11
Ago 18

Da Vila de Garvão

          Tem-se desenvolvido a temática das Confrarias e Irmandades na vila de Garvão, sejam elas de invocação ao Espírito Santo, como denominadas de Santas Casas da Misericórdia.

          Tem-se agora a noção da existência de outras Irmandades em Garvão, nomeadamente a Irmandade do Rosário dos Brancos,[1] a Irmandade do Rosário dos Pretos[2] e a Confraria do Santíssimo Sacramento da vila de Garvão.[3]

          Este estudo, como o título o indica, leva-nos igualmente para a existência de comunidades de negros em Garvão, (e consequentemente sobre as relações esclavagistas e a sua evolução), cuja existência anda é visível na onomástica da actual população da vila, conforme se verá.

          Assim, ao se aprofundar o conhecimento sobre as duas primeiras Irmandades referidas, vai-nos surgindo, esporadicamente, a menção a outras Irmandades e da mesma maneira que a Irmandade do Espirito Santo está, de uma certa forma, relacionada com os cristãos-novos, (diga-mos judeus e mouros convertidos ao cristianismo), também a Irmandade do Rosário dos Pretos, como o nome o indica, estará relacionada com a presença de elevado número de população negra em Garvão.

          Por consequência, onde havia uma Irmandade do Rosário de Brancos haveria outra de Negros, fruto das divergências internas entre estas duas camadas da população. Existe notícias igualmente que em certas terras a Irmandade do Rosário dos Brancos se juntou à Confraria do Santíssimo Sacramento, Irmandade esta cujos estatutos continham geralmente a cláusula de limpeza de sangue e vedado a “todas as raças proibidas pela nossa santa Fé”. A Irmandade do Rosário de Negros, quando o elevado número de “pardos”, fruto da mestiçagem e integração entre a população branca e negra, era notória, deixou de se justificar e levou ao fim desta.

          A presença de negros em Portugal está atestada desde o século XV e a sua presença no Alentejo, nomeadamente no Vale do Sado tem sido objecto de vários estudos relacionados com a sua resistência a certas doenças, como o paludismo que afectavam a população branca. Julga-se que seria um colonato de escravos, ai estabelecido por serem supostamente imunes ao paludismo, localmente conhecido por febre terçã ou sezões, um mal endémico que durante séculos deixou o território desabitado, eram terrenos insalubres, rodeados de charnecas e pântanos. Traços negroides esses ainda identificáveis nalguns moradores das povoações das margens do rio Sado: cabelo encarapinhado, pele morena, lábios grossos e nariz largo, nomeadamente em Alcácer do Sal, São Romão de Sádão, Rio de Moinhos e São João dos Negrilhos entre outros.

          Apesar de inicialmente, se tratar de uma população estranha, minoritária, marginalizada e alvo de preconceitos pela população branca, pelo seu estatuto não só de escravos, mas igualmente pelas profissões que desempenavam, nomeadamente relacionadas com a agricultura e pastoreio de gados, não deixou contudo de ter um certo impacto, em termos socioeconômicos e demográficos, nas terras onde se fixaram, cuja presença ainda hoje é atestada por nomes de família ou alcunhas, como fulana Preta, fulano Escuro, Moreno, Carapinha, Castanho e Pardo entre outros, assim como na nomeação de certos lugares como Monte da Pretas, Monte Negro, Negrilhos etc.

          É neste quadro de dispersão da população negra e escrava pelas várias vilas do interior alentejano que se fundaram e desenvolveram as várias confrarias negras ainda na primeira metade do século XVI, revelando a existência de comunidades escravas importantes. Embora de cariz religioso cristão, não deixava de se notar certas influências da religião tradicional africana nas suas cerimónias.

          As cerimónias das Confrarias Negras do Rosário eram festejadas de um modo que desagradava aos católicos mais puritanos. Oriundos de uma cultura, cujas crenças exprimiam-se com diferentes modos simbólicos do vasto continente africano, eram sempre vistas, pela nomenclatura católica, como pagãs e obras do demônio, perante as recriminações escandalizadas dos poderes eclesiásticos locais.

          Procurava-se, por conseguinte, frequentemente forçá-los a mais moderação nas suas expressões festivas onde os traços culturais africanos exprimiam-se com maior vivacidade e naturalidade. A história das confrarias religiosas negras é a do conflito entre esta cultura e a representada pela religião católica, maioritária, considerada como a única detentora da verdade e a única aceitável.

          A par desta situação, o poder real sempre se mostrou tolerante e benevolente perante as demonstrações profanas das irmandades negras, chegando a atribuir-lhes uma série de privilégios que lhes permitia, inclusivamente, pagar o resgate dos escravos mesmo contra a vontade dos donos, nomeadamente na confraria da Virgem do Rosário em Lisboa que admitia no seu seio, todas as categorias sociais, independentemente do estatuto econômico e social. Privilégio esse que entrou imediatamente em conflito com os possuidores dos escravos.

