05
Dez 22

DE UMA INTERVENÇÃO ARQUEOLÓGICA NO CEMITÉRIO MEDIEVAL DE GARVÃO

Estela Hexafólio (3).jpg

Desenho da Estela Funerária descoberta na
parede do Cemitério Velho de Garvão
In: MALVEIRO, José Daniel, Estelas Medievais do
Distrito de Beja. Volume I. Janeiro, 2013

 

         

         Esta intervenção arqueológica teria por objetivos, não só proteger este conjunto do desmoronamento de paredes, do pisoteio do gado e de charruagens cada vez mais fundas, mas igualmente pôr a descoberto as estruturas funerárias que têm aflorado à superfície relacionadas com a necrópole medieval em torno da primitiva Igreja Matriz de Garvão, assim como proceder ao estudo do espólio material e osteológico resultam-te dos enterramentos ali efectuados, em torno e dentro do templo referido e, após a sua ruína causada pelo terramoto de 1755, quando o espaço foi reaproveitado como cemitério da vila, até princípios de novecentos.

          De notar que durante algum tempo se identificou os vestígios, ainda presentes no local, com a Igreja do Sagrado Espírito Santo. Esta conclusão deveu-se ao facto de as outras igrejas situadas em Garvão e mencionadas nas fontes escritas, estarem identificadas. Se as fontes históricas falam em quatro igrejas em Garvão e faltando a do Sagrado Espírito Santo, os vestígios encontrados junto ao cemitério Velho, só poderiam corresponder a esta, reforçado ainda pelo facto de junto ao local se terem encontrado uma pia de água benta, três fechos de abóboda, (que afinal viram-se a identificar com o galilé que protegia o portal manuelino da Igreja Matriz) e estelas funerárias medievais.

          Contudo segundo informação do Doutor António Martins Quaresma, os vestígios que se encontram presentemente junto ao Cemitério Velho, corresponderiam à primitiva Igreja Matriz de Garvão e o templo onde se encontra a actual Igreja Matriz, seria a Igreja do Sagrado Espírito Santo. Tal mudança deveu-se ao facto do estado de ruína em que ficou a primitiva Igreja Matriz, no seguimento do terramoto de 1755, segundo informação do referido historiador.

 

(…) de 1755, que o terramoto desse ano causou graves danos no edifício, ainda mais lastimáveis porque ele havia sido reparado há pouco, com grande desvelo do prior. Em consequência, os fregueses recusavam-se a ouvir missa no seu interior, temendo derrocadas. (ADE, Câmara Eclesiástica de Évora, SC-L, L. 60, cx.18, fl. 50) (…).[1]

 

(…) Alfim, por volta de 1832, deu-se o abandono definitivo da velha e arruinada matriz de Garvão e a passagem das respectivas funções para a da Misericórdia, que, lembremo-lo, fora por sua vez a antiga ermida do Espírito Santo e ocupava uma posição muito mais central no contexto urbano (…). (AHMO, Correspondência recebida, AC 9/01, Ofício de 4 de Junho de 1857).[2]

 

           Teriam de ser abertas várias sondagens, tanto no interior como no exterior da área murada que resultaram na identificação, registo e recolha igualmente dos materiais aflorados â superfície, nomeadamente as mencionadas estelas funerárias medievais, de madeiras, fragmentos de couro, ilhoses em metal e outros artefactos relacionados com os enterramentos.

          Enquanto os materiais recolhidos no exterior do perímetro muralhado são na sua maioria estelas medievais, (século XV, tanto anteriores como posteriores), já no interior deste teremos enterramentos até 1937, altura em que foi inaugurado o Cemitério Novo na Sardoa.

          Estes elementos associados às informações documentais permitiram ainda a identificação de estruturas pertencentes à mencionada Igreja. cujo piso, terá sido levantado à medida que se processavam os enterramentos posteriores à ruína daquele edifício de culto; quanto às estruturas é possível identificar várias paredes e respectivos contrafortes, incluindo  uma porta entaipada, que foi posteriormente integrada e acrescentada nos muros de delimitação do espaço funerário.

          O espólio material recuperado, para além das mencionadas estelas funerárias, inclui vários objectos de adorno pessoal, fragmentos de contas, botões em vidro, metal e madrepérola, alfinetes, anéis e não raramente moedas, sobretudo dinheiros da primeira dinastia e ceitis cunhados entre meados do século XV e o final do reinado de D. Manuel I e outras moedas datadas do século XX encontradas por particulares.

          Foram também recuperados elementos construtivos pertencentes à referida Igreja e identificados outros reaproveitados nos muros do cemitério, com especial destaque para uma estela discoide decorada no anverso com a Cruz de Cristo em relevo, com braços de lados curvos e extremidades direitas e no reverso apresenta um hexalfa em relevo, com hexafólio ao centro de círculo, apresentando as marcas de ponteiro e cinzel dentado.[3]

 

[1] Cortesia de Doutor António Martins Quaresma.

[2] Cortesia de Doutor António Martins Quaresma.

