01
Jul 22

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(Desenho de Pregoeiro Medieval)

 

JOAQUIM POMBO

O Último Pregoeiro de Garvão

 

Ainda há relativamente pouco tempo, subsistia em Garvão um uso herdado dos tempos mais recuados em que Garvão era concelho, um dos funcionários da Câmara, para além do Escrivão, Vereadores, Tesoureiro e Procurador do concelho entre outros, havia também o pregoeiro, num reino cuja população era, na sua quase totalidade, analfabeta, tornava-se fundamental anunciar as decisões que se passavam a escrito.

 

Este costume municipal, apesar da extinção do Concelho de Garvão em 1836, persistiu até aos anos sessenta do século XX, já não a anunciar e a apregoar as decisões camarárias, mas a pregoar ou anunciar as várias transações ou trocas entre os populares que pretendiam, vender, trocar ou comprar alguns bens supérfluos ou que necessitavam, a carne no açougue ou a venda de produtos frescos era também anunciada pelo pregoeiro.

 

Este não só apregoava, nos locais públicos da povoação, as decisões tomadas pela Câmara, mas anunciava igualmente as diversas arrematações dos bens concelhios, o que era permitido ou proibido e cujo interesse era necessário divulgar entre a população.

 

Na Idade Média tudo se apregoava: novidades do dia, decisões de polícia ou de justiça, levantamentos de impostos, leilões ao ar livre na praça pública, mercadorias para venda, geralmente junto aos paços do concelho ou junto do pelourinho,

 

Em Garvão, a lembrança leva-nos até aos princípios da década de sessenta do século XX, quando o último pregoeiro, Joaquim Pombo, no alto do serro do castelo pregoava os vários bens que a população pretendia vender, comprar ou alguma coisa perdida ou achada, assim como os taberneiros mandavam apregoar o vinho novo.

 

Seria. sem dúvida, homem de garganta poderosa e boa memória visto não ter nada escrito e ter de memorizar o que pretendia apregoar ou anunciar, começava por chamar a atenção com o barulho de umas matracas feitas em madeira que produzia um som que se ouvia na povoação e tinha uma rima própria com que anunciava o pretendido, começava por “escutem bem, escutem bem o que tenho a dizer” e depois de relatar o que pretendia, terminava com a frase “por hoje é tudo, amanhã há mais, se calhar”.

publicado por José Pereira Malveiro às 18:04

25
Jun 22

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     Garvão, devido aos seus vestígios arqueológicos, sua polarização de vias e outras mais circunstâncias, é um dos mais importantes percursos do Alentejo desde a antiguidade.
     Em Garvão, cruzavam-se e partiam várias estradas com ligação a todo o Sul e Norte do País.

     Aos caminhos mais antigos utilizados pelos primeiros povos, às veredas dos caminhantes e andantes, de cargas no lombo das bestas e carroças de tracção animal, sobrepuseram-se outros caminhos pelas sucessivas civilizações que se lhes seguiram e, inclusivamente, pela via-férrea que, em alguns locais, aproveitou as vias romanas e pré-romanas.

     Em Garvão cruzavam-se várias estradas: Canadas Reais (trajectos milenários para gados), Itinerários Celtas, Vias Romanas, Estradas Reais, “Semedariuns..”, vias Legionárias, Corredouras e outras vias que faziam a ligação por todo o Alentejo.

 

ESTRADA ROMANA

     Durante a ocupação Romana, várias vias cruzavam o Alentejo. Umas sobrepondo-se sobre caminhos antigos, outras de novo criadas para satisfazer as necessidades comerciais e de ocupação militar.

     Em Garvão, segundo as “Grandes Vias da Lusitânia” de Mário Saa, que se baseou no “itinerário de Antonino pio”, (descrição, do princípio da nossa Era, sobre as vias do Império Romano por Antonino Pio), cruzavam-se várias estradas romanas, uma delas a “Circunvalação dos Célticos”, que dava a volta completa ao Alentejo e Algarve, pelos lados, tocando as principais localidades.

     Esta via, pelo lado do Atlântico, irradiava da cidade Romana de Esuri (actual Salir) para Ossonoba, Serra de Monchique, Silves e Garvão donde seguia depois para Évora. De Évora, baixava novamente para Beja, donde ia, pelo interior, por Mértola, embrenhando-se em seguida novamente no Algarve até Salir; este lanço da estrada era designado por «compendium».

     Garvão era denominado pelos Romanos como ARANNI. Segundo as “Vias do Império Romano” a distância de Ossonoba a Aranni (Garvão) são mpm LX (95km), (mpm, Millia Passum, medida itinerária romana,que valia mil passos, 1481,5 metros).

     De Aranni a Serapia são XXXII milia passuum. Assim, a conversão de milhas em quilómetros dá-nos Aranni em Garvão, (num dos 20 códices lê-se Atani e Atanni), que é uma das mais notáveis mansões romanas do percurso no Alentejo.