          Assim, ainda no século XVI, quando os membros da Confraria eram mistos, os irmãos negros conseguiram eleger vários elementos, dentre eles, para os lugares-chave da Mesa da instituição devido ao maior número de irmãos negros, o desentendimento e o conflito chegaram a tal ponto que a instituição dividiu-se em duas confrarias, a Confraria do Rosário Branca e a Confraria do Rosário Negra.

          A Confraria do Rosário tinha a componente pedagógica da obrigatoriedade da reza diária, parcial ou total, de um Rosário, o que correspondia a cento e cinquenta Ave-Marias e quinze Pais-nossos, o que numa população analfabeta onde dominava a expressão oral, o repetivismo proporcionava-lhes uma melhor memorização e inculcação dos mistérios e dogmas da fé católica

          Como se observou a Confraria do Rosário dos Brancos, em certos casos, ter-se-há associado à confraria do Santíssimo Sacramento, cujos estatutos primavam pela limpeza de sangue, o que, teoricamente, os membros das antigas irmandades do Rosário não podiam fazer parte. Estatuto esse já existente no caracter exclusivista da Confraria dos Brancos em oposição à Confraria dos Negros, embora, em certas terras, haja notícia da existências destas duas confrarias simultaneamente ou melhor, no século XVIII, raras são as paróquias onde estas duas devoções não são implantadas.

              A Confraria do Rosário dos Negros, pela mestiçagem, pela assimilação, pelo fim da escravatura em Portugal, em 1761 e pela proibição da cláusula de limpeza de sangue pelo Marquês de Pombal, em 1773, ditou o fim destas Confrarias dos negros cuja razão de ser deixou de existir.

 

[1] IANTT, OS/CA, Liv. 36, Dez. 1766, Irmandade do Rosário dos Brancos. Garvão. Igreja matriz.

[2] Ano de referência 1766. Também na vila de Garvão houve uma confraria do Rosário dos Brancos, que D. José autorizou, em 1766, a aforar uma herdade. Se havia uma de Brancos era porque existia outra de Pretos. Torre do Tombo, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago, Chancelaria antiga, Liv. 36, f. 372 v. – 23.12.1766. in: Jorge Fonseca. RELIGIÃO E LIBERDADE, OS NEGROS NAS IRMANDADES E CONFRARIAS PORTUGUESAS (SÉCULOS XV A XIX). CHAM, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, Universidade dos Açores. V.N.Famalicão. 2016.

[3] 1819 – 1846, Grupo de Arquivos Privados dos Fundos pertencentes ao Arquivo da Câmara Municipal de Beja.

publicado por José Pereira às 18:43

05
Ago 18

            As instalações do Hospital da Irmandade do Sagrado Espírito Santo de Garvão ainda, nos princípios dos anos setenta do século passado, se observavam na Rua da Misericórdia, até que a vaga reformista de obras camarárias, dos finais dos anos setenta e princípios de oitenta, deitou por terra o que restava destas instalações. 

            A Irmandade do Sagrado Espírito Santo, animada pelo espírito de solidariedade e religiosidade da época, que caracterizavam e estavam na génese da constituição destas Confrarias, criou na vila de Garvão o Hospital do Sagrado Espírito Santo, para tratamento e aconchego dos doentes e peregrinos. Hospital esse que passou posteriormente, em 1734, para a posse da Santa Casa da Misericórdia de Garvão, como se pode observar na folha 11 verso e 12 do livro “da Misericórdia e do Sagrado Espírito Santo”.

 

“Auto de Pose

(…) e ali eu Escrivão com o Provedor da Santa

Caza da Mizericórdia (…) e o Escrivão da mesma (…)

fomos a Igreja do Espirito Santo (…) e meti de pose da ade-

menistrasão da dita Igreja, e de tudo o mais

a ela pertençente, como tambem das ca-

zas que servem de Hospital (…)”

 

            A constituição deste Hospital, tomando como exemplo outros Hospitais do reino, teria seguido os mesmos padrões de edificação comum às outras Irmandades do género. O espírito de pertença a um grupo específico que actuava em caso de necessidade de um dos seus membros, deveria ter sido a força impulsionadora para que um grupo de “homes boons do Concelho que estavam presentes, cedessem logo algum do seu” [1] para a constituição destas casas de solidariedade.

           Embora o Hospital recebesse, da população, pequenas ofertas de produtos agrícolas, viveres, farinhas, pão e legumes, dentro das suas parcas possibilidades, era nos rendimentos provenientes das rendas das propriedades, olivais, vinhas, pastagens e terras de semeadura que consistia a principal fonte de receita das Irmandades e Hospitais do Sagrado Espírito Santo.

