02
Mai 21

Furo do selo.jpg

 

            A construção de uma identidade local, dos concelhos saídos da reconquista, como no caso concreto de Garvão, não se construiu ou sustentou somente nos documentos oficias que instituía o concelho, nomeadamente a carta de foral e os direitos consuetudinários, (vulgo: Foros ou Costumes), procurava-se igualmente através da identificação de alguns dos elementos simbólicos de identificação e de reconhecimento externo utilizados pelos concelhos numa fase embrionária da sua organização e do seu papel na criação da sua própria identidade, nomeadamente os símbolos de maior visibilidade como o Brasão e os estandartes dos concelhos, como igualmente sobre os selos concelhios que autenticavam os documentos oficiais, nomeadamente o Foral.

          Enquanto os brasões adornavam as ameias e portas de entradas dos castelos e dos Paços concelhios, como ainda se observa na frontaria da Casa da Câmara em Garvão, e os estandartes adornavam as procissões e as recepções às comitivas mais importantes, já o selo concelhio desde relativamente cedo que era essencialmente utilizado na validação dos documentos do concelho, a par dos sinais dos tabeliãos, e a sua utilização foi feita maioritariamente em função de uma representação externa em documentos dirigidos ao exterior ou que consagraram acordos entre diferentes instituições,

          Desta forma, a utilização do selo municipal parece ter respondido, predominantemente, à necessidade de provar externamente não só a sua existência como a intervenção do concelho em diferentes contextos.

            O Selo concelhio de Garvão, de que se desconhece o paradeiro ou a sua configuração, mas cujos indícios da sua existência são observáveis no Foral-Novo de Garvão, pelo furo no canto inferior esquerdo, (por onde passava o fio de seda do selo pendente), sob a assinatura do chanceler-mor Rui Boto com a frase “Foral de Garvão”, é possível que a imagem usada no concelho de Garvão não se diferenciasse muito da utilizada nos concelhos cujos Cavaleiros-Vilãos ajudaram na tomada do território, nomeadamente Alcácer do Sal, como sede da Ordem de Santiago, entidade que outorgou a carta de Foral a Garvão em Fevereiro de 1267, e Évora cuja família foralenga transmitiu a Alcácer e esta a Garvão.

              A imagem mais antiga do selo de Évora que se conhece é de 1251 e retrata um guerreiro a cavalo com elmo redondo, escudo e lança, rodeado de uma inscrição identificadora do concelho. Estes selos remetem-nos claramente para as origens da conquista cristã da cidade cuja representação se referirá, a Santiago Mata-Mouros, santo padroeiro da reconquista, ou aos cavaleiros-bandoleiros de Giraldo-Sem-Pavor.

           Representação que, de forma mais ou menos semelhante, ter-se-ia repetido noutros espaços concelhios como acontece com Elvas apresentando as duas representações inegáveis semelhanças entre si.

           É possível que esta escolha se tivesse estendido a outros concelhos no decurso do século XIII. Contudo os levantamentos sigilográficos feitos até agora em Portugal não o permitem afirmar. Pelo contrário, o catálogo realizado por D. Luiz Gonzaga de Lancastre e Távora em 1983 inclui apenas a imagem e descrição de cerca de 25 selos de diferentes municípios, número possivelmente pouco representativo do conjunto de selos municipais existente e de entre este número apenas os selos de Évora e Elvas apresentam esta imagem.

           Igualmente não se poderá descurar outros paralelismos traçáveis entre a simbologia utilizada nos selos concelhios. A existência de uma tendência comum a vários selos municipais é também observável em concelhos que adoptaram representações de panos de muralha ou de castelos estilizados, simbólica incontestavelmente ligada à guerra e à defesa mas também à afirmação de um poder, formalizado na representação da muralha ou do castelo que rodeava a vila que se fazia representar.

publicado por José Pereira Malveiro às 20:27

18
Abr 21

No Livro da Misericórdia e do Espírito Santo de Garvão

- O discurso canónico que condena o empréstimo de dinheiro a juros

- A retórica legitimadora: Proibida aos Vivos, Mas Não aos Mortos para Salvação das Suas Almas.

 

          Uma das principais preocupações da Igreja Católica durante a Idade Média foram os juros provenientes dos empréstimos a dinheiro, denominada por “usura” e praticada maioritariamente ou exclusivamente por judeus.

           Entendia a igreja Católica que a “usura” era considerada um roubo do tempo que pertencia a Deus. Era entendido como um pecado e foi vigorosamente condenado pelos clérigos católicos, pois o credor obtinha ganho sem trabalhar e lucrava com o passar do tempo. Aos olhos da Igreja, o tempo não poderia ser utilizado como lucro ou outras atividades particulares, pois só poderia ser manuseado por Deus. Era igualmente considerada uma prática desonesta, pois quem emprestava podia-se apropriar, como um ladrão, dos bens do devedor em falta.

 

A usura é um roubo, portanto o usurário um ladrão. E antes de tudo, como todos os ladrões, um ladrão de propriedade. Thomas de Chobham o diz bem: "O usurário comete um furto (furtum) ou uma usura (usurum) ou uma rapina (rapinam), pois recebe um bem alheio (rem alienam) contra a vontade do 'proprietário' (invito domino), isto é, de Deus". O usurário é um ladrão particular; mesmo que não perturbe a ordem pública (nec turbat rem publica), seu roubo é particularmente odioso na medida em que rouba a Deus. [1]

 

          A dinamização da economia europeia que marca a transição entre o feudalismo e o capitalismo, provocou profundas alterações no mundo cristão, entre uma burguesia que tentava a todo o custo enriquecer e ampliar as faixas de lucro ligadas à atividade económica e os conceitos morais e religiosos cristãos que limitavam o desenrolar do comércio, condenando a obtenção de juros ou rendimentos provenientes do capital emprestado.

