23
Nov 20

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Cartaz da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita. Cartaxo

 

Um exemplo a seguir

            Várias Câmaras Municipais, de Norte a Sul do país, reconhecem a importância de que se reveste a atividade editorial, entendida como veículo de divulgação e promoção de autores emergentes e de edições de autor, que contribuam para a vivificação cultural no concelho e para a diversificação da sua oferta literária.

            Incentivam assim um regime de apoio à atividade editorial através do qual procuram encorajar a criação literária e artística e/ou educativa e viabilizar o aparecimento e afirmação de novos autores, transversalmente a várias faixas etárias, experiências de vida e áreas diversificadas, como seja a área educativa, cultural, desportiva, social, ambiente e multidisciplinar inclusivamente a área patrimonial, em particular na área do património imaterial local e regional.

            Pretendem ainda apoiar a área de empreendedorismo cultural de capacidade criativa, a área da deficiência, do multiculturalismo e integração, bem como a área adstrita ao género e igualdade de oportunidades ou questões sociais emergentes da contemporaneidade.

            Nos termos e condições desses apoios, têm prioridade a edição de obras que contribuam para o conhecimento do respectivo concelho, na área da história, antropologia, cultura local, obras literárias em verso ou em prosa, de autores emergentes, de reconhecido valor científico, literário ou cultural, designadamente:

            - A edição de livros ou publicações de autores nascidos ou residentes no concelho;

            - A edição de livros ou publicações por entidades particulares e instituições legalmente constituídas com sede no concelho;

            - A edição de livros ou publicações de autores e entidades ou instituições exteriores ao concelho, mas que tenham manifesto interesse, direto e excecional para o concelho.

            - Poderão ser apoiadas obras mistas que prevejam a integração fotográfica, fonográfica e/ou videográfica, em CD/DVD.

            - Os apoios previstos são também aplicáveis a teses de mestrado ou doutoramento.

            -  Os apoios a projetos de edição consistirão na garantia, com base numa deliberação de câmara, de aquisição, ao preço de capa, de um número de exemplares, ou de um apoio monetário direto, num máximo anual a definir no orçamento municipal, considerando a totalidade das edições a apoiar.

            Observamos assim uma série de regulamentos municipais, de vários municípios de Norte a Sul do país, onde se procura incrementar, não só as produções literárias dos seus habitantes, mas inclusivamente contribuir para a divulgação cultural e promoção do próprio concelho.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:04

21
Nov 20

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                   Pela reordenação dos concelhos no século XIX que levou à extinção de uma boa parte dos concelhos portugueses, incluindo o de Garvão, várias foram as formas encontradas pelas populações locais, prejudicadas com tal reordenamento, de mostrarem o seu descontentamento, desde as formas mais violentas de revolta armada, (nomeadamente a “Janeirinha”, revolta popular ocorrida em Janeiro de 1868, na cidade do Porto, contra o novo imposto sobre o consumo e a extinção de mais de cem municípios), às manifestações mais pacíficas, como a que se observou em Garvão.

                   Aquilo a que se assistiu em Garvão, poderá ser, de uma certa maneira idêntico ao que aconteceu na maioria dos concelhos extintos, uma resistência em colaborar com a nova sede do município, raiando a sabotagem e o boicote, como forma de mostrar o seu descontentamento e frustrar as intenções dos novos poderes.

             Assim foram subtraídas aos novos poderes os instrumentos que caracterizavam o município, nomeadamente os objetos amovíveis. Se ficaram para a história os Paços do Concelho com o Sino e a Cadeia e o edifício do Açougue, outros objetos de fácil remoção, foram subtraídos aos novos poderes e transportados para lugar seguro.

                   Destes objetos chegou praticamente aos nossos dias a Arca Concelhio e um Armário.

               Com as obras de restauro na Igreja Matriz, Nossa Senhora da Assumpção, em 1995, vários foram os bens despejados, cuja presença estorvava e reduzia o espaço reservado ao culto, entre eles, um pequeno altar em madeira onde se encontrava várias pautas de música antigas e um armário com portas de correr em vidro que se recolheram para outro lugar.

                   O altar e as pautas musicais perderam-se, infelizmente, com as cheias que assolaram a vila em 1996.

                   O armário teve melhor sorte, resguardado noutro local para restauro, salvou-se de um fim menos trágico, contudo nada fazia prever a antiguidade desta peça de mobília, ou a história a ele associado e muito menos que tal façanha ainda persistisse na memória popular.

                   Segundo um dos últimos Regedores da Freguesia, este armário terá sido uma das Alfayas negadas pela vereação da Câmara de Garvão em extinção e intimadas a entregar, juntamente com os livros de contas ao Concelho de Ourique, onde Garvão e Santa Luzia passariam a integrar como duas freguesias distintas.

                   Para este antigo Regedor, Francisco Zacarias, este teria sido o armário da discórdia, segundo as suas próprias palavras, teria sido levado para a Igreja pelos vereadores da extinta Câmara para o salvarem e por lá se manteve até à realização das mencionadas obras.

                   A Arca Concelhia e o seu conteúdo, são outra história, depois de salva da fogueira, já ateada para queimar tão valioso espólio em 1985, acabou irremediavelmente por ser mandada para o lixo, juntamente com todo o seu conteúdo, pelo executivo da freguesia durante o mandato de 2005 a 2009. Voltaremos a este assunto noutro post, devido à gravidade de que se reveste a ignorância, a incúria, o desmazelo, senão mesmo o roubo e a falta de sensibilidade para o património desta freguesia e salvaguarda destes documentos tao importantes para a história da vila de Garvão.

publicado por José Pereira Malveiro às 10:30

24
Out 20

Caros conterrâneos, visitantes, amigos e interessados.

