22
Jan 12

    

                Não deixa de ser ainda hoje uma imponente figura que se recorta no horizonte e desperta curiosidades e interesses. O Moinho do Sr Chico Félix, como presentemente ainda o denominamos, há já muito que os ventos da erosão deformam as suas paredes e a taipa cobre o chão do que outrora foi o adro de velas, das varas e cabrestos presos com nó de barqueiro ou nó de porco.    

                Também, já não se ouve os brados do moleiro, ou a vela direita desfraldada a anunciar a falta de vento, ou desfraldada à esquerda a anunciar a recolha da farinha, não terá havido, com certeza, as velas em cruz a anunciar a morte do último Moleiro.

                Entre a Torre e o Capelo, o Mastro, Entrosca e Carreto: Mós e Tegão; o canto dos búzios; as cordas de armar; as velas latinas, garganta, valuma e esteira, (e o nó de barqueiro), a lembrar terra de marinheiros, terá o último Moleiro carregado os últimos grãos de almocreves e seareiros, raçoeiros e quintaneiros, entre maquias e comedias, entre carroças e carros, carretas e cangalhas de um só dorso, terá esbranquiçado os últimos cabelos, senão da idade certamente de farelos e farinha.

                Muitos outros moinhos haveria em Garvão entre Moinhos de Vento, de Água ou Atafonas movidas a sangue, (bestas, cavalos, éguas e burros), de que um dia se fará história, destaca-se o moinho do Morgado ou do Madeira e o moinho de Lazaro Soares, conforme consta no “Livro “da Misericórdia e do Sagrado Espírito Santo”, nos anos de 1769 e 1829 respectivamente.

 

Farrejal ao Pégo do Limaõ afl _  67

Foro de hum farrejal sito nos coutos desta villa ao pego do Limaõ (...) o qual se achava murado de Taipa e posto de vinha aforado a Miguel Lopes, filho do primeiro empossado Manoel Lopes, desta villa por dois alqueires de trigo, (...) no anno de mil sete centos vos digo sete centos sesenta e nove annos semdo aos sinco dias do mez de Julho (...) o qual parte com outro farrejal da Coroa que he da capela do Anal e com outro farrejal de Dom Miguel Maldonado e com a estrada que vem para a villa do muinho do Morgado que chamaõ do Madeira.

 

Escriptura de Renovaçaõ de juro fatuezim e reconhecimtº de direito Senhorio Luiz Dias Bravo, e sua mer da Horta de Val de Guilherme afl _ 131

Traslado d'Escriptura de Renovaçaõ de fôro fatuezim, e Reconhecimento de Direito Senhorio, que fazem Luiz Dias Bravo, e sua mulher (...) no anno de mil outo centos vinte nove, aos vinte quatro de Fevereiro (...) Luiz Dias Bravo morador na Villa d'Ourique por si, e como Procurador, que mostrou ser de sua mulher Dona Maria Francisca Aurellia Contreiras, elles se achaõ Senhores, e Possuidores da Posse, e Dominio Útil da Horta de Vale Guilherme, ou do Claro, (...) sita no Couto desta Villa, que houveraõ por titulo d'herança de seus Antepassados, parte o dito farrejal pela estrada ao pé do moinho de lazaro Soares da parte do Poente, tomando pela parte do Norte pela estrada que vai para a Crata virando para o Nascente parte com terras do Conselho até á altura digo para a Crata, virando para o Nascente parte com terras do Conselho té á altura, e virando aguas vertentes abaixo parte com terras de Dom Miguel Maldonado a dar á estrada aonde principia a primeira confrontaçaõ.

publicado por José Pereira às 17:05

20
Jan 12

    

 

             José Augusto Baião, de sua graça, nasceu em 1934. Portanto 77 anos de idade como pedreiro, podador de sobreiros e agora reformado “vai já para 16 ou 17 anos”, como gosta de salientar dedica-se à arte de trabalhar madeira.

