14
Jan 20

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          O local onde se situa o Cemitério Velho, (velho, em relação ao Cemitério Novo, inaugurado em 1937), no cimo da Ladeira do Padre, tem, pelos achados arqueológicos encontrados, sido o local de enterramento dos defuntos desde tempos remotos.
       No período anterior à reconquista cristã, apesar dos vestígios encontrados apontarem para uma presença de populações em Garvão, os indícios sobre a inumação dos corpos neste local ainda não produziram evidências, para que se possa afirmar, com alguma certeza que este lugar já servia para o enterramento dos defuntos, no período anterior à nacionalidade.
            Apesar das raras sondagens arqueológicas confirmarem uma presença dos vários povos e civilizações que precedeu a reconquista cristã. Principalmente uma presença romana e muçulmana, (composta por vários povos, Árabes, Berberes, Egípcios e Iemenitas entre outros) e observando-se uma continuidade habitacional, também podemos aferir numa continuidade na inumação dos corpos em volta deste local.
           As datas das poucas pedras de cabeceira dos túmulos que ainda se encontram, apontam para os enterramentos dentro dos muros do Cemitério para o século XX, contudo as circunstâncias em que este Cemitério se veio a constituir neste local, aludem também para enterramentos desde o século XIX.
           No exterior do recinto amuralhado, quando se procedia ao nivelamento de terras, encontrou-se algumas estelas medievais que leva a concluir pela inumação de corpos igualmente fora dos muros do Cemitério e num período anterior à construção deste.

         Estas estelas, ou cabeceiras de sepulturas, de caracteristicas medievais, encontram-se associadas ao enterramento dos defuntos nos adros das igrejas, como era costume no mundo cristão antes das alterações provocadas pela revolução liberal no século XIX.

          As necrópoles nos adros das igrejas, com as suas estelas, ou seja no interior do espaço urbano por vezes amuralhado, corresponde a inovação da autoria dos conquistadores cristãos (...).1

          Assim em Garvão e neste local as estelas encontradas extra-muros, correspondem aos enterramentos no adro da Igreja do Sagrado Espírito Santo, cujos restos arquitetónicos do edifício, ainda se encontram incrustados na parede do dito Cemitério.

          De facto, também podemos concluir que os maiores conjuntos de estelas agora estudadas, provêm de sítios que tiveram grande importância nos períodos sob administração romana e muçulmana, conforme aconteceu com Aljustrel (Metallum Vipascense), Mértola (Myrtilis, Martula), Moura (Arucci), Garvão (Arandis) e Serpa (Sirpens), existindo continuidade de povoamento entre aqueles tempos e os da presença cristã da Idade Média.2

         Devido à lei, introduzida durante o regime liberal num período conhecido por Cabralismo em 1842, que proibia o enterramento nos adros das igrejas e a obrigação de construção de Cemitérios Camarários. Em Garvão, devido ao estado de degradação da Igreja do Sagrado Espírito Santo, optou-se por destruir o que restava da mencionada igreja e amuralhar o recinto adjacente, incorporando, inclusivamente algumas paredes dessa igreja na estrutura do Cemitério, conforme ainda se pode observar nos respectivos muros que circundam o mencionado Cemitério.
          Podemos assim aferir, até que as devidas investigações arqueológicas nos deem maiores certezas, que a construção do Cemitério Velho se realizou no seguimento desta lei, assim como os respectivos enterramentos.
          Nota-se igualmente que a construção deste Cemitério se observou em duas fases. Uma inicial em torno do lugar e dos restos da referida igreja e outra posterior como se observa pelas paredes que o rodeiam. Poderemos, igualmente supor que esta segunda fase construtiva se terá processado durante um período de maior mortalidade observada na população, como aquela que ocorreu durante a chamada pneumónica de meados do século XX.
          Ainda sobre a antiguidade das estelas achadas no exterior deste Cemitério e que remontam ao período medieval, podemos encontrar a representação de uma arma denominada por besta, e que corresponderia ao local do sepultura deste militar, denominados por besteiros.

         Os corpos de besteiros constitui uma das mais originais e bem-sucedidas experiências da organização militar portuguesa medieval. De facto, a milícia dos Besteiros do Conto, criada por D. Dinis em finais do século XIII, marcou presença nas mais importantes operações militares de todo o século XIV e atingia, nas primeiras décadas do século XV, um total de 5000 efectivos, provenientes de perto de 300 unidades locais de recrutamento.3

            Não se pode deixar de referir o estado de degradação e abandono que se observa neste conjunto arquitetónico composto pela Necrópole/Igreja/Cemitério/Ossário, apesar das constantes chamadas de alerta para a necessidade de salvaguardar este património, continua abandonado e a degradar-se e sujeito à perda irremediável de elementos arqueológicos e arquitetónicos que só iriam enriquecer a vila de Garvão.

 

1 - José Daniel Braz Malveiro. Estelas Medievais do Distrito de Beja. Volume I. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, UNL-FCSH. Janeiro, 2013. P. 1.

2 - Idem, Ibidem.