            Eram bens fundiários deixados em legado pela população, alguns ainda em vida, outros à beira da morte, leigos ou crentes, cujos rendimentos revertiam a favor de missas pela sua alma e salvação eterna. A salvação da alma, dos doadores, encontrava nesta humilde servilidade, na devoção religiosa e na doação a estas obras pias, um caminho para a sua própria salvação eterna e o acesso ao paraíso, era em seu benefício próprio, que se doavam bens para a fundação de hospitais e outras obras de cariz religioso e caritativo, criava-se, assim, uma necessidade, entre os vivos, na continuação destas obras pias para além da morte.

           A Irmandade encontrava nas receitas da venda da salvação eterna os meios necessários para o bem terreno dos pacientes. A própria arquitectura destas instituições confundem-se com a casa de Deus, um espaço, onde mais do que salvar os corpos, havia que procurar a salvação das almas.

           Seriam, inicialmente, instalações humildes, por vezes nas casas dos próprios irmãos, compondo-se de poucas camas ou de reduzidos cómodos de recolhimento dos necessitados. Posteriormente teriam dormitório com os seus repartimentos e camas para os enfermos e instalações para os enfermeiros, teriam igualmente celeiro para o recolhimento dos frutos, que recebe das rendas e cavalariça para as cavalgaduras dos peregrinos ou viajantes. Por vezes, em certas terras, inicialmente, ou eram denominados por Albergarias ou estas evoluíram para Hospitais ou mantiveram a denominação Hospital-Albergaria do Espírito Santo como se observou na cidade do Porto, a que, por vezes os nobres, nas suas andanças, disputavam com os peregrinos e vagabundos a utilização dessas instalações[2].

           Os oficiais envolvidos na administração do hospital, para além do Mordomo do hospital e o escrivão, incluía igualmente os Sangradores e os barbeiros, o físico e cirurgião, o boticário, o enfermeiro e um capelão.

           Eram remunerados segundo as suas atribuições que geralmente consistia num moio de trigo[3] para os cargos mais importantes e valores em dinheiro, (dez ou quinze mil reis em certos Hospitais), ou em géneros para os outros cargos que poderiam incluir, porcos, borregos e cabritos, galinhas e perus, favas, trigo e outros cereais e legumes, dependendo das receitas que entravam no Hospital. O boticário recebia igualmente pagamento pelas mezinhas que fazia.

           Os irmãos relacionados com a gestão do Hospital do Espírito Santo estavam isentos de certas obrigações ou usufruíam de certas regalias, muitas vezes com os mesmos privilégios, liberdades e poderes dos Almoxarifes Reais[4]. Tinham igualmente autorização para os seus Mamposteiros, (Pedidores autorizados, ao serviço das Confrarias). irem para outras terras pedir bens em géneros ou dinheiros.

            Como se observou, estas instituições hospitalares, de princípios tão rudimentares e de simples apoio à população, evolui, ao longo dos tempos, com o apoio régio, para estabelecimentos mais precisos até que chegados ao século XVIII, se assistia, com o fim das misericórdias, ao fim destes hospitais nas províncias.

            Em Garvão, como se afirmou, ainda nos anos sessenta e setenta do século passado, as casas do hospital da Irmandade do Sagrado Espírito Santo encontravam-se de pé, edifício térreo, de paredes de taipa e pedra, postas de cutelo à maneira Árabe, de um só piso, de telha vã e chão de ladrilhos de barro cosido toscamente, embora uma parte em ruínas ainda era possível vislumbrar restos das cadeiras, mesas, arcas e outro mobiliário que se encontravam nas casas do dito hospital, inclusivamente, também, restos de tecidos, rasgados, rotos, sujos, mas, onde ainda se notava resquícios dos bordados dourados que em tempos devem ter adornado as vestes dos capelães e outros oficiais do culto nas suas obrigações e cuidados litúrgicos.

            O Hospital, apesar do inegável valor histórico, por muito arruinado que estivesse, o local foi posteriormente, aos anos setenta do século XX, completamente terraplanado e limpo, ficando o espaço em aberto delimitado pelos modernos lancis de cimento. Situado no primitivo aglomerado urbano da vila de Garvão, na actual rua da Misericórdia, junto à Igreja Matriz, a tradição popular, pelo menos os mais velhos, ainda se referem ao local como “onde estava o Hospital”.

 

[1] Maria Marta lobo de Araújo, Om. Cit.

[2] Torre do Tombo, Chanchelaria de D. João I, liv. 3, fl. 36 v. Extremadura, liv. 12, fl.31.