[3] MALVEIRO, José Daniel, Estelas Medievais do Distrito de Beja. Volume I e II. Janeiro, 2013. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa.

publicado por José Pereira Malveiro às 12:14

13
Nov 22

igreja Matriz e escavações arqueológicas002.jpg

Sondagens Arqueológicas Junto à Igreja Matriz

 

In: http://www.monumentos.gov.pt

 

Aglomerado proto-urbano. Povoado proto-histórico com ocupação do sítio desde o Bronze Final e posterior ocupação romana e medieval islâmica. Povoado fortificado. Foi exumado espólio significativo.

 

Descrição

Subsistem restos de muros feitos de pedra sobreposta e de taipa, contornando a vasta plataforma criada no topo do monte. A zona está cercada.

Na vertente do lado nascente do cerro, a 18,97m, sob o pavimento da R. do Castelo, foi encontrado um importante depósito secundário de oferendas e ex-votos, uma "favissa" ou "bothros", constituído na 2ª metade do séc. III a.c., certamente incluído numa estrutura de carácter religioso mais complexa.

A existência de inúmeras placas oculadas em ouro e prata apontam para o culto de uma divindade com poderes profilácticos nas doenças de olhos; as peças utilitárias podem ter contido oferendas alimentares, as taças podem ter sido usadas para libações ou como queimadores ou lucernas (Beirão, 1985).

O depósito votivo foi constituído numa fossa artificial talhada na rocha e foi intencionalmente coberto por grande número de peças fragmentadas misturadas com grandes blocos de quartzo e terra.

Na base assentava uma caixa com um crânio humano com indícios de trepanação, rodeado por ossos de animais e fragmentos de cerâmica pisados.

Sobre ela assentavam grandes vasos cerâmicos, cheios de outros recipientes menores alguns contendo pequenos objectos em cerâmica, ouro, prata, vidro, cornalina e bronze; os espaços entre eles era ocupado por outros recipientes menores.

Entre os objectos destacam-se placas oculadas, 2 figurações antropomórficas sobre placas de prata, com atributos de Tanit, uma fíbula anular, fragmentos de "oinochoai" em vidro polícromo, um hemidracma de Gades, que mostram componentes culturais mediterrânicas (Beirão, 1985).

 

 

Bibliografia

DIAS, M. M. A., COELHO, L., Achados de moedas romanas do concelho de Ourique, in O Arqueólogo Português, série III, vol. VII / IX, Lisboa, 1974 / 1977; BEIRÃO, Caetano de Mello, SILVA, Carlos Tavares da, SOARES, Joaquina, GOMES, Mário Varela, GOMES, Rosa Varela, Depósito votivo da 2ª Idade do Ferro do Garvão, in O Arqueólogo Português, série IV, vol. III, Lisboa, 1985.

 

publicado por José Pereira Malveiro às 20:19

13
Out 22

Notásveis da Vila de Panoias.jpg

Autor: José Maria Ferreira 

Notáveis da Vila de Panoias e Genealogia das Famílias

Editor: MoDocromia, junho de 2022

 

      «José Maria Ferreira, ancorado numa enorme crença da grandeza das gentes da sua terra, com (im)paciência e curiosidade imensas, investiu 16 anos, do seu tempo livre, a consultar arquivos pelo país, onde, pacientemente, descodificou textos com linguagem nem sempre acessível, recolheu, interpretou e sistematizou informação e factos, que hoje nos permitem conhecer gente ilustre que na vila nasceu e cresceu num tempo de prosperidade.

      Estas figuras constituem apenas uma pequena parte da enorme pesquisa e recolha que José Maria Ferreira fez sobre os antepassados da vila de Panoias. Infelizmente, sobre alguns a informação encontrada é reduzida, porque muitos manuscritos se encontram quase ilegíveis, outros documentos desapareceram… Mesmo assim, através dos notáveis seleccionados, é agora possível conhecer tempos áureos de vila de Panoias, outrora rodeada de herdades agrícolas importantes, com Hospital, Misericórdia, Igrejas, Tribunal, Biblioteca, instalada na Casa do Povo, Escola, Correios, infraestruturas estas que configuravam uma terra próspera e influente. Hoje, resta-lhe o Brasão dos tempos de glória!
     O autor iniciou este livro em 2004. Nele constam 124 figuras por ele consideradas notáveis justificadas pelas posições que tinham na hierarquia social e pelos cargos privilegiados que desempenharam na esfera social, política e religiosa, notabilizando-se na governança da vila, no país e fora dele, designadamente nos mares desconhecidos e na Índia.

    A edição deste livro deve constituir um orgulho para o seu autor e para os seus conterrâneos.
     Através dele, vamos conhecer e partilhar com os nossos descendentes a glória da vila de Panoias abandonada e desprezada por políticos e políticas há muitas décadas.» In: Notáveis da Vila de Panoias - Livro - WOOK

     José Maria Ferreira nasceu no dia 29 de agosto de 1954, em Panoias, uma vila situada no coração do antigo Campo de Ourique, no seio de uma família de pequenos lavradores alentejanos. Frequentou a Escola Primária na sua terra natal nos anos de 1961 a 1966. Concluídos os estudos primários, ingressou no Liceu Nacional de Beja e concluiu o Curso Geral e Complementar no Liceu Nacional do Barreiro.

