26
Fev 21

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IGREJA DE SÃO BARÃO

 

A Igreja de São Barão é um antigo local de peregrinação, seguido de extenso arrail que juntava as populações das terras e montes vizinhos, até praticamente a meio do século XX. Tendo indo perdendo pogressivamente afluência a partir daí. com um total desconhecimento das gerações actuais. Sáo Barão, (ou mesmo Varão), tem a particularidade de não fazer parte do panteão católico. A sua origem terá de se procurar noutras culturas que marcaram a paisagem alentejana, conjuntamente com outros santos e santas não reconhecidos pela igreja católica e que se encontram amiúde nestas terras alentejanas.

Excerto do livro SUL e SUESTE da autoria de Joaquim da Costa, natural de Garvão, publicado em 1940, sobre a Igreja e festa do São Barão, situada na Estrada do Saraiva, na confluência da freguesia de Ourique com a freguesia de São Martinho das Amoreiras.

             

             Sôbre alta lomba que, por esses tempos, uma vegetação rasteira - a esteva, o rosmaninho, a urze e o tojo – cobria, em plena serra, num lugar quási inacessível a veículos, ergue-se a branca ermida de S. Barão.

            Lugar aprazível dum pitoresco abrupto. Em volta, cerros mais altos, de cujas pregas irrompem, filhos do mesmo seio ressequido da terra atormentada, os sobreiros, os chaparros e os penhascos. Em baixo, num leito cheio de pedregulhos e ladeado de ravinas e trincheiras que mostram, como ossaturas esburgadas, raízes de árvores que o vento arrancou e rochedos quási a despenhar-se, corre um ribeiro.


Païsagem áspera, bravia, de serra alentejana. Plena serra do Caldeirão...

Do alto dêstes cêrros que circundam S. Barão, em tardes de perfeita visibilidade, que belo e variado panorama se disfruta!

Olhando para os lados de Beja, e abarcando toda essa imensidade, a vista prende-se nesse panorâma raro de serra e de planície. Até Garvão e mesmo um pouco além dessa antiqüíssima vila, as lombas sucedem-se cada vez mais pequenas e mais redondas... Depois, a planície rasa estende-se até aos barros de Beja como pista imensa, sem obstáculos..

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Se olharmos, depois, em sentido contrário, para os lados do vizinho Algarve, vê-se que as as lombas avançam, sempre maiores, e vão formando cordilheiras até que, a distância, em linhas Irregulares, barram o horizonte. Mais longe, para a esquerda, por cima destas serranias, tocada de uma névoa ténue, azulada, lembrando cetáceo monstruoso repousando, ergue-se a serra de Monchique, a serra maior do Sul...

 

Todos os anos, pela Primavera, quando a esteva mostra a branca flor de cális amarelo, êstes lugares solitários e pitorescos de S. Barão, rnoradias próprias de águias e de lobos, se animam com a presença de gente que vem de muitas léguas de terras em redor, dos casais da serra e dos montes da planície, desejosa, muito mais, verdade se diga, de provar a boa pinga que ali se vende em pipas colocadas sobre os carros alentejanos e que ramos verdes de salgueiros encobrem, e de se divertir em bailaricos e descantes, que de render homenagens, acompanhadas de oferendas ao Senhor S. Barão, que em tempos de viva crença, tão distantes, foi venerado e tido como obreiro de altos milagres.


          Logo na madrugada do dia de festa, serrenhos e campaniços ali afluem, e é de ouvir no ar fresco do dealbar, o alegre rumor das guizeiras dos carros que, por carreteiras estreitas, avançam nas ladeiras ingremes, rodeando precipícios, a caminho de S.Barão.

            Serrenhas de chaile e lenço de vivas cores, montadas em mulas ou barricos que trepam os cêrros por veredas de cabras, trazem animação e arruído à romaria.
Nas subidas e descidas, qualquer mocinha da serra se agüenta bem, segurando-se com firmeza, mão direita na rabicha da albarda, a esquerda esticando a arreata, não vá o brutinho que monta, num tropeço, deitar com ela no fundo de algum abismo onde a morte espreita.


          As albardas e albardões em que estas belas raparigas da serra se firmam, ostentam, em dias de festa, certos cobertores de côr azul de um belo efeito decorativo.

Ah! montar gorda mula, ou burrico rijo, sôbre albardão engalanado, mostrando cobertor que faça vista, chame a atenção das gentes nas romarias, é um vivo prazer de corpo e de alma para as moçoilas da serra!


            S.Barâo! Dia de festa nas alturas!

Surge gente de todos os lados, com fatos de «ver-a-Deus» e lavradores e lavradoras, serrenhos e serrenhas, pobres e ricos, ali se divertem nos bailaricos e se dessedentam no acidulado carrascão vendido a copo junto dos carros com pipas enramadas.