[3] Medida de capacidade do antigo sistema equivalente a 60 alqueires ou 828 litros

[4] Torre do Tombo, Odiana, liv.4, fls 187-187 v. Os Almoxarifes Reais surgem no reinado de D.Sancho II e referem-se ao funcionário régio que superintendia os assuntos da coroa numa certa província e as repartições fiscais regionais, encarregados de centralizar a arrecadação dos tributos e rendas da Coroa.

publicado por José Pereira às 20:41

22
Jul 18

No Cemitério Velho

 

          Passado um século depois do levantamento de um corpo no Cemitério Velho da vila de Garvão, ainda hoje é do conhecimento da existência de uma “Santa”, sepultada nesse mesmo Cemitério. Cem anos depois deste acontecimento, a sua morte, a sua memória e o lugar do seu túmulo continuam a fazer parte do imaginário colectivo da vila de Garvão.

          De facto ao se proceder à exumação do corpo por necessidade de sepultar um familiar, este tinha resistido à decomposição e apresentava-se praticamente intacto, notando-se unicamente na ponta do nariz alguma detioração. Segundo a população tal facto deve-se por ser forneira e ter de cheirar o pão e os bolos quentes saídos do forno.

          A existência de corpos incorruptos encontra-se relatado em vários cenários culturais. Apesar de actualmente a ciência nos fornecer várias explicações para este fenómeno, tal não o era assim em 1918, (precisamente na mesma altura das aparições de Fátima). Numa sociedade essencialmente analfabeta, religiosa e supersticiosa esses acontecimentos tomavam uma feição miraculosa e propiciadora de graças.

          Assim estes corpos tomavam a denominação de “Santos” e assistia-se a uma sacralização do espaço, transformando a sepultura em um novo local de culto, metamorfoseando o túmulo em um altar, tornando-se este em local de oferendas, coberto por placas de agradecimento, coroas, fitas e velas, que uma legião de novos crentes deposita em agradecimento por alguma graça alcançada e que muitos acreditam poder realizar milagres e atender pedidos e promessas.

          Tal foi o caso igualmente em Garvão.

          Com a trasladação do corpo para o interior da Igreja, a noticia espalhou-se, “da existência de uma Santa em Garvão”, onde a população, tanto da vila como das terras vizinhas, ocorreram com enorme fervor religioso e solenidade que caracteriza estes fenómenos, dando lugar à imaginação colectiva e inclusivamente a atribuir-lhe poderes milagrosos que se evidenciavam nalgumas pessoas que se diziam “curadas”.

          Perante esta situação e por pressão do Administrador do Concelho, o regedor, (ou o presidente da Junta, segundo outras versões), mandou enterrar novamente o corpo na mesma sepultura, contudo tal acção não desmotivou as pessoas de continuarem a prestar culto e obtenção de alguma graça no local da sepultura no Cemitério Velho. Esta deposição de oferendas continuou por mais algum tempo, tendo-se perpetuado na memória popular até aos nossos dias.

          Segundo informações das pessoas mais idosas da vila, a “Santa”, era esposa de Bento Guerra e mãe de Joaquim Guerra e Bento Guerra que casou com a Ana Charrua, tia de vários elementos da família Charrua a residirem na vila de Garvão.

publicado por José Pereira às 20:37

14
Jul 18
 

CENTENÁRIO

“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”

SIDÓNIO PAIS

Parte 5 (de dez)

 

          O período que vai desde a implantação da República até ao golpe de Sidónio, é caracterizado por uma grande instabilidade politica, só entre 1910 e 1916 Portugal teve quarenta e cinco governos, demonstrativo da profunda divisão politica que reinava entre as diversas forças partidárias portuguesas.

          As várias fracções republicanas lutando pela hegemonia politica: os monárquicos e a maioria do clero pela restauração da monarquia e os anarco-sindicalistas e outros movimentos libertários pujando pela revolução social, levou à saturação do povo português e marcou um sucessivo apelo à salvação nacional, propicio ao aparecimento de líderes carismáticos, particularmente mistificados, embutidos de uma providência divina que surgem, aos olhos de um povo analfabeto, supersticioso e refém da propaganda clerical, como salvadores da Pátria.

          De facto são constantes os apelos na imprensa portuguesa «a um salvador da Pátria». Machado Santos, o herói da República, protagoniza uma série de tentativas subversivas com o intuito de derrubar o governo dos democráticos de Afonso Costa e implantar um governo de salvação nacional.

          Pela madrugada de cinco de Dezembro de 1917, Sidónio Pais e Machado Santos, à frente de uma junta revolucionária, chefiam um movimento militar contra o esforço nacional na participação na Grande Guerra Mundial que estava a provocar a falta de alimentos no país e a um aumento generalizado dos custos nos alimentos disponíveis.