     A via de Antonino, a partir de Garvão para Évora, passa a Ponte Romana da Estação de Garvão, vai rumo à Igrejinhade São Pedro, Horta da Saúde e corre pelos lugares de Funcheira de Baixo, Monte Ruivo, Vale de Romeira, Boizona, ermida de São Romão de Panóias, Monte Alto, Torre Vã, Alvalade, Santa Ana do Roxo, Ermidas, Santa Margarida do Sado, Caneiras do Roxo, Vila Nova da Baronia, Viana do Alentejo e Évora.

     Pode-se afirmar, com alguma razão, que a importância da vila de Garvão em tempos mais recuados, se deve às suas excelentes condições viáveis que permitiu o caminho norte/sul e a fixação dos povos.

     A Estrada romana, de Garvão para o Algarve, passava a ponte romana da Estação de Garvão, ia junto ao Furadouro e metia-se pelas terras, do Sr. Chico Felix, direito aos Franciscos, local de grande concentração de vestígios Romanos que se crê ser de uma cidadela Romana, ia depois direito à Aldeia das Amoreiras, São Martinho das Amoreiras, Monte do Geraldo, Monte do Caldeirão, Corte de Brito, Corte de Lã, Stª Clara a Velha, Corte Sevilha, Nave Redonda, Monchique, Porto de Lagos donde como placa giratória comunicava com Silves, Portimão, Lagos e Faro.

     A trajetória de, e para Garvão são de excelentes condições viáis; a natureza abrira esse caminho. São magníficos os tabuleiros ou plainos, as depressões, as planícies e várzeas das margens do rio Mira e do rio Sado condizentes a Garvão.

     O acostumado documentário romano, em destruições de paredes, telharia, epígrafes, etc., ladeia o caminho e é como que o sinal da sua trajetória.


ESTRADA REAL DO ALGARVE

     A Estrada Real do Algarve aproveitou o traçado da Via Romana e Legionária, desde a Serra de Monchique a Garvão e para norte deste. A Estrada Real do Algarve tem o seu início em Lisboa e, era a ligação para o Algarve, com passagem obrigatória por Garvão.

     Era a grande via do Sul, utilizada na Idade Média nas deslocações de norte ao sul e vice-versa. Diz o povo que era a estrada por onde a Rainha D. Maria ia para o Algarve, utilizada por D. Sebastião nas suas viagens ao sul e em direcção a Marrocos.

     Era também um caminho utilizado pelas guerrilhas do Algarve no século XIX. De Garvão para Lisboa ia-se por Alcácer do Sal, passando logo a seguir a Garvão, pela Igrejinha de São Pedro (onde os mencionados guerrilheiros do Algarve procuravam abrigo), Horta da Saúde, Funcheira de Baixo, Monte Ruivo do Ameixial (aqui separa-se do antigo caminho romano), e busca Panoias, onde transpõe a Ribeira de São Romão (Rio Sado) no Porto da Crata, a 6 km de Garvão segue depois para o Monte da Alfarrobeira, Montinho, Reguengo, Aldeia de A dos Delbas, Monte da Estrada, Messejana, Rio de Moinhos, São João dos Negrilhos, Figueira de Cavaleiros, Alcácer do Sal, Setúbal e Lisboa.

     De Garvão para sul o traçado da Estrada Real aproveitou e confunde-se com o caminho da Estrada Romana atrás descrito. O piso da Estrada Real é nu e sem qualquer artifício. Até Santa Clara, a estrada continua sem possibilidade de outro rumo que não seja o de Garvão; são várzeas sumamente viáveis ladeadas de outeiros inviáveis.

     Até há relativamente pouco tempo, os Almocreves e outros preferiam a Estrada Real à Nacional, pois, apesar do mau estado do piso, representa um encurtamento na distância e, de Garvão era a única ligação para a Aldeia e São Martinho das Amoreiras, antes da construção da estrada alcatroada na década de 1970.

     Os almocreves nas suas andanças pelas propriedades da região utilizavam também a estrada do Monte Zuzarte onde, ainda hoje, junto à estrada existe uma cruz, em pedra, de que se desconhece a origem; esta estrada seguia depois para as propriedades do vale de Mú e São Barão.

     Na propriedade do São Barão existe, ainda hoje, os restos de uma Igreja, denominada, também, de São Barão, local de festa e romaria, ainda no primeiro quartel do século XX, bastante frequentada pelas gentes da região.

     Uma variante desta estrada, talvez no caminho para Ourique, passava junto ao Monte São Pedro, onde ainda é visível as ruínas de uma igreja.

 

ESTRADA PARA BEJA

     No caminho da Estrada Real, ou Romana, no porto da Crata desprendia-se, uma outra estrada, para a direita que ia directamente de Garvão para Beja, em parte utilizada pelo Caminho de Ferro, pela herdade da Quinta Nova, Aldeia da Conceição e Alcarias, Monte da Carregueira (Estação de Castro Verde) e daí para Beja.