Quem é que tem uma foto da dança, com melhor qualidade da ilustrada?

Ou, já agora, outras fotos da dança ou sobre a vila e outros acontecimentos.

Agradeço que enviem para: jpmg6767@gmail.com

Desde já, os meus agradecimentos

José Pereira

Foto da Dança Antiga.jpg

 

publicado por José Pereira Malveiro às 12:05

Dança dos Paus.jpg

Representação da Dança das Espadas

 

Em 2003 escreveu-se no livro Garvão - Herança Histórica, no seguimento da ida da Dança de Garvão ao lar de Ourique em 1995 e segundo informação do nosso conterrâneo Francisco Charrua, só os idosos com mais de 85 anos em 1995 se lembravam da Dança das Espadas e da Dança dos Guizos ser dançada na vila de Garvão.

 

Agora em 2020, dezassete anos depois de passado à escrita essa informação, infelizmente os autores dos testemunhos recolhidos em 1995 já não se encontram entre nós, contudo surge-nos agora um novo testemunho deste tipo de danças que se faziam nesta zona, mais concretamente em Castro Verde.

 

Trata-se do Sr. Manuel Pancadas Gonçalves, com sessenta e nove anos, nasceu em 1951, relatou que por volta dos anos sessenta do século XX, o seu tio António foi um dos últimos organizadores destas danças, onde ele e os irmãos, Francisco Gonçalves, conhecido como o chinês e o Posidónio Gonçalves também faziam parte da dança.

 

Para além da Dança das Espadas, dançavam também a Dança dos Arquinhos e a do Mastro das Fitas, estas danças incluindo a das Espadas eram cantadas. Corriam as terras e aldeias em redor, Ourique, Almodôvar entre outras pelo carnaval e recebiam o que as pessoas lhes queriam oferecer, dinheiro, comedias e outros bens.

 

A Dança das Espadas era feita com uns paus a imitar espadas e a baterem uns nos outros, começavam em roda e depois faziam duas filas e cruzavam uns com os outros, rodopiavam e dançavam em volta, sempre batendo nos paus/espadas uns nos outros. Havia homens e outros homens trajados de mulher na Dança dos Arquinhos e do Pau das Fitas, contudo na Dança das Espadas e dos Guizos os elementos masculinos trajados de mulher não entravam, eram executadas só por dançarinos trajados de homens.

 

A Dança dos Guizos, como se relatou no mencionado livro, era executada com as coleiras dos animais cobertas de guizos, cascavéis, campainhas ou pequenos chocalhos, previamente recolhidos nas arramadas onde se guardava os animais, e enroladas em torno do corpo e das pernas, cujo som, sintonizado entre os dançarinos, dava o tom musical à respetiva dança.

 

A Dança dos Arquinhos era única cantada, as outras, das Voltas e do Pau das Fitas, eram executadas ao som da flauta nos finais dos anos de 1950 e princípios de 1960 e em anos mais recuados e incluindo a Dança das Espadas e dos Guizos, ao som da rebeca, tambor e outros instrumentos tradicionais, incluindo a viola tradicional alentejana de arame, hoje conhecida por viola campaniça.

publicado por José Pereira Malveiro às 11:48

03
Out 20

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PUBLICAÇÃO do LIVRO FORAL NOVO DE GARVÃO - 1512.

                 Torna-se importante na data em que se assinala os quinhentos anos da outorga do Foral-Novo a Garvão, realçar a importância do resgate da memória local através da valorização do seu património. Valorizar igualmente a identidade colectiva da população, e incutir nas gentes locais o sentimento de pertença e a importância histórica de que se revestiu a outorga deste diploma, por El rei D. Manuel I em 1 de Julho de 1512.

            A antiguidade deste documento e a sua predominância na regulamentação da vida quotidiana da comunidade, do então concelho de Garvão, durante séculos, enquanto “lei da terra”, conferem, a este documento, um estatuto único num contexto social, económico, político e jurídico completamente diferente da realidade actual.

            A outorga dos Forais-Novos às populações, pela reforma dos Forais-Velhos, outorgados maioritariamente no período da reconquista e consolidação nacional, mostravam-se, séculos depois, desactualizados e insere-se num amplo processo de reformas do sistema administrativo e jurídico pelo rei D. Manuel que se destinavam tanto a modernizar o reino, como a uniformizar e a aplicar as leis gerais a todo o território. Visava essencialmente o reforço do poder real e fixar os impostos, encargos e foros a pagar pelos municípios ao rei ou aos senhorios quando era caso disso.

            Apesar do tema das cartas de foral e do poder concelhio não ser novo, não se nota, por parte dos historiadores e juristas portugueses, apesar de cada vez mais se entender, entre os historiadores nacionais, que o reinado e o governo de D. Manuel, se caracterizou por uma acção de reformismo, de modernismo e de construtivismo, tanto interesse pelo estudo e divulgação dos Forais-Novos como pelos forais da primeira geração ou Forais-Velhos.

             Tem, contudo, desde as últimas décadas do século passado e nestes últimos anos, aparecido estudos inovadores e interessantes contributos que apresentam uma nova visão para o entendimento dos Forais-Novos e da história social e económica desta época, por parte de novos historiadores assim como surgiram um número significativo de dissertações de mestrado e teses de doutoramento, em torno destas cartas de “leitura nova” e de monografias ou estudos locais.