          Sidónio Pais congrega assim à sua volta, não só os apoiantes dum governo que se queria de salvação nacional, mas um vasto leque de descontentes com o governo que o precedeu, de facto com Afonso Costa preso, Bernardino Machado, o presidente da República, expulso do país, estava aberto o caminho para Sidónio Pais implementar as suas políticas no meio de uma enorme expectativa.

          José júlio da Costa ao matar Sidónio Pais, não eliminou somente o presidente da República, um major ou um lente da Universidade de Coimbra, eliminou igualmente a génese do regime ditatorial, característico dos governos autoritários que se seguiram não só em Portugal mas igualmente noutros países, legitimado pelo caos político da República, já ensaiado anteriormente em 1915 com a ditadura de Pimenta de Castro e posteriormente com a instauração do Estado Novo, na consequência do golpe de 28 de Maio de 1926 que eventualmente conduzirá Salazar ao governo.

          “O génio político de Sidónio, que o transforma num precursor e num pioneiro numa escala global, foi ter encontrado a fórmula que muitos outros aplicariam com infinitas variantes nas décadas vindouras – e essa foi a causa da sua grandeza e da sua tragédia.”[1]

 

[1] Jorge Almeida Fernandes, Sidónio Pais e os sete pilares do futuro. Jornal Público, 09/09/2010.

 

In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. (no prelo).

publicado por José Pereira às 18:47

03
Jul 18

JG25 Capa.jpg

Para ler o Jornal de Garvão nº 24 click em: JG 24.pdf

 

 

publicado por José Pereira às 19:12

14
Jun 18
 

CENTENÁRIO

“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”

GARVÃO II

Parte 4 (de dez)

 

          Tendo saído de Garvão com 16 anos para ingressar no exército em 1910, volta a Garvão seis anos depois em 1916, com 22 anos de idade, conciliando a actividade de lavrador com comerciante. Casa com Maria do Rosário Pereira Costa, de famílias de São Martinho das Amoreiras, de quem não houve filhos, herdeira de bens fundiários, doravante administradas pelo marido.

          Propriedades estas que foram sendo paulatinamente vendidos pelo marido, não só para as suas despesas familiares, mas inclusivamente para manter as suas aspirações tauromáquicas, assim como algumas obrigações sociais na sua terra natal e ajudas monetárias aos camaradas em dificuldades.

          José Júlio da Costa estaria de facto envolvido na vida social da vila. Inconstante a raiar a imprudência segundo uns, benemerente ao ponto de se endividar segundo outros, pouco se conhece sobre esta sua faceta social, a sua façanha obliterou quaisquer outros aspectos da sua vida privada que eventualmente nos poderiam auxiliar a ajuizar de uma forma mais consistente a sua mentalidade.

          Contudo, pelo que chegou até nós, as suas funções como politico e/ou presidente da Junta de freguesia[1] e o seu temperamento tempestivo e de alguma voluntariedade deveriam de acarretar algumas despesas, não só a actividade do teatro descrita por José dos Reis Sequeira, mas igualmente a solidariedade e a partilha com as pessoas, segundo a afirmação de um sobrinho[2], “A fortuna da mulher, ao nível das terras, estava em liquidação, porque eles tinham vendido, boa parte do património tinha sido vendido, tinha sido convertido exactamente nessa actividade dele, desde a tauromaquia à solidariedade, à partilha que ele tinha com as pessoas, e com o pagamento de despesas.”[3]

          Igualmente Rocha Martins, cuja antipatia por José Júlio da Costa ficou bem explanada nos seus Fantoches, menciona, em Sidónio Pais - Ídolo e Mártir da Republica, as esmolas dadas por este que o levava a arruinar-se, “(…) tem a vaidade excessiva que o leva a arruinar-se em esmolas para atrair a estima pública (…)”[4]

          Será neste período que José Júlio da Costa protagoniza a maior parte das peripécias porque ainda hoje é recordado na vila de Garvão e desenvolve uma actividade politica, com as exaltações e frustrações daí inerentes que afectavam o seu exaltado espirito.

          Irrequieto, não seria a vida de casado que o iria acomodar ou os negócios familiares que o sossegariam, tanto cavalgava até Ourique, sede administrativa do concelho, onde se intrometia na vida política concelhia, como apanhava o comboio para Lisboa onde se imiscuía e participava na vida política nacional[5].

          Não será difícil imaginar José Júlio da Costa, devido ao seu feitio arrebatado e encarniçado, em discussões empolgadas e impetuosas a incentivar os seus companheiros a tomarem acções decisivas. A sua militância política junto dos círculos políticos republicanos dos democráticos de Afonso Costa, com os quais se identifica e junto da sede do concelho, onde durante o consulado Sidonista teria sido nomeado pelo administrador do Concelho para presidente da Junta de Freguesia de Garvão[6], terá pesado decididamente na sua decisão em matar Sidónio pais.