     Foi durante 45 anos funcionário dos Caminhos de Ferro Portugueses. Apesar de muito tempo afastado, nunca esqueceu a sua terra e as gentes que o viram nascer sempre embebido daquele sentido nostálgico que o fazem reviver aqueles tempos de infância passados na sua terra natal, mas sempre na esperança de um dia a ela poder voltar. Dedica-se à investigação a fim de escrever a história da sua terra, considera-se: um autodidata, que na busca constante da verdade, nunca deixará de ser um eterno aprendiz.

     Autor do livro "Foral da Vila de Panoias", publicado em 2012, para assinalar os 500 anos da atribuição do foral à vila de Panoias um grupo de cidadãos naturais da vila decidiu viabilizar esta edição comemorativa do documento numa versão fac-simile do único exemplar original existente, na Casa Forte dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, em Lisboa.

Foral Novo de Panoias.jpg

Foral da Vila de Panoias

publicado por José Pereira Malveiro às 10:52

12
Out 22

         

Travessa ou Rua do Álamo

 

               Porque é que denominamos esta artéria, na vila de Garvão, por Alamo?

          De notar que não se trata de Álamos, no plural, mas simplesmente denominado como se de uma única árvore desta espécie se tratasse.

            Será que existiria um Álamo neste lugar?

            Segundo os registos, ainda no século XIX, dos assentos paroquiais e dos Tombos das propriedades concelhias, a denominação desta zona apresentava-se como Ribeira do Alimo ou Pego do Alimo.

            No livro do Tombo do Concelho de Garvão, com a data de 12 de Maio de 1826, surge a informação:

 

Terreno ao pego do Alimo junto a esta vila de que é efiteuta Manuel Jacinto, paga de foro 160[1]

 

O Rocio ao pego do Alimo, que serve de eiras para o povo, do qual já se aforarão dois bocados para casas, e vão estar já relacionadas a Joaquim mestre e a Mariana Guerreiro.[2]

 

            Nos registos paroquiais de Garvão, respeitante aos baptizados no ano de 1858, é registado Maria, em 13 de Maio, filha de Jerónimo José e Inácia Maria, moradores na Ribeira do Alimo.

          Assim as alterações fonéticas que se observam ao longo dos anos e se notam em qualquer idioma, evoluiu da palavra Alimo que pouco ou nada dizia à população, para uma palavra que pelo menos, no seu entender, significaria alguma coisa.

            Segundo alguns autores, nomeadamente José Ferreira do Amaral e Augusto Ferreira do Amaral em Povos Antigos em Portugal,[3] o vocábulo Lima denominaria um hidrónimo, tal como o rio Lima que desagua em Viana do Castelo e a ribeira que atravessa a vila de Garvão, tratar-se-ia de uma palavra de origem Celta ou Lígure, que significaria esquecimento, e estaria na origem do nome dado ao rio Lima.

            Outros autores defendem que Lima viria do latim Limaea, do galego Limea, do qual os reis germânicos, suevos e godos, teriam tomado como topônimo de identificação.

           

[1] Livro do Tombo do Concelho de Garvão, de 12 de Maio de 1826, fólio 7.

[2] Livro do Tombo do Concelho de Garvão, de 12 de Maio de 1826, fólio 8.

[3] José Ferreira do Amaral e Augusto Ferreira do Amaral. Povos Antigos em Portugal. Paleontologia do território hoje português. Lisboa, 2000. P. 100.

publicado por José Pereira Malveiro às 23:02

25
Set 22

Croqui do Pelourinho de Garvão (1).jpg

Desenho do Pelourinho de Garvão.

 

          Segundo informação do Doutor António Martins Quaresma:

          “Num tombo da câmara de Garvão, de 1826, encontra-se uma descrição do pelourinho, que acho interessante.

          Envio-lha, com o resto do que escrevia já, para poder comparar com o que tem no quintal.

          Na Praça, hoje, Largo D. Afonso III, encontrava-se a casa da Câmara, o poço da Praça e o pelourinho. Este, segundo um tombo de 1826, estava implantado, “quazi no meio da Praça do lado do poço para o poente em huma piramide feita de pedra e cal, lageada com pedras pardas, e tem tres degráos, que diminuem gradualmente, estando no meio do ultimo o pelourinho, que he de pedra mármore redondo com sua simalha quadrada, e em cima desta huma piramide mais delgada e da mesma pedra marmore, que serve de padrão desta villa, e nelle se afixarem os papeis que lhe mandão publicar [...] acharam que em cada lado do dito [primeiro] degráo tem trez varas[1], e que he quadrado”

          A descrição permite vislumbrar uma imagem, sem pormenores, do pelourinho. A plataforma, de três degraus de alvenaria lajeada de pedra escura, tinha planta quadrangular. O fuste era liso e o capitel, de faces quadrangulares, era encimado por elemento piramidal, tudo de mármore.”

 

             Esta informação permite visualizar o que seria o Pelourinho de Garvão e desenhar a imagem acima reproduzida.

           Sobre a existência do Pelourinho em Garvão, vários autores a ele se têm referido, nomeadamente Pinho Leal na sua obra, Portugal Antigo e Moderno,[2] obra em 12 volumes, publicados em Lisboa, entre 1873 e 1890 e de todos os outros dicionários Chorográphicos e Históricos, que se lhe seguiram.

            Como símbolo da autonomia concelhia, estava edificado no centro da vila e diante dos Paços do Concelho no Largo da Praça, hoje também denominada por Largo D. Afonso III.