CLICK para mais detalhes.

publicado por José Pereira Malveiro às 12:14

24
Jul 20

Dias da semana

 

                Porque é que Portugal é o único país da Europa Ocidental a nomear os dias da semana, (do latim, septimana, "sete dias"), pela terminologia eclesiástica católica, (Feria secunda, Feria tertia, Feria quarta, Feria quinta, Feria sexta, Sabbatum, Dominica Dies), e não pelos nomes latinos pagãos, (Lunae dies, Martis dies, Mercurii dies, Jovis dies, Veneris dies, Saturni dies e Solis dies), como se observa nos restantes países?

                Em mais nenhum país católico do Oeste Europeu, se observa tal, tanto a Espanha, como a França, como a Itália e até mesmo o próprio Vaticano, continuam a nomear os dias da semana pelos antigos nomes pré-cristãos.

 

                Lunes, Martes, Miércoles, Jueves, Viernes, Sábado e Domingo, em espanhol.

                Lundi, Mardi, Mercredi, Jeudi, Vendredi, Samedi e Dimanche, em francês.

                Lunedi, Martedì, Mercoledì, Giovedì, Venerdì, Sabato e Domenica, em italiano.

                Luni, Marţi, Miercuri, Joi, Vineri, Sambata e Duminica, em romeno.

 

                O que de uma forma geral denomina: dia da Lua, dia de Marte, (deus da guerra romano), dia de Mercúrio, (deus na mitologia romana), dia de Júpiter, (deus na mitologia romana), dia de Vénus, (deusa do amor), dia de Saturno, (culto pagão do deus da agricultura) e dia do deus sol, depois transformado em dia do senhor, dominus dei.

                O mesmo se passa nos restantes países europeus, de expressão Anglo-saxónica e religião protestante ou Anglicana.

 

                Montag, Dienstag, Mittwoch, Donnerstag, Freitag, Samstag e Sonntag, na Alemanha.

                 Que significam, dia da Lua, dia de Tyr, (deus da guerra), dia do meio da semana, dia de Thor, (deus do trovão), dia de freya, (deusa da fertilidade), dia de Saturno e dia do Sol.

 

                Em inglês: Monday, Tuesday, Wednesday, Thursday, Friday, Saturday e Sunday.

                Cujo significado não difere muito dos dias de semana alemão, dia da Lua, dia de Tyw, (deus da guerra), dia de Odin, (divindade Anglo-saxônica), dia de Thor, (deus do trovão), dia de freya, (deusa da fertilidade), dia de Saturno e dia do Sol.

 

                No mundo Galaico-português, na Galiza continua-se a nomear os dias da semana segundo o panteão pagão, Luns, Martes, Mércores, Xoves, Vernes, Sábado e Domingo, e em português antigo, nomeava-se por: Lues, Martes, Mércores, Joves, Vernes, Saturnai e Solis, correspondente à actual, Segunda, Terça, Quarta, Quinta e Sexta-feira, Sábado e domingo.

 

                Portugal foi assim o único país do mundo que adotou os dias da semana derivados do latim eclesiástico. Os nomes antigos dos dias da semana, nomeados por outros povos, não foram mantidos na língua portuguesa, tal mudança deveu-se a São Martinho de Dume, nomeado Bispo de Braga em 596, fervoroso anti pagão e a todos os costumes associados ao paganismo, adoptou nas igrejas sob jurisdição da Sé de Braga, os dias da semana segundo a nomenclatura eclesiástica católica, tradição que se manteve até ao século XV, quando foram definitivamente adoptados no resto do reino.  .  

 

«Os cultos astrais – recorda oportunamente Aires Nascimento – haviam sido particularmente visados nas condenações dos priscilianistas, nomeadamente no I Concílio de Braga. E em diversos testemunhos, ao lado do culto do Sol e da Lua, ou das estrelas, aparece documentada a existência do culto ao fogo e às águas».

Em finais do séc. VI, também o II concílio de Braga (572), celebrado sob a presidência de Martinho de Dume (510-580), metropolita daquela zona, faz referência à observação e culto tradicional que os gentios faziam dos elementos naturais, do curso da lua, das estrelas e dos signos antes de iniciarem a construção de uma casa, fazerem a sementeira, plantarem árvores ou contraírem matrimónio (c. 72).

Na obra De correctione rusticorum, que o mesmo Martinho endereça a Polémio, bispo de Astorga, repreendem-se os camponeses por acenderem velas junto às pedras, às árvores, às fontes e às encruzilhadas (nam ad petras, et arbores, ad fontes, et per trivia cereolum incendere) e realizarem oferendas em festividades como as calendas ou os deuses domésticos, além de se condenar a idolatria, a adivinhação ou os augúrios e a bruxaria e instar os cristãos a deixar de designar os dias da semana pelos nomes latinos pagãos (Lunae dies, Martis dies, Mercurii dies, Jovis dies, Veneris dies, Saturni dies e Solis dies) para passar a designá-los pela terminologia eclesiástica (Feria secunda, Feria tertia, Feria quarta, Feria quinta, Feria sexta, Sabbatum, Dominica Dies).*

 

 

* Aires A. Nascimento, «A “Religião dos Rústicos”», art. cit., p. 326. In: Luís Mata, O «cais» de Santa Iria uma reflexão sobre uma velha questão, REVISTA LUSÓFONA DE CIÊNCIA DAS RELIGIÕES – Ano VI, 2007 / n. 11 – 277.

publicado por José Pereira Malveiro às 22:19

16
Jul 20

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RENÉ DESCARTES

 

Não será demais, nestes pandémicos incertos tempos, lembrar René Descartes.