            Apesar desta resistência, o desenvolvimento do comércio exigia cada vez mais pela moralização do empréstimo de dinheiro a juros. Assim sendo passou-se a assistir, por parte da igreja católica, a uma retórica legitimadora desta prática e inclusivamente realizada por estabelecimentos religiosos, como as Irmandades, Confrarias e Misericórdias, detentoras de imensas quantias monetárias provenientes das rendas do vasto património fundiário deixado em legado a essas instituições religiosas.[2]

           Não obstante as discussões dos canonistas sobre o empréstimo de dinheiro a juros, mais preocupados pela implicação desta prática no meio social e por uma análise legal dessa prática, e dos teólogos, que persistiam no seu entendimento, que fazem do empréstimo pecaminoso ao «venderem» tempo, que pertence a todos, e dinheiro estéril e consumível, incapaz de se tornar bem de usufruto e passível de produzir bens, a verdade é que a Igreja e as várias instituições religiosas, evidenciam uma grande capacidade em movimentar dinheiro e conceder créditos a juros.

 

A tendência será para uma interacção crescente entre a proibição e a legitimação, perante as exigências da evolução e dinâmica económica. Se a Igreja elabora uma doutrina completa e sistemática que incluía definições precisas, isenções e castigos (purgatório, confissão individual, penitência para a remissão dos pecados, doação de bens), as leis civis institucionalizam as proibições, incentivando a ficção jurídica — se não se pode pedir emprestado a juros, então vende-se dinheiro a juros.[3]

 

          Se no caso dos empréstimos a dinheiro e recebimento dos próprios juros, efetuados por estas instituições religiosas eram justificadas pela noção de “Proibida aos Vivos, Mas Não aos Mortos para Salvação das Suas Almas”, em termos de comércio ou desta prática comercial já não havia argumentos morais para a proibir.

         De facto, no “livro da Misericórdia e do Espirito Santo de Garvão” que nos chegou até hoje, podemos constatar o uso desta prática a partir de 1808 e em sintonia com as restantes Misericórdias do reino, com o empréstimo de quarenta mil reis, a Manuel Fernandes e sua mulher Maria Loução moradores na Horta do Fidalgo desta vila,[4] prática essa, de empréstimo de dinheiro a juros pela Misericórdia de Garvão, que se prolongará até 1859, data do último registo no mencionado livro.

           Em boa verdade se diga que esta não é a primeira menção a empréstimo de dinheiros a juros que há registo em Garvão, embora nas estipulações do Foral-Novo atribuído por D. Manuel em 1512, não conste tal atividade, já o Foral-Velho atribuído em 1256, no reinado de D. Afonso III, consta as Onzenas, referiam-se à especulação agiota, levada a cabo pelas minorias, (judeus, mouros e mulheres), denominados Onzeneiros, originando penhoras com base nas dívidas de carácter prestamista. A Onzena denomina o valor cobrado de onze por dez, ou seja, por cada dez emprestados o devedor deveria devolver onze.[5]

 

RELAÇÃO DAS ESCRITURAS DE JUROS

(Como consta no Index do livro da Misericórdia e do Espírito Santo de Garvão)

 

Escriptura de juro de 48$000 rs a Manuel Fernandes, a fl 88 Vº

Escriptura de juro de 52$000 rs a Joaquim Antonio, a fl      100

Escriptura de juro de 50$000 rs a Joaõ Ayres , a fl 101 Vº

Escriptura de juro de 30$000 dados a Catharina da Silva Vª de Joaõ Coelho desta Vª fl 105

Escriptura d'Aforamento dos farrejais do barranco da Sardôa afl 107

Escriptura de juro de 80$000 dados a Francisco Jozé Malveiroº desta Vª fl 109

Escriptura de juros de 24$000 rs Diogo Mendes Lopes de Azevedo desta Vª afl 122 Vº

Escriptura de juros de 24$000 rs dados a Antº Canellas desta Vª afl 123 Vº

Escriptura de juros de 25$125 rs dados a Joaõ Jozé da Roza desta Vª afl   124 Vº

Escriptura de juros de 38400 rs dados a Jozé Mestre das Mocano desta fregª afl 125 Vº

Escriptura de juros de 30000 rs dados a Joaqm Francisco desta Vª afl 129 

Escriptura de juros de 24000 rs dados a Antº da Silva Bogado mor n'Aldeya de Stª Luzia afl 130

Escriptura de juros de 24$000 rs dados a Catharina Maria do Monte da Serra freguezia de Stª

Luzia a fls 134 V

Escriptura de juros da quantia de 65$000 a Joaquim Fragozo desta Villa a fl 136

Escriptura de juros de 34$000 dados a Manoel Estevens Canellas desta Villa a fl 137

Escriptura de juros de 60$000 rs dados a Jozé Euzebio desta Villa a fl 138

Escriptura de juros de 25000 rs dados a Manoel Canellas da freguesia de Saõ Martinho a fl 139

Escriptura de juros de 93:500 rs dados a Francisco Jozé Malveiro desta Villa a fl 140

Escriptura de juros de 60:000 rs dados a Antonio Mestre Guerreiro desta Villa a fl 141 Vº

Escriptura de juros de 44:000 rs dados a Joaõ Mendes da Villa de Ourique – a fl  143      

 

[1] Jaques Le Goff. A bolsa e a vida. A usura na Idade Média. São Paulo, 1989, p.39.