          A memória da população sobre a existência física deste monumento, era nula, resumindo-se unicamente a algumas pessoas de idade avançada que, em 1974, se lembravam de algumas pedras espalhadas pelo largo e que iam sendo levadas pela população para as mais diversas obras particulares, sem, contudo, precisarem a sua proveniência ou as relacionarem com o monumento em causa.   

          Em conversa com o “Ti Vilhena”, residente no Largo da Praça, por volta de 1974, sobre o Pelourinho e depois de uma breve explicação sobre do que se tratava, respondeu mais ou menos com estas palavras: “Oh! Isso é coisa muito velha, eu já não me lembro nada disso, mas parece que havia para aí umas pedras no meio do Largo (Largo D. Afonso III) que as pessoas à medida que iam precisando iam-nas carretando, uns para uma coisa, outros para outras, até que as levaram todas”.

          E noutra ocasião da conversa na esperança de se saber mais ou menos quem as levou ou onde estariam: “Olha, onde está uma pedras dessas, que levaram fazer não sei o quê, é na rua ao pé das hortas, e aqui nestas casas (diante da actual casa Paroquial) levaram também umas para fazer as escadas para o quintal “.

          Porta essa ainda visível, mas actualmente tapada, quanto à pedra junto às hortas trata-se realmente de uma coluna incompleta, possivelmente uma parte do Pelourinho, está actualmente guardada nas casas do autor, em Garvão.

          Igualmente numas casas da Travessa do Álamo, quando se procedia ao rebaixamento de uma divisão, recentemente adquirida, para servir de garagem, encontrou-se uma pedra que se julga ser a parte superior que remata o pelourinho, embora a confirmação esteja dependente da boa vontade da proprietária que se tem mostrado intransigente até agora.

 

Coluna de mármore (1).jpg

Coluna mármore.

Recolhida junto às hortas, depois do Furadoro e Estrada Real. No contexto actual da investigação, torna-se dificil associar esta coluna, incompleta, ao Pelourinho, ou se estará relacionada com a coluna que se encontra na travessa do Álamo.

 

Coluna Romana-11 (1).jpg

Coluna de mármore na Travessa do ÁlamoCOLUNA “ROMANA” - História e Arqueologia não é só Desvendar o Passado é Também Construir o Futuro - GARVÃO (sapo.pt)

 

É de admitir que a origem do pelourinho remonte a época anterior à da civilização romana. Desde logo porque semelhantes estruturas com a mesma função se encontram em locais onde a presença de Roma não se fez sentir, como o Médio Oriente e a Ásia.[3]

 

         O que mais me dói na pátria é não haver correspondência no espírito dos Portugueses entre o seu passado e o seu presente. Cada monumento que o acaso preservou inteiro ou mutilado – castelo, pelourinho, igreja, solar ou simples fontanário – é para todos nós uma sobrevivência insólita, que teima em durar e em que ninguém se reconhece. Olhamos os testemunhos da nossa identidade como trastes velhos, sem préstimo, que apenas atravancam o quotidiano. Que memória individual ou colectiva se relembra nesta crónica ameada? Miguel Torga, Diário XIII.

 

[1] Vara era uma unidade de medida de comprimento antiga, utilizada até à introdução do sistema métrico. Tinha sensivelmente a medida de 1,10 metro.

[2] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal. Portugal Antigo e Moderno: Diccionário Geográphico, Estatístico, Chorográphico, Heráldico, Archeológico, Histórico, Biográphico & Etymológico de Todas as Cidades, Villas e Freguesias de Portugal e Grande Número de Aldeias. publicados em Lisboa pela Livraria Editora de Mattos Moreira. Volume Terceiro, 1874. P. 259/260.

[3] ROSA, António Amaro – Os pelourinhos da Lusitânia (1820-1974): do vandalismo oitocentista à reabilitação pelo Estado Novo. Dissertação de Mestrado em Estudo do Património apresentada à Universidade Aberta, Lisboa, 2014. P.12.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:00

25
Ago 22

 cartaz das festas 1951.jpg

Cartaz das Festas Tradicionais de Garvão de 1951  

 

        Depois de dois anos sem festa, realizam-se dias 27, 28 e 29 de Agosto, (2022), as tradicionais festas de Garvão.  

          Desde a criação da Associação de Festas e Romarias de Garvão, á cerca de dez anos, que as festas têm sido dedicadas à Nossa Srª da Assumpção.

          Mas haverá tradição desta dedicação?

           A haver, estas seriam dedicadas ao culto do Espírito Santo.

           Não se encontra nos cartazes publicitários das festas de Garvão, anteriores à criação da mencionada Associação, qualquer referência a esta dedicação.

      De facto, o historial de uma grande parte das festas que se fazem em Portugal, têm precisamente o seu início nas festas do Espírito Santo.

       É Assim em Tomar onde os cestos de pães carregados à cabeça, destinam-se precisamente ao bodo comunitário e no Penedo em Sintra onde a tradição do Espírito Santo ainda se mantém viva, com a garreada do touro nas ruas para diversão da população e o bodo comunitário onde todos convivem.

          Assim como em Barrancos onde a aspiração da morte do touro na arena, depois de garreado, é justificado pela tradição das festas do Espírito Santo e a distribuição de carne pelos pobres e de um enorme banquete comunitário.