 

             A viver na Sardoa, “mesmo diante da Praça de toiros e da feira” como continua a realçar, começou na brincadeira a fazer uma coisa para um e outra coisa para outro, “e começaram a achar muita graça” e hoje vem um gosta de uma coisa amanhã vem outro e gosta doutra e atrás das colheres de pau, umas grandes, outras pequenas vieram os bonecos, carroças e animais, “e olhe hoje é o que se vê”.

             De faquinha, sempre amolada, numa mão, um pedaço de choupo ou chorão noutra, “sabe são madeiras macias, o azinho é mais trabalhoso e racha”, seja na taberna da Man’ela, no mocho de pau ao sol, ou à espera da S’nhorª Doutorª” em menos de nada, com aparas para a esquerda e raspas para a direita sai uma minúscula cadeira, tão minúscula que até a faquinha parece que se ajeita para realçar os contornos das pernas, só lhe falta o assento de bunho.

            Entre colheres de pau, bonecos e bonecas, carros e carroças, animais e outros não tanto animais de vários tamanhos e feitios, ao sol ou à sombra, sentado no mocho de pau ou no madeiro, José Augusto Baião, na Sardoa, continuará a trabalhar o choupo a que a faquinha, amolada, vai dando corpo.

publicado por José Pereira às 21:52

Plano e Estratégia de Implementação

 

O processo de desenvolvimento local, é um esforço contínuo e organizado por parte da população, no sentido de não só reconhecer os vários problemas que os afectam e de identificar e aspirações viáveis, mas igualmente de criar e formular as respectivas estratégias para os abordar, implementá-los e avaliar os resultados, numa lógica de participação, onde a mudança e a renovação são o âmago e o êxito dessa comunidade.

                Exigem esforço constante para encontrar novas formas de atender às necessidades dos cidadãos. O processo de desenvolvimento local é um diálogo constante entre os residentes de um local — as autoridades, as organizações cívicas, os grupos comunitários, os dirigentes empresariais e outras pessoas — visando procurar sistematicamente uma melhor qualidade de vida para todos.

                A estratégia de implementação de um Plano de Desenvolvimento Local, resulta de uma intervenção e convergência de experiências e expectativas que um conjunto diversificado de parceiros envolvidos, transporta para o seio do debate e análise deste assunto.

                A informação e o conjunto de ideias e propostas no Plano de Desenvolvimento Local, não são produção exclusiva nem de uma entidade, nem de um indivíduo, antes sim de uma multiplicidade de contributos construídos e transmitidos ao longo de um percurso.

                - O abandono da população jovem.

                - O envelhecimento progressivo da população.

                - A baixa qualificação dos recursos humanos.

                - A fragilidade do tecido produtivo agro-florestal.

                - A reduzida capacidade de iniciativa empresarial.

                - Os problemas de natureza ambiental.

                - A desidentificação das pessoas com o território.

                - A importância de alguns recursos locais bastante subaproveitados.

                São alguns dos aspectos que constituem a base de ponderação e a partir da qual se deve construír o Plano de Desenvolvimento Local.

               

            A fixação da população jovem

                A fixação da população jovem, surge como um objectivo final, pela importância de que se reveste para o futuro do território e, deve ser assumido pelo conjunto dos parceiros envolvidos.

                - O decréscimo da população no território, a baixa taxa de natalidade.

                - O envelhecimento da população.

                - A migração da população jovem em idade activa.

                -A baixa qualificação dos recursos humanos.

                - A reduzida capacidade de investimento.

                Constituem, de facto, aspectos que preocupam bastante quem, localmente, se preocupa e realiza um esforço no sentido de alertar a população para este trauma e evitar o êxodo rural.

                 A articulação deste objectivo com o da dinamização da economia local constituem um pilar estruturante do Plano de Desenvolvimento Local.