3 - Idem. P. 76.

publicado por José Pereira Malveiro às 13:19

11
Jan 20

Placa no Castelo de Ourique.jpg

PLACA NO MIRADOURO DE OURIQUE

 

Castelo-Ourique[1].jpg

CASTELO DE OURIQUE. (Foto de 1930)

 

          Quem é que não quer ter um castelo?
          De preferência romano ou árabe.
          Com torre de menagem e albarrã, muralhas, adarve e barbacã.
          De conquistas e reconquistas.
          De cavaleiros intrépidos e princesas mouras encantadas.
          Se não se tem, inventa-se.
          E, coloca-se uma placa, toda bonita, a dizer que isso aconteceu.

 

CASTELO DE ORIK
Foi aqui neste lindo
Miradouro rico em belezas
Paisagísticas sem par
Que os Árabes no Ano de
711 edificaram o
Castelo de Orik

 

          Só que os Árabes em 711, ainda estavam a atravessar o estreito.
          Em 713 ainda estavam em Faro.
        E o castelo já estava construído. Pelo menos, segundo alguns autores seria um antigo castro romanizado.
          Não seria Tárique ibn Ziade (طارق بن زياد, para quem souber árabe), o general árabe invasor, (que por acaso era bérbere), que o construiu.
          Esse deu o nome às Colunas ou Pilares de Hércules, (Ἡράκλειαι Στῆλαι, para quem souber Grego), no ano de 711, ao qual, de então em diante, passou a ser denominado Jabal Tarique, para o rochedo conhecido hoje por Gibraltar e Estreito de Gibraltar para aquela língua de água que separa os dois continentes.
          Atravessado as platónicas Ἡράκλειαι Στῆλαι, (lê-se Herakleiai Stelai), a convite de uma das partes do reino Visigodo em luta pela coroa, em poucos anos assenhoraram-se da Península e nos anos seguintes a 711, completaram a conquista do território que viria a ser o reino de Portugal.
           Ter os vestígios de um castelo é bonito.
           Ainda mais, associado à história de Portugal.
          Só que o que restava do castelo de Ourique foi arrasado na segunda metade do século XX.
          Mas fizeram um lindo Miradouro.
          O que se perdeu em arqueologia, ganhou-se em betão.
          Mas, “sem dúvida”, Rico em belezas paisagísticas sem par.
          O que se perdeu em história, ganhou-se em demagogia.
         Tal como os silos descobertos em Ourique.
         É para ignorar e tapar.
         Como se não houvesse alternativas.

publicado por José Pereira Malveiro às 23:27

06
Jan 20

cemiterioantigocadastro.jpg

Mapa Cadastral do local do Cemitério Antigo 

cemiterioantigo2.jpg

Fotografía área do local do Cemitério antigo, notando-se a parede virada a poente

Cemitério antigo no mapa de.jpg

Segmento da foto aérea de 1947. Centro de informação Geoespacial do Exército.

 

Junto ao Moinho
          O conhecimento deste Cemitério chega-nos através da tradição oral da população mais idosa da Vila de Garvão, consubstanciado tanto pela presença de alguns vestígios no terreno ainda visíveis nos anos sessenta do século passado, como pelo registo cadastral nacional da área, (secção F da freguesia de Garvão), o acesso a este Cemitério fazia-se pelo "Furadouro" por caminho próprio, ainda hoje visível no terreno.
          Mais tarde o caminho passou a ser feito pela Estrada Real, logo a seguir às últimas casas do lado esquerdo à saída da vila. O proprietário do terreno circundante, até à década de oitenta do século XX, pagava anualmente à junta de freguesia de Garvão, renda pelo uso desse espaço.
          Sobre este cemitério e a questão de quando esteve em uso, sem a devida intervenção arqueológica no terreno é difícil de determinar, contudo tendo em consideração ainda estar na memória dos mais idosos e com o Cemitério Velho situado a cerca de cem metros de distância e com ocupação comprovada desde a idade média, teremos de considerar várias suposições.
          Ou o Cemitério Velho, devido a um número invulgar de defuntos, não tinha condições para suportar tantos enterramentos, como se observou durante o flagelo conhecido como pneumónica (ou gripe espanhola) que devorou cerca de 60.000 vítimas nacionais (cerca de 1,08% da população),1 e procedeu-se a alguns enterramentos neste local.2
          Ou até mesmo, a população receosa dos efeitos de contágio desta gripe, preferiram enterrar as vítimas num local mais afastado da vila.
          Ou, mesmo sem o aumento do número de mortes provocado pela pneumónica, o Cemitério Velho precisava de ser ampliado, como veio a acontecer e se nota nas várias fases construtivas deste cemitério.
          Devido à lembrança que ainda existia na população sobre este cemitério, leva a crer que esteve em funcionamento nos princípios do século XX.

 

1 Laurinda Abreu e José Vicente Serrão, apontam para 117 764 mortos causados pela pneumónica, no espaço de apenas um ano, in: Revisitar a Pneumónica de 1918-1919, na revista “Ler História”. Nº 73, 2018.
2 Existe notícias, deste período, em que os Governadores Civis informavam o governo de enterramentos em campa rasa devido ao Cemitério estar cheio, devido ao elevado número de mortos, caso de Faro. In: José Manuel Sobral e Maria Luísa Lima, A epidemia da pneumónica em Portugal no seu tempo histórico, revista “Ler História” Revisitar a Pneumónica de 1918-1919, nº 73, 2018.

publicado por José Pereira Malveiro às 23:03

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Dez 19

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Neste artigo dá-se a conhecer as placas oculadas em ouro e prata, descobertas no Depósito Votivo de Garvão.