[2] Património esse, consideravelmente aumentado a partir do momento em que as Misericórdias começaram a aceitar propriedades, vinculadas a bens de capela, cujos rendimentos se destinavam à realização de obras pias. A difusão do lugar do Purgatório, um espaço onde as almas erravam antes de entrarem no paraíso, destinado àqueles que embora morrendo em estado de graça, ainda precisavam de uma última preparação para terem acesso ao reino dos céus, também forneceu às Misericórdias com avultados rendimentos, provenientes dos bens de raiz deixados a estas instituições para, através de missas e outras obras de caridade, rezarem pelas almas dos testamenteiros.

[3] Inês Amorim, Análise Social, vol.  XLI (180), 2006, 693-729, Património e crédito: Misericórdia e Carmelitas de Aveiro (séculos XVII e  XVIII).

[4] Fólio 98 verso do Livro da Misericórdia e do Espírito Santo de Garvão.

[5] Carta de Foral-Velo de Garvão, Fevereiro de 1267. Fólio 17 rosto.

publicado por José Pereira Malveiro às 16:06

12
Abr 21

Fólio 13small2.jpg

Treslado de Escriptura da erdade do Arzil

 

Propriedades do Espírito Santo que passaram para a Misericórdia

 

          O livro da Misericórdia e do Espírito Santo, com a data mais antiga de 1609 que chegou aos nossos dias, Para além dos alvarás, provisões e decretos régios, descreve igualmente um rol de propriedades desta Irmandade que passaram para a Santa Casa da Misericórdia, embora com oposição dos Irmãos do Espírito Santo, como se lê no mencionado livro.

 

Autto de Pose

Anno de Nascimento de Nosso Senhor Jezus Cristo de mil e sete Centos e trinta e quatro annos sendo aos vinte e sinco dias do mês de Janeiro do dito anno nesta Freguezia de São Martinho termo da Villa de Ourique aonde estão cituadas as Erdades da Confraria do Espirito Santo da vila de Garvão, achandome ali eu Escrivão da Ordem ao diante nomiado com o Provedor da Mizericórdia da dita villa Sebastião Affonso Pimenta e o Escrivão da mesma, Matheus Rodrigues Cordeiro a eles suplicantes por se, e em nome dos mais Irmãos da Mizericordia da dita vila dei pose perante as testemunhas que no fim deste auto serão asignadas, e declaradas, das propriedades da dita confraria, e são as seguintes .

 

            Primeiramente dei pose aos suplicantes da Erdade da Alcaria da Serra, cita na dita freguezia que hé da dita Confraria (...),

 

            E outro sim fomos a:

            Erdade da Corte do Pego (...)

 

            E outro sim fomos a:

            Erdade de Domingos (...)

 

            E outro sim fomos a:

            Erdade da Fauza (...)

 

            E outro sim fomos a:

            Erdade do Verdelho (...)

 

            E outro sim fomos a:

            Erdade da galharda (...)

 

           Descreve igualmente o ritual de entrega das propriedades, aquando da transmissão aos aforantes que deveria realizar-se segundos certos preceitos, demonstrativos da posse incontestada de quem a aforava, ordenando aos suplicantes que abram e fechem as portas, quebrem telhas e levantem terra para o ar.

 

(…) a qual lhe dei mandamdoos abrir e fixar as portas, quebrando telhas, e levantando terra para o ar, e elles atornarão mansa, e paçificamente sem contradisão de pesoa alguma perante as testemunhas que prezentes estavão (,..)[2]

 

          Nela consta os nomes, não só das propriedades e sesmos, herdades, courelas, ferragiais, hortas e cercas e propriedades vizinhas, algumas já desaparecidas, outras ainda hoje existentes, como também relata os foros a pagar, os intervenientes, foreiros, testemunhas, fiadores e conjugues.

          Entre as propriedades mencionadas, consta o “Arzil”, “Mau Passo”, “Monxica”, “Pixouto”, “Val de Inxares” e “Carvalheira” entre outras.

          O referido livro menciona ainda certas propriedades cuja localização se desconhece actualmente e cuja noção se perdeu no tempo, como a horta das Maçans ou o Pego do Limão, a Vinha Velha, “Mêza” das Oliveiras, Moinho do Morgado ou do Madeira, Farrejal da Coroa, terras da “Xarneca”, cerca do Fidalgo, cerca ao pego “D’andorde”, assim como faz referência a proprietários como “as terras” de Dom Miguel Maldonado e Dom Sebastião Maldonado. Outras terras eram da Capela da Coroa e outras da Capela do Anal, outras terras ainda eram do Concelho desta vila e a Comenda da vila de Garvão, surge nesse livro como detentora de várias terras na actual freguesia.

 

[2] Fólios nove verso e dez.

publicado por José Pereira Malveiro às 19:42

08
Abr 21

Estatutos.jpg

Cópia dos Estatatutos da Confraria das Almas da Freguesia de Carreço, Viana do Castelo.

Estatutos da Confraria das Almas.pdf

 

            A menção à Confraria das Almas, na vila de Garvão, surge: No livro da Misericórdia e do Espírito Santo de Garvão, no fólio 93.