        E era assim, inclusivamente, em Garvão, conforme se pode observar no cartaz das festas de Garvão do ano de 1951, onde se pode ler que era “A FAVOR DOS POBRES DESTA LOCALIDADE”, certamente uma memória dos tempos em que era dedicada ao culto do Espírito Santo e aos pobres da vila, sem qualquer menção ou dedicada a qualquer figura religiosa.

      Estas festas do Espírito Santo, em Garvão, eram e ainda são nalgumas localidades, organizadas pela Irmandade do Sagrado Espírito Santo, de que existe registo na vila de Garvão, mantendo-se ainda a garraiada nas ruas da vila.

        Os bens e obrigações desta Irmandade foram posteriormente englobados na Santa Casa da Misericórdia de Garvão, sem, contudo, deixar de haver um protesto por parte dos irmãos da Irmandade, por ficarem sem posses de efectuarem as festas, conforme ficou registado no fólio 30 verso no “livro da Misericórdia e do Sagrado Espírito Santo.”*

          (…) fazendo suspender as obras que a Irmandade da ditta Caza trazia em reparos da Igreja com o fundamento de axar por satisfazer a duas festas do Espiritto Santto, e da obrigaçaõ do ditto Hospital (…)

         Assim a recuperação da tradição medieval, não só era reposta a verdade histórica, como iria enriquecer a vila de Garvão e proporcionar mais divulgação e consequentemente mais visitantes à terra.

 

* Este livro encontra-se na posse do autor deste blog, depois de irremediavelmente danificado pelas cheias de 1997, quando se encontrava na sede da Junta de Freguesia de Garvão.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:39

03
Ago 22

JG28-1 (1).jpg 

Clique para ler JG28.pdf

 

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Daqui a umas gerações, quando só as notícias mais longínquas e de cariz nacional ou global restarem, apercebemo-nos de que nada saberíamos, se não fossem estes registos, sobre o que se passou na nossa terra ou sobre a sua história e património que sistematicamente vão desaparecendo.

publicado por José Pereira Malveiro às 10:40

29
Jul 22

FRANCISCO ZACARIAS.jpg

FRANCISCO ZACARIAS TAMBÉM CONHECIDO POR CHICO CEZÍLIA - ÚLTIMO REGEDOR EM GARVÃO

 

Francisco Zacarias de nome completo, nasceu em Garvão a 13 de Setembro de 1920. Foi o último Regedor da Vila de Garvão, tradição centenária de que foi o último representante em Garvão.

            Os Regedores de freguesia, eram, "uma pessoa de bem" que em primeira instância tentava manter o respeito, a ordem e a harmonia, junto da população da Freguesia. Desempenhavam as funções de Magistrados Administrativos, tinham como funções olhar pela segurança e ordem pública e certas obrigações administrativas, hoje geralmente desempenhadas pelas Juntas de Freguesia e autoridades de segurança pública, a quem as pessoas prestavam obediência e respeito, era chamado a intervir nas situações mais insólitas e até caricatas, como um roubo de uma galinha, fazer as pazes entre marido e mulher, chegando até a intervir em assuntos de partilhas, em brigas e desacatos, etc. etc..

            O Regedor foi assim uma autoridade de grande prestígio e poder, durante os anos das suas funções, lentamente foi perdendo essa autoridade até ao seu desaparecimento. Primeiramente eram eleitos,mas pela lei de 29 de Outubrode 1840, passaram a ser nomeados pelos Administradores do Concelho, actuais presidentes de Câmara, até que devido às várias reformas administrativas, as suas atribuições, foram-se diluindo pelas várias entidades entretanto criadas, Juntas e Assembleiasde Freguesias e criação da GNR em 1911, até que esvaziados dos seus poderes o cargo foi formalmente extinto depois do 25 de Abril de 1974 com a introdução da Constituição da República Portuguesa de 1976.

            De notar que o Regedor tal como os Cabos de Polícia e até os membros das Juntas de Freguesia não auferiam qualquer renumeração.

           O Regedor exercia a autoridade local de freguesia, principiou essa actividade ao substituir em mil oitocentos trinta e seis o Comissário de Paróquia, exercendo essas funções até mil novecentos setenta e seis. O regedor era subordinado ao Administrador do Conselho, mais chamado de Presidente da Câmara.

            Em mil oitocentos quarenta e dois, foi estabelecido por lei, uma farda para os Regedores, que seria uma casaca azul com um ramo de carvalho de ouro bordado em cada uma das golas, colete de casimira branca, calças azuis, botas e chapéu redondo. A casaca e o colete teriam botões com as Armas Reais. O chapéu teria o laço Nacional e uma presilha preta, na qual estaria gravado o nome da freguesia a que pertencia.

            A principal função dos Regedores, era a de policiamento da freguesia. Para os auxiliarem nas suas funções policiais, tinham às suas ordens e nomeados por estes os chamados Cabos de Polícia, sendo por norma rapazes de boa constituição física e de preferência acabados de chegar da tropa. A função de Cabos de Policia foi diminuindo até ao seu desaparecimento, com a intervenção da Polícia Civil, depois chamada, Polícia de Segurança Pública.