Penso, logo existo.

 

Em contraste com a postura americana, perante esta pandemia, que de facto é a antítese da mensagem original de Descartes.

 

Parei de pensar, logo não existo.

 

Esta simples frase, "penso, logo existo", do filósofo francês René Descartes, (1596-1650), ajudou em muito a mudar a mentalidade da época. O trabalho inovador de Descartes na área do racionalismo, acabou por abriu os portões ao Iluminismo, numa época em que ainda ardiam nas fogueiras as acusadas de bruxaria.

 

A frase, sintetiza, de uma maneira simples o pensamento de Descartes e surgiu a partir da postura em questionar o que se tinha por garantido. Para se chegar ao conhecimento absoluto, para este filósofo, era preciso duvidar de tudo o que existe ou nos rodeia.

 

Para Descartes, a única coisa de que não se podia duvidar era da própria dúvida e, consequentemente, do seu pensamento, e se duvido de tudo, estou dotado da capacidade de raciocinar e se o meu pensamento existe, eu também existo, assim, Penso, logo existo.

 

Perante esta lógica, é caso para perguntar, se perante esta sociedade cada vez mais globalizada, cada vez mais manipulada e influenciada pelos modernos órgãos de comunicação, se perdemos a nossa capacidade de criticar, de analisar, de sugerir, de contestar ou se nos acomodamos aos que os média nos querem transmitir.

 

O que nos ensinaria este matemático, físico e filósofo que influenciou gerações de pensadores, de Isaac Newton, Ayn Rand a John Locke, (filosofo político que influenciou Thomas Jefferson), da atitude americana perante o Covid-19 e perante um presidente altamente narcísico, ignorante e perigoso?

 

Terão os americanos perdido a capacidade de pensar, perante o impacto real do vírus e a crise económica que se adivinha? Perante as ações cada vez mais disparatadas dum presidente mais preocupado com a reeleição? Perante um poder dos meios de comunicação que nos doma, amacia e nos controla?

 

Será que em pleno século XXI, quantos americanos estarão de facto a questionar o que realmente se está a passar? O motivo de mais mortes? A falta de uma política de contenção deste vírus?

 

Caso contrário, a América provará a antítese da mensagem original de Descartes: "Parei de pensar, logo não existo".

publicado por José Pereira Malveiro às 18:50

13
Jul 20

A ligação à Galiza

 

Qual a antiguidade do nome de família Malveiro?

O que é que terá surgido primeiro, o lugar ou o apelido?

Se em termos toponímicos temos vários exemplos de Norte a Sul no mundo Galaico-português, também em termos patronímicos se encontram diversas famílias a portar este sobrenome.

 

Se até agora as diversas pesquizas se têm debruçado sobre a origem deste toponímico/patronímico em Portugal, localizando a mais antiga referência ao apelido Malveiro no século XV, (de realçar aqui as contribuições de José Maria Ferreira, Beatriz Rodrigues, Ana Josué, Luís Soveral Varella e J. Valdeira entre outros, no site “geneall”), têm surgido ultimamente, graças à entrada de novos documentos on-line e ao Google maps, novas informações sobre este nome, desde o século XIII, não só em Portugal mas igualmente na Galiza e na França, caso incluamos a localidade francesa de Malvières.

 

No livro “Coisas Velhas de Velhos Tempos”, Amândio Quinto,[1] referencia a povoação da Malveira, no concelho de Mafra, em 31 de Março de 1363, pois neste ano o Prior de Santa Maria de Cheleiros, Vicente Annes Fróis, faz referência ao Casal da Malveira no seu testamento.[2]

 

Da origem deste logar nada se pode averiguar, sabe-se que no anno de 1363 já existia o Casal da Malveira; pois que assim foi mencionado nas disposições testamentarias feitas pelo padre Vicente Annes Froes, prior de Santa Maria de Cheleiros, em 31 de março daquelle anno. [3]

 

Já antes, em 1261, no reinado de D. Afonso III, surge uma outra referência à Lezíria da Malueyra, segundo informação do mesmo autor na: obra de pesquisa histórica, ORIGENS DAS REGIÕES, senhor VALDÊZ – que viveu na Malveira, bem como seus descendentes – realizada ainda no século XIX (previsivelmente concluída no ano de 1896), [4]

           

No Riba Tejo, defronte de Villa Franca de Xira, ha uma leziria com o nome de Malveira, que nos primeiros tempos da monarchia era tambem conhecida pela de D. Sancha.

O alcaide, alvasis e todo o concelho de Santarem fizeram de sua livre e espontanea vontade em 15 de dezembro de 1261 doação a el-rei D. Affonso III da leziria “Malueyra, e outras".[5]

               

Esta referência de 1261, remete-nos para o período das guerras de reconquista, não sendo prudente, pelo menos nesta fase da investigação, idealizarmos uma origem noutras línguas anteriores à reconquista cristã, contudo, tudo aponta para estamos perante uma denominação já existente nos princípios da nacionalidade.

 

Ainda sobre as doações, referentes a esta leziria Malueyra, o mesmo autor, menciona a doação efetuada no reinado de D. Dinis em 1318 e no reinado de D. Pedro I em 1357.