               

                O reforço da identidade local

                Todo o conjunto de aspectos que caracterizavam o meio rural no nosso território tem sido consecutivamente colocado em causa:

                - A alteração dos ritmos de trabalho.

                - A alteração da paisagem.

                - A redução drástica das actividade agrícolas.

                - A deslocação da população em idade activa para outros sectores de actividade.

                -As inúmeras construções tanto de habitações como de outras infra-estruturas.

                - O abandono de algumas aldeias.

                - A pressão demográfica nos grandes centros urbanos.

                - O abandono de práticas ancestrais de produção dos produtos e bens essenciais (pão, enchidos, panos de linho e estopa, lavra da terra, moagem, etc.).

                - A introdução de rotinas e de hábitos de consumo urbanos, criaram uma cisão nos factores de identificação da população (sobretudo da mais jovem) com o território.

                No entanto esta é uma realidade demasiado presente e importante para se ignorar! Resumidamente, por este conjunto de razões considerámos fundamental trabalhar a questão da identidade do território pelo impacto que esta questão poderá ter na fixação da população jovem, pelo impacto positivo que poderá ter no reforço da atractividade do território e pelo efeito que poderá ter na qualidade de vida destas populações;

 

                A valorização dos recursos locais

                 Surge como uma questão também crucial para a prossecução do objectivo geral do Plano de Desenvolvimento Local. O território e as suas gentes olham pouco crentes para o valor que alguns dos seus recursos poderão representar para a melhoria da sua qualidade de vida. No entanto, a valorização dos recursos locais poderão representar oportunidades de investimento, de criação de emprego, de uma ocupação dos tempos livres com qualidade e significar em última análise um território competitivo. Os produtos agrícolas,  florestais, minerais e outros como a gastronomia, o mobiliário e o restauro, a paisagem, o património natural e histórico-cultural, as albufeiras, os  recursos hídricos, as águas termais, são alguns dos recursos nos quais se considera fundamental uma intervenção local.

               

                A dinamização da economia local

                Constitui-se como um aspecto crucial no sentido de promover, também economicamente o território, atribuindo-lhe a auto-sustentabilidade que lhe garanta alguma autonomia face ao exterior. A dinamização da economia local surge intimamente associada à fixação da população jovem e à formação e qualificação dos recursos humanos locais.

 

Os procedimentos operacionais referentes à implementação deste Plano de Desenvolvimento Local, assumem grande relevância na medida em que a estratégia definida, assenta largamente num objectivo central de animação local do território, significa isto que estamos a falar de actividades que requerem a presença permanente e eficaz de uma equipa cujas principais tarefas serão exactamente as de gestão, implementação e de animação local do conjunto de acções previstas.

 

FONTE:  ADICES – Associação de Desenvolvimento de Iniciativas Culturais, Sociais e Económicas.

publicado por José Pereira às 13:00

18
Jan 12

Mais do que reacção

É preciso acção

 

Garvão é como um muro, (mais do que da vergonha será, sem dúvida, das lamentações), onde na busca efémera de protagonismo choramos a nossa agonia.

As reacções são, na maior parte dos casos, extrapolações instantâneas que nos acodem momentaneamente, como uma oportunidade que se não pode perder.

É a busca das emoções ocasionais, sem planeamento, sem lugar ao contraditório. Não se criam, não se prevêem, nem muito menos se acautelam, pura e simplesmente aproveitam-se.

Sem, de facto, muro visível para tal enfática expressão, tal vocação carpideira procurará encontrar na vontade da população a força catalisadora e mobilizadora da sua oposição.

Resquícios caciqueiros locais, (ou talvez não), em última analise será, de facto, o grande responsável pelo subdesenvolvimento: que é como quem diz, sem união, sem diálogo, sem participação não há progresso.

E em não havendo progresso haverá, obviamente estagnação, retrocesso.