ESTRADA PRÉ-ROMANA

     Existia uma outra Estrada do Algarve, mais antiga, prévia à ocupação Romana, de norte para sul pela margem esquerda do Sado, que transpunha o Rio em Alcácer do Sal. Depois seguia para Grândola, Canal, Mina da Caveira (importantes minas Romanas, cujo minério seguia para Santa Margarida, onde era tratado e seguia em embarcações pelo rio Sado), Brunheira, Loizal Novo, Faleiros e Cartaxo, Mal Assentada, Balça, Ameira onde passava a Ribeira de Campilhas e Alvalade. De todos os modos, Garvão era lugar obrigatório de convergência.


ESTRADA ROMANA DE SALIR A SANTIAGO DO CACÉM POR GARVÃO

     Em Garvão cruzava outra Estrada Romana, que ligava Santiago do Cacém a Salir, no Algarve, e cortava no sentido Noroeste para Sueste a Estrada Romana de circunvalação do Alentejo e Algarve.

     De Garvão a Santiago do Cacém numa extensão de XXXII milia passuum e, segundo “As Grandes Vias da Lusitânia” de Mário Saa, “...O seu início em Garvão é um sulco profundo, transversal às ribeiras de Garvão e Arzil, e imediatamente abaixo do Castelo, sulco que ali é conhecido por Ferradouro, corruptela de Furadouro”.

     Entrava depois na Estação deGarvão, onde passava a Ribeira do Arzil pela ponte Romana, seguia pelas herdades do Arzil, Crimeia, Corte Preta, e aldeias de Santa Luzia, Vale Alconde, Colos, Vale de Santiago e entrava em Santiago do Cacém, pelo sítio de chã salgada, tocando o que resta do recinto de jogos da Urbe Romana.

     De Garvão para sul, o traçado divergia da Estrada Romana e Real, enquanto estas iam pelos Franciscos e aldeia das Amoreiras. A estrada de Santiago do Cacém para Salir ia pela Monchica e Saraiva direito à Srª da Cola. Depois de passar o Furadouro, atravessava a ribeira de Garvão, junto ao Poço Novo; a saída da Vila fazia-se pelo Curral dos Bois e apontava direito à propriedade do Pouco Tempo, Monchica, Saraiva, Lagoa Seca, Vale Garvão, Portela, Monte Queimado, Marchicão (já ao pé do Santuário da Srª da Cola), Sr.ª da Cola, Santana da Serra e Salir. Em Santana da Serra bifurcava uma outra estrada directa de Salir a Silves.

 

“SEMEDARIUM QUI VENIT DE GARVAM ET VADIT AL ALGARBIUM” pela Srª da Cola

     O “Semedarium qui venit de Garvam et vadit al Algarbium”, era a continuação directa da estrada de Santiago do Cacém. Por Semedarium, “Semedeiro”, não se entenda caminho de só menos importância, facto que não se coaduna certamente com o longo curso de 80 Km de Garvão a Salir. Semedarium derivado latim semitas de que se fez senda, sendeiro, sendim, etc.

     A menção ao “Semedarium qui venitde Garvam et vadit al Algarbium” surge, pela primeira vez, nuns documentos de1250 e 1260 referentes ao extinto concelho medieval de Marachique, vulgarmente identificado com o Castro da Srª da Cola, nomeadamente pelo Arqueólogo Abel Viana que na sua monografia sobre a Cola, faz alusão à existência das ribeiras e dos lugares de Marchicão e Marchique junto ao Santuário da Cola.

      As extremas deste Concelho Medieval, abrangiam partes dos actuais Concelhos de Almodôvar e Ourique e, que em parte servia de estremadura entre o Alentejo e o Algarve. No documento de 1250 el-rei D.Afonso III doou este concelho, com os limites que então lhes assinalou, aos seus moradores. No documento ou doação de 1260,os moradores fazem doação a um dos seus munícipes, D. Estevam Anes, de todo o território que el-rei D. Afonso III lhes havia doado e constituía o total concelho de Marachique.


CANADA REAL

     As “Canadas” eram vias próprias para as deslocações dos rebanhos de gado, de umas pastagens e regiões para outras.

     Eram trajectórias seculares, e até milenárias de pastores, como que direcções ideais nos seus caminhos da transumância.

      Apesar das Canadas serem vias próprias e independentes das outras estradas, a Canada que servia Garvão identifica-se em grande parte com a Estrada Real do Algarve.

      Não deixará de ter importância a Feira anual de Garvão no fim do ciclo Primaveril, como polo comercial e social dos pastores que traziam os seus rebanhos, inclusivamente da Serra da Estrela e até de Espanha, para as pastagens do Campo Branco e do Campo de Ourique.


CORREDOURAS

     As Corredoras ou estradas legionárias eram vias militares romanas que atravessavam, não só o Alentejo e a Península Ibérica, como também todo o Império Romano.

     Eram vias próprias para uma mais rápida deslocação das tropas, quando surgia algum foco de revolta nativa contra os invasores e ocupantes Romanos.

     É comum ainda encontrar, na topografia local, nome de sítios ou lugares com origem em eventos ou locais antigos; o Monte da Corredoura, situado a poucos km de Garvão, na estrada para Ourique, poderá bem ser um bom exemplo dessas reminiscências do passado.