            No século passado e por volta dos anos quarenta, os Regedores deixaram de ter o estatuto de magistrado administrativo, nessa altura já não usavam qualquer fardamento, passam então a ser os representantes dos Presidentes das Câmaras Municipais e nomeados ou exonerados por estes, a quem prestavam obediência.

publicado por José Pereira Malveiro às 12:56

01
Jul 22

Pregoeiro.jpg

(Desenho de Pregoeiro Medieval)

 

JOAQUIM POMBO

O Último Pregoeiro de Garvão

 

Ainda há relativamente pouco tempo, subsistia em Garvão um uso herdado dos tempos mais recuados em que Garvão era concelho. Um dos funcionários da Câmara, para além do Escrivão, Vereadores, Tesoureiro e Procurador do concelho entre outros, havia também o pregoeiro. Num reino cuja população era, na sua quase totalidade, analfabeta, tornava-se fundamental anunciar as decisões que se passavam a escrito.

 

Este costume municipal, apesar da extinção do Concelho de Garvão em 1836, persistiu até aos anos sessenta do século XX, já não a anunciar e a apregoar as decisões camarárias, mas a pregoar ou anunciar as várias transações ou trocas entre os populares que pretendiam, vender, trocar ou comprar alguns bens supérfluos ou que necessitavam, a carne no açougue ou a venda de produtos frescos era também anunciada pelo pregoeiro.

 

Este não só apregoava, nos locais públicos da povoação, as decisões tomadas pela Câmara, mas anunciava igualmente as diversas arrematações dos bens concelhios, o que era permitido ou proibido e cujo interesse era necessário divulgar entre a população.

 

Na Idade Média tudo se apregoava: novidades do dia, decisões de polícia ou de justiça, levantamentos de impostos, leilões ao ar livre na praça pública, mercadorias para venda, geralmente junto aos paços do concelho ou junto do pelourinho,

 

Em Garvão, a lembrança leva-nos até aos princípios da década de sessenta do século XX, quando o último pregoeiro, Joaquim Pombo, no alto do serro do castelo pregoava os vários bens que a população pretendia vender, comprar ou alguma coisa perdida ou achada, assim como os taberneiros mandavam apregoar o vinho novo.

 

Seria. sem dúvida, homem de garganta poderosa e boa memória visto não ter nada escrito e ter de memorizar o que pretendia apregoar ou anunciar, começava por chamar a atenção com o barulho de umas matracas feitas em madeira que produzia um som que se ouvia na povoação e tinha uma rima própria com que anunciava o pretendido, começava por “escutem bem, escutem bem o que tenho a dizer” e depois de relatar o que pretendia, terminava com a frase “por hoje é tudo, amanhã há mais, se calhar”.

publicado por José Pereira Malveiro às 18:04

25
Jun 22

estradas2.jpg

     Garvão, devido aos seus vestígios arqueológicos, sua polarização de vias e outras mais circunstâncias, é um dos mais importantes percursos do Alentejo desde a antiguidade.
     Em Garvão, cruzavam-se e partiam várias estradas com ligação a todo o Sul e Norte do País.

     Aos caminhos mais antigos utilizados pelos primeiros povos, às veredas dos caminhantes e andantes, de cargas no lombo das bestas e carroças de tracção animal, sobrepuseram-se outros caminhos pelas sucessivas civilizações que se lhes seguiram e, inclusivamente, pela via-férrea que, em alguns locais, aproveitou as vias romanas e pré-romanas.

     Em Garvão cruzavam-se várias estradas: Canadas Reais (trajectos milenários para gados), Itinerários Celtas, Vias Romanas, Estradas Reais, “Semedariuns..”, vias Legionárias, Corredouras e outras vias que faziam a ligação por todo o Alentejo.

 

ESTRADA ROMANA

     Durante a ocupação Romana, várias vias cruzavam o Alentejo. Umas sobrepondo-se sobre caminhos antigos, outras de novo criadas para satisfazer as necessidades comerciais e de ocupação militar.

     Em Garvão, segundo as “Grandes Vias da Lusitânia” de Mário Saa, que se baseou no “itinerário de Antonino pio”, (descrição, do princípio da nossa Era, sobre as vias do Império Romano por Antonino Pio), cruzavam-se várias estradas romanas, uma delas a “Circunvalação dos Célticos”, que dava a volta completa ao Alentejo e Algarve, pelos lados, tocando as principais localidades.

     Esta via, pelo lado do Atlântico, irradiava da cidade Romana de Esuri (actual Salir) para Ossonoba, Serra de Monchique, Silves e Garvão donde seguia depois para Évora. De Évora, baixava novamente para Beja, donde ia, pelo interior, por Mértola, embrenhando-se em seguida novamente no Algarve até Salir; este lanço da estrada era designado por «compendium».

     Garvão era denominado pelos Romanos como ARANNI. Segundo as “Vias do Império Romano” a distância de Ossonoba a Aranni (Garvão) são mpm LX (95km), (mpm, Millia Passum, medida itinerária romana,que valia mil passos, 1481,5 metros).

     De Aranni a Serapia são XXXII milia passuum. Assim, a conversão de milhas em quilómetros dá-nos Aranni em Garvão, (num dos 20 códices lê-se Atani e Atanni), que é uma das mais notáveis mansões romanas do percurso no Alentejo.