A participação institucional, mais do que uma obrigação facciosa, imposta, a copiar em nome de uma plutocracia citadina, (senão em riqueza pelo menos em influência), em que as discrepâncias entre centros e periferias são cada vês mais díspares, acarretará a longo prazo, (ou não muito longo), consequências nefastas para o desenvolvimento local e a respectiva manutenção de um mínimo populacional que não sejam mais do que um mero reflexo de glórias idas. 

Participação activa! Voluntária! Claro, é o que se vê, vejam-se as festas, vejam-se os festejos carnavalescos ou pascoais, vejam-se as restantes associações e colectividades que proliferam na freguesia, e nunca são demais, porque a participação comunitária, (vilã, não europeia), nunca poderá ser encarada como uma ameaça, mas como uma prova da participação e vitalidade da sua população. 

A participação “legal”, a formação de uma comissão com um objectivo especifico, a promoção de um evento que dignifique a freguesia pelos eleitos institucionais, parece estar arredado dessas mesmas obrigações legais, …? E, obviamente e em última analise será sempre uma subtracção a um entendimento colectivo e ao desempenho local doutros melhores habilitados.

Prepotentemente e “orgulhosamente sós”, próprios de regimes autocráticos de funesta memória, em defesa da não divisão dos louros, também, não surtirá os efeitos populacionais desejados. Mais do que uma luta ímpia, votada ao fracasso, mais do que um agitar de emoções, mais do que necessidade efémera de protagonismo, mais do que tudo isto é, obviamente, a futilidade de tudo isso.

publicado por José Pereira às 00:08

07
Nov 11

 

PROPOSTA DE IMPLANTAÇÃO TOPOGRÁFICA

 

A Proposta de Implantação da Muralha de Garvão resulta de um trabalho científico em âmbito universitário, que tinha em vista a posteriori a sua apresentação no Encontro de Arqueologia do Sudoeste Peninsular deste ano, em Almodôvar, mas por motivos maiores não foi possível realizar.

Deixo aqui às pessoas curiosas da história, um pouco como era Garvão há cerca de 2500 anos atrás.

Pretendemos dar a conhecer com o estudo sobre os cerros de Garvão, com vista ao traçado hipotético da muralha que delimitou o espaço correspondente ao povoado ali existente na Idade do Ferro (área interior estimada em 5/6 hectares), que urge aferir arqueologicamente, tendo em conta o carácter especial daquele local, associado a um dos grandes centros da espiritualidade proto-histórica do Sudoeste peninsular, dado a conhecer por Caetano Mello Beirão e colaboradores em 1985.

Duas colinas de topo aplanado, o Cerro da Vila e o Cerro do Forte, situados na fértil várzea (terrenos de classe A) onde confluem as Ribeiras de Garvão e de S. Martinho, constituem, desde a Idade do Ferro, um local de passagem incontornável das grandes rotas, charneira entre o acesso aos portos atlânticos e as vias de ligação ao mundo mediterrânico, bem como à área celtizante com desenvolvimento para Nordeste. Professor Jubilado da Universidade de Coimbra, Jorge de Alarcão, defende tratar-se de um dos pontos de paragem mediando Alcácer do Sal e Mértola na jornada entre o estuário do Sado e Tartessos, mencionada por Estrabão(?). Esta conjuntura, onde os indícios de assentamento humano mais antigo são atribuíveis à Idade do Bronze Final, foi determinante para o estabelecimento do santuário da II Idade do Ferro e para o desenvolvimento do povoado.

A fortificação em estudo circunda o topo dos cerros, vencendo a depressão que os separa e estende-se, numa segunda linha, junto à zona ribeirinha, a Sudeste. Caracteriza-se pelo desenvolvimento em volume, mas também aproveitando afloramentos rochosos que ocorrem nas encostas abruptas. Actualmente, encontra-se camuflada pelo seu próprio derrube e pela consolidação do solo sobre o mesmo; em alguns segmentos foi destruída pela acção humana, na sequência do desenvolvimento da povoação.