     A Corredoura é também identificada com a venda de gado na feira de Garvão; o local onde os almocreves, ciganos e demais comerciantes se juntam para negociar, mulas, machos, cavalos ou éguas, burros ou burras é denominado por “Corredoura”.

publicado por José Pereira Malveiro às 12:47

24
Mai 22

Relembrando 33 anos depois.

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Grupo Coral Infantil de Garvão em Junho de 1989, no Largo da Igreja.

Da esquerda para a direita: Artur Gonçalves (filho), Carlos Filipe, Nelson Jorge, Sandra Mamede, Ana Sofia Guerreiro, Marisa Lucas, Ana Cristina Perpétua, Miguel Diogo, Filipa Perpétua, Filipe Sequeira, Hugo Jorge, Nuno Mamede, Claúdia Gonçalves, Daniel Perpétua, Paulo Fernando, Ana Rita Malveiro, Tiago Lourenço, Sara Reis, Ana Rita Vilhena, Luiz Patrocínio, Milton Carvalho e José Daniel Malveiro com a bandeira.

 

          Publica-se neste artigo uma entrevista para o Jornal de Garvão, feita em 1995 ao presidente do Grupo Coral infantil de Garvão, Artur Revés Gonçalves.  

          Foi fundado pelas professoras D. Maria Luísa e D. Guilhermina, em Junho de 1989. Por uma simples brincadeira, para cantar na feira das escolas, e que era ensaiado pelas seguintes pessoas: Augusto Charrua, Francisco Bento e José Maria. Os pais das crianças entusiasmaram-se e fundaram o Grupo. Mais tarde o Sr. Augusto Charrua saiu, devido a um desgosto, e entrou o Sr. Daniel Loures.

          O grupo assim foi continuando até que, com algum dinheiro, comprou a sua primeira farda, que foi inaugurada no dia 20 de Abril de 1991.

          Tem como madrinha a D. Maria Luísa e como padrinho o Sr. Idálio Ramos. O Grupo Coral é formando com cerca de 30 elementos, com idades compreendidas entre os 5 e os 16 anos.

          O Grupo conta já com inúmeras saídas, ao Centro e Sul de Portugal, como por exemplo Ourém, Barreiro, Beja, Ourique, Fátima, Vila do Bispo, etc., onde tem sido muito acarinhado e sempre bem recebido.

          Tem sido sempre um grupo independente de tudo, no que diz respeito à política e a instituições. É livre e vai a todo o lado onde é convidado.

          O Grupo Coral tem conseguido sobreviver, com algumas dificuldades a nível financeiro, só conseguindo arranjar algum dinheiro derivado de alguns bailes e algumas ajudas extras. tem tido sempre o apoio da Câmara Municipal de Ourique em termos de transporte.

          Onde vai actuar não leva dinheiro nenhum, apenas lhe sendo dado um lanche.

        O Grupo tem que agradecer a todos os pais das crianças pelo apoio que este têm dado ao Grupo Coral de Garvão.

publicado por José Pereira Malveiro às 18:40

15
Mai 22

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Nos 58 anos da transladação do seu corpo, em 17 de Maio de 1964, para o cemitério de Vila Viçosa

 

Eu sou o que no mundo anda perdida,

Eu sou o que na vida não tem norte,

Sou a Irmã do sonho, e desta sorte

Sou a crucificada...a dolorida...  (livro de Mágoas, 1919)

 

           Assim se definia, esta grande poetisa alentejana. Da sua vida, muito se conta, mas as grandes verdades, leem-se nos seus sonetos.

 

            Florbela Espanca, nasceu dia 8 de Dezembro de 1894, na Rua do Angerino em Vila Viçosa, Florbela começa precocemente a frequentar a secção infantil da escola primária de Vila Viçosa em Outubro de 1899.

            Tendo iniciado um mês antes as aulas da 3ª classe, Florbela escreve, a 11 de Novembro de 1903, a sua primeira poesia reconhecida, intitulada “A vida e a morte”; no dia seguinte outra se lhe sucede – trata-se de um soneto, que começa com “A bondade o som de Deus”. Se se atentar no facto de que Florbela ainda não tem nove anos e na dificuldade que o soneto representa enquanto composição poética, fácil se torna concluir que cedo brotou o génio nesta alma que “já (então) fazia versos, já tinha insónias e (a quem) já as coisas da vida davam vontade de chorar”.

            Florbela era uma poetisa de poesia generosa, convulsa e ardente do fogo sob cujo signo nascera, a dos extremos de ternura e das amarguras do sofrimento, dos estados hiper excessivos de consciência da solidão, da dor e do amor.

            Nas vésperas de morrer, Florbela desabafa com as suas amigas dizendo que se suicida no dia do seu aniversário por considerar que é a melhor prenda que pode dar a si própria; contudo, ninguém a leva a sério, ninguém entende a sua tormenta. Esta escreve, pois, as suas últimas vontades e um postal de despedida às amigas mais íntimas, as quais só receberão depois da sua morte.