 

  1. Diniz, em 23 de julho de 1318, fez em Lisboa doação a Estevão da Guarda da leziria, que chamavam de D. Sancha, e estava no meio do rio Tejo, contra Santarem, sobre a Malveira".[6]

 

  1. Pedro I por carta passada em Lisboa a 29 de junho de 1357, confirmou a doação a Estevão da Guarda da sua leziria Malveira, que também chamavam de a Sancha, e estava no meio do rio Tejo. [7]

 

Constituida em 1836 a Companhia das lezirias do Tejo e Sado, passou a leziria da Malveira dos almoxarifados da corôa para a posse da dita Companhia.[8]

 

(…) Hey por bem, & me praz que daqui em diante nenhum barqueyro vá ás ditas Eyras das terras do dito Almoxarifado da Malveyra, (…)[9]

 

Na Galiza. encontra-se identificado nos mapas, junto à Igreja de Santa Maria de Seteventos, no concelho de Savinhão, em Lugo, um lugar designado por Malveiros. Segundo Mª Teresa C. Moure Pena,[10] referindo um documento de 1389, do antigo mosteiro de Monjas Beneditinas de Santo Estebo de Chouzán, em carballedo, Lugo, Galiza, descreve as desavenças sobre a herança de vários bens fundiários,

 

"Era de naçenda de Ihesu Christo de mill e trecentos e oytenta e nobe annos oyto dias de março estando en villa (…), (…) e deron a dita Moor Lourenço sua tya en partiçom hun casar de herdade en Malveyros que e su o syno de Sancta Maria de Seteventos (…)[11]

 

Em Pastoriza, na Corunha temos a Rua Malveira.

 

Encontra-se igualmente em Cariño na Corunha, no mar Cantábrico, a ilha Malveira, assim como os miradouros Malveira um e dois e a Penha Malveira, assim como a associação de atividades lúdicas, a Agrupación Cultural Malveira.

Por sua vez, junto a Pontevedra, já no Oceano Atlântico, vamos encontrar a Ilha Malveira Grande e a Ilha Malveira Chica, assim como a Asociación Cultural Malveiras em Vilagarcía de Arousa.

Apesar de afastadas cerca de 185 km uma das outras, estas ilhas denominadas por Malveira, têm em comum o facto de serem pequenas, sem condições de permanência humana e junto à costa.

 

O facto de se encontrar de Norte a Sul de Portugal, vários topónimos derivados da palavra Galiza, nomeadamente na zona da Malveira da Serra e da Malveira junto a Mafra, (Póvoa da Galega, Aldeia Galega da Merceana, Moinho da Galega e várias ruas, lugares ou becos denominados por Galega, Galegas, Galego ou Galegos), não é de excluir a origem Galega do toponímico Malveiro.

 

Contudo, também não é de excluir, a origem comum, no léxico Galaico-português, deste fonema, e a dispersão desta palavra tanto poderá ter ocorrido a partir dos locais na Galiza como de Portugal. A nomeação de um certo lugar, no linguajar Galaico-português das gentes da altura, a partir de uma determinada característica, veio a influenciar a sua denominação e posterior transmissão aos moradores, povoadores ou proprietários.

 

Em França encontra-se igualmente a localidade denominada por Malvières, no departamento de Haute-Loire, no centro-sul da França. Segundo Mario Rossi, o termo Malvières provém de Malva.

 

Mauvières (Ruisseau des) Varenne-PArconce Même origine que Malvières en Haute Loire. Tous les auteurs sont d'accord pour voir dans Mauvières des lieux où poussent les mauves. Jadis les paysans cueillaient les mauves qu'ils consommaient en guise d'épinards.[12]

 

[1] Amândio Quinto. Coisas velhas de velhos tempos. Mafra: Câmara Municipal de Mafra, 2002.

[2] Algumas noticias para a descripção historica dos logares de Alcainça, Malveira e Carrasqueira do concelho de Mafra / coord. José Joaquim d'Ascensão Valdez, (1842-1926). - Lisboa: Typ. do Jornal O Dia, 1895. - 115, [2] p. ; 24 cm. - Transcrição de documentos do ANTT. - Capelas da Coroa; Livro 1 da Estremadura; Chancelaria de D. Dinis; Chancelaria de D. Pedro I. P. 5.

[3] Idem, p. 19.

[4] www.uf-malveira-alcainca.pt/cidadao/historia/malveira

[5] Origens das regiões na obra de Valdêz (século 18) P. 25/26.

[6] Idem, p. 104.

[7] Idem, Ibidem.

[8] Idem, p. 26

[9] Idem, p. 307.

[10] Mª Teresa C. Moure Pena. Revisión Histórico-Documental en torno al antigo monasterio Benedictino de San Esteban de Chouzán. Boletín do Museo Provincial de Lugo, Nº. 12, 2, 2005, págs. 125-170.

[11] Archivo de San Paio de Ante-Altares. Sección pergaminos. San Esteban de Chouzán. Cajón 3-Mazo 1 A-B-C. In: Mª Teresa C. Moure Pena. Revisión Histórico-Documental en torno al antigo monasterio Benedictino de San Esteban de Chouzán. Boletín do Museo Provincial de Lugo, Nº. 12, 2, 2005, pág. 155.

