Nasceu em Ceuta, em 1099. Estudou em Córdova, e viajou pela Pen´nsula Ibérica, Norte de África e Ásia menor. Acabou instalando-se na Sicília, sob a protecção do rei Rogério II, a pedido de quem compôs a famosa Nuzhat al-Mushtâq ou Kitâb Rujjâr..
4 Abû ‘Abd Allâh Muhammad ibn ‘Abd Allâh ibn ‘Abd al-Mun‘im al-Himyarî. Pouco se sabe da sua vida. Natural de Ceuta, foi jurista e assessor do juiz ou do notário da cidade. O seu Rawd al-Mi‘târ é um dicionário geográfico, que, para o espaço ibérico, recolheu informações de al-Idrîsî e de al-Bakrî.
5 A língua maltesa, é uma língua semita, de origem Árabe que usa o alfabeto latino.
6 Manuel Maia, Maria Maia e Artur Martins. 1987. In: Luís Fraga da Silva, A Região de São Brás de Alportel na Antiguidade, Tavira, 2002. P. 32.
7 AMARAL, João, AMARAL, Augusto (1997); Povos Antigos em Portugal; Quetzal Editores, Lisboa.
8 A Historia Naturalis é composto por 37 livros, iniciando-se a sua publicação em 77.
9 Trata-se de uma obra a partir dos conhecimentos greco-romanos da época sobre geografia, com localizações por coordenadas, longitude e latitude.
10 O Itinerário de Antonino Pio, (284-305), As estradas no Império Romano. Compõe-se de um roteiro da época romana, onde regista as distâncias, em milhas, entre as sucessivas estações das principais vias.
11 Embora baseia o seu estudo, sobre documentos dos séculos anteriores e com bastantes erros e enganos que vai influenciar os copistas medievais que se lhe seguiu.
12 Os polígonos de Thiessen são gerados a partir de um conjunto de pontos de amostra, de modo que cada polígono define uma área de influência em torno do seu ponto de amostragem, de modo que qualquer localização dentro do polígono seja mais próxima desse ponto do que qualquer outro ponto de amostra.
13 ALARCÃO, Jorge. (1985). Sobre a Romanização do Alentejo e Algarve. A propósito de uma obra de José d` Encarnação. Arqueologia, 11. GEAP, Porto, p. 99-111.
14 CORREIA, Virgílio Hipólito. Observações Sobre A Ocupação De Época Romana No Vale Do Mira. Conimbriga, 2015.
15 GOMES, Rosa Varela; GOMES, Mário Varela (1984) Uma estela epigrafada da Herdade dos Franciscos, "Conimbriga", 23, p. 43-54.
16 Idem
17 VASCONCELLOS, José Leite. (1908). Antigualhas 2- Restos Romanos. O Archeologo Português, XIII, 1-6, Lisboa, p. 351-352.
18 Idem
19 In: O sudoeste peninsular entre Roma e o Islão, Campo Arqueológico de Mértola, 2014.

publicado por José Pereira Malveiro às 20:22

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