            No dia 10 de Dezembro de 1930 à noite, Florbela comunica à sua criada Teresa que não vai dormir no quarto de casal, em virtude das muitas insónias que vem sentindo ultimamente. Pede ainda que não a acordem no dia seguinte seja sob que pretexto for.

            É encontrada tarde de mais. Na sua mesinha de cabeceira restava um pouco de leite num copo e debaixo do colchão estavam dois frascos vazios. Florbela morrera enfim durante a noite, provavelmente à mesma hora da madrugada a que tinha nascido trinta e seis anos antes, no dia de Nossa Senhora da Conceição, símbolo da Mãe e padroeira de Portugal.

            Nada melhor que a sua própria autodefinição, transcrita numa das cartas que escreveu (Carta de Florbela Espanca ao Dr. Guido Battelli de 27/07/1930).

            (…) Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura. Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas dum raciocínio claro e lúcido, não deixando, no entanto, de ser uma espécie de D.Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dom de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não cansa! (...)

 

 

 

publicado por José Pereira Malveiro às 11:33

09
Mai 22

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          Correu mais uma Feira de Garvão e para todos os efeitos, correu bem. A exposição pecuária estava cheia, as tascas e tasquinhas estavam apinhadas e mais uma vez os produtores do concelho tiveram a oportunidade de mostrarem e venderem os seus produtos.

          A componente tradicional da feira, também lá estava, os barros e cerâmicas, calçado, cadeiras e outros artigos tradicionais em madeira, cestaria, roupas e bugigangas, não faltaram igualmente os arreios para o gado, coleiras, chocalhos, arreatas e cabrestos.

             Houve espetáculo, houve baile e houve o cante ao Baldão.

          Ouviu-se música ligeira de qualidade aceitável e cantaram os grupos do concelho, a Alma Alentejana, os Cantadores do Alentejo e os convidados Sadinos de Setúbal.

         Comeu-se bem e melhor se bebeu, houve folia e houve festa e mais uma vez a autarquia local investiu na valorização deste evento que é já uma referência na amostra do mundo rural português.

          Mau grado a colagem da Ovibeja à Feira de Garvão, uma amostra dos ovinos do Sul que nos primeiros anos se efetuava em Fevereiro, realiza-se agora nos finais de Abril.

           Daí a importância da divulgação e só a título de exemplo, este Blog, dia 8 de Maio, recebeu 242 visualizações, provenientes de 154 visitas, o que quer dizer que quem destas 154 visitas procurou na internet a localização ou o caminho para Garvão, também se preocupou em pesquisar e saber um pouco sobre a história desta terra.

publicado por José Pereira Malveiro às 11:15

12
Abr 22

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Recorda-se Mercedes Blasco na data do seu falecimento a 12 de Abril de 1961. 

 

Por: Luís Baltasar. Centro de Estudos da Mina de São Domingos (CEMSD)

 