     A via de Antonino, a partir de Garvão para Évora, passa a Ponte Romana da Estação de Garvão, vai rumo à Igrejinhade São Pedro, Horta da Saúde e corre pelos lugares de Funcheira de Baixo, Monte Ruivo, Vale de Romeira, Boizona, ermida de São Romão de Panóias, Monte Alto, Torre Vã, Alvalade, Santa Ana do Roxo, Ermidas, Santa Margarida do Sado, Caneiras do Roxo, Vila Nova da Baronia, Viana do Alentejo e Évora.

     Pode-se afirmar, com alguma razão, que a importância da vila de Garvão em tempos mais recuados, se deve às suas excelentes condições viáveis que permitiu o caminho norte/sul e a fixação dos povos.

     A Estrada romana, de Garvão para o Algarve, passava a ponte romana da Estação de Garvão, ia junto ao Furadouro e metia-se pelas terras, do Sr. Chico Felix, direito aos Franciscos, local de grande concentração de vestígios Romanos que se crê ser de uma cidadela Romana, ia depois direito à Aldeia das Amoreiras, São Martinho das Amoreiras, Monte do Geraldo, Monte do Caldeirão, Corte de Brito, Corte de Lã, Stª Clara a Velha, Corte Sevilha, Nave Redonda, Monchique, Porto de Lagos donde como placa giratória comunicava com Silves, Portimão, Lagos e Faro.

     A trajetória de, e para Garvão são de excelentes condições viáis; a natureza abrira esse caminho. São magníficos os tabuleiros ou plainos, as depressões, as planícies e várzeas das margens do rio Mira e do rio Sado condizentes a Garvão.

     O acostumado documentário romano, em destruições de paredes, telharia, epígrafes, etc., ladeia o caminho e é como que o sinal da sua trajetória.


ESTRADA REAL DO ALGARVE

     A Estrada Real do Algarve aproveitou o traçado da Via Romana e Legionária, desde a Serra de Monchique a Garvão e para norte deste. A Estrada Real do Algarve tem o seu início em Lisboa e, era a ligação para o Algarve, com passagem obrigatória por Garvão.

     Era a grande via do Sul, utilizada na Idade Média nas deslocações de norte ao sul e vice-versa. Diz o povo que era a estrada por onde a Rainha D. Maria ia para o Algarve, utilizada por D. Sebastião nas suas viagens ao sul e em direcção a Marrocos.

     Era também um caminho utilizado pelas guerrilhas do Algarve no século XIX. De Garvão para Lisboa ia-se por Alcácer do Sal, passando logo a seguir a Garvão, pela Igrejinha de São Pedro (onde os mencionados guerrilheiros do Algarve procuravam abrigo), Horta da Saúde, Funcheira de Baixo, Monte Ruivo do Ameixial (aqui separa-se do antigo caminho romano), e busca Panoias, onde transpõe a Ribeira de São Romão (Rio Sado) no Porto da Crata, a 6 km de Garvão segue depois para o Monte da Alfarrobeira, Montinho, Reguengo, Aldeia de A dos Delbas, Monte da Estrada, Messejana, Rio de Moinhos, São João dos Negrilhos, Figueira de Cavaleiros, Alcácer do Sal, Setúbal e Lisboa.

     De Garvão para sul o traçado da Estrada Real aproveitou e confunde-se com o caminho da Estrada Romana atrás descrito. O piso da Estrada Real é nu e sem qualquer artifício. Até Santa Clara, a estrada continua sem possibilidade de outro rumo que não seja o de Garvão; são várzeas sumamente viáveis ladeadas de outeiros inviáveis.

     Até há relativamente pouco tempo, os Almocreves e outros preferiam a Estrada Real à Nacional, pois, apesar do mau estado do piso, representa um encurtamento na distância e, de Garvão era a única ligação para a Aldeia e São Martinho das Amoreiras, antes da construção da estrada alcatroada na década de 1970.

     Os almocreves nas suas andanças pelas propriedades da região utilizavam também a estrada do Monte Zuzarte onde, ainda hoje, junto à estrada existe uma cruz, em pedra, de que se desconhece a origem; esta estrada seguia depois para as propriedades do vale de Mú e São Barão.

     Na propriedade do São Barão existe, ainda hoje, os restos de uma Igreja, denominada, também, de São Barão, local de festa e romaria, ainda no primeiro quartel do século XX, bastante frequentada pelas gentes da região.

     Uma variante desta estrada, talvez no caminho para Ourique, passava junto ao Monte São Pedro, onde ainda é visível as ruínas de uma igreja.

 

ESTRADA PARA BEJA

     No caminho da Estrada Real, ou Romana, no porto da Crata desprendia-se, uma outra estrada, para a direita que ia directamente de Garvão para Beja, em parte utilizada pelo Caminho de Ferro, pela herdade da Quinta Nova, Aldeia da Conceição e Alcarias, Monte da Carregueira (Estação de Castro Verde) e daí para Beja.