 

(…) cujas cazas ja dittas parte com o ditto sele

iro do Sul e do Norte com as cazas da Con

fraria das Almas desta villa e do Poente

com a Rua da Mizericordia e do Nascen

te com a azinhaga que vai para a ribei

ra (…)

 

          Para além desta menção das, cazas da Confraria das Almas desta villa, existe actualmente, em Garvão, um terreno denominado Farrejal das Almas, pertença actual da Junta de Freguesia e herdado da Santa Casa da Misericórdia, contudo desconhece-se se teria Igreja própria ou outros bens.

          A Confraria das Almas ou dos Defuntos, de nome completo Confraria das Almas do Purgatório, tinha como princpal função manter a relação entre os mortos e vivos, com a finalidade de resgatar as almas do purgatório através da oração.

            Durante a Quaresma, todas as noites depois da ceia e da reza familiar, um dos membros da Confraria percorria as ruas da vila, anunciando as rezas pelas Almas do Purgatório. Geralmente fazia-se anunciar fazendo soar uma matraca de madeira e entoava uma toada soturna e lenta:

 

Irmão, lembra-te de rezar pelos que já lá estão.

 

          Um dos principais motivos do ingresso dos irmãos nestas irmandades das Almas, foi a necessidade de obter a maior quantidade possível de intercessores no mundo celeste para conseguirem garantir a proteção divina na sua vida quotidiana e a salvação das suas almas após a morte. Apesar de nem só através das irmandades das Almas do Purgatório se procedia ao culto dos mortos, podendo os fiéis encontrar resposta para esta necessidade em outras associações religiosas, dada a tendência de outros estabelecimentos ou instituições religiosas em proverem os respetivos sacramentos.

publicado por José Pereira Malveiro às 15:41

07
Abr 21

Confraria do Santíssimo Sacramento de Mafra.jpgcustodia.jpg

Emblema da Confraria do Santíssimo Sacramento de Mafra e Custódia da Igreja.

 

            Num documento relacionado com os Fundos pertencentes ao Arquivo da Câmara Municipal de Beja, consta na segunda página a menção à Confraria do Santíssimo Sacramento de Garvão, 1819/1846.

            Conjuntamente com a Irmandade do Sagrado Espírito Santo, a Santa Casa da Misericórdia de Garvão e a Confraria das Almas, (mencionada no livro Herança Histórica, p. 82) e o conhecimento, agora, desta Confraria do Santíssimo Sacramento, vem contribuir para o conhecimento das vivências, pelo menos em termos caritativos, da população do extinto concelho de Garvão. 

            As confrarias sob a invocação do Santíssimo Sacramento, tal como as do Rosário e das Almas, foram impulsionadas após a realização do Concílio de Trento. Independentemente da invocação das confrarias, um dos principais interesses da atuação das mesmas, a par da ajuda à pobreza e do acompanhamento dos mortos, foi a reforma dos costumes através de propostas de modos de vida de acordo com as decisões conciliares, o que favoreceu a paz vicinal. Isto é, as confrarias contaram-se entre os mecanismos de disciplinamento social incrementados após o Concílio.

            No caso das confrarias do Santíssimo Sacramento, constituíram uma tentativa de resposta à crise teológica levantada pela reforma protestante quando os mesmos negaram a presença de Deus na eucaristia. Teria sido o modelo da arquiconfraria instituída no convento dominicano de Santa Maria Sopra Minerva (Roma), aprovada por Paulo III, em 1539, a repercutir-se pela Cristandade.

            Visando em especial a solenização do culto, essas instituições investiram muito particularmente nas celebrações litúrgicas ligadas aos mistérios de Cristo, tornando-se o ciclo da Páscoa o mais relevante. No entanto, algumas dessas irmandades foram criadas anteriormente ou em data muito próxima desses eventos, o que demonstra a não influência dessa realidade.

            Em Portugal as confrarias estão documentadas desde a Idade Média, remontando as origens a épocas anteriores. Eram associações leigas, embora pudessem contar com clérigos. A Igreja rapidamente as controlou, enquadrando-as nas paróquias e mosteiros, embora só fossem fiscalizadas pelos bispos no plano espiritual.

            A entrada dos confrades era voluntária, pública e celebrada por meio do juramento do compromisso — isto é, das normas ou estatutos pelos quais era regida —, o que implicava a inscrição no livro dos confrades e o pagamento de uma joia anual. Em princípio, essas agremiações estavam abertas a todos. Porém, o pagamento da quota anual implicava, desde logo, a exclusão dos mais carenciados.

            Constituíram um importante espaço de sociabilidade — na Época Medieval, ligada inclusivamente ao banquete, por ocasião da festa do orago, prática que posteriormente caiu em desuso com exceção das confrarias do Espírito Santo —, asseguraram as cerimônias fúnebres dos confrades e instituíram um meio de evidenciar integração e prestígio social. Assim se explica a presença de cristãos-novos nas fileiras dos confrades, apesar de algumas irmandades levantarem problemas ligados à limpeza de sangue, como se observou na artigo sobre a Confraria do Rosário dos Brancos, onde certos irmãos, perante a presença de irmãos negros, preferiram filiar-se na Confraria do Santíssimo Sacramento, cujos estatutos continham geralmente a cláusula de limpeza de sangue e vedado a “todas as raças proibidas pela nossa santa Fé”. Por outro lado, saliente-se que algumas irmandades colocavam limites etários à adesão: as mulheres podiam integrar a maioria das confrarias e as havia especificamente para negros e mulatos.

            Algumas irmandades medievais foram absorvidas pelas Misericórdias, como se observou no caso da Irmandade do Espirito Santo, absorvida, de uma forma bastante contestada, pela Misericórdia, como se encontra sobejamente descrito no Livro da Misericórdia e do Espirito Santo de Garvão.