Conceição Vitória Marques nasceu na Mina de São Domingos, no dia 4 de Setembro de 1867, como Mercedes Blasco, nome artístico por si escolhido, teve momentos de glória e de imensa felicidade, mas longe dos palcos conheceu a tragédia e o infortúnio.
Ainda em criança viveu em Huelva (Espanha), localidade onde o pai, que era ferroviário, desenvolveu a sua profissão durante alguns anos, mas aos sete anos estava de volta a Portugal, desta vez ao Porto onde viveu pelo menos até aos seus 20 anos.
Foi na cidade do Porto que iniciou e concluiu os seus estudos, tendo tirado o Curso do Magistério Primário (Professora). Foi ainda na cidade nortenha que principiou a sua carreira artística, ainda com o pseudónimo Judith Mercedes, atuando na peça “Grande Avenida” onde desempenhou o papel de “Jockey”. O uso prematuro de um pseudónimo tem por finalidade evitar que o nome da família fosse de alguma forma “enxovalhado” uma vez que a profissão de artista de teatro, principalmente para as Mulheres, na altura não era muito bem vista.
Em 1890, com apenas 23 anos, e já sob o pseudónimo “Mercedes Blasco” integra o elenco do Teatro da Trindade em Lisboa, à data um dos mais importantes da capital, tendo-se estreado na peça “Mademoiselle Nitouche” de Vaudeville. Representou ainda muitas operetas, um género de teatro musical muito em voga no final do século XIX. Foi no grande teatro Lisboeta que cantou pela primeira vez canções francesas que eram sucesso internacional, Mercedes falava fluentemente o francês, língua que estudou ainda menina quando vivia no Porto.
Entre 1890 e 1897 representou nos principais palcos de Lisboa e do Pais, onde fez enorme sucesso, tendo contracenado com grandes nomes do teatro nacional, como Palmira Bastos ou Augusto Rosa.
Mercedes Blasco foi sempre uma mulher controversa e que procurou desde cedo romper com algumas barreiras do preconceito e do puritanismo vigente, para além de algumas atuações em que procurou inovar em palco, tomando atitudes até então impensáveis para uma Mulher, mesmo em cena, coisas tão simples e hoje banais como usar um “maillot” ou traçar as pernas, o que na época era considerado como obsceno. Também na sua vida privada Conceição tinha uma postura que contrastava com a moral vigente, foi por exemplo a primeira mulher a andar de bicicleta em público, veículo que ela usava nas ruas de Lisboa para se deslocar entre a sua residência no Chiado e os teatros onde trabalhava.
Em 1907 publica o livro “Memórias de uma atriz”. A publicação tão prematura de um livro de memórias, na altura tinha 40 anos, não era uma situação comum, mas devido à sua notoriedade social, o livro vendeu muito bem.
Até 1914 efetuou inúmeras tournées, tendo-se apresentado nos principais palcos mundiais, fez enorme sucesso em cidades como Madrid, Paris, Londres, Roma ou Bruxelas, mas para além das capitais europeias atuou com grande brilho no Brasil, onde e deslocou em digressão por diversas vezes.
Quando eclodiu a primeira guerra mundial, Conceição vivia em Liége (Bélgica) onde tinha casado com um belga de nome Remi Ghekiere e com o qual tinha dois filhos, Stelio e Marcelo, durante a guerra alistou-se na Cruz Vermelha como enfermeira de modo a poder dar auxilio aos feridos e prisioneiros de guerra. No decorrer do conflito recusou-se a cantar para as tropas alemãs, que na altura ocupavam Liége e parte da Bélgica, demonstrando assim mais uma vez a tenacidade e a força do seu carácter. Com o fim dos combates teve uma participação bastante ativa no repatriamento dos militares portugueses feitos prisioneiros pelos alemães.
Ainda durante o decorrer da grande guerra, falece o seu primeiro filho, Stelio, então com 16 anos, vítima da doença e da subnutrição decorrentes das más condições vividas durante o conflito, começa aqui o infortúnio de Mercedes Blasco.
De regresso a Lisboa, na companhia do filho Marcelo, na época já bastante debilitado pelas privações vividas na Bélgica, procura trabalho nos teatros lisboetas, mas o contexto artístico da capital tinha mudado e as ousadias que a tinham tornado célebre não se coadunavam com a sua idade e com a sua condição de mãe de família.
Em 1920 vivia em Lisboa com muitas dificuldades, com a ajuda de alguns amigos tenta entrar para o Teatro Nacional, o que lhe permitiria mais tarde o acesso a uma pensão de que beneficiavam os atores desse teatro. No entanto e embora tivesse tido o apoio da imprensa e se tivesse ressalvado o seu papel no apoio aos prisioneiros de guerra, o seu intento seria gorado e a única vaga existente foi ocupada por outra atriz.
A 13 de Agosto de 1922 o seu filho Marcelo morre, também aos 16 anos, vítima de tuberculose, doença agravada pelas más condições em que vivia, na altura as suas únicas fontes de rendimento eram uma pequena pensão atribuída pelo governo civil de Lisboa, e os parcos proveitos resultantes dos livros publicados e de um ou outro artigo publicado na imprensa.
A partir dessa data e até à sua morte Mercedes Blasco dedica-se apenas à escrita e embora tenha publicado um vasto número de títulos, a sua nova condição de escritora nunca lhe trouxe de volta a glória vivida enquanto atriz, e os rendimentos que daí lhe advinham não lhe permitiam viver desafogada, valiam-lhe os poucos amigos, que nunca lhe faltaram, e que a iam auxiliando como podiam.
Faleceu em Lisboa, a 12 de Abril de 1961 tendo sido sepultada no Cemitério dos Prazeres, onde permaneceu num túmulo sem identificação, na altura vivia “de favor” na casa de uns amigos em Lisboa.
No centésimo quinquagésimo aniversário do seu nascimento o Centro de Estudos da Mina de São Domingos (CEMSD) em parceria com outras dez instituições organiza uma série de iniciativas que visam “resgatar” a memória de Mercedes Blasco, dando-a a conhecer não só aos seus conterrâneos como ao público em geral.
No passado dia 4 de Setembro decorreu uma homenagem no Cemitério dos Prazeres em Lisboa, tendo sido descerrada uma placa no local onde repousam os seus restos mortais, passando o mesmo a estar devidamente identificado em sinalizado, foi igualmente colocada uma placa no túmulo do seu filho Marcelo que se encontrava igualmente “anónimo”.
No decorrer das celebrações está ainda prevista a republicação de um dos seus livros (já no prelo) e a atribuição do seu nome a um arruamento na sua terra natal, a Mina de São Domingos.
Por iniciativa do CEMSD foi elaborado um sítio internet (http://cemsd.pt/mblasco) sobre Mercedes Blasco e que para além da sua biografia, disponibiliza o acesso a muitas das suas obras literárias e uma galeria de imagens que ilustram a sua vida.
Por último gostaria de deixar um agradecimento muito especial ao Sr. António Pacheco que enquanto membro do CEMSD tem dedicado muito do seu tempo a investigar, a fazer contactos e a compilar a informação sobre a Mercedes Blasco que agora tornamos pública.