Ao som do harmónium, concertina, ou gaita de beiços, não se faz questão de toque, tudo baila, minha gente!

Para as bandas da tarde, nas barracas de «comes e bebes», onde cheira a massa frita com bacalhau, começam os cantares a despique, ao som do arrastado dlim -dlam -dlum da vióla portuguesa quer dedilhada pelo cèguinho de S. Martinho, tocador e cantador de fama, chega a lembrar toque de harpa...

 

Conhecem-se pessoas dos arredores que, há mais de trinta anos são devotos de S.Barão, não própriamente do santo, valha a verdade, não da festa na ermida, mas verdade, verdadinha, daquela alegria das gentes, do arruído, dos petiscos, da rica pinga que espuma no copo e pica na língua, da pândega entre serras, da festa dionisíaca, pagã... Ali vereis, todos os anos, o Salustiano de S. Martinho, que sabe como poucos imaginar e contar uma anedocta, e no canto a despique, quando lhe dá para isso, leva de vencida qualquer parceiro, por muito destro que seja; ali vereis o Marguilho de Garvão, com o seu cachimbo a deitar fumo que nem locomotiva trepando a serra, o Marguilho, bom camarada em romarias. amigo do seu amigo, mas sem ficar a ganhar nada ao Salustiano, que é menos hábil todavia no derrubar das perdizes em pleno voo.


          Caras conhecidas a amigas de Garvão, S. Martinho, Colos, Ourique, dos rnontes da planície e dos casais da serra, ali se divertem, que tristezas não pagam dividas e a vida são dois dias...

publicado por José Pereira Malveiro às 20:21

15
Fev 21

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Na Travessa do Álamo

Numa das artérias da vila, mais precisamente na Travessa do Álamo, pode-se observar uma coluna de mármore, vulgarmente conhecida por “Coluna Romana”, sem, contudo, devido à falta da respectiva investigação, se possa claramente identificar a sua antiguidade, proveniência ou utilização.

O seu aspecto, semelhante às clássicas colunas dos templos antigos, remete-nos, embora com as devidas cautelas, para o período da ocupação romana ou mesmo anterior. Se a monumentalidade romana se expressava em edifícios imponentes, onde se destacam as colunas como símbolo de importância, solidez, grandiosidade e poder, também é certo que já em civilizações anteriores se assistia à edificação de monumentos com colunas desta natureza.

Os parâmetros temporais para a utilização destas colunas, na vila de Garvão, limitam-nos para o período imediatamente antecedente à ocupação romana, à própria romanização ou para uma época posterior.

Limitando esta pesquisa ao período romano e anterior, temos para o período romano os diversos achados e vestígios encontrados na freguesia, destacando-se um busto marmóreo descrito por José Leite de Vasconcelos em 1908 e uma Estela funerária Romana estudada por Mário e Rosa Varela Gomes em 1984, entre outros vestígios e achados que proliferam na freguesia e que atestam a presença Romana, esta coluna poderia vir de algum templo ou edifício, desta época, ainda não descoberto.

Em relação ao período pré-romano a utilização de colunas do género da estudada, poderia ter feito parte do templo da idade do ferro, cuja localização ainda é desconhecida,[1] mas que se conhece a sua existência pela descoberta do Depósito Votivo, onde as oferendas eram depositadas.  

Esta coluna foi trazida, da ribeira junto à ponte da Estação de Garvão, onde foi achada, para o local onde se encontra, nos anos quarenta do século XX, por populares da vila.

 

[1] Sobre a localização deste templo, existe a cerca de 50 metros do Depósito Votivo e ao mesmo nível topográfico, uma estrutura, mociça, de construção pétrea, elevada a cerca de 2.50 metros do solo, com cerca de 6 metros de comprimento por 3 metros de largura, com escadaria frontal à largura da edificação.    

publicado por José Pereira Malveiro às 14:00

13
Fev 21

 

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Fundação do Depósito Votivo de Garvão

 

Em Garvão, distrito de Beja. A pesquisa arqueológica, desenvolvida na década de 80 do século XX , indica que a primitiva ocupação humana remonta, pelo menos, ao Bronze Final.

No «Cerro do Castelo», uma elevação no interior da própria vila, detetou-se, em 1982, na sua zona central, uma fossa, coberta por lajes de xisto, dentro da qual se encontrava um crânio humano, separado do respetivo esqueleto e com indícios de trepanação.