[12] Mario Rossi. Les Noms de lieux du Brionnais-Charolais témoins de l'histoire du peuplement et du paysage; Bourgogne du Sud. 2009 - ‎Brionnais (France). P. 407. (Mauvières (Ruisseau des) Varenne-PArconce. Mesma origem que Malvières em Haute Loire. Todos os autores concordam em ver em Mauvières os lugares onde as malvas crescem. No passado, os camponeses colhiam malvas que consumiam como espinafre.)

publicado por José Pereira Malveiro às 07:24

05
Jul 20

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Revolta e Contestação

         Iniciado o processo de “arredondamento dos concelhos”, em 1834, no seguimento das reformas liberais que conduzirá à extinção de mais de metade dos velhos concelhos medievais portugueses, incluindo o de Garvão, irá ocasionar momentos de grande convulsão política e grandes tensões a nível local que este tipo de modificações irá sempre provocar.
            Este tipo de “revolta” popular, não só pela extinção do seu próprio concelho, mas igualmente por se recusarem a integrar outros concelhos tradicionalmente rivais, gerou em vários lugares do reino, verdadeiras revoltas contra estas medidas.
          Garvão não foi exceção à regra e se a documentação é escassa e a memória popular já há muito que se esqueceu de alguns desacatos ou protestos ocasionados pela extinção do concelho, surge-nos, contudo, um documento do reinado de D. Maria II, no qual o Procurador Geral da Coroa concede ao Administrador Geral interino de Beja, poderes para obrigar os vereadores do concelho de Garvão, extinto em 1836, a entregar os respetivos livros de atas e contas, (o cartório) e os restantes instrumentos inerentes à administração do concelho (alfayas), sejam eles, mobiliário, carimbos ou sistemas de aferição de pesos e medidas.
           De facto, pelo que se pode aferir deste documento, o protesto dos vereadores de Garvão estendia-se à recusa em concluir o inventário e em entregar o Cartorio e as AIfayas da Casa da Camara, ameaçando-os com o recurso ao Poder judicial de forma a apagar a antiga divisão dos Concelhos.

 

Sua Magestade a Rainha, Conformando-se com o parecer interposto pelo Procurador Geral da Corôa sobre a Representação do Administrador Geral interino de Beja, datada de 7 de Junho passado em que expõe as duvidas que tem encontrado a Camara do Concelho de Ourique a que foi anexado o de Garvão, por se recusarem os membros da extincta Camara a concluir o inventario, e entrega do Cartorio e das AIfayas da Casa da Camara, as quaes não apparecem; e bem assim sobre a diferença dos pezos e medidas dos dous Concelhos, e sobre a divida contrahida antes da annexação: Manda, pela Secretaria d'Estado dos Negócios do Reino, declarar ao referido Administrador Geral, para o fazer constar á Camara de Ourique, que deve esta demandar perante o Poder Judicial os ex-Vereadores da Camara de Garvão pelo facto de não entrega do Cartório e das Alfayas; que pelo que respeita aos pezos e medidas; devem permanecer os Padrões como actualmente existem, até que huma Lei regule definitivamente este objecto; e finalmente, que sendo o Concelho de Garvão unido ao de Ourique, com todos os seus direitos, obrigações, vantagens, rendimentos, e encargos devem por isso as antigas dividas passivas do Concelho extincto ser pagas pelo novo, assim como receberia este as dividas activas, se as houvesse; pelo que Sua Magestade recommenda ao sobredito Administractor Geral que empregue lodos os esforços para apagar a antiga divisão dos Concelhos, estabelecendo no Municipío huma única administração.

Palácio das Necessidades, em 1 de Agosto de 1837.
António Dias de Oliveirra
No Diar. do Gov. de 4 de Agosto nº 182. (1)

 

           Devido à excessiva proliferação de concelhos medievais, e se nalguns concelhos portugueses, observava-se um escasso número de habitantes, ou mesmo despovoados, o que acabava por ter efeitos contraditórios, tornando-os ingovernáveis por falta de moradores em número suficiente, para preencher os respetivos cargos autárquicos e judiciais, juízes e demais oficiais para servirem o concelho, tal não parece ser o caso de Garvão, pois segundo o censo do Conde de Linhares de 1801, o concelho de Garvão teria, 976 habitantes nas duas freguesias, Garvão e Santa Luzia, o que o tornava num concelho mediano em termos de habitantes e de área, e muito acima de alguns concelhos que não foram extintos como o caso de Alvito entre outros.
           Esta densidade populacional proporcionava, segundo Maria Fernanda Maurício, rendimentos suficientes para uma efetiva autonomia financeira.

 

Ao lado da sua autonomia administrativa, os concelhos possuíam autonomia financeira, o que significava cobrarem eles próprios as receitas com que custeavam as suas despesas: rendimentos dos bens próprios do concelho, direitos cobrados pela utilização dos bens comuns do concelho, pelo produto das coimas, pela violação das posturas, pelos rendimentos da almotaçaria, pelos rendimentos provenientes da aplicação da justiça, pelas rendas cobradas pela aferição dos pesos e medidas, pelas rendas das portagens e outros. Dentre as despesas, destacamos a «têrça», o jantar ou colheita, dadas ao senhor da terra, o pagamento aos funcionários concelhios, as despesas com a aposentadoria dos funcionários régios. O conjunto das receitas e das despesas constituía o orçamento do concelho.  (2)

 

 

(1) Collecção da legislação Portugueza desde a última compilação das Ordenações, Volume 10, pelo desembargador António Delgado da Silva, Lisboa, 1839, p. 679.
(2) MAURÍCIO, Maria Fernanda. Entre Douro e Tâmega e as Inquirições Afonsinas e Dionisinas, Lisboa, Colibri História, 1997. P. 234, 235. IN: CAETANO, Carlos Manuel Ferreira. As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII). Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2011. dois volumes. Dissertação de Doutoramento. P. 63.

publicado por José Pereira Malveiro às 16:52

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Artigo na revista “Occidente” de 20 de Abril de 1897, da autoria de D. João da Câmara.