A planta proposta constitui uma primeira hipótese de implantação da muralha, resultante da análise da topografia, interpretação das anomalias no terreno e informação das intervenções arqueológicas realizadas que abrangeram alguns troços, nomeadamente por Teresa Ricou, em 2002, em que se expôs um com cerca de 2.60 metros de espessura, a Sudeste do Cerro da Vila, associado a níveis estratigráficos da Idade do Ferro. Indícios da fortificação materializam-se em anomalias topográficas (interpretação da cartografia de pormenor e fotografia aérea), no reaproveitamento de pedras resultantes da desmontagem da muralha em muros de sustentação e outras construções, que parecem ter transportado para a actual malha urbana condicionantes herdadas, por hipótese, da Idade do Ferro.

Apontam-se, ainda, prováveis acessos e sistemas de entrada no interior do recinto fortificado, nomeadamente na zona baixa entre cerros, levando em consideração o importante peso da tradição oral de Garvão, onde a memória dos caminhos está fortemente preservada, em resultado do carácter de passagem e de romarias.

A abordagem topográfica detectou ainda, no sector da vertente voltada a Norte do Cerro do Forte, fortes marcas de modelação arcaica da encosta, em taludes, constituindo patamares ligados por rampas, onde abunda material atribuível às II e III Idades do Ferro (Romanização), nomeadamente cerâmica estampilhada e formas de Campaniense A (copias mais toscas da cerâmica Grega) . Aquela modelação do relevo, por hipótese associada ao santuário, de acordo com uma estimulante proposta defendida por Amílcar Guerra e colaboradores para o santuário de Endovélico, revela uma preocupação clara com a função religiosa, que deve ter desempenhado um importante papel na configuração da própria fortificação.

 

JOSÉ DANIEL MALVEIRO

CARLOS DUARTE SIMÕES

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa

publicado por José Pereira às 00:28

05
Nov 11

Segundo os resultados preliminares dos Censos de 2011, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, revelam que Garvão perdeu 121 habitantes de 2001 a 2011.

 

Seguindo a tendência geral de todo o Baixo Alentejo, de facto das seis freguesias do concelho de Ourique, todas desceram no número de habitantes, com quebras que oscilam entre os 10,4% para a freguesia de Ourique e os 39% para a freguesia da Conceição.

 

GARVÃO dos 851 habitantes em 2001, tem 730 em 2011, quebra de 14,2% e 121 habitantes.

 

CONCEIÇÃO dos 141 habitantes em 2001, tem 86 em 2011, com quebra de 39% e 55 habitantes.

 

OURIQUE dos 3041 habitantes em 2001, tem 2873 em 2011, com quebra de 5,5% e 168 habitantes.

 

PANOIAS dos 634 habitantes em 2001, tem 496 em 2011, com quebra de 21,8% e 138 habitantes.

 

SANTA LUZIA dos 393 habitantes em 2001, tem 352 em 2011, com quebra de 10,4% e 41 habitantes.

 

SANTANA DA SERRA dos 1139 habitantes em 2001, tem 850 em 2011, com quebra de 25,4% e 289 habitantes.

publicado por José Pereira às 20:48

 

 

 

Uma oportunidade perdida.

 

        O número de Museus Etnográficos, ou chamemos-lhe da ruralidade, do trabalho ou das alfaias agrícolas que têm sido abertos neste últimos anos em todo o país, coloca a pretensão de fazer um museu etnográfico em Garvão fora de tempo, pela originalidade perdida.

        Aquilo que poderia ter sido uma mais valia para a terra à quinze, dez ou mesmo à cinco anos atrás encontra-se actualmente fora de originalidade, precisamente pelo imenso número de museus etnográficos abertos nestes últimos anos, alguns dos quais têm, infelizmente, encerrado, ou por falta de apoios, verbas, visitantes ou pela concorrência de outros museus mais dinâmicos, entre outras causas.