          Descrição: Placas oculadas representando um olho humano de forma circular, de onde partem pequenos raios realizados por repuxamento fino, sugerindo as pestanas ou raios solares.
          Proveniência: Garvão. (Museu Nacional de Arqueologia)
          Grupo Cultural: Idade do Ferro do Sul de Portugal
          Datação: 2ª Idade do Ferro
          Matéria: Ouro e Prata
          Técnica: Repuxado
        Origem / Historial: Peças recolhidas no decorrer de escavações arqueológicas efectuadas em Garvão de Junho de 1982 a Dezembro do mesmo ano. Posteriormente ficaram depositadas no IPPAR de Évora. Vieram para o Museu Nacional de Arqueologia em 1989 para integrar a exposição permanente "Portugal das Origens à Época Romana", a título de depósito temporário. Por despacho do Sr. Ministro da Cultura de 10 de Novembro de 1997 passaram a integrar o espólio deste Museu.

 

IN: http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=119855

publicado por José Pereira Malveiro às 16:58

20
Dez 19

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            As fotografias da Anta do Monte Prior, no lugar do Saraiva da Freguesia de Ourique que se apresentam, foram tiradas em 1995. Desde então, sem qualquer tipo de protecção, o cenário alterou-se e tanto o carrego de algumas pedras para obras, como o uso de charruas cada vez mais fundas e mais perto deste monumento, tem provocado danos irremediáveis e impossíveis de recuperar.

          Infelizmente este estado de degradação não se limita somente a este monumento, os restantes monumentos megalíticos do concelho de Ourique, encontram-se igualmente em estado de abandono.

            O Circuito Arqueológico do Castro da Cola, lançou, durante algum tempo, uma réstia de esperança para o estudo e divulgação do património pré-histórico da região, contudo mais uma vez não se observou o empenho e determinação dos responsáveis locais, pela prossecução deste roteiro e acabou inevitavelmente por seguir o caminho dos restantes monumentos.

              Fica aqui para a memória local, este conjunto de fotografias tiradas, como se referiu, em 1995.

publicado por José Pereira Malveiro às 22:04

02
Dez 19

          Quem é que não gosta de Açorda?
          Alentejana, claro.
          Com pão de trigo. Como é óbvio! 
          Porque o pão alentejano já está abastardado.
          Já com uns diazitos. Mas nada de paposecos ou pão de Mafra.
         E, com água do poço, fria, fresquinha, pesada com sabor ferrenho.
           Porque a da torneira sabe a cloro, a mofo e, e, e ...!
           Com azeite puro, do lagar, esverdeado, daqueles que teimosamente não escorre da garrafa.
           Porque o da loja está filtrado e parece óleo.
           Ah… e alhos da horta pisados, nada de espremedor de alhos ou de alhos secos em pó que vêm em canudos de plástico e é só borrifar.
            E, claro os coentros (não se enganem e ponham salsa), tal como os alhinhos, da horta, criados também com água do poço, de preferência ferrenha.
             E se não for pedir demais, os ovinhos, um para cada freguês se houver, se não houver esmaga-se um e provam o caldinho, também de galinha criada no campo a alimpaduras, minhocas ou farelos, (não lhes deem farinha industrial carregada de hormonas, senão estragam tudo).
              Não ponham cebola nem grão-de-bico senão sai uma açorda afrodisíaca. Pelo menos é o que diz o Tratado Árabe do Amor, O Jardim Perfumado.
               A normal pitada de sal grosso, porque o fino não sabe a sal, uma colher de aluminio e umas talhadas de toucinho frito e, e, … apanhá-las.
              Chamemos-lhe Açorda ou se quisermos impressionar os amigos chamemos-lhe Çorda, do Árabe Andaluz thorda, (não se esqueçam que o th em árabe lê-se ç e ponham o a como em azeite az-zayt, ou açucar as-sukkar).
              Comida sacra, as freiras e frades adoram-nas, principalmente depois do jejum.
               Comida de profetas, Maomé adorava-as. Não fosse afinal o seu bisavô que as inventou.
               Comida de reis, Afonso II adorava-as, (não há referências, mas era gordo).
              Comida para todos.
              Seja açorda cega ou rica, conforme os acompanhamentos.
              Está aí para durar.

publicado por José Pereira Malveiro às 22:41

21
Nov 19

O Cavalo na Quinta da Estação de Garvão

          Numa das paredes interiores que rodeiam “A Quinta”, na estação de Garvão, até há relativamente pouco tempo ainda se notava a pintura, em tamanho real, de um cavalo, (na parede à esquerda de quando se entra pelo portão, diante da ponte da Estação), e ás perguntas mais curiosas de quem o terá feito? a resposta era sempre a mesma, de que “foram os militares quando lá estiveram”, sem contudo precisar quais ou quando.
          Na memória da população, nos anos sessenta do século passado, não havia lembrança da presença de militares neste local, ou da permanência prolongada destes que se pudessem identificar com a referida pintura, pelo menos durante o século XX.
         O que se sabe, é que pelas lutas liberais do século XIX, o exército do Duque de Terceira, apoiante da causa liberal, depois do desembarque da expedição liberal em Cacela, no Algarve, em 24 de Junho de 1833, pernoitou em Garvão de 14 a 17 de Julho de 1833, na sua caminhada rumo a Lisboa a qual tomou em 24 de Julho de 1833, sem qualquer oposição, depois do Duque da Terceira ter desbaratado as tropas inimigas, comandadas pelo brigadeiro absolutista Telles Jordão, na margem esquerda do Tejo, no que ficou conhecido como os combates da Cova da Piedade e de Cacilhas.1