            Igual destino terá acontecido também com as restantes Irmandades ou Confrarias do concelho de Garvão, pois a Misericórdia, animada de proteção real, não só rivalizava com as restantes Irmandades do concelho como igualmente invejava a sua riqueza e através de posturas reais eventualmente veio a conseguir.

publicado por José Pereira Malveiro às 11:26

04
Abr 21

Irmandade dos Pretos 1.jpg Livro Irmandade dos Pretos 2.jpg

- Imagem da procissão da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

- Livro da Irmandade dos Homens Pretos

 

          Como o título indica, a existência de comunidades de negros em Portugal, (e consequentemente sobre as relações esclavagistas e a sua evolução), deixou marcas da sua existência, ainda visível na onomástica de certas povoações, nomeadamente na actual população da vila de Garvão, conforme se observou.

         Umas das características da presença de negros nas várias vilas do reino era a presença das Confrarias de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e segundo Jorge Fonseca,[1] a Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Chancelaria antiga, assume que: Se havia uma de Brancos era porque existia outra de Pretos.

         Se no artigo sobre Os Pretos do Sado, se observou a concentração desta população nas lezírias do Sado, a sua presença em Portugal é anterior e teria origem na expedição de António Gonçalves, iniciada em 1441, como o começo do tráfico negreiro para o reino português, passando então, o mercado esclavagista, a ser umas das principais actividades mercantis entre Portugal e África.

         A privação da liberdade e a servidão imposta aos negros africanos, encontra-se justificada pelos papas através de várias bulas outorgadas aos reis cristãos da península e a respectiva conversão dos povos indígenas à Igreja.

 

Na bula Dum diversa, de 1442, o papa Nicolau V outorgara a Afonso V de Portugal (o “Africano”), o direito de “atacar na costa da África os infiéis, pagãos ou sarracenos, escravizar suas pessoas e apropriar-se de seus bens.” Depois, em 1456, o papa Calixto V outorgara à Ordem de Cristo a Jurisdição eclesiástica sobre a Guiné, assegurando-lhes uma participação no tráfico negreiro.[2]

 

           Desde 1450 cerca de 800 escravos eram enviados anualmente para Portugal e até 1500 cerca de 150 mil foram comercializados pelos portugueses através do Atlântico. A partir de então a Igreja passou a cumprir o papel de integrar esses escravos numa sociedade católica e branca, utilizando as irmandades como principal instrumento para os introduzir no catolicismo.

           A devoção a Nossa Senhora do Rosário foi então utilizada pelos dominicanos para inserir os negros nesse novo universo cultural. Um dos fatores que contribuíram para a maior adesão dos negros foi o rosário, que os lembrava do oráculo Ifá, objeto mágico da cultura africana, composto por pequenas peças irregulares que se assemelhavam ao rosário.

          Esse contato religioso possibilitaria uma coesão cultural entre brancos e negros por estarem interligados através de uma crença comum. A união das duas etnias evitaria a divisão das esmolas, condicionando os escravos à mesma subjugação que vivia fora do ambiente religioso.

          A fim de terem uma maior representatividade na sociedade e as suas necessidades serem mais atendidas, os negros começavam a reivindicar uma irmandade que fosse de sua gente, onde os objetivos e a situação socio-económica fossem pelo menos equivalentes.

         A cor da pele então passou a assinalar a separação dos grupos levando os primeiros devotos de Nossa Senhora do Rosário a abandonarem quase que completamente essa devoção, quanto se instituíram as primeiras associações negras.

         A Confraria do Rosário dos Negros, pela mestiçagem, pela assimilação, pelo fim da escravatura em Portugal, em 1761 e pela proibição da cláusula de limpeza de sangue pelo Marquês de Pombal, em 1773, ditou o fim destas Confrarias dos negros cuja razão de ser deixou de existir.

          De notar igualmente que uma das características destas Irmandades era a execução de várias danças, uma das quais há memória de se ter realizado em Moncorvo, no dia de reis, até aos anos de 1930, segundo informação de Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior. (Assistente da faculdade de Ciências do Porto, conservador do Museu Antropológico). NOTA DE COREOGRAFIA POPULAR TRASMONTANA. A DANÇA DOS PRÊTOS (Moncorvo), 1934.

 

Por estes motivos, a data dos Reis (ou véspera), foi também a escolhida, não se sabe quando, para se realizar uma dança, composta por vários indivíduos de cara pintada de preto, e que andavam pelas ruas da vila, tocando e dançando, pedindo para o Deus Menino. Era a "dança dos pretos", que teve lugar pela última vez, em Moncorvo, no ano de 1935, conforme regista o Professor Santos Júnior, que a estudou e que, inclusivamente, a promoveu, em 1930.

(…)

Esta dança era aqui promovida pela confraria de Senhora do Rosário, que, à semelhança do que se passava em Lisboa, Porto, Brasil ou Cabo Verde, e eventualmente em outras partes do império português, tinha por missão o enquadramento religioso dos "homens pretos".

 

[1] Também na vila de Garvão houve uma confraria do Rosário dos Brancos, que D. José autorizou, em 1766, a aforar uma herdade. Se havia uma de Brancos era porque existia outra de Pretos. Torre do Tombo, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Chancelaria antiga, Liv. 36, f. 372 v. – 23.12.1766. in: Jorge Fonseca. RELIGIÃO E LIBERDADE, OS NEGROS NAS IRMANDADES E CONFRARIAS PORTUGUESAS (SÉCULOS XV A XIX). CHAM, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, Universidade dos Açores. V.N.Famalicão. 2016.

