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Out 16

"Alentejo prometido"

Alentejo prometido (1).jpg

de: Henrique Raposo
          O autor de "Alentejo Prometido" gerou uma forte polémica, com epicentro nas redes sociais, ao dar uma imagem do Alentejo que muitos consideram ser desadequada.

          Diz quem o ataca no Facebook e nas caixas de comentários de blogues, jornais e revistas que Alentejo Prometido, de Henrique Raposo, faz um retrato completamente desajustado do Alentejo e de quem lá vive, um retrato que nada tem a ver com a realidade e que peca pela generalização, partindo daquilo que é, segundo o autor, a história da sua família.
          Porque têm os alentejanos medo da verdade?
          Onde está o Alentejo da tolerância?
          Terá sido José Cutileiro autor do livro "Ricos e Pobres no Alentejo" um escritor maldito?

          (…) Além de ter sofrido com a ausência do pai, Joaquim sofreu com o esmero alcoólatra do marido. Manel era alto, bonito, bêbado e imprestável. Dos Foros do Sobralinho até São Domingos eram duas horas a pé por três caminhos alternativos: Corgo Fundo, Aldraba, Vale Dioguinho. Fosse qual fosse o caminho, o cenário era sempre o mesmo: a minha avó levava um filho pela mão, outro ao colo e ainda equilibrava um cesto na cabeça; ele ia atrás leve como uma pena. Protótipo do pai biológico, Manel nem sequer tocava na prole. A minha mãe lembra-se do dia em que recebeu o primeiro e último carinho do pai: por mero caso afagou-lhe o rosto enquanto vestia uma saia nova. Manel tinha ainda o hábito de levar lá para casa os camaradas da taberna que comiam a comida reservada para a minha mãe e tios. Este hábito até atingiu um pico cinematográfico: certo dia, acolheu um maltês que havia fugido da prisão. A tardinha, o homem chegou ao monte e entrou de imediato na galhofa com Manel, que deu ordens à mulher, 'mata uma galinha para o jantar. Mordendo a boca de raiva, Joaquina lá fez o jantar com a preciosa galinha enquanto Manel aprendia a atirar com o revólver do bandido, sem nunca se aperceber do medo estampado no rosto dos filhos. O maltês manjou a galinha com o revólver pousado na mesa, dormiu no casão, acordou, comeu outro manjar raro ao pequeno-almoço (ovos e linguiça frita), saiu e foi roubar um rebanho de ovelhas numa herdade vizinha. Era assim a vida com o avô Manei. O meu outro avô, apesar de nunca ter propiciado estes momentos de thriller, também não era santo. Havia dias em que forçava a avó Diamantina a levar-lhe a comida à venda; passava dias fora de casa, de baile em baile, um hábito que se manteve já na velhice. Ia com o meu pai, mãe, tios e tias aos bailes nos Foros da Casa Nova, Bicos ou Fornalhas. A avó ficava em casa comigo e com os meus primos e nem considerava a situação como uma humilhação.
          Ao ouvir estas histórias de irresponsabilidade e violência dos meus avôs e demais homens alentejanos, lembrei-me das his-tórias das ONGs que trabalham hoje em dia em Africa. Melinda Gates, por exemplo, tem uma regra de ouro: o dinheiro da ajuda internacional deve ser dado às mães e não aos pais; dar dinheiro aos homens é o mesmo que dar dinheiro à taberna, à sala de jogo, ao bordel; dar dinheiro às mulheres significa apostar na alimentação, saúde e educação das crianças. O Alentejo dos meus avôs era assim. Não os censuro, mais uma vez. Naquele contexto, eu teria sido o maior pândego. No entanto, se não os censuro, também não posso evitar uma óbvia aritmética sentimental quer no lado materno quer do lado paterno, devo tudo às minhas avós. Posso respeitar os avôs, mas só posso acarinhar as avós. Devemos-lhes tudo. Basta olhar para os factos. Em meados do século XX, a taxa de mortalidade infantil de Portugal era a mais alta da Europa. Em 1960, ainda era de 83 bebés mortos em 1000. Nem a Roménia era pior. O que tem isto de relevante? As minhas duas avós tiveram dezasseis partos e nenhum bebé ficou para trás, todos sobreviveram. Não foi milagre ou sorte. Houve, isso sim, um esmero maternal que tinha o seu quê de revolucionário. No seu clássico antropológico do início do século XX, Através dos Campos, Silva Picão afirmou que, apesar do infanticídio directo já não ser frequente, ainda se praticava infanticídio indirecto no Alentejo. Os casais pobres com quatro ou mais filhos rezavam para que Deus levasse dois ou três; nem sequer se preocupavam em alimentá-los ou acudi-los na doença; os moços andavam semi-nus pelos campos com as próprias mães a apelidá-los de "filhos da curta"; eram criados como crias de uma ninhada e só ganhavam o respeito dos pais quando começavam a trabalhar aos sete anos. Esta educação darwinista, digamos assim, começou a ser contestada pela geração das minhas avós, que faziam trinta por uma linha para, por exemplo, comprarem cabras para que não faltasse leite aos bebés e crianças. A história um dia fará justiça a esta geração de mulheres que criou o conceito de criança entre o fim da roda dos expostos (final século XIX) e o advento da pílula. E o que é mais espantoso é que elas iniciaram esta revolução mental contra a miséria, contra os elementos e, sobretudo, contra a cultura marialva dos maridos. (…)

          (…)Talvez o Alentejo se tome respirável quando a geração do David, qual Ulisses, reconstruir a identidade sulista. Mas por enquanto sinto demasiadas arestas o ar desconfiado das pessoas, a distância gerada pela excessiva formalidade, os tabus sobre o passado, a falta de bairrismo, a ausência de liberdade e privacidade, o individualismo radical, a frieza emocional que nunca fala com as mãos e, acima de tudo, a cultura suicida. Quero as minhas filhas afastadas do sussurro melífluo que, à porta do velório do suicida, diz o seguinte 'foi a escolha dele, temos de respeitar". Não, não temos de respeitar. Até porque o que está em cima da mesa não é só a visão naturalista do suicídio da grande maioria da população. A par desse ângulo amoral, digamos assim, existe uma espécie de vanguarda que romantiza a figura do suicida. Em jantares de família é frequente ouvirmos os mais velhos a glorificar pessoas que se suicidaram; nem a presença de crianças à mesa bloqueia frases como 'atão não se havera de matar' ou "matou-se, foi homem corajoso'. Não quero as minhas filhas no perímetro deste discurso. (…)

          A batalha instalada, com muitos comentários insultuosos e artigos de opinião a defenderem, em nome da liberdade de expressão, o direito do autor a escrever o que escreveu, parece estar para durar. As críticas, que têm subido de tom na Internet e que levaram já a uma petição contra a venda do livro, que conta com mais de 2.200 assinaturas, condicionaram a sua apresentação pública, que viu dia e local alterados. No lançamento, reagendado para dia 8, terça-feira, na Livraria Bertrand do Picoas Plaza, em Lisboa, estarão agentes da PSP. A presença policial, que segundo o Diário de Notícias será discreta, deve-se às ameaças anónimas que Henrique Raposo começou a receber depois de ter falado sobre o livro num programa da SIC Radical – Irritações, conduzido por Pedro Boucherie Mendes –, e de o capítulo dedicado ao suicídio ter sido pré-publicado pelo jornal online Observador.

Ler aqui o livro.

publicado por José Pereira às 14:37

Li o livro há uns 2 meses. São opiniões de um lisboeta acerca da terra dos seus avós. Mas até aprendi umas engraçadas como a do habitante de Garvão que assassina o primeiro-ministro depois de uma mediação falhada entre o estado e uns revoltosos do Vale.

Gostei do Blog.
JG a 21 de Setembro de 2017 às 22:26

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