 

Destes consta que a Divisão Expedicionaria, tendo deixado completamente tranquilo o Algarve, sahira no dia 12 de S. Bartholomeu, viera pernoitar a S. Marcos, donde sahindo o dia 13 viera ficar a Stª Clara, e no dia 14 a Garvão. Neste ponto fez a junção com ella a Brigada de Artilharia que partira de Faro com esse destino, e no dia 17 partio o Duque para Messejana, donde datou os últimos despachos.2

        

        Sabe-se igualmente que antes da chegada a Garvão do Duque da Terceira,3 o comandante das tropas absolutistas, encarregado da defesa do Alentejo e Algarve, Visconde de Molelos,4 tinha ou teve por alguns dias, o seu quartel-general em Garvão.

 

No mesmo dia 3 de Julho vim no conhecimento de que o General Mollelos se tinha retirado por S. Martinho das Amoreiras até Gravão, onde convergem as estradas, que vem do Algarve por Almodovar e Ourique, e por Santa Clara, a ultima das quaes o inimigo tinha devastado na sua passagem com huma barbaridade verdadeiramente atroz.5

 

No dia 4 o Visconde de mollelos officiou do seu Quartel General em Garvão, pedindo quanto antes gente, dinheiro, e polvora, por quanto se achava só, cercado de rebeldes, e sem meios nenhuns para se defender.6

 

          Sabe-se assim que tanto as forças absolutistas do rei D. Miguel, como as forças liberais afectas a D. Pedro, durante alguns dias fizeram quartel em Garvão. Ficando esta “Quinta” junto à Estrada Real do Algarve, não nos poderá surpreender que pernoitassem neste lugar, pelo menos algumas forças mais importantes, protegidas pelos muros altos da “Quinta”, caso já existissem por esta altura.
         Quanto à pintura do cavalo, numa das paredes interiores da “Quinta”, teria o seu interesse em se tentar identificar a origem dessa pintura e a possível relação com estes militares e com este período conturbado da história portuguesa nesta parte do Alentejo.

 

1 - Joaquim Telles Jordão, brigadeiro absolutista, foi reconhecido como o odioso comandante da prisão de São Julião da Barra, lugar de detenção dos presos liberais. A forma violenta com que tratou os presos, com cruéis abusos e torturas, mereceram o repúdio e ódio dos liberais e foi morto a golpes de espada pelo coronel liberal Romão José Soares.

2 - Chronica constitucional do Porto, Volume 3. 1833. P. 101.

3 - Marechal António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, 7.º Conde de Juro e Herdade, 1.º Marquês de Vila Flor e 1.º Duque da Terceira.

4 - O Visconde de Molelos, recebeu o título de barão em 17 de dezembro de 1815. Secretário militar de D. Miguel, era governador do Algarve com a patente de marechal-de-campo quando se verificou o desembarque dos liberais em Cacela, a 24 de junho de 1833. Devido a um erro tático permitiu o seu avanço sobre Lisboa, onde entram a 24 de julho desse ano, o que se tornou fatal para a causa miguelista. Morreu na sua terra natal a 7 de dezembro de 1852.

5 - Chronica constitucional do Porto, Volume 3. 1833. P. 178.

6 - Chronica constitucional do Porto, Volume 3. 1833. P. 68.

 

publicado por José Pereira Malveiro às 07:05

17
Nov 19

As Grandes Vias da Lusitânia

          Mario Saa, escritor alentejano de Avis, nasceu em 1893 e faleceu em 1971, menciona na sua obra, As Grandes Vias da Lusitânia: O Itinerário de Antonino Pio, a vila de Garvão e as várias vias romanas que por aqui passavam.
          Obra publicada entre 1957-1967, em seis tomos O seu interesse pela arqueologia e a investigação que realizou sobre vias romanas deram origem à sua obra de maior importância, «As Grandes Vias da Lusitânia», em seis volumes, o produto de mais de 20 anos de investigações e prospecções arqueológicas que é, ainda hoje, uma obra de referência.
          Este itinerário, datável, muito provavelmente, do tempo do imperador Caracala (princípios do século III), tem servido de base ao estudo da rede viária da Península Ibérica; dado que muitos dos topónimos nele mencionados ainda não foram identificados com segurança, presta-se, por outro lado, a muitas conjecturas. Sobre a rede viária peninsular, cf., por exemplo, ROLDÁN HERVÁS 1975 e SMJERES 1990.(1) 
             Contudo a sua obra, segundo José D´Encarnação, parafraseando Jorge de Alarcão, «a ler com muita cautela».
            E também não foi complacente a apreciação feita aos seis volumes regularmente publicados por Mário Saa, em Lisboa, sob a designação genérica de As Grandes Vias da Lusitânia. Como o subtítulo — (O Itinerário de Antonino Pio) — dá a entender, os volumes são, por um lado, a tentativa de identificar topónimos mencionados naquele Itinerário e, por outro, o relato das viagens empreendidas pelo próprio Mário Saa. Na verdade, as identificações apontadas pelo autor são frequentemente desprovidas de qualquer fundamento; daí que, no seu Portugal Romano (Lisboa, 31983, p. 222), Jorge de Alarcão advirta, a propósito desta obra, «a 1er com muita cautela».
           Assim é, de facto. No entanto, teve um mérito o deambular de Mário Saa pela terra portuguesa: deparou, aqui e além, com ruínas, foram-lhe dando a conhecer coisas antigas, ofereceram-lhe mesmo algumas delas, outras ele próprio recolheu. E, hoje, a colecção que legou ao povo do Ervedal (concelho de Avis) e que se encontra exposta na sua casa (onde viria a falecer a 28 de Janeiro de 1971 e que está transformada em sede da Junta de Freguesia local) constitui interessante repositório a merecer estudo a par da leitura atenta das páginas da sua obra. É que as interpretações poderão, efectivamente, estar erradas, mas o contexto arqueológico em que as peças foram encontradas é bastas vezes anotado. (2)