          Cargo esse que estaria de acordo com o sentimento político da altura e segundo o exemplo do seu herói da Rotunda de 1910, Machado Santos e de outros republicanos e sindicalistas em dar cobertura, neste início de governação, a Sidónio Pais.

 

[1] José dos Reis Sequeira, Relembrando e Comentando (memórias de um operário corticeiro) 1914/1938, edição da Regra do Jogo, 1978.

[2] Joaquim Pereira da Costa, sobrinho de José Júlio da Costa, in: O Homem Que Matou Sidónio Paes. Realização Bruno Niel. Produção Valentim de Carvalho SA. 2008. Exibido na RTP 1 em 13 de Dezembro de 2008.

[3] “O José Júlio da Costa casou há tempos com uma senhora viúva, que tem uma fortuna avaliada em trinta contos.” O Século de 16 de Dezembro de 1918.

[4] Rocha Martins, 2008, p. 384.

[5] “Vinha frequentes vezes a Lisboa, onde levava uma vida de boemia, conhecendo-se-lhe até algumas amantes. (…) É conhecido nas casas de jogo de Lisboa, tendo-se-lhe ouvido dizer há pouco tempo que «no dia em que lhe faltar o dinheiro, havia de dar que falar” O Século de 16 de Dezembro de 1918.

[6] José dos Reis Sequeira, Relembrando e Comentando (memórias de um operário corticeiro) 1914/1938, edição da Regra do Jogo, 1978.

 

In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. (no prelo)

publicado por José Pereira às 21:20

06
Jun 18

Açougue.jpg Açougue2A.jpg

Imagens do Açougue de Garvão.

Com o Sino em 2013 e presentemente sem o Sino.

 

O Açougue

          Os Açougues eram espaços de comércio fechados, construídos pelos concelhos, mas normalmente concessionados a comerciantes particulares, certamente em condições vantajosas, mas com a contrapartida de grande controlo quer dos abastecimentos quer dos preços, pelos competentes oficiais concelhios.[1]

          Na Idade Média abrigavam a venda de comestíveis, pelo que “o açougue era, em princípio, um mercado permanente onde se vendiam a carne, o peixe, os legumes, Com o tempo, os açougues passam a abrigar apenas a venda de carne e de peixe, para se especializarem posteriormente apenas na venda da carne a retalho, por uma evolução semântica muito interessante, a palavra talho acabará por ganhar o significado do velho açougue da carne – palavra que sobrevive, tanto quanto se sabe, no Português do Brasil.[2]

          Caução e símbolo maior da abastança dos Povos, os açougues foram sempre motivo de grande preocupação tanto do poder central como do local, sempre preocupado com os abastecimentos. Assim, os Açougues, para lá da venda a retalho eram também posto de recolha e de controlo obrigatório pelo menos de certos produtos.[3]

          Eram construções muito modestas e arquitectónica e decorativamente muito despretenciosas, aproximando-se – como arquitectura emergente dos Povos ao serviço dos quais foi construída – de modelos arquitectónicos vernáculos, como o belíssimo e quase escultural Açougue de Garvão. Com efeito, tendo por abertura ao exterior apenas uma porta muito simples, o açougue de Garvão é de uma pureza quase abstracta, modelada sensualmente por gerações e gerações de caiadelas sobrepostas.[4]

          Os açougues tratando-se de edifícios tipicamente concelhios, alguns mantiveram até hoje um típico atributo da arquitectura dos velhos concelhos portugueses, a sineta da Câmara, instalada num pequeno campanário. Este está localizado no topo da empena, no extremo esquerdo da fachada principal do açougue de Garvão. Este tão rústico mas tão bonito campanário de alvenaria (felizmente ainda intacto) mantém, sob densíssimas camadas de cal, dois singelos e muito discretos frisos paralelos no seu topo, que acompanham e coroam o desenho global do mesmo e sublinham o arco que define a ventana do sino.[5]

          Face ao sino das igrejas e capelas, o campanário da câmara, essencialmente laico e cívico, sinalizava os edifícios concelhios, fosse qual fosse a sua função. O campanário surgia, assim, no cume da fachada das cadeias concelhias, tal como no cume de açougues como os de Garvão.[6]

          No Foral Velho de Garvão, de 1267, surgem varias disposições sobre a obrigatoriedade da venda dos produtos no Açougue e os respectivos impostos. Já no Foral Novo de Garvão, de 1510, apenas consta uma menção relacionada com o controle pela saída e entrada dos produtos.

 

[1] CAETANO, Carlos Manuel Ferreira – As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2011.