[2] FREITAS, Décio. Escravos e Senhores de escravos, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1983, p. 16.

 

publicado por José Pereira Malveiro às 11:16

23
Mar 21

 

Nossa Senhora do Rosário.jpg

Imagem de Nossa Senhora do Rosário - Lisboa, 1733

    

          Ao se desenvolver a temática das Confrarias e Irmandades na vila de Garvão, sejam elas de invocação ao Espírito Santo, ou as Santas Casas da Misericórdia, surge-nos a informação da existência de outras Irmandades em Garvão, nomeadamente a Irmandade do Rosário dos Brancos, a Irmandade do Rosário dos Pretos[1], a Confraria do Santíssimo Sacramento da vila de Garvão[2] e a Confraria das Almas.[3]

           O conhecimento desta Irmandade chega-nos através do arquivo da Ordem de Santiago, Mesa da Consciência e Ordens, Também na vila de Garvão houve uma confraria do Rosário dos Brancos, que D. José autorizou, em 1766, a aforar uma herdade.[4]

          O culto a Nossa Senhora do Rosário surgiu em 1282, quando São Domingos de Gusmão, seu devoto, fundou confrarias sob a sua invocação em Portugal, França e Espanha. Depois de algum tempo abandonada, a devoção foi retomada dois séculos depois da morte do devoto, quando ocorria o processo de propagação da fé católica pelos dominicanos em terras da África.

        A Confraria do Rosário tinha a componente pedagógica da obrigatoriedade da reza diária, parcial ou total, de um Rosário, o que correspondia a cento e cinquenta Ave-Marias e quinze Pais-nossos, o que numa população analfabeta onde dominava a expressão oral, o repetivismo proporcionava-lhes uma melhor memorização e inculcação dos mistérios e dogmas da fé cristã

          Assim, ao se aprofundar o conhecimento sobre as duas primeiras Irmandades referidas, vai-nos surgindo, esporadicamente, a menção a outras Irmandades e da mesma maneira que a Irmandade do Espirito Santo está, de uma certa forma, relacionada com os cristãos-novos, (diga-mos judeus e mouros convertidos ao cristianismo), as Irmandades do Rosário, ou por controle e autonomia das populações de origem africana, ou como lugar normativo, de assimilação de valores culturais da sociedade colonial cristã, leiga e popular, estão relacionadas com a presença e assimilação dos negros em Portugal.

        Contudo a presença de irmãos negros na Irmandade manifestava-se de um modo que desagradava aos católicos mais puritanos. Oriundos de uma cultura, cujas crenças exprimiam-se com diferentes modos simbólicos do vasto continente africano, eram sempre vistas, pela nomenclatura católica, como pagãs e obras do demônio, perante as recriminações escandalizadas dos poderes eclesiásticos locais.

          Procurava-se, por conseguinte, frequentemente forçá-los a mais moderação nas suas expressões festivas onde os traços culturais africanos exprimiam-se com maior vivacidade e naturalidade. A história das confrarias religiosas negras é a do conflito entre esta cultura e a representada pela religião católica, maioritária, considerada como a única detentora da verdade e a única aceitável.

          Assim, ainda no século XVI, quando os membros da Confraria eram mistos, os irmãos negros conseguiram eleger vários elementos, dentre eles, para os lugares-chave da Mesa da instituição devido ao maior número de irmãos negros, o desentendimento e o conflito chegaram a tal ponto que a instituição dividiu-se em duas confrarias, a Confraria do Rosário Branca e a Confraria do Rosário Negra, fruto das divergências internas entre estas duas camadas da população.

          A Confraria do Rosário dos Brancos, em certos casos, ter-se-há associado à confraria do Santíssimo Sacramento, cujos estatutos primavam pela limpeza de sangue e vedado a “todas as raças proibidas pela nossa santa Fé”, o que, teoricamente, os membros das antigas irmandades do Rosário não podiam fazer parte. Estatuto esse já existente no caracter exclusivista da Confraria dos Brancos em oposição à Confraria dos Negros.

 

[1] Ano de referência 1766. Também na vila de Garvão houve uma confraria do Rosário dos Brancos, que D. José autorizou, em 1766, a aforar uma herdade. Se havia uma de Brancos era porque existia outra de Pretos. Torre do Tombo, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Chancelaria antiga, Liv. 36, f. 372 v. – 23.12.1766. in: Jorge Fonseca. RELIGIÃO E LIBERDADE, OS NEGROS NAS IRMANDADES E CONFRARIAS PORTUGUESAS (SÉCULOS XV A XIX). CHAM, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, Universidade dos Açores. V.N.Famalicão. 2016.

[2] 1819 – 1846, Grupo de Arquivos Privados dos Fundos pertencentes ao Arquivo da Câmara Municipal de Beja.

[3] Livro da Misericórdia e do Espírito Santo de Garvão. Fólio 93.

[4] IANTT, OS/CA, Liv. 36, Dez. 1766, Irmandade do Rosário dos Brancos. Garvão. Igreja matriz.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:27

11
Mar 21

Livro Pretos do Sado.jpg Habitante de Rio de Moinhos.jpg Pastor de Rio de Moinhos.jpg

- Livro de Isabel Castro Henriques: Pretos do Sado» – História e Memória de uma Comunidade Alentejana de Origem Africana (Séculos XV).