Pág. 96
«Conforme a tradição, apareceram, em tempos, colunas miliárias em S.ª Margarida do Sado, denotando que por ali haviam passado vias militares romanas. Com efeito assim era. Irrompiam do lugar diversas vias: para Alvalade, rumo a Garvão; para Santiago do Cacém, Impereatoria Salacia; para Grândola, Malecaeca, rumo a Tróia (Caeciliana); para Alcácer do Sal, Miróbriga; para Évora; para Ferreira do Alentejo, rumo a Beja, Pax.»

 

Pág. 140
«Irradiavam de Salir importantes vias, como (…) A de Garvão, com destino a Santiago do Cacém.»

 

Pág. 194
«O traçado romano, e legionário, da Boca do Rio a Évora, por Garvão e Santa Margarida do Sado, foi em parte aproveitado, desde a Serra de Monchique a Garvão pela Estrada Real do Algarve a Lisboa. Para norte de Garvão o traçado da Estrada Real diverge do romano. Esta busca Alvalade, pela margem esquerda da ribeira de S. Romão, enquanto aquele, sobre a margem direita, vai tocando as localidades (…).»

 

Pág. 196
«A trajectória da Boca do Rio a Garvão, e de Garvão para Norte, é de excelentes condições viais. A natureza abrira este caminho. São magníficos os tabuleiros ou plainos das margens do Mira e as depressões e várzeas conduzintes a Garvão; como daqui para Norte as planícies das margens do Sado, com Alvalade, Santa Ana do Roxo, Ermidas, Santa Margarida do Sado, Caneiras do Roxo, Vila Nova da Baronia, Viana do Alentejo. O costumado documentário romano, em destruições de paredes, telharia, epígrafes, etc., ladeia o caminho e é como que o sinal da sua trajectória.»

 

Pág. 203
«Aranni (que não sabemos se a poderemos fazer coincidir com a céltica Arandis, de Ptolomeu, sendo prudente não o fazermos) chefiava vasto distrito que, em si, conta notáveis centrações de arqueologia romana, e pré-romana, como Messejana, Aljustrel, Rio de Moinhos, Alvalade, Vale de Santiago, castelo da Senhora da Cola, Ourique, Panoias, etc.»

 

Pág. 204-206
«O prosseguimento normal da estrada romana de Ossonoba a Salacia do Sado, fazia-se de Aranni (Garvão) acompanhando o Sado para jusante, por Alvalade e Ermidas, até Santa Margarida do Sado. Entretanto a via longitudinal era cortada transversalmente em Garvão, de Noroeste para Sueste, por outra via, a da Imperatoria Salacia a Esuri. A transversal apresenta a extensão, aproximada, de 50 km, das ruínas romanas do Castelo Velho, em Santiago do Cacém, a Garvão.
Sai do Castelo Velho rumando ao Sueste, através da Chã Salgada, tangencialmente ao que resta do recinto dos jogos circenses da urbe Imperatória. Os 28 km da urbe à ribeira de Campilhas tangem os «talefes», ou sinais geodésicos, de Pocilgais, Vale de Água e Ameijoafa. Campilhas corre de Sudoeste a Nordeste, intercepta o caminho romano e, em Alvalade entra no Sado, de que é o principal afluente, da margem direita.
As suas copiosas águas são modernamente aproveitadas por barragem nacional, a do Pego Longo, no Cercal. Muitas antiguidades romanas têm sido encontradas nesta área, à travessia da ribeira de Campilhas pela estrada do Castelo Velho a Garvão. Imperatória, notável urbe do distrito salaciense, pertencia ao número dos «oppida» turdetanos do Alentejo. Avia romana para Aranni era das mais concorridas de então. Sobre ela, e a menos de «mil passos» das ruínas, erguia-se, na contigua planície da Chã Salgada, o grandioso «circus», com a respectiva «spnina», de que atrás falámos e de que há restos.»

 

Pág. 228 e 229
«A distância, de XXXII milia passuum, de Aranni à imediata mansão, mostra-se exata entre o castelo de Garvão e Santa Margarida do Sado – por Alvalade, Santa Ana do Roxo e Ermida. Em Alvalade, a estrada, até aí acompanhando a ribeira de S. Romão, por sua margem esquerda, passa à margem direita, sulcando as planícies marginais.»

Pág. 232 e 233.
«A via de Antonino, a partir de Garvão, com destino ao Norte, a Salacia-Serapia, vai transpor a ribeira em Alvalade, notável centração romana com muitas facilidades viais e excelentes travessias fluviais. Alvalade era o funil do transito geral, dos sectores setentrionais para os meridionais. O lugar em si, e no seu contorno, é impregnado de demonstrações de colonização romana, de que alguma coisa figura no excelente museu municipal de Santiago do Cacém, a que Alvalade pertence.
Os achados nas circunvizinhanças desta vila mostram-se, sobretudo, em Ameira (2 km ao noroeste da vila, sobre a ribeira de Campilhas) e nas herdades e montes de Metade, Conqueiros, Corredoura e Gáspeas, localidades a sueste, sobre a ribeira de S. Romão, dum e doutro lado dela, nas distâncias de 2 a 4 km de Alvalade. Os vaus da ribeira de s. Romão, em Alvalade, são o Porto de Beja e, a jusante, o Porto dos Coitos, este situado na estrada romana, do nosso intento. Sulca, desde Garvão, a borda ocidental da ribeira, em um lanço de 30 km até ao Porto dos Coitos, situado a 1 km a norte de Alvalade.
Corre pelos lugares de Funcheira de Baixo, Monte Ruivo, marcação geodésica de Adobos, Vale de Romeira, Boizana. Passa defronte da ermida de S. Romão de Panoias, de Monte Alto e da torre Vã. Em comunhão com o traçado do caminho de ferro vai continuando para Norte, pela mesma borda da ribeira, por Defesa, Retorta, Valmargem, Gáspeas, Corredoura (este o nome que outrora era dado às grandes vias militares), e, enfim, Figueiras, defronte dos arqueológicos lugares de Conqueiros e Metade. Preforma a vila de Alvalade a sua principal artéria.
A estrada continua acompanhando a ribeira pela margem direita, até Santa Margarida do Sado, em lanço de 20 km, o qual se faz por Coitos, Sobral do Meio Dia, Santa Ana do Roxo – onde a estrada real de Santiago do Cacém a Beja atravessa, em excelente porto, ou vau, a ribeira do Sado. Ao depois, tangente à foz da ribeira do roxo, vai à aldeia de Ermidas, corta a ribeira da Figueira, em Algeda ou em Porto de Mouro, e, por Moinho da Volta e marcações geodésicas de Atalaia e Garcia Menino (por dentro da curva do Sado) atinge o local do santuário Serápis.
O Castelinho de Algeda, no Sado, defronte da foz da ribeira da Lageda, ou da Figueira, de época que procedeu o domínio romano, dá sinais de haver sido o local de travessia, na estrada mais antiga da Imp. Salacia à Salacia Serapía. Esta estrada irrompe do Castelo Velho, em Santiago do Cacém. Vinha de Abela, depois ao Castelo Velho do Louzal e daqui ao Castelinho da Algeda, onde passava ao outro lado do rio, para Santa Margarida do Sado, aqui entroncando em diversas vias, entre elas a que nos propomos seguir, até Évora. Os 50 km contados de Garvão a Santa Margarida são os mpm XXXII, do Itinerário latino, entre Aranni e o «serapeu» de Salacia.»
«Uma antiga Estrada do Algarve, de Norte para sul, pela margem esquerda do Sado, transpunha o rio em Alcácer do Sal depois do que seguia por Valverde e Charneca, sempre a leste e a par da E. N. N.º 120. Aproximava-se de Grândola; Canal; Mina da Caveira – cujo minério, na época romana, afluía a Santa Margarida do Sado onde, em parte, era tratado, como mostra o seu escorial, e em parte seguia em embarcações. Ao depois da Mina da Caveira: Brunheira, Loizal Novo, marcos geodésicos de Faleiros e Cartaxo, Mal Assentada, Balça, Ameira, onde passava a ribeira de Campilhas; Alvalade.

De todos os modos, Garvão, era lugar obrigatório de convergência.»

 

(1) José D´Encarnação, Universidade de Coimbra, A Colecção Epigráfica De Mário Saa No Ervedal. HVMANITAS — Vol. XLVII (1995). P. 629.

(2) Idem p. Idem, p. 629, 630.

publicado por José Pereira Malveiro às 22:36

23
Out 19

Mário Varela Gomes
O Oriente no Ocidente. Testemunhos iconográficos na Proto-história do Sul de Portugal: smiting gods ou deuses ameaçadores.

      O desenvolvimento socioeconómico e cultural das populações que, sucessivamente, ocuparam o território a que hoje corresponde o Alentejo e o Algarve, beneficiou de intensos contactos com o Oriente, maioritariamente através do Mediterrâneo. De facto, tanto o processo lento de neolitização desta área ocidental da Europa, como inovações tecnológicas (arado, roda e carro) ou religiosas, detectadas naquela região durante o Neolítico final, como novas formas e soluções arquitectónicas, de índole militar e ritual, a tecnologia calcolítica da exploração e fundição do cobre ou, posteriormente, do bronze e do ferro, devem-se a estímulos provindos do Mediterrâneo Oriental.
        Nos últimos séculos do II milénio a.C., sucessivos influxos étnicos e culturais extrapirenaicos, de fi liação indo-europeia e resultantes dos grandes movimentos populacionais registrados sobretudo no Sul da Alemanha e na bacia danubiana dão origem a um panorama cultural inovador e à Proto-história peninsular.
          No Sudoeste Hispânico estes contributos, que oferecem ao nível do acervo material artefactos relacionáveis com os do Hallstatt A e B centro-europeu e do Sul da França (espadas pistiliformes de bronze, cerâmicas penteadas, incisas e excisas), irão misceginarem-se não só com as culturas autóctones (Bronze do Sudoeste) como receber as contribuições trazidas pelos mercadores orientais, nomeadamente fenícios e antes, mesmo, de ali fundarem as suas feitorias.
           Também as influências culturais provindas por via continental, através da bacia do Ebro e da Meseta, não se encontravam isentas de aspectos orientalizantes. Estes detectam-se nas armas e em outros artefactos de prestígio, produzidos em diferentes áreas do Mediterrâneo Oriental, designadamente nos discutidos escudos redondos com escotadura em V, tal como nos capacetes de cornos ou nos carros de combate bem representados nas estelas decoradas, de «tipo estremenho», da Idade do Bronze final, melhor conhecidas na Meseta e na Estremadura, e, ainda, em peças de ourivesaria. Um conjunto de trinta e cinco contas de pasta vítrea, de forma anular, elipsoidal ou cilíndrica, translúcidas, com cor amarela, castanha ou azul, recolhidas na necrópole da Idade do Bronze da Atalaia (Ourique), de provável manufactura egípcia ou milénica, são não só os mais antigos objectos de vidro conhecidos em Portugal como a sua presença testemunha significativas trocas comerciais, devidas à riqueza mineira da região, com os prospectores e comerciantes de metais originários do Mediterrâneo Oriental, em torno à segunda metade do II milénio a.C.
           O desenvolvimento dos contactos entre as populações do Sul de Portugal e as diferentes áreas do Próximo Oriente culmina, por um lado, com a fixação de entrepostos comerciais fenícios, como as instalações e os materiais descobertos em Castro Marim, Rocha Branca (Silves), Monte Molião (Lagos) e Alcácer do Sal permitem supor, e, por outro, com a implantação, naquela área, da I Idade do Ferro do Sudoeste; Surto civilizacional com origem exógena, que floresceu entre os séculos VIII e VI a.C., sob influência do legendário reino de Tartessos. Esta população, tida como pré-indo-europeia e que as fontes clássicas identificaram com os cónios, viviam em pequenos povoados abertos do tipo dos actuais «montes» alentejanos, devendo integrarem-se num sistema económico-social emergente da Idade do Bronze final, do tipo das chefaturas, administrativamente centralizado em cidades onde residia o poder político e militar.
        As casas mostravam a base das paredes construídas com pedra, argamassadas com barro, e a parte superior de taipa e adobes, com travejamentos de madeira, sendo, talvez, cobertas de colmo; processos construtivos comuns a todo o Mediterrâneo mas que encontram protótipos mais recuados na Ásia Menor, na Palestina e no Egipto.
            As necrópoles, sempre perto dos povoados, são formadas por conjuntos de túmulos de pedra, de planta circular (os mais antigos) ou rectangular, por vezes rodeados por muretes e degraus, cobrindo as fossas onde se inumavam os cadáveres ou, mais raramente, se recolhiam as cinzas das incenerações.
           As oferendas funerárias são ricas (fi g. 1), tendo-se descoberto verdadeiros tesouros (Gaio, Fonte Santa), que incluíam objectos de adorno, de ouro, de prata e bronze, contas e pendentes de pasta vítrea, de resina e de pedras semipreciosas, assim como escaravelhos, pulseiras, xorcas, anéis, armas de ferro (folhas e contos de lança e dardo, facas) e cerâmicas (formas carenadas, fabricadas sem roda, ânforas fenícias e massaliotas, taças e pratos de verniz vermelho fenício, cerâmicas cinzentas e peças coroplásticas). Um vaso em forma de prótomo de touro e outras pequenas peças zoomórficas denunciam-nos influências do mundo egeu e próximo-oriental, assim como das estruturas mítico-religiosas ali encontradas, associando os atributos de divindades agrárias e fecundantes (touro e pombas) com outros de carácter funerário ou infernal (cisne, felino) (fi g. 2).
             O mais importante elemento de caracterização é, sem dúvida, o conjunto de estelas epigrafadas encontradas nas suas necrópoles, conhecendo-se hoje cerca de setenta exemplares.
              Esta escrita, de estrutura alfabética, é a mais antiga da Península e uma das mais recuadas do Ocidente Europeu. Originária do Leste do Mediterrâneo, encontra paralelos nas escritas minorasiáticas da Lídia, Licínia, Cária e Fríngia, no grego arcaico (eídio e jónio) e no etrusco, revelando uma raiz comum no modelo semítico da Síria do Norte. A I Idade do Ferro do Sudoeste é, assim, responsável pela introdução de três importantes inovações culturais: a redução do ferro a cerâmica fabricada ao torno rápido e a escrita.
          No século V a.C. e nos inícios do século seguinte, profundas transformações culturais, sobretudo mesetanha, criam a II Idade do Ferro, sem escrita, e um novo equilíbrio territorial e socioeconómico, reduzindo-se os contactos com o Mediterrâneo Oriental, subsequentemente reactivados com o comércio púnico, que, a partir dos finais do século IV, se implantará, quiçá, de forma exclusiva, naquela região. Estas populações praticam o ritual da incineração, recolhendo as cinzas e os fragmentos ósseos dos seus mortos em urnas que enterram, por vezes na periferia das necrópoles da I Idade do Ferro (Fonte Santa, Abóbada, Fonte Velha), acompanhadas por armas de ferro, elementos de adorno e outros objectos (facas, fíbulas, cossoiros, etc…).
          A sua instalação está bem documentada em grandes povoados fortificados do Sul de Portugal (Alcácer do Sal, Miróbriga, Cabeço de Vaiamonte, Mesa dos Castelinhos), assim como no grande santuário que um enorme depósito votivo secundário, indica ter existido em Garvão (Ourique). Neste local prestava-se o culto a uma divindade feminina do tipo da Tanit cartaginesa, senhora da luz, da felicidade, mas também da morte e da regeneração a quem se ofereciam ex-votos, alguns anatómicos, de ouro e prata, além de peças coroplásticas e grande quantidade de recipientes com diversas formas e funções. A partir do século III a.C. até à romanização, o Sul de Portugal será dominado pela influência económico-política cartaginesa e pela rica cultura ibérica da região levantina da Península (Beirão,1986; Beirão e Gomes, 1980; 1983; 1984; 1988; Beirão, Silva, Soares, Gomes e Gomes, 1985;1987; Gomes, 1983a; 1986; 1986a; Gomes e Gomes, Beirão e Matos, 1986).

 

Gomes, M. V. — O Oriente no Ocidente. Testemunhos iconográficos na Proto-história do Sul de Portugal. Revista ICALP, vol. 22 e 23, Dezembro de 1990 / Março de 1991, 125-177.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:41

07
Out 19

Garvão Serro do castelo2.jpg

          Segundo Ana Margarida Arruda, o Cerro do Castelo de Garvão, apresentava-se, como o povoado central de pequenos aglomerados ou habitats limítrofes. A existência do seu santuário, cujo Depósito Votivo, posto a descoberto, aponta para um local de culto de grandes dimensões, sinónimo da sua importância e predominância na região, leva a crer que o Cerro do Castelo de Garvão seria o local onde se centravam os mecanismos de controlo, não só religiosos, mas, também, de coesão social e económica dos grupos circundantes.
          A sua supremacia, conjugando uma potencial riqueza agrícola com o acesso, sem intermediários, aos metais, estender-se-ia aos povoados limítrofes. De facto o Cerro do Castelo de Garvão, situado entre a peneplanície, do rio Sado, a Norte, rica em solos agrícolas, e a região Sul, associada ao rio Mira, rica em metais, permitiu uma superioridade económica e estratégica conduzindo-a a uma afirmação como centro religioso-político-económico da região.
         As sondagens arqueológicas efectuadas, forneceram materiais cerâmicos com a decoração denominada “retícula brunida”, própria do Bronze Final.

          O modelo de subordinação revelar-se-ia também verosímil no caso de se considerar que a importância que o Cerro do Castelo de Garvão detém na II Idade do Ferro só podia ter tido origem numa presença imediatamente anterior. Sendo frequentes as informações sobre a sua ocupação durante o Bronze Final (Beirão et al., 1985, 1987), não é de facto de desprezar a hipótese de o sítio ter estado ocupado durante a I Idade do Ferro.
         Neste caso, o Cerro do Castelo de Garvão apresentava-se, de facto, como um potencial “Lugar central”. A sua supremacia, conjugando uma potencial riqueza agrícola com o acesso, sem intermediários, aos metais, estender-se-ia ao povoado de Arzil e a sua superioridade económica e estratégica conduziria à sua afirmação como centro político-económico, pelo menos à micro-escala local.
         Esta situação parece indubitável, durante a II Idade do Ferro, onde na sua área de influência directa podemos colocar, nesse momento, os povoados de Ilha Grande e Fonte Santa, algo mais distantes, localizados na área das ribeiras do Sado. É inquestionável que a existência do seu santuário, certamente de grandes dimensões, o que indica a sua importância, permite afirmar que o Cerro do Castelo de Garvão era o local onde se controlavam os mecanismos de coesão social e económica de grupos gentilícios ou supra-gentilícios (Correia, 1996b), durante a segunda metade do I milénio a.C. (1)

         Deve salientar-se que se em alguns casos os povoados se implantam em locais nunca até então ocupados, em outros verifica-se uma instalação directa sobre os níveis do Bronze final, como parece ocorrer no Cerro do Castelo de Garvão, por exemplo. A primeira situação, aparentemente mais frequente, estará demonstrada em vários sítios do Alentejo Central e do Baixo Alentejo, concretamente na área urbana de Beja, nas Mesas do Castelinho, no Castelo Velho do Degebe e nos sítios intervencionados por Manuel Calado e Leonor Rocha, nos concelhos do Alandroal e Borba, concretamente o Castelo Velho, a Rocha da Mina e o Castelão (Calado e Rocha, 1997). (2)

 

1 Ana Margarida Arruda. A Idade do Ferro pós-orientalizante no Baixo Alentejo. Revista Portuguesa de Arqueologia. volume 4, número 2, 2001, pag.238

2  Idem. P. 287

publicado por José Pereira Malveiro às 21:08

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