        Continua a haver espaço para este tipo de exposições seja em Garvão ou noutras terras, tem é de se procurar a tal “originalidade” perdida e inovar em termos de exposição e inclusivamente em termos museológicos.

        A ideia de expor uma série de artefactos, alfaias e outros instrumentos de trabalho num edifício para ser apreciado, poderá estar ultrapassada e não corresponder às exigências actuais, mais do que isso é preciso evoluir e levar o museu às pessoas em que o palco extrapola os muros da “Casa-Museu” e transforma a povoação na “Vila-Museu”.

publicado por José Pereira às 20:32

02
Nov 11

 

500 anos do Foral-Novo

 

            Em 1 de Julho de 1512 o rei D. Manuel outorgou o foral-Novo a Garvão pela reforma do Foral-Velho, outorgado em Fevereiro de 1267.

            Pela reforma dos forais-velhos o rei D. Manuel procurava acabar com os particularismos locais e uniformizar estes documentos fundacionais da maioria dos concelhos portugueses, não só em termos de lei geral para o reino como em termos de escrita, pesos e medidas, que se encontravam, 250 anos depois, desactualizados.

            Os Forais-velhos foram outorgados numa altura de reconquista territorial aos Muçulmanos e de consolidação do reino, eram cartas de garantia e deveres outorgadas entre as comunidades e o rei, ou com entidades autorizadas para tal. Contudo mais do que uma “...aliança do rei e dos concelhos contra as classes privilegiadas, o clero e a fidalguia”[1], como defendeu Alexandre Herculano é de facto o reforço do poder régio, ou como afirmou Marcelo Caetano “Os reis viam no povo o aliado ideal para atingir os seus objectivos e o povo sentia no monarca a salvaguarda das suas liberdades”[2], a “liberdade” consagrada nas cartas foralengas é em relação à dependência destas comunidades autónomas face às pretensões dos senhorios e não do rei, de facto a intervenção do rei na defesa dos concelhos contra os nobres faz-se sempre à custa da autonomia concelhia.

            A chamada reforma manuelina dos Forais ou Forais de leitura nova atribuída a D. Manuel I, não deixa de ser um longo processo de reivindicação municipal iniciado durante o reinado dos seus antecessores e praticamente durante toda a segunda dinastia, não só contra os abusos e prepotência dos poderosos, como inclusivamente, de uma interpretação abusiva da carta do Foral.

            Com a redacção a escrito dos forais novos, procurou-se, também, uma actualização e uniformização da linguagem utilizada nas redacções dos diversos forais velhos, e inclusivamente uma unificação dos dinheiros, pesos e medidas até aí desigual e variável entre os vários lugares do reino, para uma melhor facilidade nas trocas comercias, ente as várias regiões, e um efectivo cumprimento das obrigações foraleiras.

            Celebra-se assim no próximo ano, a 1 de Junho, os 500 anos da outorga do Foral-Novo a Garvão.

            Espera-se com a notícia deste acontecimento praticamente a um ano deste data, não só despertar interesses, para a respectiva comemoração, como, também que o livro “O Foral-Novo de Garvão” se encontre publicado.


 


[1] Alexandre Herculano, História de Portugal III, Lisboa, Círculo de Leitores, 1987, p.98

[2] Marcelo Caetano. História do Direito Português (1140-1495), Lisboa, Verbo, 1981

publicado por José Pereira às 18:15

26
Set 10

 

 

A IMPORTÂNCIA DE UM GRAFITO, NA BASE DE UMA CERÂMICA, DESCOBERTO NO DEPÓSITO VOTIVO DE GARVÃO 

 

Entendia-se que a primeira forma de escrita na Península Ibérica, introduzida pelos Fenícios e adaptada às línguas locais (ou nas próprias línguas destes navegadores do Levante Mediterrâneo), estaria em uso entre os séculos VII e V a.p., segundo as inúmeras estelas epigrafas encontradas e o contexto em que estavam inseridas, considerando-se extinta a partir dessa data.