- Habitante de Rio de Moinhos

- Pastor de Rio de Moinhos

 

          A presença de negros em Portugal está atestada desde o século XV, fruto da expansão marítima portuguesa, iniciada na primeira metade do século XV e a sua presença no Alentejo, nomeadamente no Vale do Sado tem sido objecto de vários estudos relacionados com a sua resistência a certas doenças, como o paludismo que afectavam a população branca.

          Julga-se que seria um colonato de escravos, ai estabelecido por serem supostamente imunes ao paludismo, localmente conhecido por febre terçã ou sezões, um mal endémico que durante séculos deixou o território desabitado, eram terrenos insalubres, rodeados de charnecas e pântanos. Traços negroides esses ainda identificáveis nalguns moradores das povoações das margens do rio Sado: cabelo encarapinhado, pele morena, lábios grossos e nariz largo, nomeadamente em Alcácer do Sal, São Romão de Sádão, Rio de Moinhos e São João dos Negrilhos entre outros.

Já José Leita de Vasconcelos na sua obra Etnologia Portuguesa, de 1933, se refere aos mulatos da ribeira do Sado e descreve-os como de pele escura, cabelo encarapinhado e nítidos traços negroides. Tanto os registos paroquiais como os da Inquisição dão notícia de no século XVI, viverem pessoas negras e mestiços nesta região.

 

Ribeira do Sado

Ó Sado, Sadeta

Meus olhos não viram

Tanta gente preta.

 

Quem quiser ver moças

Da cor do carvão

Vá dar um passeio

Até São Romão.[1]

 

          Esta presença no reino, ao longo de vários séculos, de um elevado número de indivíduos de origem africana, que no século XVI chegaram a ultrapassar o décimo da população portuguesa, em regiões como a de Lisboa e o Algarve, não pôde deixar de legar marcas reveladoras dessa presença africana sub-sariana.

          Apesar de inicialmente, se tratar de uma população estranha, minoritária, marginalizada e alvo de preconceitos pela população branca, pelo seu estatuto não só de escravos, mas igualmente pelas profissões que desempenavam, nomeadamente relacionadas com a agricultura e pastoreio de gados, não deixou contudo de ter um certo impacto, em termos socioeconômicos e demográficos, nas terras onde se fixaram, cuja presença ainda hoje é atestada por nomes de família ou alcunhas, como fulana Preta, fulano Escuro, Moreno, Carapinha, Castanho e Pardo entre outros, assim como na nomeação de certos lugares como Monte da Pretas, Monte Negro, Negrilhos etc.

          É neste quadro de dispersão da população negra e escrava pelas várias vilas do interior alentejano que se fundaram e desenvolveram as várias confrarias negras ainda na primeira metade do século XVI, revelando a existência de comunidades escravas importantes. Embora de cariz religioso cristão, não deixava de se notar certas influências da religião tradicional africana nas suas cerimónias.

 

[1] Recolhida em Alcácer do Sal.

publicado por José Pereira Malveiro às 12:38

07
Mar 21

Rapa.jpg Dreidel.jpg

JOGO DO RAPA

E O JOGO DO DREIDEL

 

Quem não se lembra de jogar do Rapa?

Rapa – Tira tudo o que estiver no centro da mesa.

Tira – Tira uma peça.

Deixa – não tira nem põe

Põe - Põe uma peça no centro da mesa.

Cada jogador, começa com cinco peças e antes de jogar põe uma delas, pedrinhas, grãos, chocolates ou rebuçados no centro da mesa.

Quem ficar sem as peças, perde.

Quem ganhar, lambuça-se de chocolates, rebuçados ou em tempos de escassez, fica com os grãos, feijões ou com as pedrinhas.

Jogo infantil português com claras influências judias.

O “Dreidel” judaico é um pião de quatro lados com uma letra do alfabeto hebraico de cada lado, e segundo se consta, remonta ao tempo do rei grego Antíoco IV (175 a.e.c.) que baniu o judaísmo nos seus territórios.

Os judeus, clandestinamente, juntavam-se para estudar os seus textos religiosos e quando em vista das autoridades do rei, dissimulavam esse estudo com o jogo do “Dreidel”, fazendo os soldados acreditar que estavam a jogar.

Existe igualmente relatos desta prática na idade média até aos nossos dias, permanecendo nas comunidades que se foram cristianizando, com a denominação de “Rapa” e as letras R, T, D e P em cada um dos lados.

Hoje em dia, no mundo judaico, joga-se com o objetivo de ganhar o maior número possível de moedas de chocolate embrulhadas em papel laminado dourado, ou outras guloseimas.

publicado por José Pereira Malveiro às 11:01

26
Fev 21

Igreja S Barão2.jpg

 

IGREJA DE SÃO BARÃO

 

A Igreja de São Barão é um antigo local de peregrinação, seguido de extenso arrail que juntava as populações das terras e montes vizinhos, até praticamente a meio do século XX. Tendo indo perdendo pogressivamente afluência a partir daí. com um total desconhecimento das gerações actuais. Sáo Barão, (ou mesmo Varão), tem a particularidade de não fazer parte do panteão católico. A sua origem terá de se procurar noutras culturas que marcaram a paisagem alentejana, conjuntamente com outros santos e santas não reconhecidos pela igreja católica e que se encontram amiúde nestas terras alentejanas.

Excerto do livro SUL e SUESTE da autoria de Joaquim da Costa, natural de Garvão, publicado em 1940, sobre a Igreja e festa do São Barão, situada na Estrada do Saraiva, na confluência da freguesia de Ourique com a freguesia de São Martinho das Amoreiras.