Estava associado a alguns ossos de animais, bem como a um grande conjunto de cerâmicas pisadas, ao que parece, propositadamente; «talvez os últimos restos de um ritual de sacralização, ou de fundação do depósito, anterior à deposição dos objetos votivos», datado da segunda metade do século  III a. C. Ainda na opinião de alguns autores, todo o espólio encontrado poderá implicar a existência de um eventual ritual de libação sacralizadora, relacionado com um sacrifício humano [...] O crânio localizado na base do depósito pertenceu a uma mulher [...] A morte foi-lhe provocada por três golpes desferidos na zona occipital e parietal por um instrumento contundente, pesado, dotado de um gume curvo pouco penetrante, que incidiu obliquamente sobre a cabeça da vítima [...] a vítima encontrar-se-ia deitada em decúbito ventral, quando lhe foram desferidos sucessivamente três golpes. Qualquer um deles seria o suficiente para lhe provocar a morte [...]. A morfologia das lesões sugere que o instrumento utilizado terá sido um machado de pedra polida de que, aliás, se recolheu um exemplar no depósito. O crânio foi então separado do corpo; a forma como isso se deu e o espaço de tempo que mediou entre este facto e a deposição do crânio como elemento ritual na criação do depósito votivo são, no entanto, indetermináveis [...]. Parece certo que, no topo do Cerro do Castelo de Garvão, existiu o santuário a que o depósito secundário corresponde.

Partindo deste exemplo de Garvão, vamos agora examinar quanto as dádivas funerárias ou objetos votivos nos podem também ajudar a fortalecer a hipótese da existência de um culto das cabeças, desde longa data.

Este sítio ter-se-á revestido de uma considerável importância, uma vez que foi reutilizado ao longo dos tempos, chegando ao período romano, como o atesta a presença de duas colunas de mármore de um possível templo dessa época, recolhidas na própria vila de Garvão.

O considerável conjunto de recipientes cerâmicos constituintes de um possível depósito secundário de peças votivas, os inúmeros artefactos pertencentes ao domínio do sagrado, como seriam os ídolos de cornos e os ídolos falange, ajudam-nos a tecer algumas considerações e a incluir este achado dentro da tradição cultual céltica.

Sem esquecer, contudo, que, nas suas datações mais recentes, são já bem visíveis outros sincretismos com tradições especificamente mediterrânicas. Todo o depósito de Garvão continha uma enorme variedade de cerâmicas, objetos de oiro, prata e bronze, cornalinas e vidros, cuidadosamente arrumados, numa vontade aparente de organização do espaço disponível.

O santuário faria parte de um povoado de origem antiga e de longa sobrevivência, e a grande acumulação de ex-votos indicia um ritual público, muito concorrido pela população das regiões circundantes.

Nas suas fases mais tardias, nas sociedades já fortemente hierarquizadas da Idade do Ferro peninsular, os atos de carácter religioso terão sido, tal como os mitos e os seus rituais em épocas paleolíticas, um modo de coesão e de agregação social, e este santuário, «certamente incluído numa mais complexa estrutura com finalidade religiosa», parece ser um dos locais paradigmáticos e demonstrativos de tal contexto organizacional.

A natureza dos objetos encontrados neste sítio arqueológico mostra igualmente que estamos numa época de forte desenvolvimento comercial entre o Ocidente e o Oriente, havendo indícios claros das componentes civilizacionais da chamada civilização tartéssica, da fenícia ou da grega. No entanto, isso não exclui a base étnico-cultural céltica a que pertenceriam estas populações, que naturalmente adotariam não só o que teria significados semelhantes, como o que lhe era exótico, até por uma questão de prestígio social, no que toca aos grupos de elite.

Mas esta componente céltica é reconhecida unanimemente pelos historiadores, mesmo por parte daqueles que continuam a manter a ideia de invasões ou migrações desses povos para a Península apenas no século  VII ou  VI a. C. Garvão poderá inserir-se, por um lado e pelo que reflete de mais tardio, no culto das cabeças cortadas em contexto guerreiro e, por outro, dentro do culto das cabeças inserido em rituais fundacionais e de soberania.

Quanto ao primeiro contexto, as características e a presença de certos ex-votos podem refletir o que afirmámos no início deste trabalho sobre a existência, também em Portugal, dessa segunda fase evolutiva do culto das cabeças e a sua correspondente importância na afirmação do poder, nessas sociedades da Proto-História. Aliás, já em textos clássicos, como o de Diodoro Sículo (Biblioteca Histórica, XIII, 57, 2), se diz que os soldados hispânicos nos exércitos cartagineses cortavam as cabeças do inimigo, pendurando-as nas suas lanças. E o mesmo parece estar refletido nos desenhos da lúnula de prata (século II a. C.) de Chão de Lamas (Miranda do Corvo, Coimbra). Nesta, no centro e dentro de um círculo trançado, vêem-se duas cabeças decepadas, exibindo uma coroa de folhas e associadas a uma pátera, lanças e punhais.