[2] Idem

[3] Idem

[4] Idem

[5] Idem

[6] Idem

publicado por José Pereira às 22:37

27
Mai 18

Brasão2.jpg

 BRASÃO 

          No livro Garvão – Herança Histórica, de 1993, (p. 66), sobre o Brasão da Casa da Câmara de Garvão, consta: “ainda em 1992, aquando da caiação da Casa da Câmara, o brasão foi pura e simplesmente caiado por cima como se não existisse. Contudo, a sua maior mutilação ocorreu pela implantação da república, em 1910, quando um fervoroso republicano de nome Caetano Rosa, armado de escopro e martelo, começou por danificar o brasão e mais não destruiu porque alguém, adepto da monarquia, lhe tirou a escada onde se encontrava empoleirado.

          Acontecimento este relato pelo antigo regedor da Freguesia de Garvão, Francisco Zacarias, ao autor do mencionado livro.

          Contudo, agora pela mão do Professor António Martins Quaresma, no jornal do Sudoeste de 16/11/2017, relata outro acontecimento sobre a danificação do referido brasão.

          Segundo informação do saudoso Joaquim Maurício da Conceição Rosa, presidente da Junta de Freguesia de Vale de Santiago pós vinte e cinco de Abril, existe outra personagem que procedeu, igualmente, à sua mutilação, desta vez o próprio avô de Joaquim Maurício.

          Outra história que ele gostava de contar tinha como protagonista o seu avô, Jacinto Pereira Rosa, fervoroso republicano, que ajudado por um maquinista dos comboios, decidiu, após a implantação da República, picar a pedra de armas existente na frontaria do edifício da antiga Câmara de Garvão (então escola), por a considerar incompatível com a nova situação política. Criticado pelo governador civil de Beja, do Partido Unionista, que o admoestou por ele ter destruído uma obra tão antiga, o avô do Maurício respondeu que também a monarquia era antiga e tinha sido, muito felizmente, deitada abaixo. Face à lógica da resposta, o governador civil embatocou. Hoje, continuamos a ver a pedra de armas picada, na parede da Junta de Freguesia de Garvão, e lamentamos um pouco o seu arrebatamento, próprio dos tempos que então corriam.

publicado por José Pereira às 21:04

14
Mai 18

CENTENÁRIO

“O famigerado heroi do Crime Grande da Estação do Rocio”

Na Rotunda Pela Implantação da Republica

Parte 3 (de dez)

 

          Como se observou, pela Implantação da República, em cinco de Outubro de 1910, José Júlio da Costa está ao lado de Machado Santos na Rotunda. Ainda com dezasseis anos de idade, é um dos primeiros a lutar pela revolução republicana, mesmo quando esta já se dava como perdida, levando ao suicídio do Almirante Cândido dos Reis, chefe militar da rebelião, José Júlio da Costa permanece fiel à revolução, junto das forças Carbonárias que lutaram até ao triunfo da República sob o comando de Machado Santos.

          Ao jovem José Júlio da Costa esta participação na implantação da República ao lado de Machado Santos, com os dramas que daí ocorreram, nomeadamente o suicídio do carbonário almirante Cândido dos Reis, quando julgava a causa perdida, terá pesado fortemente na sua formação politica e moldado não só o seu percurso politico mas igualmente os seus heróis.

          O percurso militar de José Júlio da Costa levou-o a Timor em 1911, como voluntário para combater a rebelião das forças do reino de Manufahi que se sublevaram nos finais de 1911, voluntariou-se igualmente para Moçambique e Angola, em 1914, para combater os alemães, o que lhe valeu um louvor em 27 de Dezembro desse mesmo ano, mencionando, na sua folha de serviços, o seu “grande patriotismo e boa vontade de desempenho de todos os serviços que era encarregado”, pelo seu cumprimento na batalha de Naulila[1], em 18 de Dezembro de 1914 entre  portugueses  e  alemães  no Sul de Angola.

          Segundo Augusto Casimiro autor de Naulila, publicação de 1922,Ao romper da manhã estava o Barão Von Water a oito quilómetros deste posto esperando as 4,3º, e supondo-se em frente do flanco direito das nossas posições. Reconhece o erro. Está em Nangula e tem na sua frente apenas os landins do pelotão de Losa, a secção que o sargento José Júlio da Costa comanda, de guarda ao vau. Trocam-se tiros.”[2] José Júlio da Costa, com 21 anos, seria sargento do pelotão da 15ª Companhia de Moçambique, comandada pelo Alferes Gonçalves Losa, composta por tropas africanas denominadas Landins[3] e enviados para Angola.[4]

          Com o posto de Segundo-Sargento, passa à vida civil dois anos depois, em 11 de Abril de 1916, com vinte e três anos, tendo por esta altura regressado a Garvão, sem primeiro, contudo, deixar de passar pela embaixada francesa, onde se ofereceu como voluntario, para combater na Grande Guerra contra os alemães, muito antes da constituição do Corpo Expedicionário Português, e do envio dos militares portugueses para França em 30 de Janeiro de 1917, o que não conseguiu por não ter passaporte. Voluntariou-se igualmente para o CEP, durante a constituição deste, o que foi também recusado.

 

[1] Incidente militar no Sul de Angola onde uma pequena força alemã  entrou  em  território  angolano na perseguição de um desertor. Apesar dos alemães se apresentarem pacificamente e aceitarem serem conduzidos ao posto de Naulila por um pequeno destacamento militar português, gerou-se uma certa confusão quando os militares alemães se tentaram retirar, provocando uma reacção violenta por parte dos militares portugueses que levou à morte dos oficiais alemães. Considerada uma “emboscada” pelos alemães que precisava de ser vingada. Na retaliação que se seguiu as tropas Alemãs, em Dezembro de 1914, ocupam Naulila tendo as tropas portuguesas de recuar para Humbe, provocando a morte de dois oficiais, um sargento, cinco soldados e cabos portugueses e vários africanos.

[2] Augusto Casimiro, Naulila, 1922, Lisboa. P. 175.

[3] Os Landins ou Vátuas eram tropas africanas com ligações guerreiras ao célebre Gungunhana, derrotado pelas tropas portuguesas e emprisionado por Mouzinho de Albuquerque em 1895.

[4] Com a data de 5 de Julho de 1930, Armando Agatão Lança, envia a Bernardino Machado uma carta onde refere, “ - V. Ex.cia, em tempos perguntou-me em que companhia tinha servido na guerra do sul de Angola o José Júlio da Costa. Serviu na 15ª companhia indígena”. 

 

In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. (no prelo)

publicado por José Pereira às 09:20

14
Abr 18

CENTENÁRIO

“O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio”

Em Garvão I

Parte 2 (de dez)

Sobre a vida de José Júlio da Costa na vila de Garvão, desde o seu nascimento, pouco há a dizer ou a diferenciar das outras crianças nascidas nestas terras do interior.

Sabe-se que nasceu em Garvão a 14 de Outubro de 1893, sendo o segundo filho de sete filhos de Eduardo Brito Júlio e Maria Gertrudes da Costa Júlio, ambos de Garvão, com ramificações familiares a ricos lavradores nas terras vizinhas. Eram lavradores considerados abastados para e época e donos de várias propriedades na freguesia de Garvão onde praticavam a agricultura, estavam igualmente estabelecidos com loja e venda.

Ao pai de José Júlio da Costa não seria estranho as ideias republicanas ou mesmo alguma ligação a sociedades secretas, sejam elas Maçónicas ou Carbonárias, estando esta bastante activa nestes meios rurais.

A propagação das ideias carbonárias e como tal republicanas nestas terras do interior, atravessadas pela via-férrea, teriam sido divulgadas precisamente pelos politizados ferroviários. Fregueses habituais da venda, estes verdadeiros apregoadores de histórias, acontecimentos, notícias e ideias revolucionárias, em muito teriam influenciado tanto o pai como o jovem José Júlio da Costa.

Assim teria nascido numa família de pai republicano e tido igualmente como carbonário, segundo a informação de algumas pessoas da vila, ainda nos anos sessenta do século passado, apesar do pai ter falecido com Tifo a 6 de Setembro de 1906, com trinta e quatro anos, a pouco mais de um mês de José Júlio da Costa fazer os treze anos, cedo despontou no jovem José Júlio da Costa, a consciência revolucionária, pró-república, anti-monárquica, anti-clerical e a vontade de lutar pelos seus ideais.

Aos 16 anos de idade, a 21 de Maio de 1910, alista-se como voluntário no Exército Português. Para a tomada desta decisão não terá contribuído somente a influência paterna, mas igualmente a influência partidária ou de associações secretas, nomeadamente a Maçonaria ou mais provavelmente a Carbonária, o certo é que foi colocado, a cerca de quatro meses da implantação da República, no regimento de Infantaria 16, precisamente aquele sublevado por Machado Santos, o chefe Carbonário, seguindo uma das estratégicas da Carbonária que seria infiltrar as unidades militares com militares da sua confiança para que no dia programado sublevassem o quartel e abrissem as portas aos outros revolucionários comprometidos com a revolução.

Apesar de só metade da guarnição do quartel ter aderido à revolta, José Júlio da Costa era um deles.

In: José Pereira Malveiro, José Júlio da Costa - O Famigerado Herói do Crime Grande da Estação do Rocio, Garvão, 2018. (no prelo)

publicado por José Pereira às 21:42

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