             

             Sôbre alta lomba que, por esses tempos, uma vegetação rasteira - a esteva, o rosmaninho, a urze e o tojo – cobria, em plena serra, num lugar quási inacessível a veículos, ergue-se a branca ermida de S. Barão.

            Lugar aprazível dum pitoresco abrupto. Em volta, cerros mais altos, de cujas pregas irrompem, filhos do mesmo seio ressequido da terra atormentada, os sobreiros, os chaparros e os penhascos. Em baixo, num leito cheio de pedregulhos e ladeado de ravinas e trincheiras que mostram, como ossaturas esburgadas, raízes de árvores que o vento arrancou e rochedos quási a despenhar-se, corre um ribeiro.


Païsagem áspera, bravia, de serra alentejana. Plena serra do Caldeirão...

Do alto dêstes cêrros que circundam S. Barão, em tardes de perfeita visibilidade, que belo e variado panorama se disfruta!

Olhando para os lados de Beja, e abarcando toda essa imensidade, a vista prende-se nesse panorâma raro de serra e de planície. Até Garvão e mesmo um pouco além dessa antiqüíssima vila, as lombas sucedem-se cada vez mais pequenas e mais redondas... Depois, a planície rasa estende-se até aos barros de Beja como pista imensa, sem obstáculos..

.

Se olharmos, depois, em sentido contrário, para os lados do vizinho Algarve, vê-se que as as lombas avançam, sempre maiores, e vão formando cordilheiras até que, a distância, em linhas Irregulares, barram o horizonte. Mais longe, para a esquerda, por cima destas serranias, tocada de uma névoa ténue, azulada, lembrando cetáceo monstruoso repousando, ergue-se a serra de Monchique, a serra maior do Sul...

 

Todos os anos, pela Primavera, quando a esteva mostra a branca flor de cális amarelo, êstes lugares solitários e pitorescos de S. Barão, rnoradias próprias de águias e de lobos, se animam com a presença de gente que vem de muitas léguas de terras em redor, dos casais da serra e dos montes da planície, desejosa, muito mais, verdade se diga, de provar a boa pinga que ali se vende em pipas colocadas sobre os carros alentejanos e que ramos verdes de salgueiros encobrem, e de se divertir em bailaricos e descantes, que de render homenagens, acompanhadas de oferendas ao Senhor S. Barão, que em tempos de viva crença, tão distantes, foi venerado e tido como obreiro de altos milagres.


          Logo na madrugada do dia de festa, serrenhos e campaniços ali afluem, e é de ouvir no ar fresco do dealbar, o alegre rumor das guizeiras dos carros que, por carreteiras estreitas, avançam nas ladeiras ingremes, rodeando precipícios, a caminho de S.Barão.

            Serrenhas de chaile e lenço de vivas cores, montadas em mulas ou barricos que trepam os cêrros por veredas de cabras, trazem animação e arruído à romaria.
Nas subidas e descidas, qualquer mocinha da serra se agüenta bem, segurando-se com firmeza, mão direita na rabicha da albarda, a esquerda esticando a arreata, não vá o brutinho que monta, num tropeço, deitar com ela no fundo de algum abismo onde a morte espreita.


          As albardas e albardões em que estas belas raparigas da serra se firmam, ostentam, em dias de festa, certos cobertores de côr azul de um belo efeito decorativo.

Ah! montar gorda mula, ou burrico rijo, sôbre albardão engalanado, mostrando cobertor que faça vista, chame a atenção das gentes nas romarias, é um vivo prazer de corpo e de alma para as moçoilas da serra!


            S.Barâo! Dia de festa nas alturas!

Surge gente de todos os lados, com fatos de «ver-a-Deus» e lavradores e lavradoras, serrenhos e serrenhas, pobres e ricos, ali se divertem nos bailaricos e se dessedentam no acidulado carrascão vendido a copo junto dos carros com pipas enramadas.

Ao som do harmónium, concertina, ou gaita de beiços, não se faz questão de toque, tudo baila, minha gente!

Para as bandas da tarde, nas barracas de «comes e bebes», onde cheira a massa frita com bacalhau, começam os cantares a despique, ao som do arrastado dlim -dlam -dlum da vióla portuguesa quer dedilhada pelo cèguinho de S. Martinho, tocador e cantador de fama, chega a lembrar toque de harpa...

 

Conhecem-se pessoas dos arredores que, há mais de trinta anos são devotos de S.Barão, não própriamente do santo, valha a verdade, não da festa na ermida, mas verdade, verdadinha, daquela alegria das gentes, do arruído, dos petiscos, da rica pinga que espuma no copo e pica na língua, da pândega entre serras, da festa dionisíaca, pagã... Ali vereis, todos os anos, o Salustiano de S. Martinho, que sabe como poucos imaginar e contar uma anedocta, e no canto a despique, quando lhe dá para isso, leva de vencida qualquer parceiro, por muito destro que seja; ali vereis o Marguilho de Garvão, com o seu cachimbo a deitar fumo que nem locomotiva trepando a serra, o Marguilho, bom camarada em romarias. amigo do seu amigo, mas sem ficar a ganhar nada ao Salustiano, que é menos hábil todavia no derrubar das perdizes em pleno voo.


          Caras conhecidas a amigas de Garvão, S. Martinho, Colos, Ourique, dos rnontes da planície e dos casais da serra, ali se divertem, que tristezas não pagam dividas e a vida são dois dias...

publicado por José Pereira Malveiro às 20:21

Maio 2021
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO