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Abr 10

DÁ ORIGEM À

CRIAÇÃO DO CENTRO DE ARQUEOLOGIA CAETANO DE MELLO BEIRÃO

(CACMB)


Uma parceria entre a Universidade de Évora, a Câmara Municipal de Ourique e a  Direcção Regional de Cultura do Alentejo, criando assim: “uma estrutura municipal, única a nível regional, cuja primeira acção foi a reivindicação do espólio para a sua região de origem cons-tituindo assim um motivo de interesse para visitantes e factor de desenvolvimento para o Concelho.”

 

 

Ana Dinis Pereira

Entrevista a:

 

José António Paulo Mirão

Professor Auxiliar da Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade de Évora, Doutorado em Geologia, membro do Departamento de Geociências e do Centro de Geofísica de Évora e Director do Laboratório de Microscopia e Microanálise do Centro HERCULES – Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda

 

António José Estêvão Grande Candeias

Professor Auxiliar da Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade de Évora, Doutorado em Química, membro do Departamento de Química e do Centro de Química de Évora, membro colaborador do Centro de Geofísica de Évora e Director do Centro HERCULES – Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda

 

•           O que é o depósito votivo de Garvão?

 

À área de Garvão parece ter tido uma intensa ocupação, pelo menos, desde a idade do Bronze. Durante um determinado período, provavelmente na idade do Ferro, nas proximidades da povoação de Garvão terá existido uma estrutura religiosa. O Culto incluía oferendas, estas acumularam-se até ao momento em que foram depositadas.

 

Em 1982, após a sua descoberta acidental durante a instalação de infra-estruturas sociais, realizaou-se uma campanha de trabalhos arqueológicos, dirigidos por Caetano de Mello Beirão, na altura Director do Serviço Regional de Arqueologia da Zona Sul. Esta escavação deu a conhecer o Depósito Votivo da II Idade do Ferro, na encosta do Cerro do Castelo, em Garvão, que suscitou o interesse e o entusiasmo da comunidade científica face à dimensão e qualidade do espólio que encerrava, constituído por cerâmicas, metais e alguns vidros, intencionalmente depositados e cuidadosamente organizados de modo a optimizar o espaço disponível. Na área foi escavada uma cavidade para armazenar as oferendas não desejadas. É elíptica, com cerca de 10 por 5 metros e uma profundidade de aproximadamente de 0,80 m, concluída na segunda metade do século III a. C.

Com excepção de alguns exemplares seleccionados e restaurados que integraram o acervo do Museu Nacional de Arqueologia, este conjunto de materiais ficou armazenado, desde o final dos anos 80, primeiro em Évora, depois em Conímbriga, a aguardar a oportunidade para ser tratado, estudado e apresentado ao público.

 

Questões para a entrevista:

 

1.         Como é que a Universidade de Évora tomou conhecimento do depósito votivo de Garvão? Porquê o interesse da UÉ em investir neste projecto?

 

A Universidade de Évora colabora há mais de 6 anos com a Direcção Regional da Cultura do Alentejo em diversos projectos que visam o estudo material, a valorização e conservação do Património da região. 

Conscientes do carácter excepcional dos materiais arqueológicos do depósito votivo de Garvão (uma das grandes descobertas da arqueologia portuguesa), a Universidade de Évora colaborou com a Câmara Municipal de Ourique e a  DRCALEN na recente criação do Centro de Arqueologia Caetano de Mello Beirão (CACMB), uma estrutura municipal, única a nível regional, cuja primeira acção foi a reivindicação do espólio para a sua região de origem constituindo assim um motivo de interesse para visitantes e factor de desenvolvimento para o Concelho.

Simultaneamente, foi obtido junto da Fundação para a Ciência e Tecnologia os fundos necessários (projecto GODESS) para o estudo material e investigação arqueológica do espólio e da zona envolvente do depósito.

Obviamente, a Universidade de Évora apesar do seu cariz universalista tem sempre todo o interesse em contribuir e desenvolver projectos na região onde se insere. Diríamos mesmo, é um dos seus principais objectivos.

 

2.         Porquê a UÉ e não outra instituição?

 

A resposta a esta pergunta pedia que respondêssemos por outras instituições, situação para a qual não estamos capacitados. Podemos, no entanto sublinhar que a Universidade de Évora é uma Instituição de Ensino Superior de referência na Região e tem-se empenhado firmemente e criado as infra-estruturas necessárias para este tipo de estudos. Neste âmbito, foi recentemente criado o Centro Hercules  – Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda  cujo principal objectivo é o estudo material e salvaguarda de património arqueológico e artístico. Queríamos ainda salientar que, o projecto de investigação GODESS compreende diversos parceiros designadamente o Centro de Arqueologia das Universidades de Coimbra e Porto, o Instituto Politécnico de Tomar e a DRCALEN que contribuem com o seu conhecimento científico e técnico constituindo assim uma equipa multidisciplinar

 

3.         Em que contexto histórico se enquadra o espólio de Garvão?

 

Na Ibéria, a Idade de Ferro é um período de sucessivas transformações sociais e políticas, algumas resultando em conflitos. Estas transfigurações começam com as primeiras invasões (ou migrações) celtas, que impõem uma forte influência continental em toda a ibéria, contra sociedades inspiradas por modelos orientais, como o Reino de Tartessos. O movimento desses povos para Sul é constante ao longo de todo o período. Entretanto, as civilizações semitas exercem forte controlo no sul da Península Ibérica, pela presença de cidades autónomas com fortes ligações comerciais e culturais com o Mediterrâneo. Este quadro geopolítico geral é destruído em 218 a.C. pelos romanos ao desembarcarem na península, no contexto da segunda guerra cartaginesa.

Durante a 2ª Idade do Ferro, o território no sul da Península Ibérica parece ser controlado por cidades centrais com grande número de habitantes que dominam um grande território, com importantes recursos naturais. Estes povoados são também importantes centros manufactores e, por vezes, os centros políticos e religiosos são indistintos. A longa distância, as influências culturais parecem ser controladas pelos níveis sociais mais elevados da população.

Neste contexto geral, em torno de 200 a.C., Garvão está em território Cónio que corresponde ao sudoeste de Portugal i.e. ao Baixo Alentejo e ao barlavento algarvio. Apesar de algumas incertezas, parece que esta região é marcada por forte influência cultural tártissica, mas os habitantes são etnicamente celtas. De facto, o território Cónio parece funcionar como uma zona de integração entre a área Celta (étnica e cultural) que está localizada a norte e a Turdetana localizada a leste.

 

4.         Na sua opinião, qual a importância destas peças para o período histórico em causa? E para a freguesia de Garvão?

 

O estudo das cerâmicas do depósito votivo de Garvão irá permitir conhecer as tecnologias e a proveniência dos materiais. Espera-se que este conhecimento seja um contributo para entender o papel destes centros religiosos nas sociedades do Sul de Portugal, as relações comerciais e culturais que mantinham com os seus vizinhos e a capacidade tecnológica que dispunham.

As conclusões dos estudos que empreendemos irão valorizar as descobertas já efectuadas e irão aumentar o interesse no sítio arqueológico de Garvão, possibilitando  às autoridades locais e regionais o empreendimento de acções que valorizem o sítio para visitantes.

 

5.         De que forma a UÉ vai explorar o depósito?

 

O estudo que pretendemos efectuar não é um estudo tradicional de arqueologia. De facto, as únicas escavações que estão previstas são pequenas sondagens. O trabalho irá compreender a identificação, selecção e seriação arqueológica das peças, o estudo material das peças com técnicas analíticas  de ponta, a aplicação de técnicas piloto de prospecção geofísica e o desenvolvimento de metodologias de conservação e restauro adequadas.

 

6.         Quantas pessoas e com que tipo de especializações vão estar a cargo deste processo?

 

Bem, a equipa de investigação é muito longa. Sublinhamos apenas que é uma equipa multidisciplinar composta por geólogos, químicos, geofísicos, arqueólogos e conservadores-restauradores  e que irá envolver igualmente jovens investigadores que pretendem adquirir os graus académicos de Mestrado e Doutoramento. Tal como mencionámos anteriormente, trata-se de um projecto que para além da Universidade de Évora e dos seus centros e estruturas de Investigação (Centro de Geofísica de Évora, Centro de Química de Évora e Centro HERCULES), participam também a Universidade de Coimbra, a Direcção Regional de Cultura do Alentejo e o Politécnico de Tomar.

 

7.         A nível cientifico, que técnicas vão ser utilizadas?

 

Iremos fazer algumas sondagens arqueológicas em zonas identificadas pelos estudos de prospecção geofísica com geo-radar que irão ser desenvolvidos, mas a maioria do trabalho irá ser realizado usando técnicas de microanálise e análise estrutural como microscopia óptica, microscopia electrónica de varrimento, microscopia Raman e difracção de raios X e técnicas analíticas de alta resolução como cromatografia líquida com espectrometria de massa, cromatografia gasosa com espectrometria de massa e PIXE.

 

8.         Estão a trabalhar sobre algumas peças específicas ou sobre o depósito em geral?

 

Em princípio os estudos irão incidir apenas nas peças recolhidas pela escavação liderada pelo Dr. Caetano Beirão, nos anos 80. No entanto, com o decorrer do trabalho poderá haver necessidade em estudar peças recolhidas recentemente, designadamente para efeitos de datação por termoluminescência.

 

9.         Existem mais projectos da UÉ em parceria com a Câmara Municipal de Ourique para apoiar o espólio de Garvão?

 

A recente criação do Centro de Arqueologia Caetano de Mello Beirão (CACMB) e o regresso dos materiais arqueológicos do Depósito Votivo de Garvão nele integrados corresponderam, pois, ao culminar de um processo de reivindicação liderado pelo Município de Ourique. O primeiro objectivo estabelecido para o CACMB é o estudo e a valorização do património arqueológico, com prioridade, naturalmente, para o espólio do Depósito Votivo de Garvão. Complementarmente, no entanto, esta estrutura municipal, única a nível regional e que conta com a direcção técnica da Drª. Deolinda Tavares da Direcção Regional da Cultura irá desenvolver  um programa de actividades que pode sinteticamente definir-se como a promoção dos saberes e tecnologias tradicionais, abordados segundo actuais metodologias de pesquisa e numa estratégia de aproximação dos públicos à cultura e ao conhecimento científico. Para a consecução dos seus objectivos, o CACMB tem promovido diversos projectos de divulgação e formação de onde se destaca o projecto CSI Ourique – Cultura, Sustentabilidade e Inovação em Ourique, um programa de divulgação e de formação que contempla a criação de núcleos expositivos (em Gravão e Ourique) e acções de formação e divulgação, numa perspectiva de interacção com as escolas e com o tecido social em que se insere, e que foi recentemente candidatado ao QREN-POA.

 

10.       Na sua opinião, e enquanto “explorador” das peças do depósito, acha que estas deviam voltar a Garvão, expostas num local apropriado? Quais seriam as vantagens?

 

Pensamos que mais importante do que as peças voltarem para Garvão seria a dinamização do espaço e da sua envolvente do Cerro do Castelo, designadamente com a criação de uma estrutura de acolhimento a visitantes junto ao local da escavação com um centro interpretativo recorrendo a elementos expositivos e tecnologias de multimédia. 

Por outro lado, esperamos que os estudos que se irão desenvolver no âmbito do projecto GODESS, possam revelar novas estruturas construtivas contribuindo para um melhor conhecimento do sítio e constituindo um novo factor de interesse e desenvolvimento em Garvão.

publicado por José Pereira às 19:40

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