 

Contudo a descoberta destas inscrições na base de uma taça no Depósito Votivo de Garvão do século II a.p., coloca Garvão e Alcácer do Sal, (pelas moedas encontradas), os locais onde mais tardiamente se manifesta a utilização e o conhecimento desta escrita, para muito além do que era vulgarmente entendido. 

 

"Em Garvão identificou-se um grafito (Alarcão e Santos 1996, 272 nº 32), de leitura discutida (Correa 1996a), sobre a base de um vaso do depósito votivo. Independentemente da sua leitura o seu achado é muito importante pela sua cronologia e a sua paleografia significativa pela sua proximidade à da amoedação de Alcácer do Sal (cf. Correia 2004b)." 

 

"O grafito de Garvão documenta a extensão do uso da escrita do Sudoeste, mesmo já fora do seu uso mais tradicional da epigrafia funerária, até meados do séc. II a.C. (Beirão et alii 1985, Correia 1996b); é essa data do fecho do depósito votivo e o grafito foi feito numa das peças de tipologia mais comum nesse depósito, sendo por isso natural pensar que não era uma peça muito antiga quando foi ocultada.

 

 

Esta datação permite afirmar que o grafito de Garvão é genericamente contemporâneo da legenda indígena da amoedação de Alcácer do Sal, sendo portanto necessário abandonar o mais forte argumento quanto à não pertença dessa amoedação ao signário do Sudoeste, que era precisamente a questão das datas conhecidas de utilização de um e de outro (Correia 2004c).

 

 

 

Retirado este Argumento (contra Faria 1991), não há razão para se não valorizarem alguns indícios paleográficos presentes numa e noutra inscrição, que abonariam a favor da pertença de ambos ao mesmo corpus epigráfico, o do Sudoeste."

 


In: A ESCRITA DO SUDOESTE: UMA VISÃO RETROSPECTIVA E PROSPECTIVA, Virgílio Hipólito Correia

 

publicado por José Pereira às 01:31

09
Set 10

  

 

A estela do Arzil, com inscrições da denominada escrita do Sudoeste, de influência Fenícia e de outros povos Semitas do Mediterrâneo Oriental, provém de uma necrópole situada a cerca de 200 m do Monte do mesmo nome, a pouca distância da ribeira de Garvão, relatando-se, possivelmente, com o habitat da Idade do Ferro localizado na proximidade.

 

Situa-se numa pequena elevação de vertentes suaves, onde predominam os terrenos xistosos, aflorando à superfície os denominados “chapéus de ferro” que foram, muito possivelmente, durante a Idade do Ferro, alvo de exploração mineira por povos do Mediterrâneo oriental, cujos vestígios foram detectados.

 

Leitura segundo Rodriguez Ramos (J.21.1):
uarpánté[/]arenaRkénii
uarpóiirsaruneeapárenaRkénii
[Mu] Vartoiir Saruneea mare nargenii

 

As referências à existência de uma mina nas proximidades, e alguns vestígios de exploração mineira no local, têm sido os argumentos usados para conectar o sítio com uma actividade extractiva de minério. Os solos do seu território envolvente incluem-se nas Classes C e D, o que, aliado à proximidade de cursos de água, faz pensar numa área de razoáveis capacidades agrícolas, permitindo uma agricultura de subsistência.

 

Sobre os mecanismos de relacionamento e coesão social, religiosa e económica destes habitats, ver o artigo sobre o Castelo de Garvão, como “Lugar central” e a sua supremacia nestes grupos mais ou menos dispersos.

 

In: ARRUDA, ANA MARGARIDA, A Idade do Ferro pós-orientalizante no Baixo Alentejo, REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia .volume 4.número 2.2001

 

publicado por José Pereira às 22:48

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