Ao redor da lúnula, estão representados javalis e pássaros – alusões às deusas de guerra célticas, com formas de pássaro? –, alternando com serpentiformes, motivos recorrentes e de larga diacronia, mostrando claramente o entrelaçar da simbologia mais antiga com a mais recente. Por outro lado, vemos Estrabão afirmar que, entre as tribos lusitanas, «muitas vezes também cortam a mão direita aos cativos e as oferecem aos deuses», o que nos recorda o herói irlandês Cu Chulainn, a quem decapitaram e cortaram a mão direita.

Parece, com efeito, não haver dúvida de que em Garvão se efetuou um sacrifício humano, prática dada como certa entre os povos do Ocidente peninsular da Proto-História, descrita por escritores como Tito Lívio, Plutarco, Estrabão ou Diodoro de Sículo. Estas descrições referem-na ainda como havendo uma «aparente associação de homens e cavalos num contexto ritual eminentemente guerreiro e a importância da dimensão divinatória do sacrifício de vítimas humanas». A respeito desta associação mencionada pela investigadora Maria João Santos, um dos elementos encontrado neste depósito é precisamente a estatueta de cerâmica de um cavalo. Curiosamente, não tem cabeça. Porém, a razão desse facto infelizmente não é concludente, pois pode ter sido acidental.

Mas também se encontrou, isolado, um prótomo de cavalo de cerâmica, possível parte de um recipiente. Mas a autora acima citada, para além de nos dar exemplos dessa associação no mundo indo-europeu, relacionados com sacrifícios humanos de carácter guerreiro, lembra-nos também a tradição céltica existente no Ulster referente ao ritual de consagração real, ou ritual de fundação de um novo reinado, expresso na cópula ou na ingestão de um animal sagrado, como é, entre outros, o caso do cavalo. Um aspecto que merece sem dúvida atenção é o facto de que, na tradição indo-europeia, as festas destinadas às divindades guerreiras se celebrarem habitualmente no solstício de Inverno [...] O sacrifício do cavalo que parece protagonizar estes ritos, sempre relacionados com a figura do rei, assume particular importância, sendo destinado à renovação das forças em declive do monarca no final do ano[...].

Forças essas que estão em consonância com os movimentos cíclicos da natureza,  comandados  pela  Terra-Mãe, transfigurada nas épocas pré-históricas mais recentes nas várias versões das deusas-mães e das deusas da soberania. E, como bem recorda Maria João Santos, na Península Ibérica, este tema subsiste «nas correrias de jovens mascarados realizadas ainda hoje nas festas de Inverno e de Ano Novo do Norte de Portugal». Mencionem-se a Festa dos Rapazes ou a Serração da Velha, em Trás-os-Montes, em que alguns rapazes envergam, ritualmente, trajos femininos (a filandorra – fiadeira – e as madamas) e ostentam máscaras, com uma iconografia animal sugestiva, como uma serpente esculpida no rosto.

É deste modo que esta cabeça de Garvão, ao que tudo indica deliberada e ritualmente cortada, poderá atestar um segundo contexto: o contexto de ritual de fundação, semelhante ao verificado anteriormente com as cabeças de auroque, um par de milénios antes, em possível homenagem a um deus masculino ainda não antropomorfizado, conotado com a energia vital deste animal. Mas os múltiplos restos animais e os vários tipos e formas de cerâmica serão também indicativos dessas refeições e libações rituais que poderiam decorrer, talvez, ciclicamente, como as cerimónias solsticiais, tanto no interior do santuário – para alguns, supostamente os membros da elite sacerdotal e/ou guerreira – como no exterior, para a demais população. E não falta, entre o espólio, um pequeno címbalo de prata, alusivo à realização de práticas musicais, próprias dos banquetes cerimoniais. Em articulação com estas várias facetas, e relembrando os rituais célticos da união – sexual ou através da ingestão de um animal sagrado – entre o rei e a deusa da soberania para legitimação do poder real, parece-nos estar o facto de, neste santuário de Garvão, a cabeça ser a de uma mulher e de haver uma presença marcante de objetos votivos representando a forma feminina.

Disso são exemplo certas estatuetas e peque nas cabeças toucadas ou com penteados atribuídos ao feminino, chegando uma delas a ser conotada com uma divindade indígena, semelhante à Tanit fenícia/cartaginesa ou a Deméter, à maneira do sincretismo religioso já mencionado.

Estes são, certamente, alguns dos sinais possíveis do pensamento mítico céltico acerca do poder da terra e da produção – o terceiro poder, segundo Dumézil –, que residiriam na mulher/rainha, personificação da deusa da soberania.

Outros achados conjugam-se bem com esta interpretação: são múltiplas as placas oculadas, de oiro ou prata, indicando a popularização e a continuação de mitos e práticas cujas origens podem remontar aos vasos e aos «ídolos oculados» do Neolítico, comummente aceites como sendo representações da deusa-mãe, tema a mencionar a seguir. E podemos relacioná-los com outros, muito semelhantes, encontrados em França em Source des Roches à Chamalières (Clermont-Ferrand) ou em Source de la Seine, na Borgonha.

Neste, encontrou-se um vaso dedicado à deusa Sequana, deusa cujo paralelismo com essoutra deusa céltica da soberania, Brigite, foi já referido. Essas peças, devendo reflectir igualmente o resultado de curas, especialmente de carácter oftalmológico, acontecidos por intervenção divina, mostram-nos o possível carácter profiláctico do lugar; mas mostram também a continuidade das crenças que vão prolongar-se pelos tempos cristianizados e chegar até hoje, sempre consubstanciados numa personagem feminina, a divindade, por excelência, da fertilidade, da regeneração e da cura. Dessa cristianização será exemplo Santa Luzia, a quem ainda hoje, bem perto de Garvão, se oferecem ex-votos constituídos por placas oculadas de prata, culto aliás muito difundido também na Andaluzia; emblemática é, igualmente, a sua veneração no Santuário de Santa Luzia, em Viana do Castelo e no Minho.

 

In: Gabriela Morais, (com a colaboração de Fernanda Frazão), Contributos Portugueses Para O Estudo Do Culto Das Cabeças. 1ª ed. - Lisboa : Apenas Liv

publicado por José Pereira Malveiro às 11:29

11
Fev 21

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CONSIDERAÇÕES SOBRE A DIVINDADE CULTUADA 

 

Uma das questões em aberto sobre o Deposito Votivo de Garvão é a identidade da Divindade a que se prestou culto. As placas oculadas recolhidas no depósito, retangulares, trapezoidais ou bicirculares, mostram olhos, quer circulares quer amigdaloides, com os cílios indicados, ou transformados num padrão radial que ocupa toda a placa. São, alegadamente, uma representação dessa divindade. Uma das figuras antropomórficas (infelizmente perdida) era constituída por uma cabeça sobre uma palmeta que desenhava simultaneamente os seios, os membros eram sumariamente indicados. A outra figura mostra uma cabeça toucada (ou apenas com um penteado alto) e um objeto (semilunar?) suspenso sobre o peito (Beirão et al. 1986, nºs 78-79).

Para estas figurações foi apontada, sobre a base de paralelos iconográficos, a assimilação de uma divindade indígena com uma entidade sincrética Tanit / Ashtart / Demeter, o que não seria um fenómeno inédito na Península (Beirão et al. 1986, 217).

Não existe, no entanto, qualquer razão para apontar uma associação a Ataecina (Gomes e Tavares da Silva 1995, 38) senão a geográfica, que é insuficiente. Mas o panteão cultuado foi, muito provavelmente, muito mais complexo do que a investigação de um depósito secundário poderá algum dia indiciar.

In: “Algumas considerações sobre os centros de poder na Proto-história do Sul de Portugal”. Virgílio Hipólito Correia, Revista de Guimarães, Volume Especial, II, Guimarães, 1999, pp. 699-714

 

ESTRUTURAS CULTUAIS

 

A existência de estruturas cultuais em núcleos urbanos pré-romanos está bem documentada no Sudoeste Peninsular, entre outros pontos em Capote (Badajoz, Espanha), onde se localizou um depósito votivo primário: um conjunto de peças selado enquanto decorria a sua utilização ritual (Berrocal 1992, 1994). A estrutura a que o depósito se associava era uma pequena câmara, integrada na estrutura urbana do povoado, largamente aberta para a rua.

Um banco onde se empilhavam contentores cerâmicos de uma tipologia particular rodeava as paredes, no centro um altar construído em alvenaria a seco serviu como mesa para uma refeição ritual. Nesta, terá participado, no sentido estrito, um número de pessoas próxima das duas dezenas, logo sendo os animais sacrificados distribuídos pela restante população do povoado.

Neste caso parece não ter existido uma noção clara de culto a uma divindade específica, mas sim um ritual público, gentilício ou supra-gentilício, parecendo difícil que uma estrutura como a de Capote pudesse gerar a acumulação de ex-votos capaz de vir a produzir um depósito secundário com a dimensão do de Garvão (Berrocal 1994, 263-275).

Por outro lado, o povoado a que os romanos conheceriam sob o nome de Mirobriga Celticorum inclui, na sua área mais elevada, um templo cujo estatuto sacro foi suficientemente marcante para que sobrevivesse, com remodelações, até à construção romana do fórum e com ele coexistisse por um período indeterminado (Correia 1995, 244-246).

A prestação de culto a uma divindade num templo como este, poderia, ao fim de um certo período de tempo e dependendo do volume e tipo de oferendas que o costume e a esfera geográfica de difusão do culto acarretassem, levar à necessidade de criação de depósitos secundários.

Depósitos secundários de peças votivas, terão existido com mais frequência em antigos santuários, em qualquer época, do que a arqueologia tem oportunidade de conhecer e estudar.

No seio das sociedades complexas da Idade do Ferro Peninsular, as divindades terão desempenhado um papel muito importante na consolidação das estruturas supra-gentilícias que agregavam a sociedade. O fenómeno de concentração económica, apenas vagamente indiciado pela concentração de objectos cerâmicos,

In: “Algumas considerações sobre os centros de poder na Proto-história do Sul de Portugal”. Virgílio Hipólito Correia, Revista de Guimarães, Volume Especial, II, Guimarães, 1999, pp. 699-714

publicado por José Pereira Malveiro às 14:52

08
Fev 21

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Jornal de Garvão, nº 27 - JG27.pdf

 

publicado por José Pereira Malveiro às 16:15

19
Jan 21

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Faleceu em Garvão em 15 de Setembro de 1922.

          Estela funerária encontrada no Cemitério Velho e carregada para o Cemitério Novo, inaugurado em 1937, (data do primeiro enterramento), de um negociante de Minde, (Concelho de Alcanena, distrito de Santarém), falecido nesta terra em 15 de Setembro de 1922.

FALESEU – AQUI

MANOEL – ESTE

VÃES – MENGAS

DE MINDE

NEGOSIANTE

DE 66 ANOS

DE IDADE

NASCIDU EM

13 DE – 4 D.1856

E FALESIDO EM

15 DO 9 1922

          Mais do que um mercador que corre as feiras e os mercados de uma certa região a vender os seus produtos, e certamente diferente dos comerciantes estabelecidos por conta própria, geralmente com loja ou venda nas vilas e aldeias. A figura do negociante mostra-se não só diferente destes, mas igualmente da tradicional configuração social da Idade Média, guerreiros, lavradores e religiosos.

          A atividade do comércio expansivo exigia um tipo social diverso desta tríade, característica do sistema feudal, presa aos vínculos familiares, de estirpe e linhagem da nobreza.

          Se ao mercador o objetivo seria vender os produtos que transportava para os comercializar nos vários lugares por onde assentava arraial, já o negociante procurava comprar ou vender, geralmente em grandes quantidades, os produtos produzidos numa certa região para vender noutra.

          Sobre este negociante de Minde e o tipo de produtos que procuraria negociar, chega-nos registos de que trabalhavam nesta povoação nos princípios do século XX, várias empresas de fiação e lanifícios, entendendo-se que estaria igualmente ligado a esta atividade e procuraria na região de Garvão, ou os produtos, essencialmente gado lanígero, necessários a serem trabalhados pelas empresas da sua região, ou já os produtos fabricados como mantas, panos, buréis e estamenhas de lã.

          A flora na região de Minde propicia o pastoreio de animais de pequeno porte e pouco exigente como a ovelha. Para além do cuidado com os animais e venda das crias, também as mantas e outros produtos provenientes dos animais que tosquiavam, lavavam, cardavam, fiavam e teciam, começaram a ser vendidas noutras parte, principalmente no Sul do país.

           Dos produtos fabricados em Minde há a realçar a:

          – “manta preta” – usa a lã nas suas cores naturais (castanha e branca). O pastor protegia-se com ela do frio e da chuva;

          – “manta parda” – surge com cores vivas, em barras, nas pontas. Apesar da escassez e das limitações na utilização da água, nos anos 30 do séc. XX surgiu em Minde a 1ª tinturaria e com ela, estas novas possibilidades;

          – “manta sombreada” – é toda com riscas de 6 tonalidades diferentes e progressivas de verde, castanho e laranja;

          – “manta janota” – uns anos depois, aparece a janota, de cores fortes nas suas composições muito trabalhadas.

          O apogeu no número de teares e na produção atingiu-se nos anos 50 do século XX, mas, nos anos setenta, os teares foram desaparecendo: uns foram abandonados, outros estragaram-se, outros foram desmanchados, muitos serviram de lenha, poucos se salvaram. Destes, aproveitaram-se algumas peças e outros apetrechos complementares para a montagem do actual centro de tecelagem. Aqui alia-se a tradição e a memória com a contemporaneidade*. Na manufatura das verdadeiras Mantas de Minde respeitam-se os produtos e as técnicas herdados: 100% lã e 100% portuguesa, as receitas de tinturaria, os padrões originais e todo o processo da produção.

 

*Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro

publicado por José Pereira Malveiro às 21:12

23
Nov 20

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Cartaz da Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita. Cartaxo

 

Um exemplo a seguir

            Várias Câmaras Municipais, de Norte a Sul do país, reconhecem a importância de que se reveste a atividade editorial, entendida como veículo de divulgação e promoção de autores emergentes e de edições de autor, que contribuam para a vivificação cultural no concelho e para a diversificação da sua oferta literária.

            Incentivam assim um regime de apoio à atividade editorial através do qual procuram encorajar a criação literária e artística e/ou educativa e viabilizar o aparecimento e afirmação de novos autores, transversalmente a várias faixas etárias, experiências de vida e áreas diversificadas, como seja a área educativa, cultural, desportiva, social, ambiente e multidisciplinar inclusivamente a área patrimonial, em particular na área do património imaterial local e regional.

            Pretendem ainda apoiar a área de empreendedorismo cultural de capacidade criativa, a área da deficiência, do multiculturalismo e integração, bem como a área adstrita ao género e igualdade de oportunidades ou questões sociais emergentes da contemporaneidade.

            Nos termos e condições desses apoios, têm prioridade a edição de obras que contribuam para o conhecimento do respectivo concelho, na área da história, antropologia, cultura local, obras literárias em verso ou em prosa, de autores emergentes, de reconhecido valor científico, literário ou cultural, designadamente:

            - A edição de livros ou publicações de autores nascidos ou residentes no concelho;

            - A edição de livros ou publicações por entidades particulares e instituições legalmente constituídas com sede no concelho;

            - A edição de livros ou publicações de autores e entidades ou instituições exteriores ao concelho, mas que tenham manifesto interesse, direto e excecional para o concelho.

            - Poderão ser apoiadas obras mistas que prevejam a integração fotográfica, fonográfica e/ou videográfica, em CD/DVD.

            - Os apoios previstos são também aplicáveis a teses de mestrado ou doutoramento.

            -  Os apoios a projetos de edição consistirão na garantia, com base numa deliberação de câmara, de aquisição, ao preço de capa, de um número de exemplares, ou de um apoio monetário direto, num máximo anual a definir no orçamento municipal, considerando a totalidade das edições a apoiar.

            Observamos assim uma série de regulamentos municipais, de vários municípios de Norte a Sul do país, onde se procura incrementar, não só as produções literárias dos seus habitantes, mas inclusivamente contribuir para a divulgação cultural e promoção do próprio concelho.

publicado por José Pereira Malveiro às 21:04

21
Nov 20

Armário 2.jpg

                   

                   Pela reordenação dos concelhos no século XIX que levou à extinção de uma boa parte dos concelhos portugueses, incluindo o de Garvão, várias foram as formas encontradas pelas populações locais, prejudicadas com tal reordenamento, de mostrarem o seu descontentamento, desde as formas mais violentas de revolta armada, (nomeadamente a “Janeirinha”, revolta popular ocorrida em Janeiro de 1868, na cidade do Porto, contra o novo imposto sobre o consumo e a extinção de mais de cem municípios), às manifestações mais pacíficas, como a que se observou em Garvão.

                   Aquilo a que se assistiu em Garvão, poderá ser, de uma certa maneira idêntico ao que aconteceu na maioria dos concelhos extintos, uma resistência em colaborar com a nova sede do município, raiando a sabotagem e o boicote, como forma de mostrar o seu descontentamento e frustrar as intenções dos novos poderes.

             Assim foram subtraídas aos novos poderes os instrumentos que caracterizavam o município, nomeadamente os objetos amovíveis. Se ficaram para a história os Paços do Concelho com o Sino e a Cadeia e o edifício do Açougue, outros objetos de fácil remoção, foram subtraídos aos novos poderes e transportados para lugar seguro.

                   Destes objetos chegou praticamente aos nossos dias a Arca Concelhio e um Armário.

               Com as obras de restauro na Igreja Matriz, Nossa Senhora da Assumpção, em 1995, vários foram os bens despejados, cuja presença estorvava e reduzia o espaço reservado ao culto, entre eles, um pequeno altar em madeira onde se encontrava várias pautas de música antigas e um armário com portas de correr em vidro que se recolheram para outro lugar.

                   O altar e as pautas musicais perderam-se, infelizmente, com as cheias que assolaram a vila em 1996.

                   O armário teve melhor sorte, resguardado noutro local para restauro, salvou-se de um fim menos trágico, contudo nada fazia prever a antiguidade desta peça de mobília, ou a história a ele associado e muito menos que tal façanha ainda persistisse na memória popular.

                   Segundo um dos últimos Regedores da Freguesia, este armário terá sido uma das Alfayas negadas pela vereação da Câmara de Garvão em extinção e intimadas a entregar, juntamente com os livros de contas ao Concelho de Ourique, onde Garvão e Santa Luzia passariam a integrar como duas freguesias distintas.

                   Para este antigo Regedor, Francisco Zacarias, este teria sido o armário da discórdia, segundo as suas próprias palavras, teria sido levado para a Igreja pelos vereadores da extinta Câmara para o salvarem e por lá se manteve até à realização das mencionadas obras.

                   A Arca Concelhia e o seu conteúdo, são outra história, depois de salva da fogueira, já ateada para queimar tão valioso espólio em 1985, acabou irremediavelmente por ser mandada para o lixo, juntamente com todo o seu conteúdo, pelo executivo da freguesia durante o mandato de 2005 a 2009. Voltaremos a este assunto noutro post, devido à gravidade de que se reveste a ignorância, a incúria, o desmazelo, senão mesmo o roubo e a falta de sensibilidade para o património desta freguesia e salvaguarda destes documentos tao importantes para a história da vila de Garvão.

publicado por José Pereira Malveiro às 10:30

24
Out 20

Caros conterrâneos, visitantes, amigos e interessados.

Quem é que tem uma foto da dança, com melhor qualidade da ilustrada?

Ou, já agora, outras fotos da dança ou sobre a vila e outros acontecimentos.

Agradeço que enviem para: jpmg6767@gmail.com

Desde já, os meus agradecimentos

José Pereira

Foto da Dança Antiga.jpg

 

publicado por José Pereira Malveiro às 12:05

Dança dos Paus.jpg

Representação da Dança das Espadas

 

Em 2003 escreveu-se no livro Garvão - Herança Histórica, no seguimento da ida da Dança de Garvão ao lar de Ourique em 1995 e segundo informação do nosso conterrâneo Francisco Charrua, só os idosos com mais de 85 anos em 1995 se lembravam da Dança das Espadas e da Dança dos Guizos ser dançada na vila de Garvão.

 

Agora em 2020, dezassete anos depois de passado à escrita essa informação, infelizmente os autores dos testemunhos recolhidos em 1995 já não se encontram entre nós, contudo surge-nos agora um novo testemunho deste tipo de danças que se faziam nesta zona, mais concretamente em Castro Verde.

 

Trata-se do Sr. Manuel Pancadas Gonçalves, com sessenta e nove anos, nasceu em 1951, relatou que por volta dos anos sessenta do século XX, o seu tio António foi um dos últimos organizadores destas danças, onde ele e os irmãos, Francisco Gonçalves, conhecido como o chinês e o Posidónio Gonçalves também faziam parte da dança.

 

Para além da Dança das Espadas, dançavam também a Dança dos Arquinhos e a do Mastro das Fitas, estas danças incluindo a das Espadas eram cantadas. Corriam as terras e aldeias em redor, Ourique, Almodôvar entre outras pelo carnaval e recebiam o que as pessoas lhes queriam oferecer, dinheiro, comedias e outros bens.

 

A Dança das Espadas era feita com uns paus a imitar espadas e a baterem uns nos outros, começavam em roda e depois faziam duas filas e cruzavam uns com os outros, rodopiavam e dançavam em volta, sempre batendo nos paus/espadas uns nos outros. Havia homens e outros homens trajados de mulher na Dança dos Arquinhos e do Pau das Fitas, contudo na Dança das Espadas e dos Guizos os elementos masculinos trajados de mulher não entravam, eram executadas só por dançarinos trajados de homens.

 

A Dança dos Guizos, como se relatou no mencionado livro, era executada com as coleiras dos animais cobertas de guizos, cascavéis, campainhas ou pequenos chocalhos, previamente recolhidos nas arramadas onde se guardava os animais, e enroladas em torno do corpo e das pernas, cujo som, sintonizado entre os dançarinos, dava o tom musical à respetiva dança.

 

A Dança dos Arquinhos era única cantada, as outras, das Voltas e do Pau das Fitas, eram executadas ao som da flauta nos finais dos anos de 1950 e princípios de 1960 e em anos mais recuados e incluindo a Dança das Espadas e dos Guizos, ao som da rebeca, tambor e outros instrumentos tradicionais, incluindo a viola tradicional alentejana de arame, hoje conhecida por viola campaniça.

publicado por José Pereira Malveiro às 11:48

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