Luís Baltazar 

Coordenador do Centro de Estudos da Mina de São Domingos

Mercedes Blasco, uma “Diva” Alentejana quase esquecida. | Centro de Estudos da Mina de São Domingos (cemsd.pt)

publicado por José Pereira Malveiro às 12:15

21
Mar 22

(575) CELINA DA PIEDADE - Ceifeira ( tradicional Alentejo ) - YouTube

 

Oiçam CELINA DA PIEDADE.

          Agora que se está a aproximar a Feira de Garvão e com um pouco de sorte, teremos, em Agosto, as festas, talvez seja boa altura para refletir sobre o tipo de cultura que os responsáveis por estes eventos querem transmitir à população.

          Pelo menos na música difundida pelos autofalantes instalados nas ruas da vila.

         Iremos continuar a assistir a música pimba?

          Iremos continuar a ouvir música ordinária?

          Iremos continuar a submeter o resto da população a estas incongruências ignorantes?

          Iremos continuar a infestar os nossos jovens com influências degradantes?

          Como se não houvesse música ligeira de qualidade no Alentejo ou mesmo em Portugal.

          Que tipo de cultura é que queremos transmitir?

          Temos a responsabilidade de transmitir às futuras gerações a nossa cultura, a cultura dos seus pais e avôs e privilegiar o enraizamento cultural como parte de pertença de um todo.  

          Estes eventos são uma boa ferramenta de comunicação social, proporcionam um bom ambiente, incrementam a interação e as relações interpessoais, mas temos de ter cuidado com a nossa perceção do que é digno e cultural e com aquilo que se apresenta.

          Muitos organizadores enganam-se ao segmentar o público-alvo apenas por aquilo que presumem ou pensam. Há, no entanto, uma clara distinção entre a cultura que se apresenta e a responsabilidade cultural dos agentes envolvidos. Para não falar já das várias camadas da população e das particularidades inerentes a cada segmento, sejam elas geracionais ou culturais.

publicado por José Pereira Malveiro às 13:41

18
Mar 22

Cruz Monte Zuzarte3.jpg Cruz Monte Zuzarte (2).jpg

 

 

No livro “Garvão – Herança Histórica” publicado em 2003, dava notícia da existência de uma cruz em pedra junto à Estrada Real do Algarve, na propriedade do Monte Zuzarte:

 

Os almocreves nas suas andanças pelas propriedades da região utilizavam também a estrada do Monte Zuzarte onde, ainda hoje, junto à estrada existe uma cruz, em pedra, de que se desconhece a origem, esta estrada seguia depois para as propriedades do vale de Mú e São Barão.

 

Numa visita recentemente ao local (março 2022), notou-se que a mesma estava tombada no terreno e com sinais de gradagem por cima, como se comprova pelas fotografias ilustradas, foi recolhida, pelo autor e guardada junto ao outro espólio arqueológico descoberto em Garvão.

 

Os residentes nos montes próximos, mesmo os mais idosos nos anos setenta do século passado, desconheciam a origem deste monólito, nem se encontra registo sobre esta cruz de pedra, pelo menos nos documentos da Paróquia de Garvão, consultados até agora.

 

Estamos assim perante um monumento, junto à antiga Estrada Real do Algarve, como se encontra em muitas outras estradas do país, embora este, pela sua forma e tamanho, seja bastante diferente daqueles que nos habituamos a ver noutros lugares.

 

São geralmente sustentadas por um amontoado de pedras, ou cravadas no próprio terreno, como no caso desta. Na maior parte dos casos, marcam locais de acontecimentos individuais ou públicos, quer históricos, quer religiosos.

 

O aparecimento deste tipo de Cruz de Pedra, remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Procurava-se igualmente cristianizar os lugares e vestígios doutras crenças.

 

No local onde se cometeu um pecado, onde se adorou um ídolo pagão, onde aconteceu uma tragédia, uma morte, um assalto, uma promessa, um agradecimento ou remorso, estas cruzes sagram locais, dominam e protegem os campos, recordam igualmente epidemias, assinalam momentos históricos, pedem orações e onde são depositadas algumas flores até que esquecidas pelas novas gerações ficam abandonadas no meio do campo e cobertas de mato.

 

Constituem óptimos elementos para o estudo das crenças, dos costumes, qualidades e tendências artísticas do povo, nas várias épocas da sua história.

publicado por José Pereira Malveiro às 18:02

15
Mar 22

Centro HERCULES.png

Programa HERCULES da Universidade de Évora

IN: National Geographic, Agosto de 2010

 

A edição de Agosto da National Geographic Portugal conta com uma reportagem dedicada aos projectos do Centro HERCULES (Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda) da Universidade de Évora. O trabalho multidisciplinar do mais recente centro de investigação da universidade e dos seus investigadores foi o mote para a peça "Arte antiga, ciência nova", que destaca a utilização da tecnologia de ponta na investigação e intervenção no património.