ESTRADA PRÉ-ROMANA

     Existia uma outra Estrada do Algarve, mais antiga, prévia à ocupação Romana, de norte para sul pela margem esquerda do Sado, que transpunha o Rio em Alcácer do Sal. Depois seguia para Grândola, Canal, Mina da Caveira (importantes minas Romanas, cujo minério seguia para Santa Margarida, onde era tratado e seguia em embarcações pelo rio Sado), Brunheira, Loizal Novo, Faleiros e Cartaxo, Mal Assentada, Balça, Ameira onde passava a Ribeira de Campilhas e Alvalade. De todos os modos, Garvão era lugar obrigatório de convergência.


ESTRADA ROMANA DE SALIR A SANTIAGO DO CACÉM POR GARVÃO

     Em Garvão cruzava outra Estrada Romana, que ligava Santiago do Cacém a Salir, no Algarve, e cortava no sentido Noroeste para Sueste a Estrada Romana de circunvalação do Alentejo e Algarve.

     De Garvão a Santiago do Cacém numa extensão de XXXII milia passuum e, segundo “As Grandes Vias da Lusitânia” de Mário Saa, “...O seu início em Garvão é um sulco profundo, transversal às ribeiras de Garvão e Arzil, e imediatamente abaixo do Castelo, sulco que ali é conhecido por Ferradouro, corruptela de Furadouro”.

     Entrava depois na Estação deGarvão, onde passava a Ribeira do Arzil pela ponte Romana, seguia pelas herdades do Arzil, Crimeia, Corte Preta, e aldeias de Santa Luzia, Vale Alconde, Colos, Vale de Santiago e entrava em Santiago do Cacém, pelo sítio de chã salgada, tocando o que resta do recinto de jogos da Urbe Romana.

     De Garvão para sul, o traçado divergia da Estrada Romana e Real, enquanto estas iam pelos Franciscos e aldeia das Amoreiras. A estrada de Santiago do Cacém para Salir ia pela Monchica e Saraiva direito à Srª da Cola. Depois de passar o Furadouro, atravessava a ribeira de Garvão, junto ao Poço Novo; a saída da Vila fazia-se pelo Curral dos Bois e apontava direito à propriedade do Pouco Tempo, Monchica, Saraiva, Lagoa Seca, Vale Garvão, Portela, Monte Queimado, Marchicão (já ao pé do Santuário da Srª da Cola), Sr.ª da Cola, Santana da Serra e Salir. Em Santana da Serra bifurcava uma outra estrada directa de Salir a Silves.

 

“SEMEDARIUM QUI VENIT DE GARVAM ET VADIT AL ALGARBIUM” pela Srª da Cola

     O “Semedarium qui venit de Garvam et vadit al Algarbium”, era a continuação directa da estrada de Santiago do Cacém. Por Semedarium, “Semedeiro”, não se entenda caminho de só menos importância, facto que não se coaduna certamente com o longo curso de 80 Km de Garvão a Salir. Semedarium derivado latim semitas de que se fez senda, sendeiro, sendim, etc.

     A menção ao “Semedarium qui venitde Garvam et vadit al Algarbium” surge, pela primeira vez, nuns documentos de1250 e 1260 referentes ao extinto concelho medieval de Marachique, vulgarmente identificado com o Castro da Srª da Cola, nomeadamente pelo Arqueólogo Abel Viana que na sua monografia sobre a Cola, faz alusão à existência das ribeiras e dos lugares de Marchicão e Marchique junto ao Santuário da Cola.

      As extremas deste Concelho Medieval, abrangiam partes dos actuais Concelhos de Almodôvar e Ourique e, que em parte servia de estremadura entre o Alentejo e o Algarve. No documento de 1250 el-rei D.Afonso III doou este concelho, com os limites que então lhes assinalou, aos seus moradores. No documento ou doação de 1260,os moradores fazem doação a um dos seus munícipes, D. Estevam Anes, de todo o território que el-rei D. Afonso III lhes havia doado e constituía o total concelho de Marachique.


CANADA REAL

     As “Canadas” eram vias próprias para as deslocações dos rebanhos de gado, de umas pastagens e regiões para outras.

     Eram trajectórias seculares, e até milenárias de pastores, como que direcções ideais nos seus caminhos da transumância.

      Apesar das Canadas serem vias próprias e independentes das outras estradas, a Canada que servia Garvão identifica-se em grande parte com a Estrada Real do Algarve.

      Não deixará de ter importância a Feira anual de Garvão no fim do ciclo Primaveril, como polo comercial e social dos pastores que traziam os seus rebanhos, inclusivamente da Serra da Estrela e até de Espanha, para as pastagens do Campo Branco e do Campo de Ourique.


CORREDOURAS

     As Corredoras ou estradas legionárias eram vias militares romanas que atravessavam, não só o Alentejo e a Península Ibérica, como também todo o Império Romano.

     Eram vias próprias para uma mais rápida deslocação das tropas, quando surgia algum foco de revolta nativa contra os invasores e ocupantes Romanos.

     É comum ainda encontrar, na topografia local, nome de sítios ou lugares com origem em eventos ou locais antigos; o Monte da Corredoura, situado a poucos km de Garvão, na estrada para Ourique, poderá bem ser um bom exemplo dessas reminiscências do passado.

     A Corredoura é também identificada com a venda de gado na feira de Garvão; o local onde os almocreves, ciganos e demais comerciantes se juntam para negociar, mulas, machos, cavalos ou éguas, burros ou burras é denominado por “Corredoura”.

publicado por José Pereira Malveiro às 12:47

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