 

        O Occidente, Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro, foi uma revista ilustrada editada em Lisboa de 1 de Janeiro de 1878 a 1909. Ao longo das três décadas de publicação foi distinguida com vários prémios nacionais e estrangeiros. Acabou por se extinguir em 1909 deixando um extraordinário património artístico e literário, sendo hoje uma das mais importantes fontes de iconografia da época e o repositório de trabalhos de alguns dos maiores vultos da intelectualidade portuguesa de finais do século XIX.

        D. João da Câmara, (João Maria Evangelista Gonçalves Zarco da Câmara), nasceu em Alcântara, Lisboa, em 27 de Dezembro de 1852 e faleceu em 2 de janeiro de 1908, igualmente em Alcântara. Foi um dramaturgo português e o primeiro português a ser nomeado para o Prémio Nobel da Literatura, em 1901. Desenvolveu a sua carreira profissional nas obras públicas: construção do ramal de Cáceres e das linhas de Sintra e Cascais e chefiou a Administração Central de Caminhos de Ferro.
          Foi no desempenho das suas funções nos Caminhos de Ferro que o terá levado a pernoitar em Garvão vários dias e a escrever esta novela para a revista Occidente.


CHRONICA OCCIDENTAL

          Fóra de todas as praxes tem hoje de ser a minha chronica infiel ao meu dever de chronista; nada sei do que se há passado em Lisboa, nada sei, nada aos ouvidos me chegou. Apenas uns dois ou três jornaes já antigos, encontrados por acaso sobre a mesa da hospedaria, me trouxeram de longe algumas novas, já velhas quando a mim chegaram.
          Mas que importa? Portugal é enorme e não só a capital merece, e muito menos deve merecer, as nossas attenções.
        Falar-lhes-hei d'um cantinho da província quasi desconhecido de Portugal inteiro e que, entretanto, é unta região encantadora.
       Escrevo de Garvão, uma villa muito velha, Gravão, como antigamente se dizia. É no Baixo Alemtejo, no concelho de Ourique.
        Há oito dias que aqui estou, na hospedaria do Xavier, o que pode haver de mais genuinamente alemtejano. Uma casita de taipa muito caiada, muito limpinha, com uma barulhada enorme de pardaes matutinos no telhado, que lhe dá alegria, e um porco morto no domingo, que nos fornece há três ou quatro dias jantares de estalo.
        Mesmo por detrás da estação nos fica a nossa morada. A pequenita do meu hospedeiro a Miraldina, anda ali a entoar uma cantiga, que lhe ensinaram, entre a chilreada dos pardaes. É quasi noite. D'aqui a pouco voam eles de todas essas arvores para os telhados, onde teem os ninhos. E quando anoitecer vai começar um outro concerto. Há uma infinidade de rouxinoes nessa ribeira. E toda a noite cantam. Coaxam as rãs. grillam os grillos. Ouve-se de espaço a espaço um sopro e uma coruja vem todas as noites ao pé da janella illuminada dar-nos uma gargalhada, quando acabamos de cear.
       Quando, depois de muitos annos de vida de cidade, podemos ter o enorme prazer de respirar na montanha um pouco desse ar finissimo, perfumado pelo rosmaninho, parece que a nossa alma toma um banho, que toda essa luz a penetra até ao íntimo, levando-lhe a par, amortecendo-lhe a dor, apagando-lhe a memoria de tanta pequenina miséria que por ahi rasteja.
        O campo vai lindo, embora os lavradores, por balda certa, se queixem sempre. São agora as searas que precisavam de mais uma pinguinha d'agua. Estamos em abril no tempo das águas mil. Há de a chuva chegar a tempo
         Nunca vi tanta flor junta como ahi por esses cabeços. A esteva está toda florida. É um mar verde e branco todo elle a ondolar. Em cada tronco abrem-se dez a doze flores enormes, a maior parte com cinco, uma ou outra com seis pétalas. Ao pôr do sol começam as flores a enrolar-se devagarinho, vão fechando-se em botão, mal se lhes percebe uma pontinha de branco, que fica espreitando para dar signa da aurora. E juntamente com as estevas crescem ahi por toda a parte as urzes, o rosmaninho, o alecrim. A ribeira está cheia de golfos, brancos nos sítios em que as águas dormem á sombra dos choupos e das azinheiras, que sobre ella se debruçam.
        Não há paizagem mais serena do que esta, nem mais preferida pela profusa variedade das aves de Portugal.
          É agora defeza á caça e fielmente é aqui por todos cumprida a lei. Andam ansiosos os caçadores pelo mez de julho. Levantam-se-nos perdizes a cada passo. Onde se roce um pouco de moita, apparecem logo tocas de coelhos. E, caso raro onde tanto coelho existe, abundam por aqui as lebres.
        O ar é constantemente cortado pelas aves mais variadas. Resoam as andorinhas, vão ondulando os bandos dos pintasilgos, os trigueirões riem em todas as arvores com ar trocista, os melros assobiam nas balsas, as milharucas, que parecem feitas de pedras preciosas, gritam, voando em círculos á procura das abelhas, os gaios berram fugindo de arvore para arvore, as põppas e as pegas fazem os ninhos nos troncos velhos das azinheiras, os corvos aos pares andam grasnando muito alto, e, mais alto do que elles, traçam grandes círculos as aguias caçadoras.
           Pouco se trabalha no campo neste momento. Apenas um ou outro pastor se encontra levando o rebanho atravez da serra.
           A grande riqueza da terra são os montados de azinho, que por ahi cresce formando por vezes cerradas florestas. Próximo d'aqui abundam os sobreiros. Em Carvão está-se construindo, por conta do sr. Rodolpho Torres uma vastissima fabrica de rolhas.
          Ainda é a cortiça uma das maiores riquezas da nossa terra menos sujeita do que o vinho à concorrência.
           A gente da terra é como a de todo o Alemtejo, intelligente, paciente no trabalho, honrada e humilde. Alguns do povo teem graça e ajuda-os a maneira de falar, uma cantoria especial, que já tem o que quer que seja de algarvio.
           Há dias, um cabreiro espantado deante d´um theodolitho perguntou a um trabalhador o que é que se via pelo oculo:
             — A tua avó, Santa luzia, Collos e o Vasco da Gama.
            Esta mistura de coisas embasbacou o cabreiro que quiz olhar e não viu nada senão uma bandeirola espetada com as pernas para o ar.
           Depois disto o mesmo trabalhador explicou que o Vasco da Gama era um homem, que tinha uns restos mortaes d'um cadáver que era também de muitos outros.
          Daqui a pouco começam os bailes, exactamente quando elles em Lisboa acabam. Para sabbado de alleluia annuncia-se o primeiro. E' uma notícia para o high-life do Occidente.
      Aqui vão quatro cantigas ao acaso, com todas as suas incorrecções, algumas dellas com verdadeira poesia:

 

Fui ao jardim colher trevo,
Achei o trevo colhido
Sem o trevo não me atrevo
A tomar amores comtigo.

 

No jardim vi uma rosa,
E colhi a meiga flor.
Era linda e tão mimosa
Como um suspiro d'amor.

 

Puz-me a pescar em um mar d'oiro
Com boias de amor tyranno.
As boias foram ao fundo,
Pesquei um eterno engano.

 

Quando eu conversei comtigo
N'aquella sala escura,
Mais valia que atirassem
Com meu corpo á sepultura

 

        Pela música com que são cantadas estas cantigas, percebe se ainda talvez a origem árabe d´esta população do Alentejo. Na alegria do canto há tons melancholicos, suspensões, conclusões que não se esperam, fóra das regras, fóra da logica. N'isso consiste a sua belleza principal e, quando a gente a ouve na charneca, entoada por algum pastorsito, sente uma impressão extranha.
           O verão é o grande tempo das festas e ainda hontem vi o programma das que em Garvão se realisaram o ano passado, no mez de setembro, Missa, carros enfeitados, danças ao ar livre, fogo de vistas e toiradas.
          Do valle do Tejo até é fronteira do Algarve, sem toiros é que não há festa possível. Entretanto nada mais diferente das famosas corridas de Lisboa, Setúbal, Cartaxo ou Santarém, de que estas toiradas que por aqui se realizam sem programma, sem cavalleiros„ sem capinhas e até às vezes sem touros.
       O que torna o espectaculo deveras attraente é a alegria dos espectadores, em cima dos carros, em pé sobre os palanques, às janellas ou às portas das casas, porque uma praça em qualquer sitio se improvisa de um dia para o outro.
       Não há farpas. O boi é chamado por toda a gente que na praça o quer chamar. Às vezes dez, vinte, quarenta ou cem, todos o chamam ao mesmo tempo. O boi olha espantado, foge, corre. Às vezes na carreira apanha um homem e atira-o ao ar. É a sorte. Toca a música. E todos aplaudem, gritam. No sol que dardeja raios d'oiro que sobem á cabeça e embebedam, vai uma alegria immensa! Sai outro boi, continua a festa, sempre assim, sempre com novas peripécias e a alegria sempre a mesma!
       O verão está-nos á porta. Dentro em pouco todas essas searas, por ora tão verdes, vão amarellecer, ondular á brisa de maio e na grande chapa d'oiro a alastrar-se opulenta pelas encostas da charneca onde voam os perdigotos, nas clareiras dos azinhaes, hão de baloiçar-se como robins as papoilas vermelhas. Os pastores indifferentes com as mãos cruzadas sobre os cajados em forma de báculos, o queixo sobre as mãos, olharão descer o sol esplendido nas nuvens iriadas e contarão as horas vendo a Barca a girar em volta da Tramontana, na grande paz, na grande quietação da noite cheia de cantos, opulenta de perfumes.
           E' uma região linda esta que se estende d'aqui até ás praias do Algarve, mais severa no Alemtejo, mais risonha desde que, transposta a serra, cometam a avistar-se os figueiraes alinhados, as amendoeiras, as alfarrobeiras, que são a grande riqueza duma província meridional, transformada pelo esforço duma raça activa n'um delicioso jardim.
          Merecem bem uma visita todas estas vilas e aldeias. Um perigo apenas: é que as estraguem. Que o que ellas teem de melhor é a gente.. que não se encontra.

João da Câmara.

publicado por José Pereira Malveiro às 06:17

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