São oito páginas dedicadas ao trabalho de análise, por uma câmara de reflectografia de infravermelhos, dos Painéis de São Vicente, presentes no Museu de Arte Antiga, aos trabalhos de recolha de amostras de algumas das antigas pinturas murais do Mosteiro da Batalha, à investigação que está a ser desenvolvida nas pinturas murais de uma ermida no Alto Alentejo e ao projecto de estudo de fragmentos da Idade do Ferro, recolhidos num dos mais importantes sítios arqueológicos deste período, em Garvão, concelho de Ourique.

A iniciativa parte do Centro HERCULES, acrónimo para Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda, uma estrutura da Universidade de Évora, parceira do instituto dos Museus e da Conservação, que procura juntar tecnologia de ponta e uma equipa multidisciplinar para investigar e intervir no património, muitas vezes in situ, reescrevendo metodologias e apresendo resultados surpreendentes.

Constituído por uma equipa de dez especialistas e quatro alunos de doutoramento, o HERCULES está dotado de equipamento científico de topo, que inclui um microscópio electrónico de pressão variável com uma capacidade de ampliação de 300 mil vezes, permitindo a análise de constituição química e elementar de objectos de grandes dimensões. O centro disponibiliza a historiadores e arqueólogos dispositivos pouco comuns nas instituições nacionais. Sinal da dinâmica que o anima, poucos meses após o arranque das actividades, tornado possível pelo apoio financeiro do mecanismo EEA Grants, são mais de uma dezena os projectos em curso, cujo orçamento ultrapassa já 1,5 milhões de euros.

No laboratório, de jeans e botas de montanha, contrariando a ideia feita do cientista descabelado, o geólogo José Mirão, um dos responsáveis do HERCULES, assoma à porta com um estranho objecto nas mãos: é um fragmento de cerâmica da Idade do Ferro recolhido em Garvão, no concelho de Ourique, num dos mais importantes sítios arqueológicos deste período conhecidos na península Ibérica. “Têm sido descobertos neste local pratos com uma forma específica de construção de base, que utiliza um tipo de barro diferente, menos gordo”, explica. “Analisaremos esta amostra para identificar a composição de argilas e a relação que possa existir com os demais achados. Talvez nos permita identificar a origem desta particularidade e nos dê outra perspectiva sobre o mundo naquela época e a relação da região com o resto da península e do Mediterrâneo. “Através da análise química, é possível destrinçar o processo de fabrico e a origem das matérias-primas. Esteticamente, identificaram-se já as influências estilísticas, nomeadamente celtas, mas tamb+em cartaginesas e fenícias. Mas falta a prova dos nove – a química.

A descoberta deste sítio arqueológico em Garvão remonta à década de 1980. Obras de saneamento básico no local revelaram então múltiplos objectos de olaria. Os trabalhos foram suspensos e um arqueólogo foi chamado, identificando o local como um depósito votivo. Seria um depósito onde se arrumariam as oferendas a um templo que até hoje permanece desconhecido, provavelmente nas imediações. Aliás, quem visista o local encontra apenas um barracão que protege o sítio da escavação.

Para além do contributo para estudar os artefactos, o HERCULES tem outro desafio pela frente: identificar a necrópole perdida. Em breve, será utilizado um georradar, equipamento raro em Portugal que, sem necessidade de escavações prévias, sondará o solo em busca de edificções soterradas. Para já, porém, o trabalho de seriação do espólio setá em curso, realizado no Centro  Arqueológico Caetano de Mello Beirão, que funciona na fria cave do cineteatro de Ourique. Esse esforço tem sido orientado por Françoise Mayet, investigadora francesa que, aos 75 anos, vem nos tempos livres a Portugal, no seu próprio carro, tala relevância e paixão por este património. O trabalho  arqueológico, definitivamente, deixou de estar restrito ao campo.

publicado por José Pereira Malveiro às 15:24

15
Fev 22

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A Junta de Freguesia de Garvão, procedeu à limpeza do Cemitério Velho, não só ao sub-coberto vegetal que cobria as campas, acumulado ao longo de vários anos, como inclusivamente à limpeza das centenárias oliveiras.

O recinto do Cemitério, completamente amuralhado, apesar da notória deterioração das paredes, fruto do abandono a que tem sido votado, tem sido usado para vários fins, como já em 2003 se denunciava no livro “Garvão – Herança Histórica”.

 

Apesar de este Cemitério estar em uso até à relativamente pouco tempo, e ainda conservar lápides funerárias de familiares de pessoas da Terra, o Cemitério Velho tem sido votado ao desprezo e abandono, ainda recentemente, foram cortas as centenárias oliveiras e a sua lenha carregada para as lareiras. Os gradeamentos das lápides funerárias foram tirados dos seus lugares e postos a um canto para o gado não fugir. Já foi curral de gado, já foi horta, já foi caiado de branco por cima de pinturas antigas e mais se verá, assim diz o povo, se quem de direito não tomar as devidas providencias.[1]

 

[1] José Pereira Malveiro. Garvão – Herança Histórica. Beja, 2003, p. 96/97.

publicado por José Pereira Malveiro às 11:48

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